Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Maio de 2007 - Vol.12 - Nº 5

Artigo do mês

Versão em português da escala de Auto-Avaliação ao Falar em Público (SSPS): estudo da análise fatorial e consistência interna

Portuguese version of the Self-Statements During Public Speaking (SSPS) scale: factorial analysis and internal consistency study

Gustavo J. Fonseca D’El Rey
Adriana Cejkinski

Programa de Fobia Social do Centro de Pesquisas e Tratamento de Transtornos de Ansiedade – São Paulo-SP, Brasil.

Resumo: O medo grave de falar em público constitui um subtipo pouco reconhecido da fobia social e traz sofrimento e incapacitação. Este estudo teve por objetivo investigar a consistência interna (CI) e a análise fatorial (AF) da versão em português da escala de Auto-Avaliação ao Falar em Público (SSPS). Foi realizado um estudo da CI e da AF da SSPS em uma amostra de 229 estudantes universitários da cidade de São Paulo-SP. A AF manteve os 2 fatores e os 10 itens da escala original; a variância explicada para cada sub-escala foi: SSPS-P = 43,4% e SSPS-N = 16,7%. A CI para a escala toda, analisada pelo coeficiente alfa de Cronbach foi de 0,88. Esse estudo disponibiliza para a língua portuguesa um instrumento confiável para mensurar a auto-avaliação relacionada ao falar em público.

Palavras-chave: Fobia social, falar em público, auto-avaliação, escala de avaliação, psicometria.

 

Abstract: The public speaking fear constitutes a recognizable subtype of social phobia that brings distress and disability. This study had the aim investigated the internal consistency (IC) and factorial analysis (FA) of the portuguese version of the Self-Statements During Public Speaking (SSPS) scale. We realized a study of IC and FA of the SSPS in a sample of 229 college students of the city of São Paulo-SP. The FA maintained the 2 factors and 10 items of the original scale; the accounted variance for each sub-scale was: SSPS-P =  43,4% and SSPS-N = 16,7%. The IC for the all scale, analyzed by Cronbach's alpha coefficient was 0,88. This study made avaliable to the portuguese language a reliable instrument to assess the self-statements during public speaking.

Key-words: Social phobia, public speaking, self-statements, rating scales, psychometrics.

 

 

INTRODUÇÃO

 

Recentes estudos epidemiológicos revelaram que a fobia social é mais prevalente do que se acreditava ser (MAGEE et al., 1996). Porém, o medo grave de falar em público constitui ainda um subtipo pouco reconhecido da fobia social em amostras comunitárias, assim como o impacto no funcionamento pessoal que este tipo de ansiedade social pode causar na vida do indivíduo (D’EL REY & PACINI, 2005; STEIN et al., 1996).

Estudos que avaliaram a prevalência da fobia social ao longo da vida encontraram cerca de um terço das pessoas que preenchiam os critérios diagnósticos para o transtorno, relatando exclusivamente medo de falar em público (KESSLER et al., 1998). Em amostras de populações não-clínicas o medo de falar em público consiste na forma mais comum de ansiedade social, trazendo sofrimento e perdas de oportunidades (D’EL REY, 2001).

Em relação às teorias modernas para a ansiedade social, os pesquisadores enfatizam que este tipo de ansiedade é modulado principalmente por processos cognitivos mal-adaptativos (CLARK & McMANUS, 2002). Um ponto em comum entre as teorias cognitivas, presume, que a ansiedade social (conseqüentemente o medo de falar em público) resulta de uma auto-percepção negativa ou uma percepção de avaliação negativa por parte de outras pessoas em situações sociais (RAPEE & HEIMBERG, 1997; STOPA & CLARK, 1993).

A correta identificação destas cognições tem implicações para o tratamento cognitivo-comportamental da fobia social, uma vez que mudanças no estilo de interpretar as situações sociais podem fazer com que o paciente mantenha as melhoras comportamentais adquiridas durante o tratamento (D’EL REY & PACINI, 2006; D’EL REY et al., 2006; TAYLOR et al., 1997).

HOFMANN & DiBARTOLO (2000), desenvolveram uma escala que mensura a auto-avaliação relacionada ao ato de falar em público, a este instrumento deram o nome de Self-Statements During Public Speaking – SSPS (Auto-Avaliação ao Falar em Público).

