Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Junho de 2007 - Vol.12 - Nº 6

História da Psiquiatria

Um pouco da História do Hospital Psiquiátrico São Pedro

Walmor J. Piccinini

 

Na edição de 30 de junho de 1884, o jornal “A Federação” dava destaque a notícia da inauguração do Hospício São Pedro ocorrida no dia anterior, dia 29 de junho de 1884 à uma hora da tarde. Destacava o Sr. José Julio Albuquerque de Barros, Presidente da Província, o autor do projeto, engenheiro Álvaro Nunez Pereira e a figura do Sr. José Antonio Coelho Júnior, ex-Provedor da Santa Casa de Misericórdia, grande incentivador da obra e patrono do hospício. A obra do hospício não estava completa, mas já propiciava a transferência de 41 doentes internados nos porões da Santa Casa.

A história da construção do Hospício São Pedro é um marco da generosidade da sociedade gaúcha daqueles anos que vão do Decreto Provincial de 1879, até a inauguração em 1884, daquele prédio majestoso, a obra mais grandiosa de Porto Alegre, a jovem capital do Rio Grande do Sul. (30.583 habitantes em 1872).

Um Estado pouco povoado, recém saído de uma intensa participação na Guerra do Paraguai (1864-1867) aonde contribuiu com, 48 mil de um total de 160 mil combatentes brasileiros. Isso indica que, quase 10% da população do Estado participaram da guerra. Das perdas brasileiras, estimadas em cerca de 60 mil entre soldados e civis, muitos eram gaúchos. Por mais que alguns historiadores tentem descrever a criação do hospício como uma forma de afastar os indesejados, ou ação dos médicos para normatizar a sociedade, não há base na realidade para tal. Creio que exista maneira mais objetiva de narrar os acontecimentos.

O Governo Imperial exigia que a Santa Casa de Misericórdia atendesse os ex-soldados e demais vítimas da guerra, porém, não fornecia os recursos necessários. Os doentes mentais eram em pequeno número, alguns estavam internados na Santa Casa, outros tinham sido recolhidos às prisões, tudo indica que não havia uma demanda que exigisse a construção de um grande asilo de alienados.  Repetiu-se no Estado a estratégia montada pelo Provedor da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, José Clemente Pereira, líder maçom e um dos artífices da luta pela independência do Brasil. Numa manobra palaciana engenhosa, conseguiu vender a idéia que a maioridade de D.Pedro II deveria ser marcada pela construção de um asilo majestoso.
Essa mobilização, com verbas do Imperador, com loterias e com o chamado "imposto da vaidade" (venda de títulos de nobreza não-hereditários), permitiu não só a construção do Hospício Pedro II como a remodelação de prédios da Santa Casa, e outras obras de filantropia: foi construído o Cemitério do Caju, o Hospital de tuberculosos, etc. Apesar de alguns insistirem na idéia que o asilo foi construído pela pressão de um poder médico misterioso, vários estudos recentes mostram que desse acontecimento os médicos pouco participaram, apenas colaborando com argumentos científicos para o discurso filantrópico. Tanto é verdade que quem mandava efetivamente no asilo eram os religioso (a)s incumbidos dos doentes e a Mesa diretora da Santa Casa, sendo que os médicos só assumiram sua administração com a República.

O provedor da homônima gaúcha, José Antonio Coelho Junior desencadeou o processo de construção de um prédio que deveria albergar os alienados gaúchos. A primeira referência ao atendimento de alienados pela Santa Casa foi encontrada em Relatório do Provedor Luiz Manoel de Lima e Silva, datado de 1867, em que descreve as atividades do ano anterior. (Wadi,Y.)

“Existiam no dia 1o. de Dezembro de 1866, 36 alienados de ambos os sexos, sendo 21 homens e 14 mulheres. Entraram durante o ano 40 homens e 23 mulheres; saíram curados 33 homens e 14 mulheres, faleceram 7 homens e duas mulheres, dos quais um particular e uma mulher dita. (RPSCM,1867)”.

