Volume 22 - Novembro de 2017
Editores: Giovanni Torello e Walmor J. Piccinini

 

Novembro de 2008 - Vol.13 - Nº 11

Artigo do mês

DESCRIÇÃO E TRATAMENTO DO TRANSTORNO DA "MANIA" EM PERNAMBUCO
SEGUNDO O MÉDICO SIMÃO PINHEIRO MORÃO (c.1618-1685)

Argus Vasconcelos de Almeida
Doutor em Psicologia; Professor Adjunto do Departamento de Biologia da UFRPE

Introdução


Simão Pinheiro Morão era filho de um advogado de origem judaica Henrique Morão Pinheiro e de Marquesa Mendes, nascido em Covilhã (na Beira baixa, Portugal), onde foi batizado a 4 de Março de 1618, aí fazendo os primeiros estudos até 1635, ano em que seguiu para Coimbra. Três anos passados, rumou para Salamanca a fim de cursar medicina, mas a revolução de primeiro de Dezembro de 1640 a que aderiu fez com que regressasse a Coimbra, onde concluiria a formatura (SILVA & CASTELO BRANCO, 1998).

Entre 1649 e 1651 exerceu a profissão em Covilhã; depois, passou a Lisboa e Almada, onde se estabeleceu como médico. Mas, perseguido pela Inquisição, que torturou à sua vista fez queimar o seu pai num auto-de-fé em 1668, fugiu para o Brasil, fixando­se no Recife. Viveu em Pernambuco e aqui assistiu a uma epidemia de varíola em 1682, tendo adoecido durante esta última. Sua doença teve uma evolução de certa gravidade, segundo o modo como ele próprio se refere “há dois meses numa cama, assaltado da mais rebelde enfermidade, que na medicina há”.

Entretanto, existem controvérsias entre os autores sobre a sua doença: DUARTE (1956) levanta dúvidas se teria sofrido de varíola, pelos termos das suas afirmações, acha mais certo que teria sofrido de gota. Terá sido com muita dificuldade que reuniu forças para escrever o seu tratado, por ordem de D. João de Sousa, cavaleiro real e alcaide mor de Pernambuco.

Nem mesmo no Recife conseguiu ter paz para o desempenho da profissão, conforme se deduz de uma exposição por ele apresentada em Lisboa em 1675, em que se queixava de lhe fazerem aqui “várias descortesias, tratando-o mal com assobios e afrontas públicas”, chamando-lhe sambenitado e, em razão de trazer o hábito penitencial, “se não queriam curar com ele”.

As suas queixas acabariam por terminar quando foi dispensado, a 3/9/1675, de usar o hábito penitencial. Escreveu e divulgou, sob o pseudônimo de Romão Mosia Reinhipo, anagrama do seu nome, diversas obras, destacando-se o seu Tratado único das bexigas e sarampo, impresso em Lisboa no ano de 1683, que é considerada uma das primeiras obras em vernáculo sobre a medicina brasileira.

Morão foi casado com Mécia Ribeiro de Azevedo, de quem teve o filho Henrique Morão Pinheiro, que foi médico da câmara de D.João V e Cirurgião-Mor do Reino (ANDRADE, 1956).

Veio a falecer no Recife em 1685, provavelmente vítima do primeiro surto de febre

amarela no Brasil e foi sepultado na Igreja da Ordem Terceira de São Francisco do Recife, entre o primeiro e o segundo lance da escadaria de acesso ao claustro, onde existe no piso uma grande lápide onde se lê: “Aqui jaz o médico Simão Pinheiro Morão, ano, 1685”.

