Volume 22 - Novembro de 2017
Editores: Giovanni Torello e Walmor J. Piccinini

 

Junho de 2008 - Vol.13 - Nº 6

Coluna da Lista Brasileira de Psiquiatria

Fernando Portela Câmara

Esta coluna resume os principais fatos e novidades veiculadas na Lista Brasileira de Psiquiatria.



Assuntos:

Alguns colegas contribuíram com assuntos que merecem destaque neste mês:

 

TRANSGENITALIZAÇÃO PELO SUS

 

Gostaria de comentários sobre a notícia abaixo.
http://noticias. terra.com. br/brasil/ interna/0, ,OI2892454- EI715,00. html
O que acham do governo (na verdade nós mesmos, com ou sem CSS) financiar a cirurgia de troca de sexo? Será mesmo prioridade na saúde pública este tipo de conduta?
Não questiono em si o possível sofrimento que enfrentam os acometidos por situações como os transtornos de identidade sexual, prováveis criadores desta demanda. A questão que coloco é de prioridades na assistência pública.
Diversos problemas com um impacto muito maior na saúde à população são sabidamente negligenciados pelos gestores: falta de profissionais capacitados para atender à demanda, falta de condições adequadas de atendimento, falta de psicofármacos, falta de leitos psiquiátricos, falta de serviços complementares, etc, etc, e etc.Por outro lado, as diretrizes legais (SUS, Constituição Federal e etc.) colocam o direito à assistência como pertencente ao usuário. Como fica este equilíbrio, na opinião de vocês? Henrique M. Fogaça

O Governo vive de factóides. Notícia que tem repercussão na mídia sai a todo momento. Não há um plano de prevenção e assistência ao diabetes, a obesidade, a dengue etc. Meia dúzia de cirurgias de transsexuais não sai caro considerando a publicidade e a idéia de "modernismo" . Vale tua indignação meu caro Henrique. Walmor Piccinini

 

Caros amigos, nada mais justo que estender a cobertura no setor saúde para todos e
nisto creio estarmos de acordo... Concordo com Walmor, é mais um factóide... Nós não temos um plano de governo e nem chegamos perto de uma "burocrácia de estado", o que temos é um aparelhamento de governo(s) que desmancha(m) e cria(m) "burocrácias partidárias". Este aparelhamento da máquina de estado transformou mandatos em permanente palanque eleitoreiro: o chefe de estado diz três contradições em um único nictemêro e participa até de inaugurações de "futuros pontos de jogo de bicho incluídos no PAC da inclusão" (ou será "injunção"?) social bancada com nosso rico e suado dinheirinho que tem três a quatro meses de trabalho abocanhados por um estado voraz e que nada nos dá em retorno (saúde, educação, segurança, esgotos, estradas...)
Dentro de um quadro de caos popuLUlista permanente e em clima de guerra urbana generalizada (mais visível nesta ponta de iceberg que já foi uma cidade maravilhosa. ..), fazer cirúrgia de mudança de sexo gera um "ibope" danado... J. Romildo Bueno

 

Concordo plenamente e volto a dizer - a contragosto - esse é o país do Auê. Auê quer dizer um barulho danado por coisas de menos importância e um silêncio crucial sobre as coisas que contam ou deviam ser contadas. A análise abaixo do colega, a meu ver, está correta. Nós não temos um governo. E vamos continuar assim...Claro que nós arcando com os custos, os benefícios, as aposentadorias
e tudo o mais. Marcio Pinheiro

 

 

ANTIDEPRESSIVOS E RETENÇÃO URINÁRIA

 


Estou precisando de ajuda em um caso de uma paciente que apresentou grave retenção urinária com amitriptilina e que, em conseqüência ficou com lesão grave na parede da bexiga com fibrose e retrações ficando muito sensível a qualquer efeito anticolinérgico por menor que seja. Fez uso de 15 mg de mirtazapina, que seria um dos ADs com menor ação AC e apresentou retenção complicada de infecção urinária. Qual seria a alternativa de tratamento nesse caso. É uma paciente que tb sofre de insônia severa e crônica, em função disso vinha fazendo uso de AMT. Rubens Mazzini

 

Rubens, Uma forma de reduzir os efeitos anticolinérgicos de qualquer droga é usar o Betanecol. Pelo visto, este paciente apresenta extrema sensibilidade aos efeitos anticolinérgicos, mesmo usando drogas com com baixíssima afinidade pelos receptores colinérgicos. Pode-se usar um antidepressivo como o Remeron associado ao Betanecol (Liberan), em dose inicial de 10mg 3x/dia. Jordano Copetti

 

Rubens, você pode tentar lamotrigina, apostando no efeito antidepressivo, se ela nao tolerar outro AD como o donarem, por ex. A idéia do betanecol associado é boa. Se nada resolver, EMT, se houver, ou ECT. Ana Hounie

 

 

CURIOSIDADE HISTÓRICA FORENSE

 

 