A queixa estava centrada nos custos de manutenção dos alienados e nos problemas criados por seus desatinos, destruição de equipamentos, roupas e desperdício de alimentos. Com a construção do hospício a Santa Casa manteve seu controle sobre o mesmo e o Estado passou a arcar com as despesas de manutenção.

Voltando a idéia da construção do asilo, o objetivo principal era o de dotar a Santa Casa de Porto Alegre de recursos para continuar sua obra benemérita. A Assembléia Providencial aprovou em 1879, a construção do hospício e foi lançada uma grande campanha para angariar recursos. Loterias, doações em troca de títulos ”o imposto sobre a vaidade”, doações particulares e doações da Província.

Situação no resto do país:

No Brasil, a partir da inauguração do Hospício Pedro II, no Rio de Janeiro, em 1852, foram erguidos, no século XIX, os seguintes hospitais:

 

Província.                                  Ano                      Estabelecimento

 

São Paulo.                                 1852.                     Hospício Provisório de São Paulo

 

Pernambuco.                               1864.                    Hospício de Recife-Olinda (Da   

                                                                               (Visitação de Santa Isabel)

Pará.                                          1873.                     Hospício Provisório (Belém próximo   

                                                                                ao dos Lázaros)

Bahia.                                         1874.                     Asilo São João de Deus (Salvador)

 

Rio Grande do Sul.                     1884.                     Hospício São Pedro

 

Ceará.                                        1886.                     Asilo de Alienados São Vicente    

                                                                                          de Paula (Fortaleza)                                                                                   

 

Com exceção de São Paulo que, em 1998 inaugurou o Hospício de Juquery construído pelo Estado, os demais seguiram as normas de campanha estabelecidas por José Clemente Pereira. (Verbas públicas; Donativos; Loterias; “Imposto sobre a vaidade”;      Irmandade da Misericórdia. Santas Casas; Apoio da Academia Real de Medicina).

Detalhes da construção são contados pelo historiador Edson Cheuiche: “No início de novembro de 1879, no governo de Carlos Thompson Flores, a Fazenda Provincial comprou a chácara da "Saúde" para a edificação do hospício, autorizada pela Lei Provincial 1.220 de 16 de maio de 1879, sancionada no governo de Felisberto Pereira da Silva. A área, de 38,5 hectares, foi adquirida da viúva Maria Clara Rabello por vinte e cinco contos de réis”. A esses 38,5 hectares iniciais foram acrescidos mais 83 hectares, anos depois. Nos bons tempos o Hospício São Pedro possuía, além do edifício principal, uma olaria, uma unidade para excepcionais e suas terras abrangiam o que hoje conhecemos como Jardim Botânico, a ESEF, o terreno da Vila São Pedro, o terreno onde está sediada a AMRIGS, o casario no entorno da Avenida Salvador França, a Igreja de São Jorge, o Instituto Psiquiátrico Forense Mauricio Cardoso.

A Ata de Lançamento da Pedra Fundamental do Hospício São Pedro em 2 de dezembro de 1879. (Arquivo Aurélio Bittencourt, IHRGS, (7)L30. (citada por Wadi,Y.).

“Estiveram presentes à solenidade de lançamento da pedra fundamental do Hospício São Pedro, o Presidente da Província, Carlos Thompson Flores; o bispo da Diocese, D.Sebastião Dias Laranjeira; o engenheiro encarregado da execução da planta, Álvaro Nunez Pereira; os cidadãos major José Antonio Coelho Junior, João Birnfeld e Joaquim Bastos Monteiro, da Comissão de Obras. Os membros da Câmara Municipal de Porto Alegre, o doutor Luiz da Silva Flores, deputado geral, e inúmeras autoridades civis, militares e eclesiásticas, que assinam a ata. (Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre.)