Morão escreveu o seu Tratado sem referências bibliográficas diretas, pois informa-nos que devido à sua doença “até a lição dos livros me faltou, em que pudera polir a rudeza deste papel, faltando-me as forças para os ler”. Porém, no desenvolvimento do trabalho, apoia­se em diversos autores de memória, sendo alguns de importância e que pertencem hoje ao patrimônio da história da medicina. É por exemplo o caso do médico espanhol, Luís Mercado, falecido em 1606 e que é várias vezes citado; Girolamo Cardano (1501-1576), médico, matemático e cientista do século XVI; Daniel Sennert (1572-1637), que escreveu um ensaio síntese entre o galenismo, o paracelsismo e o atomismo; e os portugueses Zacuto Lusitano (Diogo Rodrigues Zacuto, 1575 – 1642), Amato Lusitano (João Rodrigues Castelo Branco, 1511-1568) e muito especialmente Luiz Rodrigues de Pedrosa, do qual foi discípulo na Universidade de Salamanca. A referência a autores conceituados significa que Morão tinha uma sólida formação, alicerçada nos melhores escritos médicos da época (MARQUES, 1998).

No Tratado único das bexigas e do sarampo encontra-se, com bastante clareza, a distinção entre a varíola e o sarampo. Persistia ainda no século XVII muita confusão quanto à individualização clara dessas doenças. O sarampo era confundido muitas vezes com a outra doença referida. A importância do livro de Morão é a de descrever, com bastante rigor, as manifestações da varíola e fazer aquela distinção.

Outra obra sua pouco conhecida foi a das Queixas repetidas em ecos dos Arrecifes de Pernambuco contra os abusos médicos que nas suas capitanias se observam tanto em dano das vidas de seus habitadores, escrita em Pernambuco em 1677, anterior ao Tratado, portanto, onde no capítulo quinto descreve, pela primeira vez no Brasil, o transtorno da Mania.

 

Descrição e Tratamento da Mania

            Escreve Morão sobre a doença seguindo a noção hipocrática da influência geográfica e ambiental nas doenças:

 

É a região, quase toda, do Brasil tão cálida em extremo, que com justa causa lhe chamaram os cosmógrafos antigos zona tórrida, tendo para si que era então inabitada, principalmente este estado de Pernambuco, em que hoje habitamos, que ao depois mostrou a experiência serem as virações do mar o seu refrigério, e o remédio para a podermos habitar com tanta suavidade. E como a variedade dos climas, fazem também variar os humores, que neles predominam, daqui nasce serem os humores coléricos adustos, e o sangue torrado os dois principais, que neste nosso clima de Pernambuco reinam, fazendo estes tais humores, muitas e várias doenças principalmente a da mania, que é um acidente repentino, de que neste capítulo queremos tratar a que uns autores chamam mania, e outros mal lunático, ou mal de lua, pois nelas, principalmente, são acometidos os enfermos deste acidente (MORÃO, 1965, p.160).

 

Morão inicialmente faz algumas distinções dos distúrbios mentais, pois considera a mania como:

 

Um delírio sem febre com audácia, e temeridade, e de tal maneira, que é necessário muitas vezes amarrar aos doentes, e prendê-los, tirando-lhes do aposento, em que assistem todos os instrumentos de ferro, com que possam ofender-se a si ou a outrem; é delírio sem febre para conhecermos a diferença, que vai da mania ao frenesi, porque neste é o delírio com febre, e na mania sem ela. É com audácia, e temeridade, porque talvez arremetem os doentes a quem lhe assiste, e por isso é necessário que os enfermeiros andem acautelados com eles; diferença-se também a mania da melancolia hipocondríaca, porque nesta é o delírio também sem febre, mas com temor e tristeza, e na mania é com audácia, e temeridade fazendo ações mui desordenadas e descompostas e nelas conhecemos a diferença que vai de um acidente a outro: porque no frenesi há febre e na mania não; na melancolia há temor e tristeza e na mania audácia, e temeridade, e desta sorte se diferençam uns acidentes dos outros (MORÃO, 1965, p.161).

