Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Dezembro de 2007 - Vol.12 - Nº 12

Psicanálise em debate

Resenha do livro FREUD E O HOMEM DOS RATOS de Patrick Mahony - Editora Escuta, 1991, 234 páginas

Sérgio Telles *
psicanalista e escritor

            Apesar de ter inúmeras vinhetas clínicas espalhadas abundantemente por toda sua obra, Freud escreveu mais extensivamente sobre cinco pacientes que ficaram conhecidos como o caso Dora (Fragmento da análise de um caso de histeria - 1905), o caso Joãozinho (Pequeno Hans - Análise de uma fobia em um menino de cinco anos - 1909), o"Homem dos Ratos" (Notas sobre um caso de neurose obsessiva - 1909), o caso Schreber (Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de paranóia - 1911) e o"Homem dos Lobos" (História de uma Neurose infantil - 1918).

            Magníficas exposições do evoluir da cura (excetuando-se o caso Schre­ber) , do progressivo desvendar da sintomatologia inconsciente, num integrado desdobramento em formulações teóricas, são eles paradigmas do trabalho teórico-clínico em psicanálise.

Desde que foram escritos, estes casos foram revisitados muitas vezes por analistas que procuravam rever os critérios de Freud, discutir o diagnóstico, as inferências transferênciais e contra-transferênciais, amplian­do hipóteses, rejeitando outras tantas, pesquisando material histórico sobre os pacientes, numa atitude onde o desejo edipiano de sobrepujar o pai da psicaná1ise não estaria de todo ausente.

O “Homem dos ratos” deriva seu nome de seu sintoma principal: uma idéia obcidente que o atormentava, uma história de tortura que tinha ouvido durante seu serviço militar. Ratos famintos eram colocados dentro de um re­cipiente que seria, por sua vez, acoplado às nádegas de uma pessoa devida­mente acorrentada e manietada e colocada em posição adequada, de modo que os ratos, fustigados através de uma abertura determinada, tentariam fugir, para tanto penetrando no ânus do torturado.

O Homem dos Ratos imaginava que tal tortura seria aplicada a seu pai (já falecido) e à sua "dama" (maneira como chamava a mulher que amava), aplicação esta que dependeria de determinadas circunstâncias sobre as quais era respon­sável. Com este ponto de partida, Freud estabelece a estrutura básica da neurose obsessiva, desvendando seus vários mecanismos - a ambivalência afetiva, a onipotência do pensamento mágico, a dúvida, a anulação, o isolamento, as idéias de morte.

Patrick Mahony faz sua peregrinação ao Homem dos Ratos, como tantos outros antes dele, o que se verifica na extensa bibliografia por ele citada. Sendo, além de analista, professor de literatura inglesa na Universidade de Montreal, faz interessantes abordagens sobre o estilo literário e posição

retórica de Freud. Revela a identidade do Homem dos Ratos, o advogado Dr. Ernst Lanzer, morto na Primeira Guerra Mundial, onze anos após o final  de sua análise, aos 35 anos. Elabora uma hipótese na qual afirma que Freud se deixa con­taminar pelos mecanismos obsessivos do paciente, o que se evidenciaria na própria construção do texto.

Mahony salienta uma especificação deste caso. Ao contrário do Homem dos Lobos e do Caso Dora, que estão basicamente centrados em torno de sonhos, ou seja, acontecimentos visuais, todo o caso do Homem dos Ratos gira em torno dos atos e frases obsessivas, ou seja, na  linguagem verbal, nas palavras.

De fato, este é um caso onde a importância da linguagem se evidencia de imediato, desde que tudo se organiza em função da descoberta de um significante principal na história do paciente - Ratten (ratos), Spielratten (joqador de baralho), raten (supor, suposiçäo), Heilraten (casamento, acasala­mento), Raten (prestação, pagamento) - significante este por onde circula incessantemente a complicada trama associativa que aprisiona expressa a estrutura conflitiva do paciente.