Luiz da Silva Flores tinha praticado a medicina, mas, no momento era político, deputado geral, acrescente-se a essa condição o fato de ser pai de Carlos Thompson Flores, presidente da Província. Confirma-se pela ata, que não registra nenhuma presença médica, que a chamada corporação médica, que não existia, não estava presente. (É sabido que o Imperador D.Pedro II, desejoso de dar uma aparência de saber intelectual, criou ao seu redor academias, uma delas foi a Academia Imperial de Medicina que era integrada por seis membros, quatro deles estrangeiros e dois formados em Lisboa, um deles, José Sigaud, deixou obra interessante, mas no geral não tinham a importância que alguns lhe desejam atribuir.)

Em Porto Alegre há referência a uma Sociedade de Medicina e Cirurgia de Porto Alegre, fundada em 3 de setembro de 1892, alguns anos depois da inauguração do hospício. Seus membros foram: Protásio Alves, Sebastião Leão, Dioclécio Pereira, Vitor de Brito, José Josetti, Rodrigo Villanova e Carlos Nabuco.

“O Hospício São Pedro, orgulho da Província, idealizado na planta por Álvaro Nunes Pereira, foi inaugurado com somente um dos seus atuais seis pavilhões, abrigando 41 alienados (24 homens e 17 mulheres), transferidos da cadeia civil e da Santa Casa. Desde a sua fundação, comemorado com ostentação na presença das autoridades e da imprensa de Porto Alegre, até a proclamação da República, o São Pedro foi administrado pela Mesa Administrativa da Santa Casa de Misericórdia. O incremento das internações e o abandono dos pacientes por seus responsáveis incitaram o término da construção do prédio, o que só veio acontecer nos primeiros anos do século XX, ocasião em que foi menção de cartão-postal da cidade. Insólito por sua magnitude, a edificação surpreendeu à população de Porto Alegre e aos seus visitantes. O Hospício São Pedro, ponto de encontro de ilustres alienistas, foi visitado pela Princesa Imperial Isabel, Condessa D'Eu, em janeiro de 1885, quando foi a primeira a registrar presença no livro de visitantes da Instituição”. (Cheuiche, E.)

Após a inauguração, o Provedor da Santa Casa, coronel Joaquim Pedro Salgado, e primeiro superintendente do Hospício São Pedro, nomeou o tenente coronel Antonio Augusto da Costa como administrador. O primeiro médico-diretor trabalhava na Santa Casa, Dr. Carlos Lisboa, formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (22.12.1881) com tese de doutoramento em Cardiologia e que apresentava no seu currículo, ter sido médico-internista do Hospício Pedro II. Figura popular, com grande admiração por parte das jovens casadoiras de Porto Alegre, pois era considerado um homem bonito. Lisboa ficou quatro anos na frente do hospício (1884-1886), sofreu uma otite que desencadeou um abscesso cerebral e morreu aos 26 anos de idade. Depois dele sucederam-se diretores temporários, até Dioclécio Pereira (1906-1926), que permaneceu 20 anos na Direção. Nos anos que transcorreram, da inauguração até a posse de Dioclécio Pereira, o Estado do Rio Grande do Sul viu-se envolvido em   disputas sangrentas que acabaram por desencadear a revolução federalista, uma guerra civil que durou de fevereiro de 1893 a agosto de 1895.( castilhismo versus gasparismo ou picapaus versus maragatos). (Foi uma guerra violenta, também conhecida como a revolução da degola, contaram-se 10 mil mortos e muitos feridos. O lugar mais seguro naquela época devia ser o hospício). O atendimento ao doente mental ficou num segundo plano, o hospício passou a receber pacientes de todo o estado, pacientes que chegavam sem encaminhamento, sem dados pessoais, eram os inominados. Roberto B. Martins, em seu livro Ibiamoré, faz alusão ao trem fantasma, algo parecido com a nau dos insensatos do Medievo inglês. Conta que os trens que percorriam a campanha tinham um dos vagões de transporte de gado, transformado em transporte de doentes. No imaginário popular ficou a lembrança de um trem que recolhia pessoas pelo interior e essas desapareciam, nunca mais eram vistas. Esse trem e outros meios de transporte, como os bondes, despejavam levas de pacientes nas portas do São Pedro e ele os acolhia e lhes dava o atendimento que podia. Alguns historiadores olham esse fato como comprovação da exclusão social, uma outra maneira de observá-lo é sob a idéia da misericórdia. Nessa época, nem a Santa Casa, nem os demais hospitais tinham condições de prestar assistência médica. Tanto isso é verdade, que na Santa Casa existiu o Capelão da Boa Morte, que propiciava atenção aos moribundos. As pessoas que tinham posses eram atendidas em casa, partos, cuidados clínicos, algumas cirurgias simples, eram feitas a domicilio. Médicos eram poucos e se dedicavam aos clientes pagadores. Um dado a mais nessa equação, era que, na maioria, os pacientes eram pensionistas, seu tratamento era pago pelos familiares. Os negros não recebiam atendimento, pois era exigido pagamento ao seu dono. Há registros de doações de escravos para a Santa Casa e essa se lamentava de receber negros doentes alforriados ou como escravos e ter que arcar com seu cuidado. Isso ocorria em outros estados, chegamos a criar uma expressão irônica, “a loucura liberta”. O escravo, quando doente era libertado, pois seu proprietário não queria arcar com a despesa. A pesquisadora Ana Oda constatou um grande número de suicídio em escravos e tudo leva a crer que eram assassinados e suas mortes registradas como suicídio.