 

Quanto a sua origem Morão acredita que:

 

Duas diferenças de mania somente achamos referidas dos nossos doutores; a primeira é ser nascida dos humores que as outras partes do corpo mandam ao cérebro, e destes humores que sobem nasce a mania e esta é a diferença a que chamamos por consentimento das outras partes, e como estas lhe mandam os humores à cabeça a estas como à fonte havemos de acudir; a segunda diferença é a que chamam idiopática que por outro nome se diz por propriedade do miolo somente, porque, mandando a natureza os alimentos ou os humores bons ao miolo, não os podendo converter em boa substância os converte em humores viciosos; e estes são os que fazem o acidente, idiopático, sem ser comunicado de outra alguma parte do corpo; com o que lhe chamam acidente por propriedade da cabeça somente e não comunicado de outra alguma parte do corpo. Enquanto às causas deste acidente repentino temos dito serem os humores coléricos adustos, e atrabiliosos a causa, que os fazem, ou gerados no mesmo miolo, ou comunicados de outra parte do corpo, introduzindo no mesmo cérebro uma intemperança quente, e seca e uma qualidade maligna que lhe faz o delírio; e estas são as causas deste acidente (MORÃO, 1965, p.161).

 

Quanto aos seus “sinais”, escreve Morão que:

 

Três castas de sinais traz Rivério para podermos conhecer perfeitamente este acidente da mania; uns sinais nos mostram quais sujeitos são capazes, para virem a cair nele; outros sinais mostram o acidente que está próximo a vir, e outros sinais que o mostram padecendo-o já o enfermo; os sinais daqueles que são capazes de cair em o tal acidente da mania, são os homens mais comumente do que as mulheres, principalmente aqueles, que têm o temperamento colérico adusto, que têm as ações ligeiras e a cor do rosto morena; os pulsos grandes e fortes, pessoas de boa idade, moços e em tempo do Estio, e Outono. Os sinais que mostram o acidente que está para vir são dor de cabeça, contínuas vigílias, e imaginações repetidas, sonos turbulentos; temores, e tremores nascidos de leve causa, candeiinhas diante dos olhos, zunidos nos ouvidos, luxúria, e poluções noturnas, risos sem propósito, e falar muito sem razão, e outras vezes não falarem com soturnidade. E estes são os sinais de querer vir o acidente. Os sinais que mostram o acidente já dado são: os delírios, o arremeterem a quem lhe assiste, serem iracundos, e furiosos; dizerem ridicularias, e risos desordenados, inquietos, tristes, e horrendos no aspecto; amigos da soledade, muito calados, e lacrimosos, e estes são os sinais por onde podemos conhecer o acidente repentino da mania, que é o de que agora tratamos (MORÃO, 1965,p.162)

 

Morão acredita que as suas causas estão relacionadas com a qualidade dos humores:

 

A primeira por ser nascido do mais cruel humor, que no corpo humano há, que é a cólera adusta, ou atrabílis, que de sua natureza é humor rebelde, e arriscado; a segunda causa de sua rebeldia é não obedecerem os enfermos aos preceitos dos médicos; a terceira por ser mal hereditário, que muitas vezes dura até a morte; a quarta é pelos enfermos não quererem aceitar as mezinhas, que lhes são necessárias, e conforme a isto são mais fáceis de curar os maníacos que têm risos e ridicularias; do que os furiosos, porque nestes domina a cólera, e naqueles o sangue; e também são muito mais fáceis de curar aqueles em quem a natureza faz evacuações por suores, fluxos de sangue, e os de câmaras, principalmente o das almorreimas, e varizes, do que nos outros (MORÃO, 1965, p.162).

 

Descreve então as “tensões curativas” sob a perspectiva da medicina humoral:

 

Com três tensões curativas se acode a este acidente da mania: quando o queremos curar; a primeira é evacuar, diminuir, ou despejar os humores de que as veias do corpo estão cheias; a segunda tensão curativa, é desviar, ou repelir estes humores, que sobem à cabeça para as partes baixas para que não façam no miolo maior bataria; a terceira tensão é temperar, ou refrescar o grande calor, que estes humores quentes fazem no corpo humano, pois que nos faz a guerra neste acidente é a cólera, e o sangue torrado, e por isso sentem os enfermos tanto calor no corpo; que necessitam dos maiores refrescos; e satisfazendo nós a estas três tensões curativas podemos esperar (mediante Deus) bom sucesso, e melhoria no acidente (MORÃO, 1965, p.163).

