Volume 22 - Novembro de 2017
Editores: Giovanni Torello e Walmor J. Piccinini

 

Julho de 2008 - Vol.13 - Nº 7

Coluna da Lista Brasileira de Psiquiatria

Fernando Portela Câmara

Esta coluna resume os principais fatos e novidades veiculadas na Lista Brasileira de Psiquiatria.



Assuntos:

VOCÊ OUVE VOZES?

 

Dias atrás, fazendo tempo numa Livraria, me deparei com o livro Eu ouço vozes doutor. A tese do autor é que as alucinações podem ser ações verdadeiras dos espíritos. Lá pelo meio do livro ele cita o Cláudio Lyra Bastos e depois o livro do Portella Nunes e J. Romildo como fonte para dizer que a psiquiatria evolui do aspecto demonológico para a ciência. Como se isso pudesse ajudar a comprovar sua tese sobre os espíritos. Resolvi trazer o assunto para vocês, mas antes passei pela introdução do livro que é mais ou menos assim:

Doutor, eu ouço vozes! - Parte 1 – Mauro Kwitko

Medicina e Reencarnação

Este texto, prefácio do livro a ser lançado brevemente, tem a finalidade de levar à comunidade científica responsável pela saúde mental das pessoas - os psicólogos e os psiquiatras - um alerta quanto à possibilidade de que os seres que algumas pessoas afirmam enxergar e as vozes que afirmam escutar, possam advir de fontes reais, ou seja, de pessoas "invisíveis", que as Religiões chamam de Espíritos e, não significar, necessariamente, um sintoma psiquiátrico, característico da esquizofrenia.

Opiniões, please. Walmor Piccinini

 

 

Walmor, Essa questão das vozes é muito complexa e interessante. Aguardo escritos de Octavio Domont Serpa Junior, Professor de Psiquiatria da UFRJ, que estuda esse assunto. "Observando a Medicina", seção da Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, de junho de 2007 (vol. X; no. 2) traz contribuição de Mônica Teixeira sobre a questão. O artigo tem um nome sugestivo: "'Você pode viver com as vozes em sua cabeça?' De acordo com uma organização internacional de "ouvintes", a resposta é sim". 

Manuel Berlinck

 

 

Não é incomum essa tese. Já me foram presenteados uns livros - escritos por psiquiatras espíritas - que sustentam algo assim. O Pierre Weil, psicólogo que escrevia livros sobre relações humanas, testes psicotécnicos, psicologia organizacional, dinâmica de grupo, etc. passou a  certa altura da vida e escrever sobre temas esotéricos e parapsicologia, dizendo que certas alucinações e estados delirantes seriam na verdade uma tal de "consciência cósmica" e chamando a isso "psicologia transpessoal". À parte o raciocínio tortuoso - que aliás é muito comum em literatura pseudocientífica e de auto-ajuda; o cara começa falando de fatos científicos bem comprovados e de repente insere uma porção desconexa no meio do texto defendendo um absurdo qualquer - e as tentativas de dar cunho científico a idéias religiosas, o tema tem lá o seu interesse. Fora do Non Sequitur que você menciona, e sob um aspecto estritamente psicoterápico (grifo triplo), eu acho que certas técnicas dissociativas (incluindo as religiosas) podem ter o seu valor terapêutico quando bem aplicadas, e defendo o seu uso num artigo que saiu na última ediçào da Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental. Além disso, é possível que as alucinações propriamente psicóticas possam ter o seu papel estabilizador. O Dr. Sidney Bustamante, no último Simpósio de Saude Mental do IFSM, referiu-se a um caso em que o paciente queria a redução do neuroléptico, porque sem as vozes, sentia-se muito só. E, efetivamente , ficou melhor assim. Por fim, quanto ao estudo científico dos eventos ditos paranormais, entendo que o fato de as alucinações (dissociativas ou psicóticas) se mostrarem sempre de forma fenomenologicamente contextualizada e guardarem nexos de sentido com a personalidade do paciente não fala a favor de uma origem externa para elas. Naturalmente, não há prova negativa, mas não me parece uma hipótese que valha investigar.

