Volume 22 - Novembro de 2017
Editores: Giovanni Torello e Walmor J. Piccinini

 

Fevereiro de 2008 - Vol.13 - Nº 2

História da Psiquiatria

Gustavo Kohler Riedel (1887-1934)

MD. Walmor J. Piccinini
Psiquiatra.
Professor da Fundação Universitária Mário Martins.
Pesquisador da História da Psiquiatria Brasileira

 

 

O interesse pela pessoa de Gustavo Riedel está na minha mente desde que ouvi uma história trágica e misteriosa sobre sua morte. Em nenhuma publicação encontramos detalhes sobre esse acontecimento. Segundo uma idosa senhora que dizia ser sua prima, ele teria sido devorado por índios ou feras. Conta ela que Gustavo costumava excursionar pela selva amazônica fazendo pesquisas. Não sabe ela que tipo de pesquisa. Numa dessas excursões ele desapareceu e daí surgiu uma história de que teria encontrado uma tribo de canibais e sido devorado. Essa lenda familiar parece não ter base na realidade, pois em 1925, Gustavo Riedel solicitou licença da presidência da Liga Brasileira de Higiene Mental, por motivo de doença, e não mais retornou. Em 1930 há registro do seu comparecimento em Washington no Primeiro Congresso Internacional de Hygiene Mental. Isaias Paim, numa pequena biografia, coloca 1933, como data da sua morte. Ernani Lopes escreve que o ano foi 1934, sendo ele mais ligado ao nosso biografado, ficamos com essa data. Não encontramos referências a sua família, a não ser num episódio em que acompanhou a Doutora Curie e sua filha numa visita a Belo Horizonte e na foto estaria acompanhado pela esposa.

Principais realizações de Gustavo Riedel.

Conclui o Curso de Medicina no Rio de Janeiro em 1909.

Alienista-adjunto interino do Hospital Nacional de Alienados.

Docente da Clínica Psiquiátrica da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.

Membro da Academia Nacional de Medicina em 1916.

Com a morte de Braule Pinto em 1918, é nomeado diretor da Colônia do Engenho de Dentro.

Em 1919, cria o Ambulatório Rivadávia Correa com o objetivo de ações preventivas em Psiquiatria e de outras especialidades médicas.

Criou os serviços abertos.

Em 1921 criou a Escola de Enfermagem Alfredo Pinto, formadora de enfermeiros e enfermeiras para todo Serviço Público do Distrito Federal.

(Atualmente a Escola de Enfermagem Alfredo Pinto pertence à UNIRIO - Universidade do Rio de Janeiro (Universidade Federal vinculada ao Ministério da Educação).

Criou o Serviço de Assistência Familiar. Foram construídas 11 casas cujos moradores, enfermeiro (a)s cuidariam, em ambiente doméstico, pacientes em condições de convivência social.

Em 1923, seguindo orientação da Fundação Clifford Beers, desenvolve a criação da Liga Brasileira de Higiene menta. Renunciou a presidência por motivos de doença.

Em 1925 criou o Laboratório de Pesquisas Psicológicas e convidou o Dr. Waclaw Radeki para dirigi-lo.

Em março de 1925 é publicado o número I dos Archivos Brasileiros de Hygiene Mental, Órgão Oficial da Liga Brasileira de Hygiene Mental, presidida por Gustavo Riedel.

 

 

Gustavo Riedel era gaúcho, natural de Porto Alegre. Seu pai, Dr. Henrique Riedel, era dentista e professor da Faculdade de Odontologia de Porto Alegre. Sua mãe se chamava Hermínia Kohler. O pai dela, Sr. Hermínio Kohler, era pessoa de posses e muito facilitou a vida do neto que não teve que enfrentar as agruras de ser estudante pobre. Desde pequeno se mostrava um estudante esforçado e inteligente. Entrou para a Faculdade de Medicina de Porto Alegre e lá fez os quatro primeiros anos. Com o patrocínio do avô, em fevereiro de 1907, resolveu ir para o Rio de Janeiro, onde concluiu seus estudos de Medicina.

São poucas as referências sobre a vida pessoal de Gustavo Riedel. O professor Isaías Paim em seu livro “Psiquiatras Brasileiros” (Editora Oeste, Campo grande, MS.) é um dos poucos historiadores da psiquiatria que faz referências afetuosas sobre o ilustre psiquiatra.

As referências elogiosas à capacidade intelectual de Gustavo Riedel vieram a se comprovar através das suas realizações pela vida afora.