Morão considerava a mania como um dos tipos de delírio. Assim, descrevendo os tipos de delírios (baseado em Sennert e Honston) afirma que o delírio simples deve ser definido como uma “ação depravada da fantasia, nascida dos espíritos animais, imundos, que da intemperança do cérebro se levantam”. Cita Galeno que define o delírio como um movimento depravado dos sentidos internos cognoscitivos, que podem errar nas suas ações nascidas da destemperança quente e seca do cérebro que os humores lhes causam. Assim, “os humores ou fumaças que sobem à cabeça a destemperam de tal maneira que dele se levantam fumaças aos sentidos internos tão nocivas que havendo de mandar boas espécies ao entendimento lhas mandam viciadas e depravadas, e como o entendimento se informa destas não as podendo ele emendar, como o faz nas vertigens, consente no tal erro e então se forma o delírio, que é a ação depravada do entendimento e dos sentidos”. Para o médico alemão Daniel Sennert (1572-1637) citado por Morão, existem três tipos de delírios: 1) “Delírio simples”, com ou sem febre, causado pela subida ao cérebro de vapores quentes, que, no entanto não causam inflamação (pois se assim ocorresse seria o frenesi). Os enfermos falam disparates e riem sem propósito, mas não continuamente; 2) “Parafrenites” é o delírio com febre descontínua; 3) “Temulência”, também chamada de “bebedice”, causada pela fumaça ou vapores crassos e grossos que do vinho, da cerveja e outras bebidas se levantam à cabeça (FOUCAULT, 2005).

Desta forma, conclui Morão, os delírios variam conforme os humores que sobem à cabeça. Se for sangue faz os delírios risonhos, se for cólera faz os delírios iracundos, se for fleima faz os delírios calados e os enfermos sonolentos e se for melancolia faz os delírios medonhos, tristes e solitários (MORÃO, 1965, p.169-170).

Segundo Foucault (2005) no final do século XVII produziu-se um novo evento no projeto de classificação dos “vapores” distinguindo-os de acordo com os mecanismos de perturbação e localização, sendo os “vapores gerais” nascidos de todo o corpo; os “vapores particulares” formados numa determinada parte. Os primeiros provinham da supressão do curso dos “espíritos animais” e os segundos de “um fermento” nos nervos. Nesse sentido podemos assinalar a atualidade do texto de Morão em escrever sobre as “fumaças” afetando o cérebro dos maníacos.

Em 1672 o médico inglês Thomas Willis (1621-1675) publicou a sua obra De Anima Brutorum que na segunda parte trata das “doenças que atacam a alma animal e sua sede, isto é, o cérebro”, onde escreve sobre o frenesi como uma espécie de furor acompanhado por febre e que seria necessário distinguir do delírio, sendo a mania um furor sem febre e a melancolia, sem furor nem febre, caracteriza-se por uma tristeza e um pavor, com uma única preocupação. Willis opunha a mania a melancolia. O espírito do melancólico seria inteiramente ocupado pela reflexão, a imaginação permaneceria em repouso. No maníaco, ao contrário, fantasia e imaginação veriam-se ocupadas por um eterno fluxo de pensamentos impetuosos (FOUCAULT, 2005).

Foi Willis que observou, pela primeira vez, o ciclo maníaco-depressivo ou alternância mania-melancolia, quando escreveu: “Após a melancolia, é preciso tratar da mania, que tem com ela tantas afinidades, que essas afecções freqüentemente se substituem uma à outra” (FOUCAULT, 2005).

Atualmente o transtorno bipolar caracteriza-se pela ocorrência de episódios de “mania” (caracterizados por exaltação do humor, euforia, hiperatividade, loquacidade exagerada, diminuição da necessidade de sono, exacerbação da sexualidade e comprometimento da crítica) comumente alternados com períodos de depressão e de normalidade. Com certa freqüência, os episódios maníacos incluem também irritabilidade, agressividade e incapacidade de controlar adequadamente os impulsos.