Claudio Lyra Bastos

 

 

Nem sempre a dissociação é possivel de ser induzida por transe (psicóticos também dissociam mas sem hipnotizabilidade ou muito baixa - eles estão em 20 % dos que apresentam reversão ocular +, mas são os falsos positivos), e naqueles que a hipnotizabilidade é alta (grau 4 ou 5 de Spiegel), nem sempre é possível usa-la terapeuticamente (falta de responsividade), infelizmente, e por isso é necessário triagem. Confirmei esses dados de Spiegel em 354 pacientes quando dirigia um serviço da Sta. Casa usando o método dele, que tive oportunidade de aprender com um de seus assistentes, long time ago... A relação com certas doenças mentais (entre elas o TEPT) é inquestionável, conforme demonstrada por Fred Frankel e por David Spiegel.

Portela

 

 

MILNACIPRANO E FIBROMIALGIA

Alguém sabe dizer por que o medicamento milnaciprano (Ixel) saiu do mercado? Marcelo Lourenço

Muito simples. Sua resposta terapêutica era similar ao placebo. Caiu em descrédito na classe psiquiátrica. As vendas foram caindo, caindo e ai a solução foi matá-lo de vez. A Ana fala em ressurreição desse placebão. Mistério, será que descobriram algum efeito miraculoso. Efeito contra uma doença que nao existe? Fibromialgia me parece uma forma nova de descrever a histeria. Em resumo, já foi tarde e não deixa saudade. Funcionou em 4 pacientes, galho de arruda, hypericum e benzedura também costumam funcionar. Boa tarde. Walmor Piccinini

 

 

ML, o placebo faz coisas que até o bom Deus duvida. Não conheço nenhum antidepressivo que tenha batido no placebo, exceto que a media amostral é apenas maior. Você conhece? E o efeito "marcelo lourenco" no seguimento do paciente, não conta? Infelizmente, só conhecemos pacientes durante o tratamento e não sem (a simples observação já afeta o experimento) , portanto, o viés placebo do medico nao pode ser descartado. O ixel já foi tarde, e muitos outros (ex. a venlafaxina) também deveriam acompanha-lo.
Portela

 

 

Na verdade, trata-se de um ansiolítico que remove sintomas depressisvos secundários à ansiedade (como a venlafaxina que o Portela mencionou, por exemplo).  Acontece que muitíssimos deste casos, ao menos por aqui, vêm sendo confundidos com doença depressiva - depressão vera (que nem sempre é maior). Julgo que a resposta estará por aí. Luiz Salvador

 

 

Metendo minha colher nesta discussão, gostaria apenas de lembrar, mais uma vez, que esta distinção entre histeria (neurose histérica, síndrome de Briquet) e histeria de conversão (que parece ser a condição a que se refere o caro Walmor quando fala sobre fibromialgia) pode ser BEM melhor entendida lendo os prolíficos trabalhos produzidos nos anos 60 e 70 pelo Departamento de Psiquiatria da Universidade Washington e sobretudo, do que foi publicado por Samuel Guze e colaboradores. Muita gente experiente confunde a "neurose" (que me desculpem o uso desta palavra...) histeria com "reação" de conversão... Claro que não estou aqui dando muita atenção para os critérios do DSM-IV. Lucio F. M. Villaça

 

 

Meu caro Lúcio e os mais, Tenho para mim a assim chamada "fibromialgia" como sintoma doloroso resultante da tensão muscular em uma região do corpo.
Uma atividade patogênica mecânica e involuntária, apesar de aparecer em musculatura estriada. Parece-me mais próxima da tensão da ansiedade difusa do que da histeria. Luiz Salvador

 

DIXIT

 

...A "REFORMA PSIQUIÁTRICA", foi um projeto de lei rejeitado pelo CONGRESSO NACIONAL E FOI SUBSTITUIDO PELA LEI 10.216 que se destina a regulamentar o atendimento aos portadores de transtornos psíquicos e que, por isto, envolve ALÉM DA
PSIQUIATRIA, A ENFERMAGEM, A TERAPÊUTICA OCUPACIONAL, A PSICOLOGIA E AS REDES DE APOIO SÓCIO-FAMILIARES. [...] Caberá a ABP questionar por que aumentou a mortalidade de doentes mentais (nossa preocupação e obrigação!) após a diminuição (forçada) de leitos psiquiátricos? Será que a eletroconvulsoterapia - rejeitada por "motivos  ideológicos" pela Coordenação de Saúde Mental do MS - não teria ajudado a salvar umas tantas destas vidas? [...]
J Romildo Bueno


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