Logo que chegou ao Rio, começou a cursar o 5º ano de medicina e ingressou no Hospital Nacional de alienados como interno extranumerário. Tornou-se interno efetivo mediante concurso onde foi o primeiro colocado. Passou a trabalhar na Seção Pinel, cujo chefe era o Professor Antônio Austregésilo. Em 1909 defendeu a tese “Novas Contribuições à Patogenia da Epilepsia”.

Riedel era inteligente, estudioso o que lhe permitia vencer os diferentes concursos de seleção que participava. Tornou-se alienista-interino-adjunto do Hospital Nacional de Alienados e logo em seguida, Docente da Clínica Psiquiátrica da Faculdade de Medicina.

Seu trabalho “A demência precoce – sua evolução, história e patogenia”, lhe assegurou maior autoridade na especialidade, estando citado no famoso Tratado de Psiquiatria do prof. Emil Kraepelin. (Paim,I.).

Sua carreira foi rápida e fulgurante, aos 29 anos candidata-se a Academia Nacional de Medicina e torna-se acadêmico. Além das suas atividades com psiquiatra, tinha um Laboratório de análises clínicas e foi professor da de Chimica Biológica na Escola Superior de Agricultura. Defendeu a tese: “Novo Método de pesquisa dos fermentos proteolyticos de Abdernhavem”.

Gustavo Riedel era muito considerado pelos seus pares por ser muito estudioso e gozava das atenções de Juliano Moreira. No Primeiro Congresso Internacional de Higiene Mental realizado em Washington, no período de 5 a 10 de maio de 1930, foi eleito um dos seis presidentes de Honra do Comitê Internacional de Higiene Mental e representante da América do Sul na nova entidade. O Congresso teve 2500 participantes, fato extraordinário para a época. Não podemos esquecer que em 1929 houve a quebra da bolsa de Nova Yorque e em 1930 o mundo entrava em grande recessão. Essa crise atingiu, também, a Liga Brasileira de Higiene Mental, pois com a Revolução de 1930 perdeu todos os subsídios do Governo Brasileiro. A primeira crise da Liga foi com a doença de Gustavo Riedel, seu substituto, Plínio Olinto assumiu em 31 de agosto de 1925. Agüentou alguns meses e passou a direção para Faustino Esposel que ficou quatro dias no cargo e solicitou a Ernani Lopes, Secretário Geral da Liga que assumisse. Foi difícil encontrar candidatos para compor a diretoria e a liga só não foi dissolvida graças à ação de Maurício de Medeiros, então deputado federal que apoiou Ernani Lopes e ficou como seu Vice-Presidente. Murilo de Campos ocupou a Secretaria Geral.

Ernani Lopes, nos Archivos Brasileiros de Psiquiatria assim descreveu Gustavo Riedel (1887-1934). “Não foi sem hesitação que nos decidimos a comprimir nesse terço de página, a biografia do “grande realizador” da psychiatria brasileira, a quem esta revista, ainda a pouco dedicava todo um número, no propósito de celebras os seus dotes excepcionais de cientista e de idealista prático, mas é força reconhecer que o amigo prezadíssimo, o chefe bondoso e justo, o excelso benfeitor dos alienados, não vive agora senão na vida subjetiva dos vultos da ciência psiquiátrica. Basta, portanto, relembremos, nesse momento. Algumas das suas criações admiráveis, para que no espírito de todos avulte a sua personalidade de eleito. Riedel fundou o ambulatório “Rivadávia Correa”, primeiro serviço externo de consultas de profilaxia mental instituído na América do Sul (19190, remodelou a Colônia de Psychopatas do Engenho de Dentro, criou a Escola Profissional de Enfermeiras “Alfredo Pinto” (1920), o serviço de hospitalização livre para psicopatas, no Pavilhão Presidente Epitácio, (1923), a Assistência Heterofamiliar e a Liga Brasileira de Hygiene Mental (1923).

Gustavo Riedel foi quem trouxe essa novidade para o Brasil. Segundo suas próprias palavras registradas em Ata (14 de fevereiro de 1925): “Foi em novembro, de 1922, em Havana, como delegado brasileiro ao Congresso Latino-Americano que, por iniciativa minha se organizou o Comitê Latino-Americano de Hygiene Mental, o qual a ”Sessão de Governo” daquele Congresso, determinou se reunisse conjuntamente com os referidos Congressos.

