Volume 22 - Novembro de 2017
Editores: Giovanni Torello e Walmor J. Piccinini

 

Janeiro de 2008 - Vol.13 - Nº 1

Coluna da Lista Brasileira de Psiquiatria

Fernando Portela Câmara

Esta coluna resume os principais fatos e novidades veiculadas na Lista Brasileira de Psiquiatria.



Assuntos:

ASSASSINOS MIDIÁTICOS

 

No início deste ano uma jovem de 21 anos foi assassinada pelo ex-namorado, da mesma idade, após este ameaçá-la repetidamente pelo Orkut, drama compartilhado por muitos colegas da morta. O assassino usava o apelido Venon, tirado do vilão inimigo do Homem-Aranha, e dizia que se ela não voltasse para ele, a mataria. O fato se concretizou com o jovem desferindo duas facadas mortais na moça. O fato se deu na cidade de Fortaleza, Ceará. Os jovens se conheceram e namoravam pela internet, antes de se encontrarem, e ainda continuavam os encontros virtualmente. A realidade mostrou que o jovem era um psicopata o que fez com que os pais da moça proibissem a entrada dele na casa e aconselhassem a jovem a terminar o namoro, o que ela fez. A pergunta que surgiu foi se este tipo de crime pode ser facilitado por esta nova forma de relacionamento através de chats na internet.

 

 

A violência nos relacionamentos e particularmente a violência contra a mulher ainda são muito estimuladas e aceitas. Daí para um ato criminoso executado por um portador de transtornos de personalidade é apenas um pequeno passo. Trata-se de um indivíduo saindo em defesa de seus "cornos" sem desejo para a mansidão. É o eterno tema de "Carmen", a mulher que deverá pagar pela sua sensualidade com facadas a serem recebidas à vista. Silvio Saidemberg

 

 

Só não venham me dizer que ele é inimputável... Se vcs forem fazer uma visitinha à 6a delegacia de polícia do RJ, especializada em crimes de internet,verão que o maior problema que eles tem atualmente é o orkut...recebem uma média de mais de 100 telefonemas por dia sobre "scraps orkutianos", com queixas de todos os tipos. O orkut pertence ao Google e está submetido as leis norte americanas. E tudo que ali acontece (comunidades que preconizam a pedofilia, inclusive) pode acabar em pizza. Mônica Dib

 

 

 

Fico a pensar algumas coisas. O universo virtual, como o Orkut, chega a intervir no conteúdo destes atos anti-sociais ou somente lhes molda a forma? O perfil dele é basicamente diferente de outros transtornos de personalidade ou a atuação é que é diversa? Lembrei do caso do canibal alemão. E do seu aperitivo. Que experiência cortar o próprio p... e depois fritar pra comer, mas não dar pra mastigar de tão duro! A fantasia de cortar, fritar e levar à boca foi virtualmente concebida. O fracasso na hora de triturar pra engolir foi uma experiência inesperada, não virtual, e frustrante. Mas o todo não foi. É excitante tentar o contraste entre o imaginado virtual e o experimentado real. É excitante despir uma mulher cobiçada. É excitante o contraste entre o imaginado e o observado.

A psicologia do mundo virtual deverá andar de mãos dadas com a psicopatologia através do mundo virtual. Um crime anunciado "on line" para todo o mundo. Parece mesmo um esfaquear de Carmem em praça pública. Carmen, carminis  em latim quer dizer poema, palavras mágicas, canção que enfeitiça. Se remete mesmo aos scraps e ao contexto dos poderosos bits que transmitem sentimento e intenções pela net à fora. O verbo se fez pixels. E habita entre nós.

Achei deprimente essa notícia. Não vou me atrever a uma vasta análise psicodinâmica. Anseio por ler toda a opinião do Sílvio e do PJ. vejam que essa moçoila insistia em relacionar-se com um cidadão que a família proscreveu. Há essa contraparte violenta das vítimas de manter-se em contato com pessoas sabidamente perigosas. O contexto da violência á mulher entra em questão. Uma auto-violência incluída. Inúmeros recados ameaçadores foram simplesmente ignorados? Ou ela pagou pra ver? Ou havia algum gozo por trás de toda a mobilização afetiva (e mórbida) do sujeito por amarrá-la aos desejos dele?

