Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Setembro de 2007 - Vol.12 - Nº 9

Coluna da Lista Brasileira de Psiquiatria



Assuntos:

VIOLÊNCIA FEMININA?

 

...Numa roda de psiquiatras ouvi dizer que a violência feminina está virando um caso sério e que já chama a atenção dos estudiosos sobre violência. Inclusive, até as delegacias de mulheres têm relatado isto. O assunto começou com um comentário sobre um recente assassinato de um adolescente em sala de aula, em Goiânia, em que as garotas chutaram o baço do rapaz (sabiam o que estavam fazendo e onde chutar) até matá-lo. Algo na literatura?
Portela

 

 

Acho que há duas coisas distintas aí: uma é a progressiva virilização da personalidade feminina que copia muito mais que complementa o comportamento e os valores masculinos na sociedade ocidental, juntamente com a anestesia moral e crítica da violência generalizada, que se vem tornando uma nova estética, como você mesmo postou outro dia. Outra coisa é a prática de atos determinados de agressão, como causar uma hemorragia interna eficaz e irreversível, logo fatal, que não parece decorrer de um descontrole irracional mas de uma atitude deliberada, estudada, de quem conhece a arte de lutar.

Marcos Klar

PS: Quanto à literatura , não sei. Quanto ao noticiário: apesar de várias mulheres terem sido no Brasil autuadas por deixar bebês nos carros para saírem atrás de futilidades, veja que lemos hoje: http://br.noticias. yahoo.com/ s/26082007/ 25/manchetes- mae-tranca- filha-1-ano- no-carro- baile-funk. html

 

 

Muito interessante. Quem sabe são estes esquecimentos maternais um homicídio encoberto?

Portela

 

 

A violência feminina e' subestimada pelos clínicos.  Em particular, a presença de doença mental aumenta o risco de violência muitas vezes na mulher (mais do que nos homens, se não me falha a memória, talvez pela linha de base do gênero masculino).  Mas talvez não seja que os clínicos subestimem o risco de violência no feminino, mas superestimem no masculino, como parte do preconceito contra homens. 

Paulo J Negro

 

DEFESA DO MÉDICO

 

Nosso colega  José Geraldo Vernet Taborda, atual coordenador do Departamento de Psiquiatria Forense da ABPO, autor e personalidade bem conhecida na especialidade, criou uma consultoria para auxiliar médicos diante de processos profissionais. Disto surgiu uma discussão.

 

Em função do aumento dos processos por erro médico, juntamente com um colega resolvemos criar a DefMed, uma empresa voltada a prestar assessoria técnica a colegas e hospitais quando forem processadas. A idéia é simples: desde o início do processo, sentaremos junto aos advogados do colega e discutiremos todos os itens da inicial, apontando seus pontos fortes e fracos e discutindo a melhor linha técnica de defesa. Tentaremos distinguir claramente o erro de complicação, levantar bibliografia, elaborarmos quesitos e prestarmos assistência técnica. Se quiserem mais detalhes, dêem uma olhada no site

www.defmed.com. br

Sugestões, críticas, etc. serão muito vem vindas.

José G. V. Taborda

 

 

Achei isso interessante. Mas gostaria de entender melhor os serviços que serão prestados.

Vocês iriam ajudar os nossos advogados no caso de um processo por erro médico? Esses

advogados especializados, via de regra, já não tem os seus peritos para orienta-los? ...E

onde fica a Comissão de Defesa do Médico da Associação Medica de Minas Gerais?... Gostaria de sugerir que vocês prestassem serviços preventivos, isso é, num caso difícil que potencialmente poderia redundar num processo você poderiam ser acionados antes dehaver o processo para que o psiquiatra se prepare para essa eventualidade se a mesma vier.Marcio Pinheiro

 

Caro Taborda e colegas, além do levantado pelo Márcio. Do que mais acusam os psiquiatras? Quais alegados erros nos levam às barbas da justiça? O quanto estamos protegidos pelo estigma do adoecer mental. Qual exame mostra isso mesmo???
 Sendo isso tudo muito subjetivo... Sempre digo que o paciente mais perigoso é o que não é doente.
Temo por psicopatas que, desconhecidos dos peritos (muitas vezes nem tão peritos...), mas melhor conhecidos pelo pobre psiquiatra que os trata, descubram uma nova forma de atuação.
O pior é que muitos temem em firmar e bancar diagnósticos de Trantorno de Personalidade. Ficam na velha e universal "Depressão". 
Como podemos nos melhor proteger disso tudo???
 João Carlos Cé Bassanesi

 

