Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Agosto de 2007 - Vol.12 - Nº 8

Artigo do mês

EFEITOS NEUROPSICOLÓGICOS DO TRAUMATISMO CRANIENCEFÁLICO

Luciana Ervedosa Spanholi

psicóloga especialista em neuropsicologia, mestranda em Medicina e Ciências da Saúde pela PUCRS

Resumo: O traumatismo craniencefálico (TCE) é uma das maiores causas de lesão cerebral com altos índices de morbidade e mortalidade em jovens. Os indivíduos que sofrem TCE podem apresentar alterações físicas, transtornos motores, sensoriais e alterações neuropsicológicas (transtornos cognitivos, de comportamento e emocionais). A partir de revisão da literatura, este artigo objetivou abordar os efeitos neuropsicológicos do TCE, bem como a importância da avaliação neuropsicológica do paciente para documentar os déficits cognitivos e intelectuais, auxiliando no estabelecimento diagnóstico e no estabelecimento de condutas terapêuticas.

 

Palavras-chave: traumatismo craniencefálico, efeitos neuropsicológicos, avaliação neuropsicológica.

O traumatismo craniencefálico (TCE) é conceituado como qualquer agressão que acarreta lesão anatômica ou comprometimento funcional do couro cabeludo, crânio, meninges ou encéfalo1 e, de um modo geral, encontra-se dividido, segundo sua intensidade, em grave, moderado e leve. É considerado como processo dinâmico, já que as conseqüências de seu quadro patológico podem persistir e progredir com o passar do tempo2.

As vítimas que sobrevivem ao TCE podem apresentar deficiências e incapacidades que são temporárias ou permanentes, interferindo na capacidade do indivíduo de desempenhar suas funções3.

As incapacidades resultantes do TCE podem ser divididas em três categorias: físicas, cognitivas e comportamentais/emocionais. As incapacidades físicas são diversificadas, podendo ser visuais, motoras, entre outras; as incapacidades cognitivas, freqüentemente, incluem diminuição da memória, dificuldades de atenção e aprendizagem, entre outras; e as comportamentais/emocionais são a perda de autoconfiança, comportamento infantil, motivação diminuída, e mais comumente, irritabilidade e agressão4.

Recente revisão bibliográfica, que descreve os fatores relacionados com o prognóstico das vítimas de TCE, apontou que as alterações neuropsicológicas pós-traumáticas constituem um dos principais fatores que determinam o futuro dessas pessoas, pois condiciona, de forma notável, tanto o grau de independência funcional alcançado e retorno ao trabalho, como também o estabelecimento de relações familiares e sociais satisfatórias5.

Corroborando com essas observações, as pesquisas que descrevem as conseqüências negativas vivenciadas pelos cuidadores em decorrência ao cuidado das vítimas de TCE mostram que suas causas são mais determinadas pelas mudanças comportamentais, emocionais, sociais e cognitivas desenvolvidas pelas vítimas de TCE que pelas mudanças associadas com a incapacidade física6-8.

Jennet e cols. (1981)9 demonstraram que as alterações neuropsicológicas pós TCE contribuíam, primariamente, para a incapacidade em dois terços dos pacientes, enquanto que o déficit motor e outras seqüelas neurofisiológicas contribuíam, na mesma medida oude forma predominante, na terceira parte restante.

As conseqüências neuropsicológicas de um TCE dependem de vários fatores, entre os quais se destacam a gravidade do traumatismo e o tipo de lesão sofrida (axonal difusa ou focal), a idade do paciente, assim como fatores pré-mórbidos, como as capacidades cognitivas prévias, o nível de inteligência geral, a profissão, o rendimento acadêmico, entre outros10.

O comprometimento difuso pós TCE refletiria o dano axonal difuso, causado pelas forças mecânicas de aceleração e desaceleração. Lesões difusas podem acarretar ao paciente lentidão de pensamento e do processamento de informações, dificuldades atencionais, fadigabilidade e, quando associadas à TCE grave, podem acarretar prejuízos diversos, como alterações de linguagem e vísuo-espaciais11.

Lesões focais repercutem em prejuízos relacionados às áreas atingidas, porém, em lesões por golpe e contra-golpe, as alterações mais significativas costumam estar associadas à região contralateral ao choque. As regiões temporais e frontais são as mais suscetíveis a lesões devido ao choque com partes ósseas: pólos temporais e região órbito-frontal. Neste caso, podem ocorrer dificuldades relacionadas à memória e à aprendizagem, às funções executivas (planejamento, automonitoração, resolução de problemas) e de personalidade (alteração da capacidade de crítica e julgamento, impulsividade)12.