Até uma atual psicologia da virtualidade com uma psicopatologia própria dentro dessa esfera, prefiro achar que tais personalidades psicopáticas não são mais diferentes das demais como os cibernautas-24hs são diferentes dos baladeiros de plantão. A diferença é de forma, não de conteúdo. Até que ponto o aspecto instrumental da internet retroage no modo de se projetar o mundo real no virtual e, então, de a vida copiar a arte, de se projetar o ambiente virtual no real? As drogas fazem isso há milênios.

Há predadores e presas a granel nos meandros da net. E a regra é a identidade especiosa e volátil que os bits e bytes oferecem. Vejam a Lista: não me esqueço da experiência na casa da Fátima querida, no Rio, quando muitos membros da LBP foram desvirtualizados. Que pessoas fascinantes conheci. E muitos não me imaginavam como eu seria e vice-versa. Soube de um membro da LBP que muito opinava sobre Farmacoterapia, mas que na prática quase que só se usava de Psicanálise. Os carmines da net permitem que montemos uma imagem ilusiva e convincente de nós mesmo. Podemos acreditar nela e nos apaixonar, uma mistura de Narciso com Pigamaleão e sua estátua de marfim. a maioria do namoros virtuais é meramente masturbativos (de manus = com a mão; stupro = eu corrompo) -- num significado atual de mastrubar-se -- mas ocasionalmente relacionamentos reais e duradouros podem advir. Assim também com as propostas criminosas. Marcos Klar

 

 

 

Excelente análise. Me pareceu um tipo esquizóide com suas trágicas fantasisas sexuais. Imaginar a ex-namoradinha transando com os gatinhos devia excita-lo profundamente, mas tal desejo devia ser pecaminoso demais para aceita-lo em sua mente. Pior, nessa transa ele se colocava no lugar dela? E o recalque, que deveria encerrar o assunto, se fez ato porque só a morte do objeto garante o segredo dele, e o crime o redime perante o seu deus. Ele foi a vítima daquele súcubo que o torturava, agora desde o seu espaço virtual/mental /espiritual (o orkut não é o mundo das vozes e seres espirituais tão atraentes aos simpatizantes e habitantes do planeta esquizo?). Matou o súcubo, livrou o mundo e a ele de um demônio fêmea (os anjos não têm sexo, mas os demos têm), é um herói, um herói da Santa Inquisição. (Não tenho dados para saber se era AS.) De qualquer forma, o ato medonho é inaugural. Portela

 

 

 

Claro que antes do Orkut já havia esse tipo de homicídio. Claro que antes de qualquer mídia já havia o crime passional mesmo longe das periferias, entre editores de jornais respeitáveis. A diferença atual é a mídia instantânea demonstrar premeditações de crimes, seus planejamentos terríveis inclusive entre terroristas, e isso criar uma margem de atuação para a "inteligência" policial seja do Estado seja das famílias que não querem perder seus filhos. Com certeza vai haver mais controle da internet, oficial (teve um país outro dia não teve? que solicitou gravação de todos os e-mails dos usuários das provedoras) ou não (CIA, softwares para pais mais preocupados, etc.). Mas não há o que culpabilizar no site de relacionamentos. Ele apenas manifesta o que sempre esteve ocorrendo, desde os primórdios da pedra lascada - qualquer semelhança com a faca usada no crime não é mera coincidência antropológica. Caetano Fenner

 

 

 

 

Gentes. Esse tipo de crime é realmente muito comum. Entendo como um tipo de paranóia encapsulada. A mulher, raramente um homem, é considerada como um objeto pertencente ao seu dono. A tentativa da vítima de escapar a essa situação, costuma desencaedear uma fúria assassina naquele que julga seu proprietário. O fato de ter sido utilizado o Orkut, me parece circunstancial. Aqui no sul, tenho acompanhado inúmeros desses casos. Já aconteceu da família da vítima, ao tentar protegê-la, acabar sendo vítima também. Em alguns casos pode ser que o sujeito seja um psicopata, no geral é um sujeito tido como trabalhador, cumpridor dos seus deveres e que não consegue aceitar o afastamento do objeto do seu amor patológico. Consumado o crime, torna-se um preso exemplar, cumpre pena mínima e volta ao convívio social e com possibilidade de reprisar seu feito. Vocês devem ter acompanhado esses casos que antigamente se denominavam estados paranóides, agora ficam todos incluídos na Paranóia. O bullying via orkut é outro fenômeno a ser tratado, mas é diferente desse caso. Walmor Piccinini

