Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Setembro de 2007 - Vol.12 - Nº 9

História da Psiquiatria

CONTRIBUIÇÕES PARA O Estudo da História DA PSIQUIATRIA

Solange Tavares Rubim de Pinho
Professora Adjunta de Psiquiatria Infanto-Juvenil do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina – Universidade Federal da Bahia (Ufba); Doutora em Medicina Interna pela Fundação Bahiana para o Desenvolvimento das Ciências (FBDC).
Simone Tavares Rubim de Pinho Lima
Historiadora, Analista de Assuntos Culturais na Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb).
Nadja Maria Maia
Bióloga; Psicoterapeuta Reichiana.
Marlene Lage Cajazeira Ramos
Bibliotecária, Especialista em Metodologia do Ensino Superior.

O ser humano, mesmo em períodos anteriores à invenção da escrita, já procurava compreender as peculiaridades do seu comportamento. Os doentes mentais eram freqüentemente torturados, temidos ou mesmo discriminados pelos indivíduos considerados normais. Não raro as doenças eram atribuídas a influências malignas sobrenaturais. Não existia separação entre o sofrimento físico e o mental, nem tampouco entre medicina, religião e magia (ALEXANDER & SELESNICK, 1968; KAPLAN & SADOCK, 1986).

Povos antigos, como os mesopotâmicos, os egípcios, os hebreus, os persas, os gregos primitivos, os chineses e os hindus, seguiram dando ênfase à religião e à magia em suas práticas médicas. As doenças mentais eram, geralmente, consideradas como males decorrentes de castigo por faltas morais ou da entrada de um espírito do mal no organismo do indivíduo (WHITWELL, 1936). Paralelamente a essas idéias, que dominaram por séculos na maior parte das culturas por todo o planeta, novos conceitos foram introduzidos desde a Antiguidade Clássica.

O filósofo Platão (427-347 A.C.) contribuiu para o desenvolvimento do pensamento do homem com a concepção de realidade psíquica, reconhecendo a existência de uma inter-relação entre corpo, raciocínio, desejo e emoção. Seu discípulo, o filósofo e cientista Aristóteles (384-322 a.C.), ofereceu ao mundo relevantes descrições do conteúdo da consciência (ALEXANDER & SELESNICK, 1968; KAPLAN & SADOCK, 1986; STONE, 1999).

Na medicina, o grande expoente da Grécia antiga foi Hipócrates (460-377 a.C.), por ter atribuído às doenças causas naturais. Ele relacionou os distúrbios mentais a alterações no cérebro (KAPLAN et al., 1980).  Os romanos desempenharam um papel importante por terem registrado os escritos médicos dos gregos, transmitindo relevantes conhecimentos às civilizações futuras (WHITWELL, 1936).

Na Idade Média, evidenciou-se com clareza o conflito conhecimento–fé. Com o declínio da civilização greco-romana, o homem retomou a crença no sobrenatural. A Igreja incumbiu-se de cuidar do homem e de suas doenças, usando o exorcismo a fim de expulsar o demônio dos corpos, isto é, para tratar perturbações humanas.  Os loucos eram recolhidos em casas de internamento, juntamente com prostitutas, mendigos e criminosos. Em 1409, surgiu o primeiro hospício, em Valencia, na Espanha. No período da Inquisição (século XII) concepções mágicas e teológicas levaram à fogueira indivíduos portadores de doença mental (ALEXANDER & SELESNICK, 1968; WHITWELL, 1936).

A Renascença caracterizou-se pelo redirecionamento do homem em busca da apreensão da realidade. O cientista Johann Weyer (1555-1588) descreveu algumas entidades diagnósticas em psiquiatria, tais como: psicoses tóxicas, psicoses senis, paranóia, epilepsia, depressão e folie à deux (KAPLAN & SADOCK, 1986).

No século XVII, quando o raciocínio indutivo se aliou ao julgamento intuitivo, a doença mental, gradativamente, desvinculou-se do misticismo e da religião. Nessa ocasião, a psiquiatria começou a caracterizar-se como um ramo da medicina. Paulo Zacchia (1584-1659), estudioso de medicina legal, acreditava que só o médico tinha competência para avaliar a condição mental do indivíduo. Empirismo, racionalismo, observação e classificação marcaram o período do Iluminismo – século XVIII –, possibilitando um maior entendimento dos distúrbios psiquiátricos, assim como a busca de um contato mais humano com os portadores de insanidade mental. Nesse período, loucos, criminosos, prostitutas e vagabundos eram trancados em asilos, onde vigorava um sistema repressivo (ALEXANDER & SELESNICK, 1968; KAPLAN & SADOCK, 1986).

