Volume 22 - Novembro de 2017
Editores: Giovanni Torello e Walmor J. Piccinini

 

Março de 2008 - Vol.13 - Nº 3

Psicanálise em debate

Kosinski e algumas questões sobre a autoria

Sérgio Telles *
psicanalista e escritor

Um aspecto que parece ressaltar na literatura ocidental do século XX é a crescente preocupação com a linguagem e esta preocupação pode ser enfocada de várias maneiras.

De um lado, a tentativa de captar a língua viva, como ela é pensada intrapsiquicamente e falada efetivamente pelos vários estratos de uma sociedade. De certa forma com isso parece romper-se de vez o antigo e recorrente fosso existente entre a linguagem falada e a escrita, cada uma com suas características e convenções próprias.

Por outro lado, é a própria linguagem que parece exigir um papel maior na produção literária, muitos autores se deleitando em brincadeiras e descobertas com suas infindáveis riquezas e ambigüidades, com sua lógica específica e desconcertante, com o inapreensível e fugidio fluxo de significantes, produzindo uma literatura que muitas vezes se compraz nos trocadilhos, nos ditos de espírito, no bon mot.

Talvez poder-se-ia atribuir tal ênfase na linguagem às descobertas da psicanálise, com a descrição das “associações livres”, este monólogo interno onde as idéias se agrupam como a cadeia significante do desejo, desdobrando-se por meandros e desfiladeiros surpreendentes e vertiginosos, formando um discurso diferente, longe do habitual, consciente, que seria supostamente o usado na linguagem escrita. O paradigma desta vertente seria o “Ulisses”, de Joyce, que me parece ser a obra que melhor expressa a compreensão deste aspecto da descoberta freudiana, ou seja, a “associação livre”.

Outra influência possível seria a da lingüística, que recoloca inúmeros problemas da linguagem e descobre seus segredos mais íntimos. Nesta linha teríamos como maior exemplo o “Finnegans Wake”, também de Joyce. Aí a língua é desconstruída, desarticulada e montada novamente, é recriada, experimentada, exposta a mutações e fusões.

A importância de Joyce e a radicalização de sua experiência com a linguagem em “Finnegans Wakefaz lembrar uma dolorosa passagem de sua sofrida vida. Sabe-se que a filha de Joyce tornou-se esquizofrênica e, nos primórdios desta enfermidade, passou a apresentar uma das alterações de pensamento típicas desta condição, que é a glossolalia, a estereotipia de palavras, a criação de neologismos num jargão novo e incompreensível, pois, no rompimento com a realidade, algumas vezes o esquizofrênico perde também a linguagem, este meio que o homem tem para simbolizar o real e com isso possibilitar o contato com a realidade e o Outro. O esquizofrênico inventa uma linguagem própria sua, não compartilhada pelos demais. Estava assim a filha de Joyce, e este, que com grande maestria destruía a língua para depois reconstruí-la, achava que a filha seguia-lhe os passos, exibindo a mesma criatividade que ele próprio no trato com as palavras e a linguagem, como se dele tivesse herdado tal capacidade. Recusava-se Joyce a ver a doença da filha. Foi Jung, a quem levou a filha, que lhe explicou: “O senhor mergulha no rio da linguagem e volta à tona. Sua filha afunda inexoravelmente”. Marcava assim Jung a diferença entre a produção estética, esta solitária criação de um só, que – não obstante – é reconhecida por todos, por expressar o que todos secreta e inarticuladamente pensam e sentem, da também solitária produção psicótica, inacessível a todos, provocadora de estranheza e repulsa nos demais, e que é abordável apenas e com grande dificuldade pelos psicanalistas.

Dentro deste referencial de uma literatura “lingüística”, às vezes preocupada mais com o significante que com o significado, é interessante lembrar as experiências um tanto tumultuadas de Jerzy Kosinski, autor, entre outros, de “The Painted Bird”, “Steps”, “Being There” (traduzido no Brasil como “O Vidiota”, do qual foi feito um filme “Being There”, estrelado por Peter Sellers e que no Brasil recebeu o título de “Muito além do jardim”), “Passion Play”, “PInball”.

O próprio Kosinski é – ele mesmo – um personagem rocambolesco. Judeu polonês, aos seis anos, com o advento do nazismo, é entregue por seus abastados pais a uma empregada cristã que deveria escondê-lo no campo e que, ao invés de cumprir com o que prometera aos pais da criança, logo a abandona à própria sorte. O menino Kosinski ficou perambulando pelo interior da Polônia e tal experiência lhe foi tão traumática que fez com que perdesse a voz, ficando mudo por seis anos, só a recuperando depois de reencontrado pelos pais, após a guerra. Fez brilhantes estudos em Varsóvia e conseguiu de maneira nebulosa escapar do regime comunista, chegando aos Estados Unidos com 24 anos, em 1957. Logo fez sucesso com um livro anti-soviético chamado “The future is ours, comrades” e ingressa no circuito universitário de conferências, sendo convidado como professor em vários importantes campi. Casa com uma milionária, depois com uma baronesa, ultimamente com uma executiva e foi periodicamente lançando com grande sucesso seus livros de ficção, tendo ganho o “National Book Award” em 1969, com “Steps”. Freqüenta a alta sociedade e é amigo dos poderosos de Hollywood. É amigo de Polanski e apenas por um atraso de avião não foi chacinado juntamente com Sharon Tate e o folclore em torno de sua pessoa é muito grande.