Eu sabia isso mas hoje já não tenho certeza. Acho que nos USA a causa mais comum é efeito secundário de medicação. O suicídio é uma das causas mais comuns. Imagino que apareçam erros de diagnostico, tratamento inadequado, etc, etc. Lá eles falam que os psiquiatras se dividem em dois grupos: os que já foram processados e os que serão.
Como vocês sabem, vamos ter de ter prontuários bem cuidadosos. Outro dia conversando com um colega que tem um laboratório de anatomia patológica, ele me disse que hoje ele faz os seus relatórios como se estivesse falando com um juiz. Achei interessante porque eu já fazia isso nos Estados Unidos: minhas notas e anotações sempre eram escritas para um júri de 12 pessoas porque lá o psiquiatra vai a júri. Aqui devemos escrever tudo pensando num juiz,  relatório para o juiz.
Mas gosto do aspecto preventivo. Você vem lidando com um caso que você potencialmente acha que pode dar em erro medico. Ai seria bom entrar em contato com o Taborda para ver como você poderá minimizar esse risco. Eu fiz isso nos USA algumas vezes.
Assunto interessante e pelo jeito cada vez mais atual. Deixa o povo descobrir que processar médico dá dinheiro...Os advogados também. No Congresso de Belo Horizonte eu apresentei um trabalho de como minimizar o processo por erro medico no caso de suicídio.
Marcio Pinheiro

 

Apoiado... Precisamos começar a cuidar disso. Foi-se o tempo dos médicos intocáveis.  Eu já adoto um termo de consentimento onde explico alguns aspectos do tratamento, possibilidade de efeitos colaterais, uso de máquinas, gravidez/lactação, perigos do tratamento irregular/abandono/ abuso de medicação e reforço medidas de suporte.

Penso eu, na minha inocência, que isso pode minimizar algum enrosco.  Sobre efeitos colaterias creio ser fácil...  O paciente tem que ficar ciente de que estes são possíveis (por isso o termo). 

Sobre o suicídio dos pacientes. A coisa pega mais pesado.

Como atribuir ao psiquiatra a culpa por esse ato. Complicado demais isso. Ainda mais se pensarmos na natureza do suicídio, sua relação com os T.Mentais e os "n" fatores embarcados nessa situação.

Chegar ao fim e concluir que a culpa do suicídio é do médico é surreal.

Só se a negligência for mesmo cabal e gritante.

João Carlos Cé Bassanesi.

 

 

A idéia e' muito boa.  A questão e' quanto dinheiro existe para este tipo de consultoria.  Eu suspeito que os médicos não tem dinheiro suficiente, os clientes principais deverão ser institucionais. Sob a minha perspectiva, sabendo que necessariamente devo ter seguro profissional para clinicar, o problema não são os processos e os erros que poderia fazer.  Afinal, o papel do seguro e' a defesa, e no caso de erro comprovado, pagar as contas.  O problema são os processos frívolos.  

Paulo J Negro 

 

 

Paulo, aqui no Brasil os médicos são contra ter seguros de erro medico. Sim ai nos USA eu lembro que eu tinha seguro e muitas vezes antes mesmo de ter um problema, quando eu sentia que um caso não estava indo bem eu entrava em contato com o meu seguro e eles tinham bons advogados a minha disposição para me aconselhar como minimizar o risco de processo.
Aqui, como não tem seguro, o Maximo que a gente consegue é se aconselhar com Comissões da Associação Medica, e organizações como essas. Mas na hora do vamos ver...estamos sós.
Marcio Pinheiro

 

 

Márcio, os conselhos de Medicina têm posição contra o seguro porque ele estimula os processos e induz condenações cada vez mais freqüentes e maiores, Afinal, é o seguro que paga. Em segundo lugar, com o nível de renda dos médicos atuais - principalmente os mais jovens - quem poderia pagar os prêmios?
Luiz Salvador

 

 

Entendo Luiz Salvador... a coisa é complexa... mas duvido que nós vamos conseguir trabalhar sem seguro, pelo menos os que têm bens e um rendimento melhor.
A alternativa é não ter bens: colocar tudo em nome de filhos, etc. e não ter rendimentos.
Claro que os que não tem bens e não recebem  dignamente não precisam temer (acho). Nenhum advogado vai querer processar quem não tem dinheiro ou rendimento.
O seguro é para quem tem...
Discordo dos CFMs. Estão dando uma de avestruz.
Marcio Pinheiro

 

 

Bassanesi, Márcio e demais colegas, não temos estudos - até onde sei - sobre as principais causas de  processo contra psiquiatras. Do que tenho visto, diria que a maioria é ocasionada por suicídio ou tentativas e por assédio sexual. Por efeitos colaterais de psicofármaco, não me passou nenhum pelas mãos ainda.

 O objetivo da DefMed é prestar assessoria técnica em defesa do médico de uma forma profissional. O que se observa hoje é que um colega, ao ser processado, recorre a seu advogado, que nada sabe de medicina, e este  elabora sua contestação (um documento essencial) de forma inconsistente, tendo apenas a ajuda do próprio processado, que tem uma visão extremamante enviesada e angustiada do assunto. Quando necessita de um assistente técnico, indica um colega de especialidade, seu ex-professor ou um amigo, que desempenhará esse papel principalmente por amizade. Sem cobrar nada e, principalmente, sem ter qualquer intimidade com a arena judiciária. 

 A idéia é sentar junto ao advogado e auxiliá-lo completamente na elaboração da defesa. Como eu e meu sócio somos psiquiatra e otorrino, respectivamente, temos conosco colegas das especialidades médicas mais visadas. Todos com excelente CV e experiência em peritagem. 