 

 

 

Walmor, Mas, Paranóia com 21 anos? Apenas para ensejar uma discussão psicopatológica. Mesmo sem termos os detalhes  psicopatológicos do caso acho difícil ser Paranóia. Para ser Paranóia tem que ter delírio sistematizado, como suspeitar que a namorada o estivesse traindo com fulano por causa disso e daquilo, tudo bem sistematizado. Enfim, na Paranóia o sujeito vai ligando os fatos de forma delirante. Justamente por essa razão é que a Paranóia incide mais na terceira década de vida porque o sujeito tem que ser capaz de ligar os fatos. Penso que casos assim, são mais prováveis de ciúmes patológico em personalidade paranóide. São extremamente subjetivos e com disposição ao prejuízo e desconfianças mas sem a necessária sistematização do delírio para configurar um quadro delirante como na Paranóia. Hilda Morana

 

 

 

 

Uma reflexão para todos. Transtorno de personalidade pode ser aventado de uma maneira mais abrangente: uma mistura de compulsão com egocentrismo importante,  uma identidade imatura (criando incapacidade para desenvolver relacionamento de intimidade respeitando a autonomia da companheira que propunha ter), além disto,  culpa e vergonha devem ser componentes importantes da equação que veio causar a anulação por assassinato de uma jovem vida. Ela foi culpabilizada pela miséria emocional do perpetrador que provavelmente sentia-se envergonhado pela rejeição. Agora, isto tudo pode estar associado a outros transtornos emocionais que tornariam o discernimento dele menos capaz para conter o ódio e a agressividade. O se relacionar de forma tão possessiva através da Internet pode caracterizar uma provável dificuldade em desenvolver relacionamentos em um mundo real onde as pessoas são menos o que dizem e mais o que manifestam. Na avaliação psiquiátrica tudo pode ser encontrado: Algum transtorno de personalidade específico? Um quadro psicótico secundário ao abuso de substâncias? Um outro quadro orgânico mental? Um quadro psicótico esquizofrênico? Até mesmo um quadro depressivo associado a transtorno de personalidade. Independentemente da possibilidade de diagnóstico múltiplos, devem estar presentes atitudes anti-sociais no transtorno de personalidade. Este foi um crime planejado, o perpetrador elaborou bastante em como executá-lo e sabia das conseqüências de suas ações, dificilmente poderá ser considerado inimputável. Certamente, o laudo deverá ser executado com muita perícia; caso contrário, o advogado de defesa facilmente poderá conseguir uma pena não condizente com a gravidade do crime cometido. O promotor precisará também de ser muito hábil em reunir as provas de forma concludente. Caso contrário é mais uma vez em que a justiça não será colocada em ação. Silvio Saidemberg

 

 

 

...acredito existir um determinismo nestas personalidades criminosas. A personalidade saudável é flexível, criativa, afetivamente homeostática, com um potencial de criatividade que a faz autorregular- se com o entorno social. Entretanto, a personalidade interrompida ou desviada, tipicamente atua com um modus operandi que a faz ser rígida, previsível, e por isso classificável a partir de critérios. Por tal razão, não conseguimos definir uma personalidade normal, mas o fazemos muito bem com uma personalidade anormal, e a razão disto é o determinismo, a previsibilidade do comportamento. Todo crime tem um padrão, portanto, um determinismo, o e possibilita sua investigação. Esse determinismo emerge da personalidade? Da mesma forma, nessa equação não participaria os facilitadores sociais? É complicado mesmo. Portela 

 

 

Portela, Fenner, Raquel, Marcos e demais colisteiros: A questão crucial parece-me encontrar-se na estrutura de personalidade, mal formada no caso de criminosos que cometem solitariamente esses crimes bárbaros e primitivos. Certamente, não muito melhor no caso de outros crimes tanto menos bárbaros quanto muitas vezes extremamente violentos,  que recebem um incentivo de seu grupo social e particularmente religioso. Outros fatores entram em jogo como facilitadores, inclusive outros diagnósticos psiquiátricos que podem contribuir para a redução da crítica. Silvio Saidemberg

