Volume 22 - Novembro de 2017
Editores: Giovanni Torello e Walmor J. Piccinini

 

Julho de 2008 - Vol.13 - Nº 7

História da Psiquiatria

CYRO MARTINS (1908-1995)

MD. Walmor J. Piccinini
Psiquiatra.
Professor da Fundação Universitária Mário Martins.
Pesquisador da História da Psiquiatria Brasileira


CYRO MARTINS (1908-1995)

 

No dia 5 de agosto comemora-se o centenário de nascimento desse personagem múltiplo, médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, bom amigo de todos e expressão maior do cidadão dos pampas. Felizmente, graças a iniciativa dos filhos, sua história é perpetuada na internet (http://www.celpcyro.org.br). Ficou fácil para mim organizar essas notas biográficas sobre esse grande brasileiro a partir da síntese biográfica de Carlos Jorge Appel, editor do CelpCyro e apresentando uma conferência de David Epelbaum Zimerman apresentada na I Jornada de Psiquiatria do Hospital Psiquiátrico São Pedro, recentemente realizada. Cyro foi um homem de grande atividade e realizações e nos oferece a oportunidade de abordar alguns aspectos peculiares da sua vida, acrescentando algum detalhe novo na maneira de abordá-la.

      A primeira pergunta que me fiz foi a de como um rapaz interiorano, vindo lá da fronteira do Rio Grande com o Uruguai conseguiu romper a barreira da distância, do isolamento, tornou-se um homem cosmopolita, psicanalista e grande escritor. Quaraí, sua cidade natal, vizinha de Artigas no Uruguai era e continua sendo uma pequena cidade perdida nos pampas gaúchos. Pequena, mas orgulhosa da sua gente e das suas conquistas; (http://www.quarai.rs.gov.br/localizacao.html)

Localização do Município

 

Atrativos Naturais - Cerro do Jarau

Região: Fronteira Oeste
População: 24987
Altitude (metros acima do nível do mar): 112m
Área do Município - em km2: 3.145,50
Clima: subtropical
Distância de Porto Alegre: 590 km
Vias de Acesso: BR/RS 377, BR 290, BR 293, RS 59 e RS 60

Limites Geográficos
Norte - Município de Alegrete
Sul - República Oriental do Uruguai
Leste - Município de Santana do Livramento
Oeste - Município de Uruguaiana

Demografia

A população total de Quaraí nos últimos anos, em número de habitantes, foi a seguinte:

1995: Informação não disponível
1996: 23.244
1997: 23.430
1998: 23.618
1999: 23.809
2000: 24.002

Graças a esses dados, disponíveis no site da Prefeitura de Quarai (www.quarai.gov.br) podemos ter idéia da sua distância dos grandes centros, de Porto Alegre são quase 600 kilômetros. Pois bem, essa pequena cidade contribuiu com grandes nomes da psiquiatria e psicanálise gaúcha. De lá sairam Dyonelio Tubino Machado, Celestino de Moura Prunes, Cyro Martins e da nova geração temos Luiz Ilafont Coronel, atual diretor geral do Hospital Psiquiátrico São Pedro.

Dyonelio Machado (21 de agosto de 1895 – 1985) (http://www.polbr.med.br/ano08/wal0608.php)

 

Celestino Prunes (31 de maio de 1897 – 1971).

 

Um outro grande nome da psiquiatria e psicanálise gaúcha, o Dr. MárioAlvarez Martins nasceu em Santana do Livramento, também cidade da fronteira com o Uruguai e, se formos imitar a ironia de Cyro, faz parte da “Grande Quarai”, pois está situada a cem kms., da cidade natal de Cyro. Os três analistas, Cyro, Celestino e Mário Martins fizeram parte do núcleo inicial da sociedade psicanalítica de Porto Alegre. Usando as palavras de hoje, fizeram parte do “núcleo duro” da entidade que contou ainda com a figura de José Lemmertz. Os outros dois, o mais velho, Dyonélio e o mais novo Luiz Coronel,  estão ligados a história do nosso maior hospital psiquiátrico. Dyonelio foi diretor no período de 1957-59 e Luiz I. Coronel, é o atual diretor.

