Volume 22 - Novembro de 2017
Editores: Giovanni Torello e Walmor J. Piccinini

 

Setembro de 2008 - Vol.13 - Nº 9

COLUNA PSIQUIATRIA CONTEMPORÂNEA

QUANDO USAR MEDICAÇÃO PSICOTRÓPICA?

Fernando Portela Câmara
médico-psiquiatra

Médicos de qualquer especialidade podem prescrever medicação psicotrópica, que compreende diversas classes de medicamentos psicoativos que visam controlar ou melhorar o funcionamento social, controlar a ansiedade e aliviar a dor emocional. Entretanto, ao se prescrever tal medicação, deve-se observar certas condições para evitar erro, pois, nunca é demais repetir os princípios racionais da boa prática psiquiátrica. A seguir, daremos as indicações que formam um consenso entre os psiquiatras e que devem ser observadas por todo médico, seja qual for a especialidade, que prescrevem este tipo de medicamento.

 

A primeira condição a se observar é que a indicação principal é o tratamento de uma condição psiquiátrica primária, o que exige um diagnóstico deve ser bem definido, ou seja, deve satisfazer à uma categoria definida na CID-10 ou DSM-IV. Este cuidado justifica-se pelo conhecido fato de variadas condições neurológicas, que geram incapacidade nas esferas motora, da linguagem, da sensopercepção ou da capacidade cognitiva, interferir nos testes psicológicos e no exame mental, podendo simular uma condição psiquiátrica.

 

Quando se trata uma condição psiquiátrica secundária, deve-se observar que o tratamento está condicionado à evolução do tratamento da condição primária. Um exemplo bem conhecido é o das epilepsias, que podem produzir certos tipos de alterações comportamentais importantes, como é o caso da epilepsia de lobo temporal. Usa-se medicação psicotrópica aqui como complemento ao tratamento neurológico, interrompendo a medicação quando a condição primária estiver sob controle, ou prosseguindo se os sintomas psiquiátricos ainda assim se mantém. Outras condições secundárias da clínica que podem necessitar de medicação psicotrópica são, por exemplo, o uso de antipsicóticos em baixas doses como auxiliares no tratamento da dor crônica, da hiperemese decorrente de quimioterapia, etc.

Pessoas emocionalmente estressadas, a ponto de ser isto um problema no seu desempenho social e convívio, frequentemente necessitam de medicação psicotrópica, porém, é preciso cautela. A prescrição deve estar acompanhada de uma intervenção psicoterapêutica, mesmo que breve, já que o problema geralmente é de natureza psicodinâmica. Quando se trata, porém, de indivíduos com transtorno de desenvolvimento exibindo comportamento desafiador-opositor, e que reconhecem a necessidade de controlar tal comportamento, a medicação está indicada. Isto, contudo, é mais complicado quando o indivíduo não discerne a necessidade do uso da medicação, o que requer do médico uma cuidadosa avaliação sobre a indicação da prescrição.


Pode-se também avaliar a necessidade de uma prescrição psicotrópica no caso de uma disfunção resistente aos tratamentos convencionais indicados, quando uma condição interfere significativamente com o funcionamento social do indivíduo e sua qualidade de vida. A indicação será avaliada quando as medidas de adaptação e de mudança de estilo de vida não produzem o efeito regulador esperado. Nestes casos, após a avaliação da necessidade do uso de um psicofármaco, é prudente e conveniente optar pelo uso de pequenas doses, com ocasional tentativa de reduzir ainda mais ou descontinuar a medicação. Isto é comum no caso de indivíduos com certos tipos de transtorno de personalidade, e também em casos de indivíduos com certos transtornos invasivos de desenvolvimento, mesmo quando a presença de um transtorno de ansiedade não está confirmada.


No tratamento da abstinência ou nos sintomas de descontinuação, tais como ansiedade, agitação, insônia, apatia, instabilidade comportamental, auto-estimulação, hetero- e auto-agressividade. Neste caso recomenda-se a retirada gradual da medicação psicotrópica como medida preventiva. Em outros casos, a retirada pode revelar uma discinesia tardia mascarada, e então um retorno ao medicamento em pequenas doses pode ser necessário. Os indivíduos com transtorno de desenvolvimento que exibem um perigoso comportamento de auto-agressão, devido a redução de endorfinas endógenas (neurotransmissores com efeito narcótico) é uma condição que requer intervenção de medicação psicotrópica. No que se refere à abstinência de café, álcool, nicotina, ou drogas ilícitas, se houver necessidade de intervenção psicotrópica, esta será sempre de curta duração.

 

Finalmente, usa-se medicação psicotrópica durante um procedimento médico quando é impossível conduzi-lo sem sedação. Isto pode acontecer nas intervenções odontológicas, nos exames de ressonância magnética e pet-scan, durante uma avaliação de ECG, EEG, e qualquer outra situação em que a ansiedade do paciente possa alterar as condições do procedimento, impedi-lo ou interferir nos resultados.

 

Tais são, em linhas gerais, as recomendações para uma boa prática médica onde a intervenção farmacopsíquica seja necessária.


TOP