 

 

PERÍCIAS DO INSS E AGRESSÕES A MÉDICOS

 

Colegas, O jornal do CFM de n.o 166 de Novembro de 2007 (que chegou ontem) inclui uma carta de um colega do RS sobre perícias do INSS e sobre os riscos de muitos médicos sofrerem agressão por parte de pacientes periciandos, simuladores que querem “se encostar”. Mandei uma resposta ao CFM contrapondo que o sistema todo é perverso; as perícias duram menos que 10 minutos; médicos de todas as especialidades realizam perícias psiquiátricas; os pacientes entram sem testemunhas, há opinações sobre tratamento (falta ética) entre outras coisas. Não sei se o CFM publicará isto na sessão “correio médico”; veremos. Abaixo mando para a apreciação de vocês a minha carta, focando no lado também do trabalhador e na falência do sistema previdenciário dentro deste sistema atual. Marcelo Lourenço

 A Carta:

A carta enviada a este jornal em seu número de 166 de Novembro de 2007, pelo colega José Andersen Cavalcanti (CRM-RS 10142) foi bastante esclarecedora em sua análise sobre a vulnerabilidade que os médicos peritos do INSS têm ao realizar as perícias. Isto mostra a fragilidade de um sistema que essencialmente, além de falido (em 2.005 o “rombo” do INSS era de R$40 bilhões), fadado ao fracasso, é político, partidário e/ou ideologicamente orientado pela máquina administrativa federal e da gerência de recursos financeiros. Todo cidadão medianamente informado sabe que aposentadorias milionárias foram e são concedidas rapidamente a determinados cidadãos (serão estes mais cidadãos que outros?); este assunto circula pela mídia e internet com freqüência.

Por outro lado, não se propala com a mesma freqüência da indignação midiática seguida por nosso conformismo de país colonizado e escravocrata, a respeito da dificuldade do trabalhador comum em conseguir sua aposentadoria por invalidez ou por conseqüência de doença decorrente de condições de trabalho.

Este é o reverso da questão, que é a de nossos pacientes. O Artigo 1º da Lei 8213 /91 aponta que a Previdência Social será mediante

contribuição e tem por fim assegurar aos seus beneficiários meios indispensáveis de

manutenção, por motivo de incapacidade, desemprego involuntário, idade avançada,

tempo de serviço, encargos familiares, prisão ou morte daqueles de quem dependiam

economicamente. Mas será mesmo que há tantos mentirosos e aproveitadores assim, contribuintes do INSS e um ou dois salários mínimos ao mêsque fossem capazes de provocar este gigantesco rombo de recursos da previdência?Ou seria mais razoável pensarmos nas pensões vitalíciasmilionárias de diplomatas, anistiados, ex-parlamentares queabocanham de uma só vez dezenasde salários mínomos. Ainda mais razoável convir, penso eu (ainda que ingenuamente) que os tais “simuladores de muletas” citados na carta do colega devam ser minoria; o que, entretanto acaba por ser regra é que pessoas com doenças crônicas e não recuperáveis, com tratamentos longos, complexos e multidisciplinares passam freqüentemente por peritos que não são da especialidade própria da patologia incapacitante; peritos estes que atendem dezenas de pessoas em uma única manhã por exemplo,e a estes pacientes não são permitidos de adentrarem com testemunhas familiares durante suas perícias (muitas vezes importantes veículos de informação na anamnese objetiva), e acabam por ter uma duração de avaliação pericial com menos de 10 minutos. Tenho observado isto em minha prática. Trabalhadores que dificilmente conseguirão oportunidades outras de inserção no mercado de trabalho e correm o risco da demissão por conta da alta do auxílio-doença, sem a devida atenção para a transição para a incapacidade extrema e permanente prevista na lei. Muitas vezes, o relatório do médico assistente sequer é lido ou colegas assim distanciados do espírito humanista de nossa profissão acabam por dar opinião negativa sobre o tratamento que o especialista realiza, desrespeitando a ética; outras vezes desculpando-se de modo cínico de que “eu queria lhe ajudar... mas o sistema manda que eu dê alta...”; ou “...você receberá a resposta pelo correio...”, eximindo-se da responsabilidade verbal de fornecer seu parecer na frente do paciente em linguagem compreensível a este. Infelizmente, sou somente testemunha do desconsolo destas pessoas,meus pacientes, em meu consultório ou no ambulatório do SUS, testemunha somente do desabafo e do desespero destes pacientes que não têm ou não sabem a quem recorrer. Não posso acusar, nem me atrevo a ser acusador ou dar tom caluniatório, nem fazer generalizações, mas observei este fato ocorrendo em municípios do Estado de São Paulo e tenho amigos de profissão que também têm seus ouvidos carregados por estas queixas. Acontece também aí onde você colega lê minha carta?