Na Santa Casa, no Hospício, a presença de religiosos cuidando dos enfermos era a regra. “Em janeiro de 1910, a convite do diretor do Hospício, doutor Dioclécio Pereira e do bispo Dom Cláudio Ponce de Leão, a Congregação São José enviou as quatro primeiras Irmãs, sendo duas francesas e duas do noviciado de Garibaldi (RS), para exercerem o apostolado no São Pedro. Em 1964, uma comunidade de 87 Irmãs se dedicava aos intensos e sofridos serviços exigidos na Instituição. Com muito amor e determinação, elas humanizaram e dignificaram a "diferença" rejeitada pela sociedade. (Cheuiche,E.) Um depoimento da Irmã Paulina, confirma a maneira precária como os doentes eram conduzidos para o hospício : A irmã Paulina lembra como chegavam os internos ao São Pedro. “Vinham deitados na carroceria de um caminhão, com camisa de força e amarrados. Imagina como essas criaturas chegavam aqui”, descreve, lembrando que, na década de 50, havia pessoas vindas do interior ou das ruas da capital. Todos ganhavam o São Pedro: mendigos, alucinados, gente abandonada nas ruas. Eram epopéias marcadas pela dor.

A Faculdade de Medicina de Porto Alegre foi fundada em 1898 e a partir de 1903 começamos a ter médicos em número mais expressivo. Foi nesse mesmo ano de 1903, que o Professor Teixeira Brandão conseguiu a aprovação do Decreto 132 de 23 de dezembro, que estabelecia normas para a internação de alienados.

O artigo 10 do referido decreto estabelece: é proibido manter alienados em cadeias públicas.

O artigo 11deixava explícito que, enquanto não possuírem os Estados, manicômios criminais, os alienados delinqüentes e os condenados alienados somente poderão permanecer em asilos públicos nos pavilhões que, especialmente se lhes reservarem.

O Hospício São Pedro adequou-se aos novos tempos. “Com a República, tanto a administração do Hospício São Pedro como a elaboração de um novo regulamento, passaram à responsabilidade do médico Francisco de Paula Dias de Castro, 34 anos, indicado diretor geral do hospício pelo governo provisório estadual. O antigo regulamento tinha sido organizado em 1884, pelo Presidente da Província, José Júlio de Albuquerque Barros”.