Veja como era a Lei 'nos antigamente' aqui no Brasil

SENTENÇA JUDICIAL EM 1833 - PROVÍNCIA DE SERGIPE

(Ipsis litteris)

O adjunto de promotor público, representando contra o cabra Manoel
Duda, porque no dia 11 do mês de Nossa Senhora Sant'Ana quando a
mulher do Xico Bento ia para a fonte, já perto dela, o supracitado
cabra que estava de em uma moita de mato, sahiu della de supetão e fez
proposta a dita mulher, por quem queria para coisa que não se pode
trazer a lume, e como ella se recuzasse, o dito cabra abrafolou-se
dela, deitou-a no chão, deixando as encomendas della de fora e ao Deus
dará. Elle não conseguiu matrimonio porque ella gritou e veio em
amparo della Nocreto Correia e Norberto Barbosa, que prenderam o cujo
em flagrante. Dizem as leises que duas testemunhas que assistam a
qualquer naufrágio do sucesso faz prova.

CONSIDERO:

QUE o cabra Manoel Duda agrediu a mulher de Xico Bento para conxambrar
com ela e fazer chumbregâncias, coisas que só marido della competia
conxambrar, porque casados pelo regime da Santa Igreja Cathólica
Romana;

QUE o cabra Manoel Duda é um suplicante deboxado que nunca soube
respeitar as famílias de suas vizinhas, tanto que quiz também fazer
conxambranas com a Quitéria e Clarinha, moças donzellas;

QUE Manoel Duda é um sujeito perigoso e que não tiver uma cousa que
atenue a perigança dele, amanhan está metendo medo até nos homens.

CONDENO:

O cabra Manoel Duda, pelo malifício que fez à mulher do Xico Bento, a
ser CAPADO, capadura que deverá ser feita a MACETE. A execução desta
peça deverá ser feita na cadeia desta Villa.

Nomeio carrasco o carcereiro.

Cumpra-se e apregue-se editais nos lugares públicos.

Manoel Fernandes dos Santos
Juiz de Direito da Vila de Porto da Folha Sergipe, 15 de Outubro de1833.

Fonte: Instituto Histórico de Alagoas

 

 

OPINIÃO

 

Publish much, think little.
É interessante que essa ânsia de reconhecimento externo que a anglofilia traduz vem exatamente num momento em que a informação se fragmenta pela internet e as revistas (as mais conhecidas) estão desesperadas para obter assinantes (eu recebo ofertas todo santo dia). Todo mundo quer publicar mas ninguém parece querer ler. Depois que se divulgou que no board das grandes revistas quase todos levavam o seu, oriundo das grandes empresas, o valor da pesquisa burocratizada se tornou ainda menor, e pouca gente hoje acredita mesmo nos artigos. O enorme crescimento do alternativismo denuncia isto.
O embasamento científico da prática médica, que deu seus melhores frutos no início do século XX, passou a sofrer de uma doença degenerativa insidiosa, cuja origem é cientificismo acadêmico e cujos sintomas são os eflúvios de corrupção (econômica, política, etc.).
Também na área cirúrgica, como nas outras áreas clínicas, a dissociação entre produção de conhecimento e produção acadêmica já está produzindo uma crise, que se reflete no ensino médico, como o artigo abaixo revela:

"O famoso relatório Flexner, de 1910, responsável por modificar os paradigmas da educação médica americana, foi direcionado para o público geral. Mais conhecido pelas críticas ao modelo de formação médica até então vigente, propôs um redirecionamento da educação médica conforme um modelo cientificista positivista, que deveria substituir o aprendizado pelo exemplo e autoridade do mentor por um modelo baseado no convívio clínico determinando o aprendizado e as linhas de pesquisa clínica a partir de questões suscitadas pela prática, unificando as figuras do assistente, do professor, do modelo profissional e do pesquisador (“think much, publish little”). Este modelo, levado ao máximo desempenho na Universidade de Harvard junto com as idéias Halstedianas de ensino de cirurgia (estrutura de residência médica), foi rapidamente superado pela sofisticação progressiva dos instrumentos e temas de pesquisa, pelos julgamentos de mérito excessivamente pragmáticos, dependentes exclusivamente da quantidade de publicações, e pelo gerenciamento de produtividade, que determinou uma quantidade crescente de trabalho prático mensurado (e pago!) de forma instrumental. Estes mecanismos de controle divorciaram prática, pesquisa e ensino, e, do ponto de vista filosófico, fizeram esquecer que conhecimento em medicina é apenas instrumento da prática com o paciente ..." L.E. de Jesus - Ensinar Cirurgia: Como e para Quem? Rev. Col. Bras. Cir. 139 Vol. 35 - Nº 2, Mar. / Abr. 2008.

 

(Cláudio Lyra Bastos)

 

 

HOMENAGEM

 

A menina

Ao longo dos muros da morte
Corre a menina com o arco.
O vento agita-lhe a saia florida
E a terra negra nem lhe imprime o rastro...

(Apontamentos de história sobrenatural – poesias, Mário Quintana, Círculo do Livro – 1961)


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