Nesse contexto, Philippe Pinel (1745-1826), médico francês, libertou os doentes das correntes e separou-os dos demais internos, quando dirigiu o Bicêtre e, mais tarde, a Salpêtrière em Paris. Em 1801, Pinel fez a primeira alusão ao que mais tarde ficou conhecido como transtorno de personalidade (ALEXANDER & SELESNICK, 1968; KAPLAN et al., 1980). O método de Pinel foi aplicado por seu discípulo Jean Etienne Esquirol (1772-1840), que enfatizou o papel das emoções na origem da doença mental (EY et al.).

Na década de 1860, as observações de Charcot (1825-1893), médico neurologista na Salpêtrière, atraíram as atenções para os fatores psicológicos como mecanismos causadores da histeria. Ele utilizou a hipnose, posteriormente aprofundada nos estudos de Freud (KAPLAN et al., 1980; ZILBOORG, 1941; EY et al.).

No início do século XIX, Johann Reil (1759-1813) foi o primeiro a usar o termo psiquiatria, referindo-se ao tratamento da mente. Posteriormente, já em meados desse século, a psiquiatria firmou-se como especialidade, ganhando orientação científica e acadêmica (STONE, 1999; KAPLAN et al., 1980).

Estabeleceram-se marcantes discussões entre organicistas e idealistas a partir do século XIX. A teoria organicista, segundo a qual as doenças mentais seriam decorrentes de causas cerebrais, foi defendida por Griesinger (1817-1868), Maudsley (1838-1918), Von Krafft-Ebing (1840-1902), Wernicke (1848-1905), Korsakov (1854-1900) e Cerletti (1877-1963), dentre outros. A concepção denominada idealista – que afirmava serem os distúrbios mentais decorrentes de mecanismos psicológicos – teve representante como Freud (1856-1939), Jung (1884-1958), Melanie Klein (1882-1960), Karen Horney (1885-1952) e Otto Rank (1884-1939) (ALEXANDER & SELESNICK, 1968; PALOMBA, 2003).

No entanto, muitos cientistas, a exemplo de Esquirol (1772-1840), Herbart (1776-1841), Jean Pierre Falret (1794-1870), Morel (1809-1873), William James (1842-1910), Eugen Bleuler (1856-1939) e Gilles de La Tourette (1857-1904), entendiam que corpo e alma – soma e psyché – eram instâncias distintas, mas atuavam conjuntamente na determinação do fenômeno saúde–doença. Esses grandes mestres romperam à dicotomia que prevalecia, até então, abraçando a concepção unicista (PALOMBA, 2003; MAYER-GROSS et al., 1972).

A importância do psiquiatra alemão Emil Kraepelin (1855-1926) deve-se ao fato de ter ele demonstrado a necessidade de a psiquiatria incorporar o modelo médico, com a descrição detalhada dos sintomas e a organização dos achados clínicos. Ele sistematizou as síndromes e estabeleceu o diagnóstico nosológico, isolando as duas formas básicas de adoecimento psíquico – demência precoce e loucura maníaco-depressiva – e distinguindo as demências senis da paralisia geral (ZILBOORG, 1941).

Coube ao suíço Adolph Meyer (1866-1950) impulsionar a psiquiatria americana nas primeiras décadas do século XX. Para ele, era possível entender melhor o indivíduo considerando não apenas os aspectos constitucionais, mas também os fatores ambientais (ALEXANDER & SELESNICK, 1968; STONE, 1999).

Sigmund Freud (1856-1939), médico austríaco, destacou-se como a mais representativa figura da psicanálise, tendo desempenhado papel importante na compreensão da mente humana. Coube a ele desenvolver a teoria e a técnica do tratamento psicanalítico.

O psiquiatra alemão Eugen Bleuler (1857-1939), em 1924, estudou sobre a demência precoce, para a qual propôs o nome esquizofrenia, e descreveu os sintomas que considerou fundamental na identificação da doença (STONE, 1999; KAPLAN et al., 1980).

No que se refere aos estudos das patologias, destacaram-se Karl Jaspers (1883-1979), Kurt Schneider (1887-1967) e Henri EY (1900-1977). Coube a Alfred Binet (1857-1911) e a Hermann Rorschach (1884-1922) a criação de testes para avaliação de inteligência e personalidade respectivamente (PALOMBA, 2003; ALEXANDER & SELESNICK, 1968).