       Todos tem uma história comum de luta pela sobrevivência, estudar na capital, envolver-se em atividades literárias e a psiquiatria. Cyro e Mário fizeram parte do chamado “Concurso de 1938”, que selecionou numa extensa prova escrita, oral e didática, como se fosse um concurso para cátedra, os primeiros psiquiatras do Estado do Rio Grande do Sul. Eles participaram, também, da fundação da Sociedade de Neurologia e Psiquiatria do RGS, em 1938. (http://www.sprs.org.br/historico.php).

      Na conferência de David e Zimerman são ressaltadas as características pessoais de Cyro Martins. Lembro, numa experiência particular, dos jogos do Grêmio Futebol Porto-alegrense onde sempre o encontrava acompanhado do filho Cláudio. Eu, jovem psiquiatra me assombrava com um psicanalista que se mostrava humano. Era uma época em que os analistas se mantinham muito reservados, distantes do contato mais direto com possíveis candidatos a terapia.  Cedo espaço a Carlos Jorge Appel e a David E zimerman que vão nos escrever mais sobre Cyro Martins

 

SÍNTESE BIOBIBLIOGRÁFICA
( http://www.celpcyro.org.br/v4/capa.htm)

Cyro dos Santos Martins nasceu em Cinco de agosto de 1908, em Quaraí - RS, filho de Apolinário e Felícia dos Santos Martins. Em 1917 freqüenta o Colégio Municipal e recebe aulas do professor Caravaca, personagem em Rodeio e O professor. Em 1920 deixa a Campanha e vem para o internato do então Ginásio Anchieta, em Porto Alegre, vivência imortalizada em Um menino vai para o colégio.

Escreve seus primeiros artigos e contos aos 15 anos. Em 1928, com 19 anos, ingressa na Faculdade de Medicina de Porto Alegre. Retorna a Quaraí, em 1934, já formado, para fazer a "prática da medicina", como dizia, sobretudo nos bairros e vilas da cidade. Nesse mesmo ano estréia com Campo fora (contos), impregnado do imaginário da campanha e da fronteira. Morre seu pai, Bilo Martins.

Em 1935, casa com Suely de Souza e utiliza, em conferência, pela primeira vez, o termo gaúcho a pé, origem e leitmotiv de sua trilogia (Sem rumo, Porteira fechada, Estrada nova). Em 1937, vai estudar Neurologia no Rio de Janeiro, onde publica Sem rumo pela Ariel, primeiro romance da trilogia do gaúcho a pé. Em 1938, já em Porto Alegre, presta concurso para Psiquiatria do Hospital São Pedro e, no ano seguinte, participa da fundação da Sociedade de Neurologia, Psiquiatria e Medicina Legal no Hospital São Pedro e vê publicado seu romance Enquanto as águas correm, pela Globo. Também abre seu primeiro consultório. Mensagem errante surge em 1942, em plena II Guerra Mundial e, em 1944, Porteira fechada, segundo romance da trilogia do gaúcho a pé.

Em 1949, casa com Zaira Meneghello. Dois anos após, vai fazer sua formação psicanalítica em Buenos Aires. Em 1954 aparece o terceiro romance da trilogia do gaúcho a pé, Estrada nova, que a crítica literária do Rio Grande do Sul elegeu como o melhor e mais sólido romance do autor. Retorna, em 1955, de Buenos Aires, já como membro da Associação Psicanalítica Argentina. Traz a Porto Alegre, entre outros, o analista argentino Arnaldo Rascovsky, de quem se tornara amigo, para debates sobre psicoterapia analítica de grupo. Em 1957, é eleito presidente da Sociedade de Neurologia, Psiquiatria e Neurocirurgia, quando inicia sua atividade como professor no Instituto de Psicanálise. Ainda nesse ano sai Paz nos campos, reunindo contos e novelas que depois ele desdobrará em outras publicações.