As fases maníacas caracterizam-se também pela aceleração do pensamento (sensação de que os pensamentos fluem mais rapidamente), distraibilidade e incapacidade em dirigir a atividade para metas definidas (embora haja aumento da atividade, a pessoa não consegue ordenar as ações para alcançar objetivos precisos). As fases maníacas, quando em seu quadro típico, prejudicam ou impedem o desempenho profissional e as atividades sociais, não raramente expondo os pacientes a situações embaraçosas e a riscos variados (dirigir sem cuidado, fazer gastos excessivos, indiscrições sexuais, entre outros riscos). Em casos mais graves, o paciente pode apresentar delírios (de grandeza ou de poder, acompanhando a exaltação do humor, ou delírios de perseguição, entre outros) e também alucinações, embora mais raramente. Nesses casos, muitas vezes, o quadro clínico é confundido com a esquizofrenia (DEL PORTO & VERSIANI, 2005).

Os termos “mania” e “melancolia” remontam a vários séculos antes de Cristo e, ainda hoje, correspondem aproximadamente a seus conceitos originais. Embora mais abrangentes e imprecisos, em seus aspectos principais, lembram muito as descrições do que hoje se chama doença bipolar (DEL PORTO & DEL PORTO, 2005).

Entre os antigos, foi Araeteus da Capadócia, que viveu em Alexandria no século I depois de Cristo, quem escreveu os principais textos que chegaram aos dias atuais, referentes à unidade da doença maníaco-depressiva. Araeteus celebrizou-se pela acurácia de suas descrições, principalmente da mania e da melancolia. Araeteus foi o primeiro autor a explicitamente estabelecer um vínculo entre a mania e a melancolia, concebendo-as como aspectos diferentes da mesma doença (DEL PORTO & DEL PORTO, 2005).

            Coerente com o quadro teórico da época, a formação hipocrático-galênica de Morão indicava “três tensões curativas” para a doença da mania: a primeira é “despejar os humores”; a segunda é desviar estes humores da cabeça “para as partes baixas para que não façam no miolo maior bataria” e a terceira “é temperar, refrescar o grande calor, que estes humores quentes fazem no corpo humano”.

            Para a primeira e segunda “tensões curativas” o médico recomenda muitas sangrias; sendo feita nos braços as “evacuatórias” e nos pés as “revulsivas” para desviar os humores da cabeça.

Para NUÑEZ (2002) A prática da flebotomia é antiqüíssima e provavelmente teve a sua origem no conceito de menstruação ou “purga” considerada como uma purificação. Para o autor, durante o século XVI foi aplicada aos maníacos (mania sanguínea) e aos melancólicos (melancolia sanguínea).

Os médicos portugueses dos séculos XVI e XVII, nos tratamentos que dispensavam a qualquer doença visavam neutralizar a ação dos humores corruptos. Então, combatiam o mal-estar do paciente receitando regimes alimentares e medicamentos compostos de elementos com qualidades opostas às substâncias nocivas que dominavam o organismo ou através da sangria. Indicada no caso de contusões, dores reumáticas e inflamações, a sangria assumiu progressivamente a primazia do tratamento médico, tornando-se inseparável do repertório das práticas curativas. A obra de Galeno contribuiu decisivamente para esta orientação. Na sua concepção o sangue não fazia um movimento circular e sim centrífugo, convergindo para os tecidos sem retornar ao ponto de origem. Por não conceber a circulação do sangue, sua tese justificou definitivamente o emprego da flebotomia. Ao secionar uma veia, acreditava-se que o desvio do fluxo sangüíneo, do seu local de destino para a zona do corte, permitia que todos os humores danosos que entravam em contato com o sangue em sua jornada pelo corpo fossem recolhidos. A prática clínica desenvolveu-se rigorosamente dentro deste quadro. Prescrita por médicos e executada por barbeiros, a sangria impôs-se e manteve-se como a soberana das técnicas de tratamento (SANTOS, 2005).