Em 1903 o Dr. Juliano Moreira assume o Hospício Nacional de Alienados, nova denominação do Hospício Pedro II.  Nasce com ele a Psiquiatria como especialidade médica.

 

No Rio Grande do Sul ela surge em 1926, com a posse de Jacintho Godoy no Hospício São Pedro. O médico gaúcho Jacintho Godoy Gomes, formado pela Faculdade de Medicina de Porto Alegre em 1911 e com estágio junto aos mestres franceses da Salpetrière, foi diretor do Hospital Psiquiátrico São Pedro, nesta mesma cidade, em duas gestões (1926-32 e 1937-51). Foi o idealizador e primeiro diretor do Manicômio Judiciário e da Diretoria de Assistência a Alienados do Rio Grande do Sul.

Segundo depoimento do Dr. Jacintho em seu livro História da Psiquiatria no Rio Grande do Sul.

“Quando em 1926 assumi a diretoria do Hospital São Pedro, esta casa era apenas um depósito de doentes, sem organização técnica e sem instalações materiais, não possuindo senão, em estado rudimentar, os serviços primordiais de qualquer hospital medianamente organizado - água, luz e esgotos. Guardo, ainda na memória, tristes quadros que surpreendi, então, nas minhas primeiras visitas e que conhecia apenas da descrição de Esquirol, inspecionando os asilos da França, após a reforma de Pinel e isso há mais de um século. Em quatro anos de trabalho febricitante, este estabelecimento transformou-se, fazendo jus ao nome de hospital. Canalizaram-se-lhe água da hidráulica municipal e a luz da Energia Elétrica. Construiu-se uma rede própria de esgotos pelo sistema Imhof. Foram reformados quase todos os pavilhões, tirando de seus alojamentos o aspecto chocante de xadrezes. Incorporou-se ao patrimônio do estabelecimento uma área de 83 hectares, na sua proximidade, com a aquisição da chácara municipal, destinada à colônia agrícola, localizada outrora no Município de São Jerônimo. E, em meio de toda essa atividade material de obras novas de reconstruções, não foi esquecida a investigação científica, em face de tão copioso material de observação, incentivando-se entre doutorandos e médicos a produção de teses e monografias de valor, com repercussão no estrangeiro, a ponto de, ao receber o último trabalho dos Drs. Décio Sousa e Telêmaco Pires, dizer em certa carta aos autores, o eminente psiquiatra francês, prof. René Targowla, que o Hospital São Pedro já era conhecido na França, nos meios científicos da especialidade, como uma autêntica escola”. (Fala proferida no ato de sua reintegração, em 1937, como Diretor do Hospital Psiquiátrico São Pedro).

Volto ao meu cargo já envelhecido, porém com a mesma flama acesa do trabalho de dez anos atrás; fiel cumpridor dos regulamentos, não distinguindo nos funcionários, sob minha direção os homens com as suas virtudes ou as suas falhas, mas iguais propulsoras da máquina administrativa e de quem tudo se deve exigir em prol dos doentes recolhidos a esta casa. A psiquiatria, por ter sido criação de um filantropo, tem ficado à margem da Medicina, nimbada de um halo de misticismo, dando origem aos mais absurdos preconceitos sobre as doenças mentais. Por isso, o diretor de uma casa de psicopatas tem uma missão tutelar sobre os entes humanos confiados à sua guarda. Da minha parte, nesta função, sou como certos reivindicadores a idéias prevalentes. A minha idéia prevalente é elevar o doente mental à dignidade de doente comum, suprimindo, com desvelos excepcionais e prodígios de assistência, o que não sabem pedir e nem podem reclamar os nossos irmãos inconscientes que soçobraram na treva da alienação.

 

Denominações do hospital:

Hospício São Pedro.                       (1884-1925)

Hospital São Pedro.                        (1925-1962).