Algum dos colegas contrataria uma serviçal de limpeza para seu consultório com mais de 50 anos com três hérnias lombares, com indicação cirúrgica,mas a quem o INSS recusou seguidamente seu auxílio? Ainda sem testemunhas na sala para averiguação do que realmente houve? E uma carta basicamente anônima (pois fica eletronicamente assinada pelo presidente do INSS) de que não foi constatada incapacidade laborativa? Convenhamos senhores... A distância entre encontrar “simuladores de muletas” e pessoas com sérios riscos de saúde e que não têm condição para a atividade laboral e recebe alta é grande. Apesar da perícia ser considerada legalmente uma competência médica, esta lei é antiga demais para o avanço da medicina nas duas ultimas décadas; cada vez mais em instâncias forences os juízes solicitam peritos com titulação forense em sua área de especialidade; o perito do INSS deveria ser especialista na área específica da patologia, deve realizar exame físico e psíquico completo, deve permitir a entrada de testemunhas (inclusive seguranças para sua proteção se for o caso), e não opinar sobre o tratamento, mas opinar somente quanto à capacidade laboral devidamente existente ou não. Isto não pode ser feito em menos de 10 minutos. Pessoas com menor favorecimento social e cultural sofrem ainda mais, pois não sabem contestar e exigir direitos que são da cidadania.

Nós médicos somos historicamente respeitados;podemos ganhar mal e trabalhar muito, mas somos respeitados ainda; violênciascomo as verificadas recentemente não ocorreriam por parte de pacientes que se julgam injustiçados se não houvesse falhas graves em todo o sistema de realização de perícias médicas; ao mesmo tempo que existem pessoas desonestas que querem beneficiar-se da maneira do popular dito “se encostar”, existem profissionais que realizam perícias sem critérios técnicos, sem qualificação profissional dentro da especialidade. Mas botar a colher na feijoada dos outros tornou-se um hábito tipicamente brasileiro, cada vez mais freqüente. E, no mesmo tema, assim como quem não quer nada, qual o perito do INSS teria a coragem de dar alta ao nosso Sr. Presidente, uma vez que trabalha e recebe, mas tem aposentadoria por invalidez?

Marcelo Lourenço de Toledo – médico psiquiatra 

 

Continuação da lista:

 

Assino embaixo da sua carta, Marcelo. Já testemunhei um caso de paciente que foi ao suicídio após terem o benefício negado, outros não chegam a tanto mas entram em desespero tendo sua condição ainda mais agravada ficando além de doentes incapacitados de sobreviver e até mesmo de comprar os remédios de que precisariam para melhorar (que estão sempre em falta no SUS). É uma condição aviltante e revoltante. Se a coisa continuar assim mais peritos serão agredidos e não é por culpa dos médicos assistentes que atestam a condição de seus pacientes. Em alguns casos (o que não significa que seja sempre assim) o médico foi agredido por ter provocado isso pela sua conduta inadequada de falta de respeito e consideração com o paciente. Muitos peritos não psiquiatras ridicularizam e humilham o doente mental, em geral pq desconhecem as características dos transtornos mentais. Além disso em alguns casos têm procedido de forma anti-ética depreciando as informações prestadas pelo médico assistente. Alguns, ao negar o benefício, botam a culpa no computador. Lamentavelmente os peritos estão sendo pressionados pelo sistema para agir contra o paciente e contra os princípios médicos e muitos estão entrando no jogo. É um tema delicado que não pode ser simplificado como fez o colega que escreveu para o Jornal do CFM. Quando li o artigo também tive vontade e enviar uma réplica. Acho que a ABP deveria tomar (se é que já não tomou) um posicionamento em relação a essa questão. Rubens Mazzini

 