De 1958 a 1964 tem vários trabalhos científicos traduzidos para o espanhol e o alemão. Nos anos seguintes lança "Do mito à verdade científica". (1964), A criação artística e a psicanálise (1970), Perspectivas do humanismo psicanalítico (1973), Orientação educacional e profilaxia mental (1974), Rumos do humanismo médico contemporâneo (1977), revelando-se um homem de ciência voltado para os problemas sócio-culturais do seu tempo. Volta ao conto em A entrevista (1968) e em Rodeio (estampas e perfis) (1976) recria o mundo da infância e adolescência na campanha. Seus amigos escritores têm a obra analisada em Escritores gaúchos (1976). Em 1978 é homenageado por amigos, médicos, escritores e historiadores pela passagem dos seus 70 anos. As revoluções de 1893 e 1923 servem de pano de fundo para o romance, Sombras na correnteza (1979), em que homenageia seu pai Bilo Martins, transformando-o em personagem como dono de um boliche de beira de estrada. Continua alternando publicações de caráter científico e literário. Em 1979, coordena e é co-autor de Perspectivas da relação médico-paciente.

Em 1980 publica A dama do saladeiro (contos). Já a novela O príncipe da vila (1982) configura um salto ontológico em sua obra, enquanto os ensaios de O mundo em que vivemos (1983) e A mulher na sociedade atual (1984) mostram o ensaísta preocupado com problemas nucleares de nosso tempo, em que sobressaem à situação, a condição e o papel da mulher na sociedade atual. A revolução de 1930 é revisitada com um olhar irônico no romance "Gaúchos no obelisco" (1984). Já no romance Na curva do arco-íris (1985) convivem o analista e o ficcionista: o social, o histórico e a introspecção se fundem de modo admirável. Foi homenageado especial da 32ª Feira do Livro de Porto Alegre em 1986. Ao completar 80 anos, seu esplendor criativo se mostra no romance O professor (1988), em que o poeta simbolista Alceu Wamosy aparece como personagem em plena Revolução de 1923. Ainda em homenagem aos seus 80 anos, um grupo de amigos lança o Prêmio Literário Cyro Martins que, já em 1990, premia Petrona Carrasco, de Valter Sobreiro Júnior.

Em 1990 realiza seu incomum livro de memórias, em parceria com Abrão Slavutzky, Para início de conversa. E, em 1991, seu último trabalho de ficção, a novela Um sorriso para o destino. Ainda publicaria uma série de ensaios psicanalíticos, em Caminhos. (1993) e, quando seria de esperar que falasse de si mesmo, surpreende discorrendo sobre seus amigos poetas, pintores e ficcionistas, em Páginas soltas (1994).

A vida deu-lhe cancha para reformular, com seu editor, toda a sua obra de ficção e ciência, antes de falecer em 15 de dezembro de 1995, em Porto Alegre.

Até seus últimos momentos foi estóico, solidário, generoso e, apesar das circunstâncias, preocupado com os outros, lembrando aquela sua frase inesquecível: "Mas o ideal mesmo é a gente não se sentir jamais em fim de festa e experimentar o gosto de viver no devir do dia-a-dia, infinito recomeçar da criação".

Zaira Meneghello, sua mulher, e os filhos Maria Helena, Cecília e Cláudio, acompanhados por amigos, médicos e escritores, instituíram em novembro de 1997, o Centro de Estudos de Literatura e Psicanálise Cyro Martins, que vai cuidar da vasta obra que Cyro Martins nos legou e promover estudos a partir dela. É como se estivéssemos cumprido a tarefa que ele, entre amável e irônico, costumava vaticinar para sua filha Maria Helena: "Não se preocupe: se ocupe". Carlos Jorge Appel (Editor)

 

UM CYRO MARTINS OU MUITOS?