 

Escala de Auto-Avaliação ao Falar em Público (SSPS)

Foram realizados 04 estudos para o desenvolvimento e se estabelecer as propriedades psicométricas da escala Self-Statements During Public Speaking (SSPS). Com base na Social Interaction and Self-Statement Test (SISST), desenvolveu-se a SSPS, um instrumento auto-aplicado, composto por 10 itens pontuados em escala likert de 0 a 5 pontos (0 = se você discorda totalmente a 5 = se você concorda inteiramente com a afirmação), que objetiva mensurar a auto-avaliação (e o sofrimento) relacionada ao falar em público. A SSPS apresentou indicadores aceitáveis de fidedignidade (SSPS–N = 0,86 / SSPS-P = 0,75 [controles normais] e SSPS-N = 0,80 / SSPS-P = 0,78 [pacientes com fobia social]), de validade divergente, de validade convergente com medidas gerais de ansiedade social e com medidas específicas para avaliação do medo de falar em público, além de adequada validade discriminante. A análise fatorial realizada indicou a presença de dois fatores, ou seja, 2 sub-escalas, a saber, Auto-Avaliação Negativa - SSPS-N (variância explicada = 15,5%) e Auto-Avaliação Positiva - SSPS-P (variância explicada = 42,7%). A escala mostrou-se adequada, para mensurar a auto-avaliação relacionada ao falar em público (OSÓRIO et al., 2005; HOFMANN & DiBARTOLO, 2000).

 

OBJETIVOS

 

Este estudo teve como objetivo, a avaliação da análise fatorial e da consistência interna da versão em português da escala de Auto-Avaliação ao Falar em Público (SSPS) em uma amostra populacional de universitários da cidade de São Paulo - SP, Brasil.

 

MÉTODOS

 

Versão em Português

O autor principal da escala (Dr. Stefan Hofmann) enviou-nos via e-mail uma versão já traduzida para a língua portuguesa da SSPS por OSÓRIO et al. (2004) e aprovadas pelos autores do instrumento original em inglês, evitando-se desta maneira que diversas versões da mesma escala estivessem disponíveis em uma mesma língua. Realizou-se um pré-teste com 20 universitários para verificação da compreensão das questões que compõem a SSPS. Não ocorreram problemas na compreensão.

 

População do Estudo

A versão em língua portuguesa da SSPS foi aplicada em universitários de ambos os sexos de um curso matutino de Biologia de uma universidade particular localizada no bairro da Mooca (zona leste) da cidade de São Paulo - SP. Todas as turmas de primeiro ano do referido curso foram elegíveis para este estudo, perfazendo um total de 252 alunos. Entre os 252 universitários, 23 (9,1%) não foram incluídos na amostra por estarem ausentes em sala de aula durante a aplicação da presente pesquisa. A amostra final foi composta por 229 alunos.

 

Procedimentos

Ao final das atividades acadêmicas, os alunos foram convidados a participarem da pesquisa. Os universitários presentes em sala receberam o protocolo de pesquisa que incluiu: consentimento informado, folha com os dados demográficos e a versão em português da SSPS. Os alunos receberam do autor (primeiro) deste estudo, instruções gerais para o preenchimento da SSPS. Não ocorreram recusas na participação.

 

Análise dos Dados

Para a validade de construto da SSPS utilizou-se a análise fatorial, que permite a confirmação dos fatores e a confirmação dos itens em cada fator. Esta análise baseia-se na correlação entre os itens. O método utilizado foi o de componentes principais e a rotação foi oblíqua, o que permite que os fatores sejam correlacionados (ARTES, 1998). Através do coeficiente alfa de Cronbach estimou-se a consistência interna da SSPS. O alfa de Cronbach é uma das medidas mais usadas para a verificação da consistência interna de um grupo de variáveis (itens). Este índice varia de 0 a 1, quanto mais próximo de 1, maior a confiabilidade do instrumento (PESTANA & GAGUEIRO, 2005).

 

Questões Éticas

Este estudo esteve de acordo com a Resolução do Conselho Nacional de Saúde (196/96) para pesquisa envolvendo seres humanos. A presente pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro de Pesquisas e Tratamento de Transtornos de Ansiedade – São Paulo-SP.

 

RESULTADOS

 

Características da Amostra e Escores da SSPS

Responderam ao protocolo de pesquisa um total de 229 universitários, sendo 76 (33,2%) homens e 153 (66,8%) mulheres, com idades variando entre 18 e 27 anos, sendo a média de 19,6 anos (DP = 2,2). Os escores foram divididos para as 2 sub-escalas, ou seja, para a sub-escala de Auto-Avaliação Negativa (SSPS-N) variou de 4 a 16 pontos, com a média de 7,9 pontos (DP = 3,3) e para a SSPS-P variou de 5 a 20 pontos, com a média de 11,5 pontos (DP = 5,4). As características sócio-demográficas dos participantes estão sumarizadas na Tabela 1.

 

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Tabela 1: Características sócio-demográficas.