É importante considerar que os pacientes podem apresentar mais de um padrão de alterações e que a gravidade do TCE determinará, em grande parte, se haverá de fato seqüelas significativas ou não. Pessoas que sofreram TCE leve podem apresentar algumas alterações na fase pós-aguda que não se caracterizarão como seqüelas permanentes, porém muitos destes pacientes, embora aparentemente sem alterações cognitivas, poderão apresentar dificuldades para retomar as atividades prévias. Em contrapartida, no TCE grave, podem-se observar comprometimetos em várias esferas, sem que seja possível determinar um padrão único de prejuízos12.

A avaliação neuropsicológica das pessoas que sofreram TCE constitui-se em um componente essencial no estudo do paciente traumatizado, uma vez que permite identificar as alterações cognitivas e afetivo-comportamentais que surgem a partir da lesão traumática assim como as funções que permaneceram conservadas, de maneira que permite elaborar um programa reabilitador que possibilite um maior grau de autonomia, uma reinserção sócio-econômica e um aumento da qualidade de vida do paciente13-14.

Concluindo, as conseqüências neuropsicológicas que se apresentam após um TCE podem ser muito variadas e dependem de fatores relacionados com a gravidade da lesão, o tipo de dano cerebral, a localização e a extensão das zonas afetadas, as conseqüências fisiopatológicas, e de outros fatores relacionados ao paciente, como idade, nível de escolaridade e personalidade pré-mórbida15.

A avaliação neuropsicológica se faz fundamental no acompanhamento clínico de pacientes com TCE, para documentar os déficits cogitivos e intelectuais, auxiliando no estabelecimento diagnóstico e no estabelecimento de condutas terapêuticas16.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

1. Nitrini R, Bacheschi LA. A neurología que todo médico debe saber. São Paulo (SP): Atheneu; 2003.

2. Souza CAC. Neuropsiquiatria dos traumatismos craniencefálicos. Rio de Janeiro (RJ): Revinter; 2003.

3. Sousa RMC, Regis FC, Koizumi MS. Traumatismo crânio-encefálico: diferenças das vítimas pedestres e ocupantes de veículos a motor. Rev Saúde Pública 1999; 33(1):85-94.

4. Leathem J, Heath E, Woolley C. Relatives’perceptions of role change, social support and stress after traumatic brain injury. Brain Inj 1996; 10(1):27-38.

5. Muñoz-Céspedes JM, Paúl-Lapedriza N, Pelegrín-Valero C, Tirapu-Ustarroz J. Factores de pronóstico en los traumatismos craneoencefálicos. Rev Neurol 2001; 32(4):351-64.

6. Brooks N, Campsie L, Symington C, Beattie A, Mckinlay W. The five year outcome of severe blunt head injury: a relative’s view. J Neurol Neurosurg Psychiatry 1986; 49(7):764-70.

7. Knight RTG, Devereux R, Godfrey H. Caring for a family member with a traumatic brain injury. Brain Inj 1998; 12(6):467-81.

8. Marsh NV, Kersel DA, Havill JH, Sleigh JW. Caregiver burden at 6 months following severe traumatic brain injury. Brain Inj 1998 ; 12(12):1045-59.

9. Jennet B, Snoek J, Bond MR, Brooks N. Disability after severe brain injury: Observations on the use of Glasgow Outcome Scale. J Neurol Neurosurg Psychiatry 1981; 44: 285-293.

10. Junqué C, Bruna O, Matró M.  Traumatismos Cranioencefálicos: uma abordagem da neuropsicologia e fonoaudiologia. São Paulo: Santos, 2001.

11. Morse PA, Montgomery CE. Neuropsychological evaluation of traumatic brain injury. In: White RF (ed) (1992). Clinical Syndromes in Adult Neuropsychology: The Practicioner`s Handbook. Amsterdam: Elsevier Science Publishers, pp. 83-175.

12. Gouveia PAR, Fabrício AM. – Avaliação Neuropsicológica em Traumatismo Craniencefálico. Em: Andrade VM, Santos FH, Bueno OFA. - Neuropsicologia Hoje. São Paulo: Artes Médicas, 2004.

13. León Carrión J, Machuga Murga F, Murga Sierra M, Domínguez Morales R. Eficacia de un programa de tratamiento intensivo, integral y multidisciplinario de pacientes con trauma craneoencefálico. Valores médico-legales. Rev Neurol 2001;33(4):377-83.

14. Muñoz Céspedes JM, Paúl Lapedriza N. La detección de los posibles casos de simulación después de un traumatismo craneoencefálico. Rev Neurol 2001;32(8):773-8.

15. Arias YG, Pérez IA. Consecuencias neuropsicológicas de los traumatismos craneoencefálicos. Rev cubana med, jul.-ago. 2002, vol.41, no.4, p.227-231.

16. Malloy-Diniz LF. O exame neuropsicológico e suas contribuições à Psiquiatria. Psiquiatria Biológica, 9(2): 66-77, 2001.

Luciana E. Spanholi


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