                                                         David Epelbaum Zimerman

 

Convidado para fazer uma apresentação de Cyro Martins, por ocasião dessa justíssima homenagem que, neste momento, fazemos em comemoração ao seu centenário de nascimento, a primeira imagem que surgiu em minha mente, relativa à pessoa de Cyro, foi a de um arco-íris. Inicialmente estranhei e, logo após uma breve reflexão, dei-me conta de duas razões do por que do surgimento desta imagem. A primeira é porque eu sinto um impacto estético muito especial quando contemplo a beleza pictórica de um arco-íris e, da mesma maneira, algo embevecido, em qualquer circunstância, eu sempre contemplava a beleza interior de Cyro Martins. A segunda razão consiste no fato de que a física explica o fenômeno do surgimento do arco-íris em dias de chuva, com a presença do sol, como sendo resultante da refração da luz branca, quando atravessa uma camada aquosa. Nessa situação acontece que a luz branca se decompõe nas sete cores parciais (vermelho, alaranjado, amarelo, verde, azul, anil e violeta) que, conjugadas (VAAV: de vermelho até verde; e VAAV: em sentido contrário, de violeta até verde), compõem a totalidade da luz branca (o leitor pode experimentar riscar uma folha de papel em branco, com os sete lápis das aludidas cores, uma em cima da outra, e terá como resultante uma única cor branca).

    Com essa metáfora das sete cores elementares (sem levar em conta a dimensão oculta do “infravermelho” e do “ultravioleta”) eu pretendo significar que também a luz do brilho solar que resplandecia do doce olhar de Cyro Martins, do seu permanente ”meio-sorriso” e das feições dele, desdobrava-se num policromatismo, de modo que cada uma das diferentes cores que emanavam da sua pessoa, dele, constituía um Cyro com peculiaridades próprias e, sempre, totalmente autênticas. Completando essa metáfora, eu entendo que são diversos os “Cyro Martins”: o homem, o amigo, o médico, o psiquiatra, o psicanalista, o escritor, o grupoterapeuta, o interlocutor (que sabia escutar). O prosador (sempre bem humorado, espirituoso, contador de casos que prendiam nossa atenção e interesse), o pensador, o bom pai, esposo e amigo. Todos esses múltiplos aspectos conviviam harmonicamente, em um único ser humano: Cyro, o humanista.

    Desse modo, para ser mais justo com o querido Cyro, nessa singela homenagem, optei por criar alguns cenários que visam realçar, separadamente (não obstante elas serem inseparáveis) cada uma de suas brilhantes cores.

 

Cenário I: Cyro Martins – o Homem

 

    Os que tiveram a oportunidade de ler referências biográficas acerca das vicissitudes da vida e obra de Cyro Martins (uma excelente fonte para tanto, é a do livro “Cyro Martins 90 anos”, editado em 1999 pelo Instituto Estadual do Livro, que foi organizado por sua amorosa filha Maria Helena, com a contribuição de um grande número de colaboradores, amigos de Cyro) hão de se deleitar com a grandeza de nosso homenageado.

 

 

    Não conheço nenhum desafeto de Cyro, pelo contrário, tenho a convicção de que, sem exceção, ele foi e continua sendo amado, louvado e reverenciado por todos que tiveram a fortuna de lhe conhecer e conviver com ele. Uma característica marcante do homem Cyro é a de que ele sempre tinha uma palavra de amabilidade, um elogio à beleza, às vestes, ao penteado, ou a qualquer forma outro predicado de alguma mulher (sem a mínima intenção de qualquer forma de sedução ou interesse pessoal), ou uma constante saudação com louvores a algum sucesso que alguém de nós tivesse conquistado, ou também, demonstrando uma privilegiada memória, ao perguntar sobre algum fato já bastante passado, mas ainda significativo para qualquer um de nós, e assim por diante.

 

Cenário II: Cyro, o amigo.

 