 Até o fim da II Guerra Mundial, os métodos terapêuticos em psiquiatria eram pouco eficazes, usando-se, largamente, o eletrochoque no período de 1937 a 1945, quando teve início a era farmacoterápica (RIGONATTI & ROSA, 2001).

A síntese da clorpromazina (neuroléptico) por Charpentier, em 1950, e sua aplicação nas psicoses por Jean Delay e Pierre Deniker, em 1952, mudaram toda a terapêutica até então utilizada. Em 1957, surgiram os antidepressivos, dentre eles o inibidor da monoaminoxidase, sintetizado por Klein, e a imipramina, por Kuhn.  J. F. Cade descobriu a utilidade do carbonato de lítio no tratamento da mania em 1949, o qual passou a ser testado e utilizado por Mogens Schou na Europa a partir de 1956, como estabilizador de humor. Quanto aos benzodiazepínicos, sintetizados em 1958 por Sternbach, que descobriu suas propriedades tranqüilizantes. Nas décadas de 1960, 1970 e 1980, houve a grande expansão da psicanálise, seguida do aparecimento de uma série de linhas psicoterápicas: psicodrama, terapia comportamental, musicoterapia e outras (PALOMBA, 2003).

A psiquiatria social, que explica a doença mental como produto principalmente do modelo social, passou a ocupar um espaço relevante no final dos anos 1960 (LANGSLEY, 1980).

A Classificação Internacional das Doenças (CID-10) se iniciou em 1893 como Classificação de Bertillon ou Lista Internacional de Causas de Morte. Na sexta revisão, incluiu-se uma seção dedicada aos transtornos mentais. Os critérios para o diagnóstico vêm sendo, progressivamente, aprimorados. Na década de 70, foram criados os Critérios Diagnósticos para Uso em Pesquisas Psiquiátricas (APB, 2003).

Atualmente, são utilizados a CID, da OMS, 10ª revisão (1992), e o Diagnostic and Statistic Manual of Mental Disorders quarta revisão (DSM-IV), da American Psychiatric Association (1994). Trata-se de uma metodologia descritiva, aplicada a um sistema ateórico na definição e classificação das doenças. Essa transformação levou a uma melhora na concordância diagnóstica e na confiabilidade dos achados (BASTOS, 2000).

O avanço da psiquiatria demonstra a complexidade do ser humano e a impossibilidade de ser ele avaliado sob um único ponto de vista. A integração dos conhecimentos, com abrangência biopsicossocial, é necessária para a compreensão do indivíduo na sua totalidade. Tem ocorrido grande progresso na psicofarmacologia com o surgimento de novos agentes para o tratamento farmacológico de psicoses, depressão, agitação, ansiedade, insônia, enfermidades e quadros demenciais. As novas drogas, além de mais eficazes, têm melhor perfil quanto a efeitos secundários e vêm melhorando a qualidade de vida de pacientes portadores de transtornos neuropsiquiátricos. Tais substâncias têm menor potencial de interação medicamentosa, o que acarreta maior adesão dos pacientes aos tratamentos (GORENSTEIN & SCAVONE, 1999).

A neuroquímica, a genética molecular, a psicofarmacologia, a psicopatologia quantitativa, a psiconeuroendocrinologia, a psicoimunologia, a bioestatística, a informática e a epidemiologia clínica vêm promovendo o reencontro da psiquiatria com o modelo médico (BASTOS, 2000).

A revolução tecnológica possibilitou o acesso não apenas à maquinária de modificação, composição e síntese de substâncias orgânicas e inorgânicas, mas também a aparelhos computadorizados, com medição e observação macroscópica e microscópica, o que vem contribuindo para o surgimento de novas drogas e o desvendamento dos mecanismos bioquímicos dos transtornos mentais.

Vem crescendo em ritmo acelerado o uso da neuroimagem em psiquiatria, com o desenvolvimento de métodos capazes de fornecer imagens cada vez mais nítidas do cérebro humano. As investigações efetuadas de aspectos anatômicos estruturais, usando a ressonância magnética, a tomografia computadorizada por emissão de pósitrons e fóton única, além da ressonância magnética espectroscópica e funcional, mostraram-se adequadas para o estudo de mudanças na dinâmica funcional do cérebro, assim como capazes de possibilitar a investigação de alterações em vias neuroquímicas, antes e após a administração de medicamentos. Essas novas tecnologias em neuroimagem permitem detectar as mínimas alterações na estrutura e no metabolismo de áreas cerebrais específicas.  Elas contribuíram, decisivamente, para mudar as classificações dos transtornos, sem, contudo, reduzir os sintomas psiquiátricos a elementos puramente biológicos (ROCHA et al., 2001).