Mahony mostra várias outras reiterações do significante observadas cla­ramente na versão original alemã, cuja riqueza está totalmente perdida na tradução de Strachey, que recebe novamente uma saraivada de críticas, ela que há tão.pouco tempo era louvada irrestritamente....

            Mahony revela as discrepâncias entre o relato do caso como foi publicado e as anotações privadas de Freud, sendo as mais importantes - a seu ver­ - as incongruências cronológicas na seqüência de fatos tal como relatado por Freud, assim como a própria duração do tratamento, que teria sido bem mais curto do que o afirmado por Freud. Aponta o total descuido que Freud revela quanto a transferência, preocupado que estava em construir o passado e preen­cher as lacunas de memória do paciente, sem atentar para o aqui e agora da relação terapêutica, o que fica gritantemente ilustrado após três intervenções feitas por Freud durante o tratamento – quando pede ao paciente para ver o retrato da “dama”, quando enviou um cartão postal para ele e quando o convidou para uma refeição em sua casa. Com facilidade, Mahony mostra a repercussão imediata destas atuações de Freud nas associações livres do paciente, que evidencia tê-las vivenciado como intrusiva penetração anal por parte de Freud.

            Determinados progressos técnicos ainda estavam por vir, especialmente o manejo massivo da transferência, embora Mahony mencione a eficácia tera­pêutica de Freud (via sugestão?) e compare sua atitude com a robotização da postura que muitos analistas atualmente julgam correta.

Mahony faz interessantes observações sobre a qualidade essencialmente oral da psicanálise, a estranheza que isso provoca num mundo científico onde a escrita predomina. Tal oralidade essencial da psicanálise gera inúmeros problemas em sua transmissão escrita, localizando nisto a especial aridez e falta de fluência na maioria dos trabalhos analíticos, critica não aplicável a Freud, teria superado os impasses próprios desta transcrição.

Neste sentido, Mahony afirma que na formação do analista falta estudar e atentar para a "cena da comunicação profissional pública”, a comunicação de trabalhos entre colegas, que ele contrapõe à "cena ele comunicação terapêu­tica", o estudo da prática entre analista e paciente, esta sim, bem estudada.

A respeito das divergentes leituras de Freud, problema tão atual, diz Mahony: "A leitura de Freud em oposição à leitura de outros colegas é uma questão especialmente complicada dadas as transferências que possamos ter com ele, com os temas de seus escritos, com seus interlocutores imaginários e com a instituição psicanalítica. Quem sabe, com o tempo, as diversas lei­turas de Freud passarão a ser classificadas por século ou nação, como tem acontecido com a Bíblia e Shakespeare (o Shakespeare espanhol, o Shakespeare do século XVIII e assim por diante). Talvez a rivalidade ressentida que se vê entre as interpretações do “Freud francês” e do Freud anglo-americano" servirá. para futura reflexão das psicopatologias possíveis da leitura de Freud, permitindo distinguir-se, entre outros tipos, as leituras hitéricas, obsessivas, narcisistas, fetichistas e de outras espécies”

Com isso Mahony assinala a importante e inevitável presença da transferência pessoal e institucional que marca a leitura de Freud, obstaculizando-a , transformando-a num sintoma, ao mesmo tempo que atribui, corretamen­te, ao texto freudiano uma grandeza e uma profundidade inesgotáveis, uma atemporalidade (como a do inconsciente) que no correr da História possibili­taria divergentes leituras, enfoques diferentes, em perpétuo reflorescer, como o grande Bardo, de quem Freud era grande admirador.

"Freud e o Homem dos Ratos”, de Patrick Mahony é de grande interesse não só para analistas mas para todos aqueles interessados na cultura e na aventura humana. Pena que num livro onde a linguagem e o estilo são tão importan­tes, a tradução - apesar de muito esforçada - não tem a inspiração e o brilho que seriam desejáveis no caso.


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