    O meu primeiro encontro pessoal com Cyro deu-se no Instituto da sociedade Psicanalítica de Porto Alegre em que ele era um dos psicanalistas didatas que ministravam Seminários para nós, os candidatos. O maior legado que herdei de nossos seminários foi o seu modo respeitoso, carinhoso, com um autêntico interesse pela teoria, técnica e, principalmente, pelos pacientes que discutíamos. Destaco esse aspecto porque, embora eu não tivesse sido paciente do Cyro e tampouco seu supervisionado, tenho uma convicção que ele foi importantíssimo na minha formação como psicanalista, porque eu o adotei como um dos meus mais significativos “modelos de identificação”. Nossa amizade começou a se aprofundar quando um interesse comum nos uniu bastante: na época eu presidia a Sociedade de Grupoterapia Psicanalítica de PA. e diante do meu esforço de reerguer essa Sociedade que praticamente estava “falindo”, contei com o apoio total e irrestrito do querido mestre Cyro, nessa árdua tarefa, numa época em que, por razões que, aqui não vem ao caso, a SPPA fechou as portas de sua sede para o movimento da grupoterapia psicanalítica. Aproveitei o fato de que, na época, eu também presidia a Sociedade de Psiquiatria do RGS e, assim conseguimos fazer as reuniões na sede da Amrigs (quando sua sede ainda era na Salgado Filho) e, por mais frio ou tempo chuvoso que fosse, em nenhuma vez Cyro deixou de me prestigiar com sua presença e participação ativa. Também recordo que com alguma freqüência nos encontrávamos nas cadeiras cativas do Estádio Olímpico, eu com meus filhos e Cyro, geralmente com seu filho Cláudio, ocasiões em que sugeríamos “brilhantes” soluções para os problemas do nosso Grêmio, inclusive com a idéia de promovermos reuniões de “Grupos de Reflexão” com a cúpula diretiva.

    Em algumas oportunidades, durante Congressos (recordo o de Buenos Aires, Rio de Janeiro, Gramado, Jerusalém, etc.) nossa amizade foi se solidificando juntamente com os passeios e charlas com as respectivas esposas, Zaira e Guite. Lembro de uma caminhada de nós quatro, “gaúchos a pé”, por toda a extensão da Avenida Nossa Sra de Copacabana, em que a resistência de Cyro superou, de longe, a nós, os três restantes, que já estavam num total bagaço, enquanto ele se mantinha lépido e fagueiro, a nos incentivar para caminharmos “só mais uma quadra”, depois outra mais, e assim ia nos levando. Porém, o ponto forte de nossa amizade se consolidava nos períodos de férias de fevereiro que ambos passávamos na praia de Atlântida e dessa forma nos visitávamos em nossas respectivas residências, em que Zaira se esmerava em jantares inesquecíveis, enquanto, em outras ocasiões, em minha casa, eu é que assava um “churrasquinho” para seu verdadeiro deleite. Após os aperitivos e a comida ao ar livre, saboreando o luar, trocávamos idéias as mais variadas, com uma ênfase maior nas excelentes potencialidades da utilização da dinâmica dos grupos em geral, ainda muito mal e muito pouco empregadas pelas instituições responsáveis pela saúde mental.

    Por ocasião do lançamento de um livro – “Como Trabalhamos com Grupos”-, que escrevi juntamente com Luis Carlos Osório, ambos fizemos questão de convidar Cyro Martins para ser nosso prefaciador e, aproveitando o motivo, já faríamos uma visita porque sabíamos que ele estava doente, mas não tínhamos uma idéia da gravidade. Como sempre, Cyro nos recebeu muito bem, aparentemente satisfeito e, embora emagrecido, tinha uma boa aparência e vitalidade. Disse ter-se sentido honrado com o convite e, na hora, planejou concluir o prefácio num curto espaço de tempo. A doença progrediu de forma galopante e, é óbvio, Cyro não pôde fazer o prefácio, de modo que só nos reencontramos no cemitério, no triste dia de seu enterro.

 

Cenário III, Cyro, o escritor.

 

    Juntamente com a cor (do aludido arco-íris) do psicanalista, também a cor do escritor era a sua mais querida face colorida, e só isso, mais a coleção quase que completa que eu tenho de sua obra, já permitiria que eu me estendesse longamente sobre essa talentosa e brilhante faceta literária de Cyro. “Porém, num esforço, vou renunciar ao desejo de me aprofundar no Cyro - Escritor, visto que no livro antes mencionado –” Cyro Martins 90 anos” - constam muitos brilhantes artigos e depoimentos de notáveis literatos, que perfazem um justo e excelente panegírico da imensa obra –quantitativa e, sobremodo, qualitativa – do inolvidável Cyro".