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Características                       N                     %

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Gênero

Masculino                                76                    33,2

Feminino                                  153                  66,8

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Raça

Branca                                    179                  78,1

Negra                                      13                    5,7

Amarela                                  37                    16,2

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Estado civil

Solteiro                                    218                  95,2

Casado                                    11                    4,8

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Ocupação

Atividade Remunerada             22                    9,6

Estudante Somente                   207                  90,4

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Análise Fatorial da SSPS

Com base na análise fatorial pode-se observar claramente a composição de 2 fatores, ou seja, Auto-Avaliação Negativa (SSPS-N) e Auto-Avaliação Positiva (SSPS-P). Estes 2 fatores podem ser considerados como sub-escalas da SSPS. Observaram-se 2 valores absolutos da variância explicada (eigenvalues) superiores a 1, que indicou a existência de 2 fatores. Os valores obtidos foram 1,66 e 4,33. Utilizando-se estes 2 fatores, temos 16,7% para a SSPS-N e 43,4% para a SSPS-P de variância explicada. Na Tabela 2, observa-se que os itens pertencentes ao mesmo fator (domínio / sub-escala) permanecem mais correlacionados entre si.

 

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Tabela 2: Correlações entre os itens e os fatores.

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                                                           Fatores

Fator               Itens               SSPS-N           SSPS-P

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SSPS-N           2                      0,803               0,468

                        4                      0,786               0,407

                        7                      0,781               0,486

                        8                      0,801               0,524

                        10                    0,794               0,432

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SSPS-P            1                      0,408                0,764

                        3                      0,471                0,796

                        5                      0,457                0,791

                        6                      0,395                0,778

                        9                      0,426                0,783

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Consistência Interna da SSPS

A consistência interna da SSPS (escala toda) avaliada através do alfa de Cronbach foi igual a 0,88. A consistência interna para a sub-escala de Auto-Avaliação Negativa (SSPS-N) foi de 0,89 e para a sub-escala de Auto-Avaliação Positiva (SSPS-P) foi de 0,77.

 

DISCUSSÃO

 

As análises fatoriais para a versão em português da SSPS confirmaram a existência de 2 fatores / domínios (sub-escalas), igual a escala original. Os valores absolutos da variância explicada (eigenvalues) da escala traduzida e da escala original foram semelhantes. Na escala traduzida foram 16,7% para a SSPS-N e 43,4% para a SSPS-P e na escala original foram 15,5% e 42,7%, respectivamente. Na versão em português, o número de itens dentro da cada fator foi o mesmo que o existente na escala original, pois os itens pertencentes ao mesmo fator (sub-escala) permanecem mais correlacionados entre si (ver Tabela 2).

Conforme PESTANA & GAGUEIRO (2005), neste nosso estudo, a consistência interna total da SSPS avaliada através do alfa de Cronbach (0,88) foi considerada boa. A sub-escala SSPS-N também apresentou uma boa consistência interna (0,89). A sub-escala SSPS-P apresentou uma consistência interna (0,77) considerada satisfatória.

Em geral, escalas com valor do alfa de Cronbach menor do que 0,70 são evitadas (STREINER, 1993). A boa consistência interna apresentada pela SSPS total e pelas sub-escalas, acima do critério mínimo requerido (0,70), atesta sua fidedignidade, sugerindo que este instrumento pode ser utilizado aqui em nosso país, para mensurar a auto-avaliação relacionada ao falar em público.

As consistências internas da versão em português encontradas para as sub-escalas (SSPS-N = 0,89 e SSPS-P = 0,77) foram semelhantes as da versão original em inglês em uma população não-clínica, ou seja, 0,86 e 0,75, respectivamente.

Até onde sabemos, infelizmente não existem outros estudos sobre as propriedades psicométricas da SSPS para uma melhor comparação dos resultados deste estudo.

Por ser de fácil preenchimento pelo paciente, e ser muito sensível as mudanças cognitivas (principalmente a sub-escala SSPS-N) no pré e pós-tratamento de pacientes com fobia social que apresentam medo grave de falar em público (HOFMANN & DiBARTOLO, 2000), a SSPS pode ser utilizada em serviços de atenção primária em saúde, otimizando desta maneira a avaliação do tratamento deste grave transtorno de ansiedade.

Finalizando, gostaríamos de salientar que os resultados da presente pesquisa devem ser interpretados com cautela em vista das limitações metodológicas do estudo, por exemplo, ausência de testagem de confiabilidade teste-reteste. Estudos que verifiquem outras qualidades psicométricas da SSPS e com outras populações são necessários e este é um campo promissor para futuras pesquisas aqui no Brasil.

 

CONCLUSÃO

 

Esse estudo disponibiliza para a língua portuguesa uma escala de mensuração (SSPS) confiável para a auto-avaliação relacionada ao ato de falar em público, auxiliando desta forma pesquisadores e clínicos que trabalham com fobia social.

 

AGRADECIMENTOS

 

Gostaríamos de agradecer imensamente ao Dr. Stefan G. Hofmann, Profa. Raquel Fluminhan, Dr. João Paulo L. Lacava e Dra. Paloma N. Greenberg.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

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Correspondência: Dr. Gustavo D’El Rey / Rua Bom Jesus, 274-B – São Paulo-SP, Brasil. CEP 03344-000. Tel: (11) 6965-5163. E-mail: [email protected]

 


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