      Hospital Psiquiátrico São Pedro.    (1962-2007).

 

O ano de 1938 registra dois fatos marcantes para a psiquiatria gaúcha. Foi realizado o primeiro concurso para médico psiquiatra do Hospital Psiquiátrico São Pedro, e foi fundada a Sociedade de Neurologia, Psiquiatria do Rio Grande do Sul. (Cuja diretoria estava assim constituída: Presidente Dr. Jancintho Godoy. Vice-Presidente Dr. Fábio de Barros. Secretário Dr. Cyro Martins).

Os candidatos aprovados no concurso foram os Drs. Luiz Pinto Ciula, Mário Martins, Cyro Martins e Victor de Brito Velho. Nesse mesmo ano os Drs. Luiz Guedes e Fábio de Barros se afastam do São Pedro e se fixam na Faculdade de Medicina. Esses foram os primeiros psiquiatras gaúchos. Podemos estabelecer esse ano como o início da psiquiatria no Estado do Rio Grande do Sul.

A Faculdade de Medicina de Porto Alegre foi fundada em 1898 e seu primeiro professor de psiquiatria foi Dioclécio Pereira que, era Diretor do Hospício São Pedro e, além disso, lecionava Matéria Médica. Os alunos de medicina podiam freqüentar o hospício, mas sua presença era irregular. Em 1927, na gestão de Jacinto Godoy o convênio foi refeito e passaram a estagiar no agora Hospital São Pedro, os alunos do sexto ano, com obrigações de freqüência e ensino. Em 1957 começou a funcionar o Curso de Especialização em Psiquiatria, dirigido por David Zimmermann e Paulo Guedes, professores da Faculdade de Medicina. Esse curso já formou 309 especialistas, hoje está sediado no Hospital de Clinicas da Faculdade de Medicina da UFRGS. A criação da Divisão Melanie Klein em 1961, tornou o Hospital Psiquiátrico São Pedro uma referência nacional na formação de psiquiatras. Muitos dos chefes de unidade, profissionais e diretores do hospital, saíram dos seus cursos.

Na longa gestão do Dr. Jacintos Godoy, foram aplicadas técnicas de tratamento consideradas de primeira linha para sua época. A clinoterapia, a balneoterapia, a laborterapia, a malarioterapia, o eletrochoque, a criação de colônia para crônicos e a abertura de ambulatórios fora do hospital. Cabe registrar que nessa época foram feitas experiências que hoje são a menina dos olhos dos reformistas. Atendentes e enfermeiros que se encarregassem de dois ou três doentes, podiam construir casa nas terras do São Pedro.

Uma outra característica do São Pedro é a de ser área de aprendizado das faculdades de Enfermagem, Psicologia e Ciências Sociais.

A profissão de enfermeiro foi regularizada em 1930. Em 1939, o Dr. Jacintho Godoy criou um Curso de Formação de Enfermeiros que durou até 1952. Nesse período foram formados 191 enfermeiros que, na maioria, foram aproveitados pela Secretaria Estadual da Saúde.

 

 

 

Diretores do Hospital Psiquiátrico São Pedro:

 