Em casos assim recomendo que a parte prejudicada denuncie o perito ao CFM por imperícia. Art. 29 de Código de Ética, mas que antes pedissem reconsideração do anteriormente decidido. Em todos os casos telefonei para o perito e dei notícia de minha recomendação. Todos foram reconsiderados sem maiores problemas. É preciso considerar que a situação dos peritos é extremamente difícil. Todo mundo quer uma boquinha. Há dias em que no serviço em que trabalho, quase um quinto das consultas inclui um pedido de "atestado para encostar" ou tem exclusivamente esta finalidade. Luiz Salvador

 

E, apenas para ilustrar, um amigo neurocirurgião da Unicamp faria uma cirurgia para colocação de três placas na coluna de uma paciente com grave artrose. Com a cirurgia já agendada, ela começou a ter episódios repetidos de ansiedade e insônia. Pediu-me o amigo uma avaliação, foi medicada e ambos concordamos em fazer sessões de psicoterapia breve com foco no procedimento e a maior clarificação possível dos riscos e benefícios, readaptação e etc. A dita senhora tem 53 anos e é auxiliar de limpeza de uma empresa da região, e já estava afastada com auxílio-doença há 3 meses. Passou hoje em nova perícia, realizada por um urologista, que não chegou, segundo seu depoimento em pranto compulsivo, a ver sua tomografia, sua ressonância magnética, o relatório do neurocirurgião e nem o meu, e, por fim, limitou-se a dizer que estas “dorzinhas de costas” passam com qualquer voltaren. Nas suas palavras, relatou que queria enfiar-se em um buraco e nunca mais sair. Temos uma iatrogenia psíquica, um envenenamento mental forte. Quase quebranto. Perguntei se ela desejava fazer uma queixa de próprio punho; disse que não. “... Se tudo já está perdido, que continue perdido...” (sic). Marcelo Lourenço

 

 

 

Pois é, Marcelo. A situação é essa mesmo. Acredito que todos nós teríamos inúmeros exemplos como esse para contar. Existe uma situação muito grave por trás disso. Primeiro: Muitas empresas funcionam de forma extremamente primitiva, tratam os funcionários como escravos, tiram o suco e deixa só o bagaço para o INSS sustentar. Especialmente em fábricas. Há um número enorme de trabalhadores em burn out que acabam sofrendo de depressão, transtorno de pânico, e DORT devido ao estresse crônico. Depois disso as empresas lavam as mãos e entregam para o INSS. O paciente fica no limbo, não recebe o benefício e não é aceito de volta ao trabalho pela empresa. Segundo: uma das coisas que leva os funcionários (futuros pacientes) ao burn out é o famigerado "acordo". Isso está causando um rombo muito maior aos cofres da previdência do que eventuais simuladores de doença (que não devem chegar nem a 2% dos casos que procuram benefício). Para quem não sabe o que é o "acordo", é um instituto no qual o trabalhador é demitido para retirar o FGTS e ficar recebendo seguro desemprego enquanto continua "trabalhando frio" (sem carteira assinada) na empresa em regime escravo pra ganhar dobrado enquanto a empresa lucra não pagando os encargos sociais. É um conluio entre empregado/empregado r. Em geral o empregado faz isso para melhorar um pouco sua condição financeira, sem ter consciência de que com isso está detonando sua saúde, pois, em função do tal "acordo", acaba não tirando férias nunca. Em suma, esta "instituição" é uma máquina de produzir doentes. É incrível que essa situação ainda não tenha vindo à tona na mídia. Rubens Mazzini

 

 

 

FIBROMIALGIA

 

Uma droga específica para Fibromialgia foi aprovada pelo FDA e já lidera as vendas no mercado dos fármacos. A marca comercial é Lyrica, do Pfizer. Veja em

http://www.nytimes.com/2008/01/14/health/14pain.html?th&emc=th

 

Discussão:

 
A fibromialgia não seria - como muitos pensam - apenas mais um dos avatares da velha e boa histeria? Os médicos inventam novas "sindromes" e os histéricos, com sua infinita capacidade de se identificar, logo preenchem todos os requisitos da tal sindrome. E assim a coisa  vai...