Mas o que interessa aqui é seu método de trabalho. Como polonês, o inglês é sua segunda língua e para a feitura de seus livros sempre contou com vários editores que o ajudavam na escolha de palavras, faziam sugestões de construções lingüísticas, cortes, etc. Kosinski os usava como “dicionários humanos”. Com eles discutia longamente suas próprias idéias e construções, aceitando e incorporando as sugestões deles, as estruturas lingüísticas que julgavam mais apropriadas para expressar o que desejava.

Interessado em lingüística, tinha curiosidade em aprender e usar jargões e gírias próprias dos mais variados grupos etários, sociais, étnicos e profissionais. Queria saber como pessoas de ascendência hispânica ou germânica falariam em inglês. Contratava pessoas advindas dos mais variados guetos lingüísticos para o ajudarem, com isso enriquecendo suas próprias obras.

Em 1982, foi acusado de falsário, de assinar obras das quais não era o autor, de ter ghost writers que faziam seu  trabalho.

A acusação foi muito rumorosa no meio literário norte-americano e gerou cerca de 600 artigos pelo mundo afora, entre defensores e detratores. Abalado, Kosinski recolheu-se e somente ano passado voltou à carga, lançando “The Hermit of 69th. Street”, onde defende seus métodos e pretende dar uma resposta a seus inimigos.

Parece-me rico o episódio, especialmente para nós no Brasil, onde o mercado editorial está longe de ter a pujança e complexidade do norte-americano.

Em primeiro lugar, a figura e o papel do editor nos Estados Unidos cria interessantes problemas. Sabe-se que o tipo de trabalho que fizeram junto a Kosinski não é excepcional e sim rotineiro, pois fazem o mesmo com inúmeros outros escritores. Parece que, com o trabalho deles, fica discriminado o que é um criador na linguagem e no estilo, atributos mantidos pelo autor enquanto árbitro supremo na escolha, seleção, montagem e provável recriação de todos os elementos que ele tem a seu dispor, além de ser o indiscutível pai das idéias que se desenvolvem na obra. Isso não teria nada a ver com o que às vezes poderia ser confundido – o saber colocar pontos e vírgulas e – no nosso caso – colocar acentos e não se deixar humilhar pela crase, o construir estruturas lingüísticas variadas, com ortografia correta e concordância verbal adequada. Para isso, o autor pode contar com equipes inteiras de revisores e especialistas. Ao autor compete o que lhe é de fato inerente, o ato criador.

Em segundo lugar, Kosinski, dentro da moda lingüística faz um experimento muito curioso. Para dar um exemplo grosseiro de seu método em nossos termos, suponhamos que planejasse um romance onde entrassem como personagens um peão baiano, uma doméstica carioca, um escritor filho de italianos, um pintor de família judia russa – o que implicaria pequenas e grandes diferenças lingüísticas. Kosinski não se “aperrearia” – para falar nordestinês, já que estamos falando de sotaques. Contrataria pessoas com as características lingüísticas de seus personagens e as faria falar e escrever as situações eu teria inventado e calmamente usaria esse material em seu livro.

Com tal procedimento teria facilitado ao máximo a feitura de seu livro. As pessoas contratadas para consultas poderiam depois processá-lo por plágio ou co-autoria?

Não li “Fogueira de Vaidades” de Tom Wolf, mas dizem que um dos encantos do livro em inglês é como ele capta a realidade social, econômica e étnica de Nova York através da linguagem dos representantes dos vários grupos em jogo. Seria, pois, um livro a la Kosinski?

Parece que com seu interesse neste aspecto lingüístico da produção literária, paradoxalmente, Kosinski o banaliza, e, em assim fazendo, desnuda-lhe o verdadeiro contorno e dimensão, pois tal recurso, no momento em que se mostra de tão fácil aquisição, parece devolver a real importância para outros fatores na execução da obra literária – enredo, personagem, ambientação, estrutura, métodos narrativos, etc.

O caso Kosinski talvez coloque em pauta o que é ser um escritor, o que é ser artista e criar uma obra literária neste final de século. Estaria mudando  a convencional visão do escritor como um solitário produtor? Ou será apenas que Kosinski usa abertamente e com todas as facilidades os recursos atuais o que outros fazem à sombra e de maneira mais tateante e artesanal? Não podemos esquecer os processadores de palavras, que automaticamente corrigem erros ortográficos. Que novos programas não serão possíveis nos tempos vindouros? Kosinski talvez dê a resposta antecipada a todos eles, afirmando o especifico e inalienável da criação humana.

 

Nota 1 – Este artigo foi publicado no Jornal da Tarde – Caderno de Sábado – em 01/07/89

 

Nota 2 – Os dados sobre Kosinski foram colhidos em “The Kosinski Connundrum” , artigo de Stephen Schiff  publicado em,Vanity Fair, June 1988

 

Nota 3 – Kosinski, que teve seus  livros traduzidos em 30 línguas e até 1991 tinha vendido mais de 70 milhões de exemplares, suicidou-se em 1991. A polêmica despertada por sua principal obra “The painted bird” em muito se assemelha àquela causada pelo livro “Fragmentos” de Wilkomirski. Ambos foram acusados de falsários, na medida em que teriam apresentado um material ficcional como se fora um registro autobiográfico. A maneira como produzia seus textos continua levantando interessantes questões – como penso ter apontado acima – sobre o que é a autoria de uma obra.

 

Nota 4 – Maiores informações sobre Kosinski na Wikipedia - http://en.wikipedia.org/wiki/Jerzy_Kosinski


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