 A idéia, em síntese, é essa: prevenção secundária. Prevenção primária, com o sugere o Márcio, ocorrerá através de cursos que daremos sobre a prevenção de processo por erro médico. A consultoria prévia, em caso concreto, não nos havia ocorrido, mas é uma excelente idéia.

José G. V. Taborda

 

Taborda, claro que é uma idéia excelente, mas amplie o leque para os colegas que estão lidando com um caso difícil que pode levar a processo. Isso vai ser ótimo.
Marcio Pinheiro

 

 

Mas seria bom ter um seguro medico que não pagasse, apenas bancasse o custo da defesa. PJN

 

 

O Márcio falou e eu reafirmo, um bom prontuário médico é a melhor defesa. O DefMed vem preencher uma lacuna importante. Orientação em caso de processo. O médico tende a se sentir humilhado, a se esconder e não providenciar uma defesa adequada. Um abraço Walmor Picinini

 

Verdade, Walmor. A tendencia do médico e se retrair e ter vergonha dos colegas. Ai a coisa fica mais complicada. Mas vamos ter de aprender muito na medida que essa coisa de processo for virando mesmo um problema aqui, como é lá. Aqui tem uma coisa melhor que lá não tem: a parte que perde a ação paga os custos da ação do outro, inclusive advogados. Lá, nem isso. Cada um paga o seu.
Gostaria de trocar idéias sobre isso, talvez quem sabe num Congresso ou quem sabe num encontro patrocinado pelo grupo do Taborda ou pela ABP.
Marcio Pinheiro

 

Márcio, aqui o médico sempre perde e explico. Geralmente quem move a ação, utiliza o serviço judiciário gratuito. Para isto precisa ter atestado de pobreza, logo dali não sairá nada. O médico é obrigado a contratar advogado e isso tem custo. Se o médico ganha a ação o que tem acontecido em mais de 90% dos casos (devido a futilidade das acusações), ele não será reembolsado pelos gastos, vai ter que dar graças a Deus por ter ganho e pagar os honorários do seu  advogado. O Simers ( sindicato gaúcho) tem um serviço de assistência jurídica para seus associados. A rigor, todos nós pagamos compulsóriamente o imposto sindical e, teóricamente, poderíamos solicitar esse serviço. A amrigs, nosso Assoc. Médica, também oferece assistência jurídica. Os casos que tenho tido notícia, são completamente sem consistência. como já dissestes, é necessário um prontuário corretamente preenchido. Não é necessário entrar na vida privada do paciente, não interessa se ele está comendo a vizinha ou se deu o rabo no primário, isso fica em outros registros. É importante registrar medicamentos, instruçoes de para-efeitos, idéias de suicídio, tentativas, recusa de cumprir as orientações etc.

Walmor Piccinini

 

 

Tá danado, Walmor. Mas se é verdade que os processos estão aumentando temos de ver como iremos lidar com isso. Deixar para lá não é bom.
Marcio Pinheiro

 

 

OPINIÃO

 

[Sobre a falência moral e intelectual dos colegas que compactuam e se vitalizam com a deconstrucao do "saber médico", comentado por Paulo J Negro.]

Isto é algo que me toca, pois estudei um pouco os desconstrucionistas pós-modernos (Foucault, Derrida) por força de uma situação que me oprimia na prática, quando tudo isso começou aqui no Brasil. E o que constatei foi que por mais sedutores que eles fossem, nunca conseguiram afastar de mim um pensamento de que toda aquela potência de pensamento carecia de eficácia para tratar do real, embora o tangenciasse. Era como se fosse o primeiro ato de uma peça teatral inconclusa.  Pois se a falência do modelo iluminista e a queda dos fundamentos dos saberes apontava para a relatividade de todas as posições, ficou faltando demonstrar qual o critério utilizado para lidar com o real depois disso? E quem veio responder foi a tecnologia, pois os desconstrucionistas não estão interessados em eficácia.

 

Portanto, colegas, precisamos de mais instrumentalizaçã o em tecnologias de análise de dados, de feed-back. É hora de nos instrumentalizarmos em tecnologias da inteligência, tecnologias relacionais, além das tecnologias farmacológicas, porque a relação médico-paciente não é a mesma e não adianta de nada contrapor aos pós-modernos uma prática anacrônica. 

 Vamos lidar cada vez mais com poderes absolutamente arbitrários, cujo julgamento não se baseia em experimentos, sejam eles científicos ou não. Parecem mais pré-julgamentos, pré-conceitos, pensamentos sem conceitos, selvagens, ou seja, sem que se saiba qual a formação que está gerindo o processo de escolha, já que se supõe que tudo tem o mesmo valor.

 Os pacientes se multiplicam pelo planeta e só os mais preparados é que vão poder lidar com a cabeça deles com alguma força de tranformação, isto é, com alguma eficácia.

Nívia Bittencourt

 

 

CITAÇÃO

 

"É preciso que os fortes sejam protegidos dos fracos".

Nietzsche

 

 

HOMENAGEM

 

 

Os poemas são pássaros
 

 

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto;
alimentam-se um instante em cada
par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...


Mário Quintana

 

 

O Bicho

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

 

(Manoel Bandeira)


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