 

 

(Ou da depressão. Marcos Klar)

 

 

Sergio, é mais complexo do que isso... Entra em cena a plasticidade neuronal - experiência pode ser inscrita na rede neuronal e persiste através do tempo, deixando traços que serão associados com outros vindos de outras experiências. A psicanálise fala de experiências que afetam a vida psíquica do indivíduo. Duas linguagens aparentemente incomunicáveis, de ordens heterogêneas, têm sugerido modelos - às vezes forçados - de um diálogo de antagonismos que resulta em splitting o indivíduo. Por exemplo, modelos de interação, de superposição, etc. entre essas duas categorias. François Ansermet (psicanalista) e Pierre Magistretti (neurocientista) oferecem o modelo que permite, através do conceito de plasticidade neuronal, uma interseção dessas duas ordens, demonstrando como uma afeta a outra - onde o mental marca o orgânico deixando traços de funções da experiência. Este é meu campo de interêsse e estudo, que me leva a repensar não somente a histeria, mas outros quadros da dor psíquica, inclusive aquela parte misteriosa a que Freud  se refere quando disse  "sabemos de duas coisas sobre o que chamamos de nossa psique (ou vida mental) - seu orgão corpo e a cena de ação, o cérebro (ou sistema nervoso), e por outro lado, nossos atos conscientes. .. Tudo que fica entre esses dois nos é desconhecido" .
Voltando ao artigo, cujo link enviei ao povo da lbp, nele, o Dr. Dan Clauw (professor de medicina na University of Michigan), disse que o MRI revela como as pessoas sofrendo de fibromialgia processam dor de maneira diferente, mas que não é possível determinar quem eventualmente irá ser diagnosticado fibromialgico simplesmente pelo resultado do scan".  Claro, cada um com sua rica metabolização de suas experiências, etc...  Por aí.
E não fica de fora, muito  pelo contrário, está na linha de frente com todas as cores capitalistas, o lucro financeiro imenso das companhias farmacêuticas, com esse novo remédio - Lyrica -  que já vinha sendo prescrito pra ataques e danos devido à diabete, e passou de 200 mil prescrições em 2005 à 800 mil em 2007! Irma Ponti

 

 

 

Entretanto algumas bases inflamatórias podem ser explicadas... Sugiro um artigo que trata do estresse e daquilo que se denomina 'sobrecarga alostática', aquele dano que ocorre após exposição continuada. Manoel Garcia

McEwen BS. Physiology and neurobiology of stress and adaptation: central role of the brain. Phsysiol Rev. 2007; 87:873-904.

 

 

 

Nunca vi qualquer caso da assim chamada fibromialgia que não apresentasse ansiedade crônica. Para mim, resulta de tensão prolongada de certos feixes musculares. A dor e o processo inflamatório são conseqüências. Luiz Salvador

ÉTICA E PSIQUIATRIA

 

http://www.cremesp. org.br/library/ modulos/publicac oes/pdf/edicao2_ etica_psiquiatri a.pdf

 

OPINIÃO

 

...Nem mesmo a psicanálise se elege como a "única", e existe um movimento sério e de bastante peso científico que tenta o diálogo da neurociência com a psicanálise. François Ansermet e Pierre Magistretti fazem um trabalho sério nesse sentido, e embora não sejam genros do Lacan, são lacanianos. :) Escreveram um livro batuta, Biology of Freedom - Neural Plasticity, Experience and the Unconscious (originalmente publicado com o título de À Chacun son Cerveau). Não joguemos o baby out with the water... Endosso as explicações do Edelman de que o cérebro humano não funciona como um computador (confusão de línguas dos que pensam que o inconsciente não existe). Concordo que existe sim um mundaréu de distorções "científicas" rodando por aí. Mas a loucura humana ainda carrega mistérios que podem ser desvendados à medida que nos dispusermos como psicanalistas, através da experiência e compreensão de diálogos com a neurociência, a não perdermos de vista a complexidade da mente humana. Reducionismo não tem lugar nesse novo paradigma. Nem do lado do que chamam de científico nem do lado da psicanálise. E a psiquiatria que ficar de um lado só vai virar sabão. Irma Ponti

 

HOMENAGEM

 

"Uma única coisa é necessária: a solidão. A grande solidão interior. Ir dentro de si e não encontrar ninguém durante horas, é a isso que é preciso chegar. Estar só, como a criança está só."

Rainer Maria Rilke

 


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