    No lugar disto, vou relatar um breve episódio que eu testemunhei, vendo e sentindo “nas carnes” como Cyro trabalhava na escrita de um texto, mercê do uso de um estilo literário, genuinamente seu. Estávamos na praia de Atlântida, nas férias de um mês de fevereiro, eu concluindo o meu trabalho para obter o título de “Membro Associado” da SPPA, e Cyro, em sua casa, trabalhando em um dos seus mais belos livros. Concluído o meu trabalho, algo constrangido (eu sabia que ele estava totalmente envolto em seu novo romance) fui a sua casa perguntar se ele poderia achar um tempinho, no “ rabo de suas horas” , para dar uma “ rápida olhadinha” no meu trabalho. Ele sorriu, deixou meu trabalho ao seu lado, disse “sim, claro”, emendou com outros assuntos amenos e quando nos despedimos, ele disse: passa aqui na sexta-feira (dois dias depois). Quando cheguei pontualmente na sexta, ele me recebeu na porta e foi direto no assunto: Já li todo teu trabalho, muito atentamente. Posso fazer algumas sugestões não tanto no conteúdo, mas sim, na forma? Diante da obviedade de minha resposta afirmativa, em pouco mais de 40 minutos recebi de Cyro a melhor e mais importante lição de redação que tive na minha vida. Lembro, como se fosse hoje, Cyro empunhando uma caneta vermelha, numa impressionante agilidade, ia marcando algumas, (muitas) passagens do texto, e me consultando coisas como: se não ficaria melhor se eu não repetisse tantas vezes um mesmo determinado vocábulo; apontou diversos trechos em que me assinalou que muitos dos teus parágrafos são demasiado longos e podem cansar ou desconcentrar o leitor. Queres ver? Vamos tomar este parágrafo: vamos colocar um ponto aqui; agora um outro ponto aqui! Pronto: dissemos a mesma coisa com três frases curtas. Que achas? Eu estava perplexo: o trecho ficou leve, claro e agradável. Parecia que eu estava na frente de um mágico que fazia prestidigitações. Recomendações equivalentes a essas, como a magia da colocação certa das vírgulas, se repetiram inúmeras vezes e, cada vez mais, o trabalho, sem nada alterar na sua essência, foi se transfigurando em sua forma e apresentação. Em outra importante passagem do trabalho (tratava-se de um paciente masculino com esporádicas atuações homossexuais) ao pedir certos esclarecimentos, teci considerações verbais que Cyro considerou muito significativas e me perguntou por que não as inclui no texto escrito. Diante da minha resposta de que eu estava cauteloso de como seriam recebidas as minhas idéias algo audaciosas e preferi ser “politicamente correto”, Cyro me propiciou outra magnífica e inesquecível aula para a minha condição de ser analista e como pessoa: a de ser verdadeiro, autêntico e responder com dignidade a qualquer, hipotético, ataque verbal que me fizessem! Obrigado, meu velho amigo Cyro, em muitos dos meus livros que posteriormente eu escrevi, tu estavas muito presente.

 

Cenário IV. Cyro, o Médico, o Psiquiatra e seu trabalho no Hospital Psiquiátrico São Pedro.

 

Cyro Martins nasceu em 1908 em Quaraí. Aos 19 anos ingressa na Faculdade de Medicina de Porto Alegre. Formado em medicina, retornou a Quaraí em 1934 para praticar a medicina, mas movido pelo seu humanismo pela assistência médica a pessoas carentes e humildes, do que propriamente para fins de progredir economicamente. E, 1937 vai estudar Neurologia no Rio de Janeiro sendo que em 1938 retorna a Porto Alegre, presta concurso (foi brilhante) para psiquiatra do Hospital São Pedro (HSP) e abre seu primeiro consultório. Em 1951, já casado com Zaira, vai fazer a sua formação psicanalítica em Buenos Aires, de onde retorna em 1955, já como Membro da Associação Psicanalítica Argentina (APA).

No HSP, Cyro, nos poucos anos em que lá trabalhou, deixou contribuições importantes e marcantes, mercê de sua criatividade, postura humanística e um carisma que servia de inspiração para muitos jovens médicos ingressassem no mundo da psiquiatria.