Munidos de lancetas, bacias, pós restritivos para estancar o sangue, bichas (sanguessugas), ventosas de tamanhos variados para sangrias no pescoço e abdome, os barbeiros socorriam qualquer um. O procedimento da flebotomia era usado para expelir os humores danosos que atuavam sobre um ponto específico do corpo (evacuação), para desviar o fluxo sangüíneo e conduzi-lo para o lado oposto, evitando derrames na parte afetada (diversão), para levar o humor a uma parte específica (atração), provocando o mênstruo, por exemplo, e para modificar a qualidade do humor maligno predominante (alteração). Era empregado ainda para conservar os humores sãos, prevenindo uma enfermidade (preservação), e para amenizar dores ou baixar a temperatura do corpo, no caso de febres (aliviação) (SANTOS, 2005).

Para a terceira “tensão curativa” MORÃO (1965) recomendava inicialmente a aplicação de “purgas” para serem ingeridas pelo paciente: a primeira composta de “água de borragens”, “almeirão” e “água de Lúpulo”. A segunda denominada de “xarope de rei”, composto de cozimento fresco de “flores cordiais” e folhas de “sene”. A terceira feita de xaropes de laranjas cobertas de açúcar.

            Purgas para pacientes “furiosos”: 1) Dar de beber “pós cornachinos” (pó purgativo de bitartarato de potássio ou cremor de tártaro e antimônio) em caldo de galinha, “tapioca de batata” e água de “sene”; 2) Cevada sem casca, raízes de “chicória”, “borragens”, raízes de “escorcioneira”, “pólipo”, folhas de “betônica”, “ameixas doces”, “flores cordiais” e “sementes frias” (como o almeirão, por exemplo), folhas de “sene” e “açúcar rosado de Alexandria” (açúcar resultante do cozimento de rosas). Em seguida passava a descrever os remédios para o mal, entre os quais enfatizava, 1) os banhos quentes de imersão; 2) ingestão de soros depurativos com “sene” e “cremor Tártaro” (bitartarato de potássio); 3) ingestão de soros de leite fermentado, sendo o mias eficaz o da mulher, seguido do de cabra, de vaca, de ovelha e finalmente o de burra.

Para MORÃO (1965) um dos mais indicados tratamentos dos maníacos “furiosos” era o sono induzido pela ingestão de caldo de frango, “leite de amêndoas”, água rosada e açúcar (segundo indicação de Montano). Segundo o médico citado Benedito Faventino, deveria-se aplicar nas fontes, nas ventas nos pulsos e na sola dos pés o ungüento de “populião fresco”, óleo de “golfão”, açafrão e ópio; sumo de coentro e leite de mulher para aplicar nas fontes, cobrindo-se com folhas de salva e pasta de rosas secas; a receita de Lázaro Rivério (1589-1655): óleos de “golfão”, de “violado”, de “dormideiras” misturados com mucilagem de “zaragatoa”, de “alforuas” ou linhaça aplicado às fontes; a receita de Rivério e João Honston com cautério (qualquer agente empregado para queimar tecidos com finalidade terapêutica) na sutura coronal ou aplicação de animais abertos e ainda quentes na cabeça, tais como cães recém nascidos ou pulmões frescos de carneiro.

            O médico português tinha total dependência da importação das plantas ou produtos medicinais, não adotando em sua prática médica o rico arsenal das plantas medicinais brasileiras, ao contrário de Guilherme Piso quarenta anos antes. Mesmo que tivessem alguma eficácia no tratamento indicado acontecia freqüentemente que os produtos vegetais medicinais importados perdiam a validade de seu princípio ativo durante as longas viagens de travessia do Atlântico da Europa para o Brasil.

A medicina ensinada em Portugal e Espanha nos tempos de Morão baseava-se nos princípios da escola hipocrática e nos ensinamentos galênicos, divulgados na Península Ibérica quando passou ao domínio do Islã no século VIII.