De volta da América do Norte, por indicação entusiástica de Clifford Beers, o apóstolo do movimento em prol da Hygiene Mental no mundo, como o cognominou Toulouse, descrevendo no “Le Quotidien” a memorável sessão da Sorbonne do anno transacto, fui incumbido de fundar na América do Sul a primeira Associação de Medicina Social, o que se levou a effeito nos últimos dias de 1922 com a denominação de Liga Brasileira de Hygiene Mental, à qual o Governo em 1923 houve por bem, pelo Decreto 4.778 de Dezembro, reconhecer de Utilidade Pública e conceder-lhe para o exercício de 1924, uma subvenção de trinta contos de réis, convindo registrar o interesse com que se empenhou neste favor o consócio benemérito Deputado Oscar Soares“.

National Comitee for Mental Hygiene.  

Os objetivos desse Comitê Nacional eram:

1.     Trabalhar para a proteção da saúde mental do público.

2.     Buscar melhorar o padrão de atendimento ao doente mental e para aqueles em perigo de se tornarem mentalmente desorientados.

3.     Promover o estudo de todos os tipos de doença mental e disseminar informação referente às suas causas, tratamento e prevenção.

4.     Obter de todas as fontes, informações para lidar com as doenças mentais.

5.     Envolver o auxílio do Governo Federal na extensão desejável

6.     Coordenar as agências existentes, ajudar na organização em cada Estado de Sociedades de Higiene Mental, aliadas, mas independentes.

 

Haverá vida de psiquiatra que haja sido tão profícua quanto a sua, dentro do mesmo limitado período em que atuou o insigne compatrício?”(Ernani Lopes).

É interessante como a história dá voltas e, às vezes, se acaba no mesmo lugar. Se formos examinar as idéias de Gustavo Riedel, criação de serviços abertos, unidades psiquiátricas integradas com outras especialidades, programas de prevenção para alcoolismo e drogas, formação de técnicos em saúde mental, residências protegidas para pacientes sob orientação de cuidadores, pesquisa psicológica e apoio a novos profissionais. A própria Liga, tão castigada por análises superficiais, tinha como objetivo, proteger a criança, evitar o alcoolismo e melhorar as condições educacionais do povo. O Brasil era um mar de analfabetos.

Publicações de Gustavo riedel no IBBP.

 

1. Riedel, Gustavo. Do iodo na glândula thyroide. Archivos Bras. De Psychiatria, Neurologia e Medicina Legal. 1912; 8.

2. Riedel, Gustavo. Estudo clínico de um caso de pseudo paralisia bulbar. Arq. Bras. De Psiquiatria,Neurologia e Medicina Legal. 1911; 7(1-2).

3. Riedel, Gustavo. Impressões do Primeiro Congresso Internacional de Higiene Mental. Arq. Bras. de Higiene Mental. 1930; 3(6): 195-198.

4. Riedel, Gustavo. Na fase da higiene mental. Arq. Bras. De Medicina. 1931.

5. Riedel, Gustavo. Novas contribuições à patogenia da epilepsia. Doutoramento, Tese. Fac. Med. Do Rio de Janeiro. 1909.

6. Riedel, Gustavo. O dispensário psiquiátrico como elemento de educação eugênica. Anais da Colônia de Psicopatas do Rio de Janeiro. 1929; 3-6.

7. Riedel, Gustavo. O organismo psiquiátrico moderno. A biologia e a psico-fisiologia associadas na moderna concepção da Assistência a Psicopatas. Anais da Colônia de Psicopatas do Rio de Janeiro. 1928; 15-30.

8. Riedel, Gustavo. Os fatores dysgenizantes do habitat brasileiro em synthese. Rio de Janeiro. Typographia do Jornal do Commércio. 1922.

 

Bibliografia consultada:

1.     Paim, Isaías. Psiquiatras Brasileiros. 2003. Campo grande, Editora Oeste.

2.     Archivos Brasileiros de Hygiene Mental. Vol.I (1), 1925.

3.     Archivos Brasileiros de Hygiene Mental. Vol. VIII. (1,2,3), 1935.

     4.         Instituto Philippe Pinel: origens históricas

           Fernando A. da Cunha Ramos e Luiz Geremias.

             http://www.sms.rio.rj.gov.br/pinel/media/pinel_origens.pdf

  1. Jorge, Marco Aurélio Soares. Engenho dentro de casa: sobre a construção de um serviço de atenção diária em saúde mental. [Mestrado] Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 1997. 117 p.
  2. http://www.medicina.ufmg.br/cememor/mcurie.htm

Visita de Marie Curie (l867-1934) e sua filha lrène (l897-1956), a Belo Horizonte. Instituto Radium.

 


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