Passo a palavra a Sérgio Paulo Annes – grande e prestigiado psicanalista – que (em ”Cyro Martins 90 anos”- pg.125) no trecho por mim pinçado, assim registra a passagem de Cyro pelo HSP: ... O Cyro me convidou para, como observador, secretariar aos grupos de psicoterapia analítica que iniciara no Serviço Aberto do Hospital São Pedro. Eu anotava sessões para que ele, com o material colhido, elaborasse seus trabalhos. Dizia o Cyro que os grupos funcionariam como a última barreira às reinternações ou mesmo internações (o grifo é meu). Prossegue Sérgio Annes: Os grupos eram atendidos na Divisão Pinel do HSP. Nestes grupos o Cyro admitia observadores que, como eu, procurava se aproximar dele para continuar o que eu, então, chamava de “formação psiquiátrica artesanal”.

 

Cenário V. Cyro, o Psicanalista.

 

         Este cenário comportaria um volume inteiro se dedicássemos um aprofundamento de Cyro Martins na importância de seus inúmeros artigos publicados, suas brilhantes apresentações nos mais diversos Congressos, locais, nacionais e internacionais, seus inúmeros livros com um enfoque em que, de forma manifesta ou nas entrelinhas, é possível perceber o teor psicológico do enredo e dos personagens. Só para exemplificar, em 1981, já destacado e ativo participante do movimento de Medicina Psicossomática, Cyro publica Perspectivas da relação médico – paciente, talvez a primeira obra em nosso meio a fazer a importantíssima ligação mente – corpo e, sobretudo, a ênfase na relevância, no ato médico, do vínculo afetivo do médico com seus pacientes e respectivos familiares.

      Aqui, entretanto, pretendo realçar em Cyro, a “Pessoa Real do Psicanalista”,

Aspecto que ganha um crescente reconhecimento na psicanálise contemporânea. Assim, sem jamais perder o seu “lugar, papel e função” de psicanalista, creio que Cyro, com sua bondade, espontaneidade, flexibilidade e tolerância, foi um dos pioneiros a flexibilizar e a desmistificar a tão controvertida questão de se o tradicional método psicanalítico é por demais rígido ou não.

 

Cyro VI.  O Humanista.

 

      A palavra “humanista” não quer dizer “bonzinho”. Assim, não obstante suas características naturais de ser uma pessoa simples, modesta, amável, um moderador e, sobretudo, de uma notória bondade, na situação analítica, quando necessário, Cyro sabia fazer as inevitáveis frustrações que todos os pacientes, de uma forma ou outra, passam no curso de um longo tratamento psicanalítico e, cuja análise das frustrações, acompanhadas de desilusão, decepção, ressentimento, etc., propicia uma alavanca para o crescimento.

      O humanismo de Cyro também se traduziu na sua conduta sempre ética e discreta (jamais o vi jactar-se de que tal ou qual figura importante era seu paciente), porém a característica maior de seu humanismo, ancorada na sua forte crença no amor construtivo (porém sempre atento à agressão destrutiva), refletia numa constante preocupação com as condições de vida d humanidade, no futuro.

      Extraí um trecho (Cyro Martins 90 anos – pg.28) em que, ao discorrer sobre o “humanismo psicanalítico”, o próprio Cyro, assim se posiciona: “O humanismo psicanalítico é um estímulo a que pensemos sem metafísica sobre a condição do homem em face do universo e sobre a verdade das relações humanas. Portanto, é uma tomada de posição contra o falso, o espúrio, o arbitrário, várias vezes disfarçados de pensamento científico”.

      Para concluir, creio que a transcrição da “Poesia”, escrita por Cyro Martins, sintetiza tudo o que tentei passar das suas múltiplas faces.

 

POESIA

 

“Pois fica decretado".

A partir de hoje

Que terapeuta é gente também.

Sofre, chora,

Ama e sente

E, às vezes, precisa falar.

O olhar atento,

O ouvido aberto,

Escutando a tristeza do outro,

Quando, às vezes, a tristeza. -

Maior está dentro do seu peito.

Quanto a mim,

Fico triste, fico alegre.

E sinto raiva também.

Sou de carne e sou de osso

E quero que você saiba isto de mim

 Agora,

Que já sabes que sou gente,

Quer falar de você para mim?

 

 


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