  1. Carlos Lisboa.                                             1884-88
  2. Olinto de Oliveira.                            03/1888- 12/1889
  3. Francisco Dias de Castro.                             5.12.1889 - 07/1901.
  4. Tristão de Oliveira Torres.                          08/1901 – 02/1908                                                                                       
  5. Deoclécio Pereira.                                        24.02.1908-1924)
  6. José Carlos Ferreira.                                    16.01.1924 - 1926
  7. Jacintho Godoy Gomes.                              1926- 1932
  8. José Luiz Guedes.                                        1932-1937_
  9. Jacintho Godoy Gomes.                               1937-1951
  10. Augusto Pereira Brochado.                          1951-1955
  11. Leônidas Palmeiro Escobar.                        1955
  12. Celso Cezar Papaleo.                                   1955 - 1957
  13. Dyonélio Tubino Machado.                         1957-1959
  14. Raymundo Godinho.                                    1959-1960
  15. Luiz Pinto Ciula.                                           1961-1962
  16. Fernando Luiz Vianna Guedes.                    1963-1966
  17. Avelino Costa.                                              1967-1971
  18. Ely Attala Chefe.                                          1971-1972
  19. Avelino Costa.                                               1973-1978
  20. Hans Ingomar Schreen.                                1978-1983
  21. Ellis Alindo Darrigo Busnello.                    1984-1988
  22. Fernando Boese.                                          1988-1990
  23. Régis Antônio Campos Cruz.                      1990-1991
  24. Enio Arnt.                                                    1991-1995
  25. Salvador Ferraro Filho.                               1995-1998
  26. Roberto Gandolfi Lieberknecht.                 1998
  27. Regis Antônio Campos Cruz.                     1999-2002
  28. Roberto Gandolfi Lieberknecht.                  2003-2006
  29. Luiz Carlos Ilafont Coronel.                        2007

 

Examinar o papel de cada um desses diretores exigiria um trabalho que vai alem dos objetivos desse artigo. O Hospital Psiquiátrico São Pedro foi buscar forças dentro de si mesmo para se transformar e para se tornar administrável. A utilização dos psicofármacos, a partir dos anos 60, a formação psiquiatrica de base psicanalítica, o entusiasmo de jovens e velhos psiquiatras propiciou uma mudança sensacional no número de pacientes.  Há referências que teria chegado a 5 mil pacientes internados. Uma estatística organizada por Jorge Cury, constata que, em 1957 existiam:

Pacientes Total 3.186.    (homens 1645 - mulheres 1541)

No final do ano; T= 3280.  (homens 1740.  Mulheres 1540. Óbitos 206 (H=130 + M=76).

 

Tive a felicidade de participar de um grande esforço para diminuir a população do hospital. Participei de uma equipe chefiada pelo Dr. Carlos Gary Faria na então chamada Equipe de Saúde Mental. Foi dada continuidade a interiorização dos atendimentos, treinamento de generalistas para receber egressos, setorização do hospital "linkando” com a região de origem dos pacientes, melhora da dispensação de medicação e maior controle dos encaminhamentos. Os resultados foram expressivos. A grande dificuldade eram os pacientes moradores que não tem para onde ir. Isso continua até hoje, apesar dos reformistas. O Hospital Psiquiátrico São Pedro tem sido maltratado de diversas formas, mas a mais contundente é o ataque sistemático que seus profissionais recebem independente da sua formação. Sejam psiquiatras, psicólogos, enfermeiros, assistentes sociais, todos são estigmatizados.

 

Atualmente, o HPSP possui 470 pacientes na área asilar e nos residenciais terapêuticos, e 130 leitos para internação. Além disso, mantém convênio com 36 entidades – sete escolas técnicas e 29 faculdades. “Vamos lutar para que o Hospital São Pedro volte a ter o brilho de a 30 anos atrás, e ser um centro de excelência na área de ensino e pesquisa em saúde mental, de forma multidisciplinar, com uma rede que amplie a estrutura existente”, prometeu Luiz Coronel. (Discurso de posse em 2007).

 

 

Bibliografia consultada.

Cheuiche, Edson. 120 anos do Hospital Psiquiátrico São Pedro: um pouco de sua história. R. Psiquiatr. RS. 2004; 26 (2).

Vasconcellos, Cristiane e Vasconcellos, Silvio José Lemos: A doença mental feminina em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil (1870-1910). Cad. Saúde Pública, 2007; 23(5); 1041-1049.

Wadi, Yonissa Marmitt. Palácio para Guardar Doidos. Uma história das lutas pela construção do hospital de alienados e da psiquiatria no rio Grande do Sul. Editora da Universidade-UFRGS.2002.

 


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