Desde a formação do Estudo Geral, em 1290, na cidade de Lisboa, até o fim do setecentos, gerações de médicos emitiram diagnósticos e receitaram mezinhas, considerando que cada ser vivo ou bruto era resultado da composição de quantidades variáveis de terra, água, fogo e ar. Guiados pelos pressupostos da medicina antiga, entendiam que a combinação destes quatro elementos no organismo humano dava origem a quatro humores distintos: o sangue e a bílis amarela, produzidos pelo fígado, a fleuma, produzida pelo cérebro e a atrabílis (bílis negra), produzida pelo baço. Como suas qualidades originais o quente, o frio, o seco e o úmido estavam sujeitos a forças internas ou externas capazes de alterá-los, os pneumas, asseguravam que a origem de todas as doenças residia no acúmulo destes líquidos orgânicos em uma região do corpo (SANTOS, 2005).

Os médicos portugueses defendiam, tal e qual os antigos, que o organismo era portador de uma força curativa que lhe era inerente e, por isto, o próprio corpo procurava libertar-se espontaneamente dos efeitos nocivos de qualquer desequilíbrio humoral através de secreções. Deste modo, a fleuma, fria, úmida e transparente, era expelida pelo nariz, nos resfriados; a bílis, amarela, quente e seca, era expulsa pelo vômito, nas alterações digestivas; a atrabílis, escura, fria e seca, era excretada junto com as fezes, nas afecções intestinais, enquanto o sangue, vermelho, quente e úmido, se desprendia das feridas e acompanhava a expectoração das doenças pulmonares. Em outras palavras, a saúde era conseqüência de uma combinação humoral harmônica e a doença era o sinal de um desajuste, de uma ruptura neste equilíbrio natural (SANTOS, 2005).

 

Considerações Finais

É inegável o pioneirismo do médico Simão Pinheiro Morão na descrição de transtornos mentais na capitania de Pernambuco no final do século XVII. Na mesma obra (MORÃO, 1965) em que descreve a “mania” (cap.5), descreve também o “delírio” (cap.6) e também a “epilepsia” (cap.4).

Médico de formação erudita, atualizado em todas as doutrinas médicas do seu tempo, sua presença em Pernambuco revela a lógica perversa do anti-semitismo da Inquisição. Veio para o Brasil para se livrar da perseguição aos cristãos-novos e nem mesmo aqui teve paz. Viveu o resto dos seus dias discriminado a quem os pacientes recusavam-se de serem tratados, humilhado pelas ruas por usar o hábito penitencial “sambenito”.

 

Referências

ANDRADE, G.O. (Org). Morão, Rosa e Pimenta: notícia dos três primeiros livros em vernáculo sobre a medicina no Brasil. Recife: Arquivo Público Estadual,.1956. 567p.

DEL PORTO, J.A.; VERSIANI, M. Transtorno bipolar: tratando o episódio agudo e planejando a manutenção. Jornal Brasileiro de Psiquiatria, 54(2): 84-88. 2005.

DEL-PORTO, J.A.; DEL-PORTO, K. O. História da caracterização nosológica do transtorno bipolar. Revista de Psiquiatria Clínica. 32: 7-14. 2005.

DUARTE, E. Comentários. In: ANDRADE, G.O. (Org). Morão, Rosa e Pimenta: notícia dos três primeiros livros em vernáculo sobre a medicina no Brasil. Recife: Arquivo Público Estadual. 1956. p.57-112.

FOUCAULT, M. História da loucura: na idade clássica. 8a ed. São Paulo: Perspectiva. 2005. 551p.

MARQUES, A.L. Simão Pinheiro Morão:um médico da beira do séc. XVII entre Salamanca e as Índias Ocidentais. Cadernos de Cultura. 12: 32-38. 1998.

MORÃO, S.P. Queixas repetidas em ecos nos arrecifes de Pernambuco. Lisboa: Junta de Investigações Ultramarinas. 1965. 180p.

NÚÑEZ P.P. La sangria. Barranquilla: Salud Uninorte. (Col.). 16: 5-8. 2002.

SANTOS, G.S. A arte de sangrar na Lisboa do antigo regime. Rio de Janeiro:Tempo. 19: 43-60. 2005.

SILVA J.C.; CASTELO BRANCO M.S. Médicos da Beira Baixa nas Índias (séculos XVI e XVII). Cadernos de Cultura. 12: 27-32. 1998.


TOP