No Brasil, essas novas tecnologias já estão disponíveis, e muitas pesquisas têm sido realizadas, possibilitando a aplicação clínica da neuroimagem à neuropsiquiatria (BUSSATO FILHO et al., 2001).

As novas tecnologias são elementos poderosos no exercício da arte médica psiquiátrica. Cabe ao profissional utilizar-se delas, sem esquecer, contudo, do contato humano, da relação médico–paciente (PERESTRELLO, 1989).

 

 

REFERÊNCIAS

 

ALEXANDER, F. G.; SELESNICK, S. T. História da psiquiatria: uma avaliação do pensamento e da prática psiquiátrica desde os tempos primitivos até o presente. Tradução A. Arruda. São Paulo: Ibrasa, 1968. 573 p.

 

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-IV. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. 4. ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2003. 880 p.

 

BASTOS, O. (2000). Experiência clínica e evidência. Revista de Neurobiologia, 63: 4.  

 

BUSSATTO FILHO, G.; SOARES, J. C.; BRESSAN, R. A. (2001). Neuroimagem em psiquiatria. Revista Brasileira de Psiquiatria. 23, supl. 1: 1-3.

 

EY, H.; BERNARD, P.; BRISSET, C.  Manual de psiquiatria.  5. ed..  São Paulo: Masson, Atheneu, [199?].  1.257 p.

 

GORENSTEIN, C.; SCAVONE, C. (1999). Avanços em psicofarmacologia: mecanismos de ação de psicofármacos hoje. Revista Brasileira de Psiquiatria. 21, supl. 1: 64-73.

 

KAPLAN, H. I.; SADOCK, B. J. Tendências históricas e teóricas na psiquiatria. In: KAPLAN, H. I.; SADOCK, B. J. Compêndio de psiquiatria dinâmica. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 1986. p. 1-20.

 

KAPLAN, H. I.; FREEDMAN, A. M.; SADOCK B.J.   Comprehensive textbook of psychiatry.  3. ed.  Baltimore: Williams & Wilkins, 1980. v. 3

 

LANGSLEY, D. G. Community psychiatry.  In: KAPLAN, H. I.; FREEDMAN, A. M.; SADOCK, B. J.  Comprehensive  textbook  of psychiatry. 3. ed. Baltimore: Williams & Wilkins, 1980. v. 3, p. 2.836-2.887.

 

MAYER-GROSS, W.; SLATER, E.; ROTH M. P. As bases da psiquiatria. In: Psiquiatria clínica.   São Paulo: Mestre Jou, 1972. v. 1, p. 3-33.

 

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE. Classificação de transtornos mentais e de comportamento da CID-10. Critérios diagnósticos para pesquisa. Porto Alegre: Artes Médicas; 1998. 263p.

 

PALOMBA, G. A. Tratado de psiquiatria forense, civil e penal.  São Paulo: Atheneu, 2003. 886 p.

 

PERESTRELLO, D. A medicina da pessoa. 4. ed. Rio de Janeiro: Atheneu, 1989. 272 p.

 

RIGONATTI, S. P.; ROSA, M. A. (Org.).  Indicação e prática da eletroconvulsoterapiaSão Paulo: Lemos, 2000. 165 p.

 

ROCHA, E. T.; ALVES, T. C. T. F.; GARRIDO, G. E. J.; BUCHPIGUEL, C. A.; NITRINI, R.; BUSATTO FILHO, G. (2001). Novas técnicas de neuroimagem em psiquiatria: qual o potencial de aplicação na prática clínica? Revista Brasileira de Psiquiatria. 23, supl. 1: 58-60.

 

STONE, M. H. A cura da mente: a história da psiquiatria da Antiguidade até o presente.  Porto Alegre: Artmed, 1999. 480 p.

 

WHITWELL, J. R. Historical notes on psychiatry. London: H. K. Lewis, 1936. 143 p.

 

ZILBOORG, G.; HENRY, G. W.  The history of medical psychology.   New York: Norton, 1941. 258 p.

 


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