Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Dezembro de 2006 - Vol.11 - Nº 12

História da Psiquiatria

A História das classificações no Brasil III

Walmor J. Piccinini



Em todas as ciências de observação, de quando em quando é preciso dar um balanço nas aquisições feitas no caminho percorrido. (...)

Surgem assim as classificações.

São tanto mais numerosas, quanto menos estabilizada a ciência.

                                               Juliano Moreira, 1919. (citado por Ana Oda, 2006)

            Quando supõem terminados os seus estudos, os retóricos fazem uma tragédia, os alienistas  uma classificação*  (Philippe Buchez)

*Citado por: Juliano Moreira., 1919; Afrânio Peixoto, 1938; German Berrios, 1996;

Cláudio Banzato, 2002, Ana Oda, 2006.

As classificações estão diretamente ligadas ao conhecimento de uma determinada etapa da civilização. Na Grécia antiga, os homens eram vistos como brinquedos dos deuses, eles não eram responsáveis por sua loucura. Por mais que tentassem evitar, eram vítimas de um destino traçado pelo capricho dos deuses. Nada mais natural que os templos fossem dedicados à cura dos que sofriam. Hipócrates (460-337), em torno do século V antes de Cristo, colocou a loucura dentro do corpo humano. “Do cérebro, e apenas do cérebro, surgem nossos prazeres, alegrias, bem como nossas tristezas, dor pesar e lágrimas. É este mesmo órgão que nos torna loucos ou delirantes, influencia-nos com terror e medo, traz insônia e a ansiedade despropositada”.

Surge assim, a primeira classificação responsabilizando os humores como responsáveis pelas doenças mentais e físicas. Galeno no século II depois de Cristo, estendeu a teoria de Hipócrates aos tipos de personalidade, nomeando os tipos sanguíneo, fleugmático, colérico e o melancólico. Devemos considerar que, embora os escritos gregos e romanos tenham sido preservados e mais divulgados, surgiram descobertas posteriores como no papiro de Ebbers, e em cranios encontrados em sarcófagos que nos mostram que os egípcios tinham concepções sobre doença e tratamento bem estruturadas,  uma das descobertas é de que realizavam determinadas cirurgias, inclusive trepanação craneana. De acordo com Blashfield (1998), a primeira evidência de classificação vem de um escritor egípcio no  século I BC. O escritor forneceu uma descrição das mulheres que experimentaram os sintomas físicos que migraram em torno do corpo (este quadro, mais tarde, seria chamado de histeria). Nos Salmos do antigo testamento podemos encontrar descrições de quadros depressivos.

Na idade média, os transtornos mentais voltaram a serem tratados  como fenômeno religioso, mais precisamente, a ação de forças demoníacas sobre os homens. Os clérigos eram vistos como agentes de cura. Não havia espaço para a ciência e a medicina.  A tentativa a mais significativa na classificação psiquiátrica foi feita por Gilbertus Anglicus. Publicou um compendio médico em 1230 em que oferecia descrições sobre mania,  melancholia, letargia, epilepsia, e da possessão demonica. A Inquisição, o Malleus Maleficarum (martelo das bruxas) reforçaram a idéia de possessão, bruxaria e do sobrenatural agindo sobre a mente humana. Paracelso estabeleceu a relação entre loucura e as fase da lua, dai surgir o termo lunático.

Os séculos XVII e XVIII, Marcam a passagem da loucura do campo das explicações religiosas (demonistas) para o campo médico.

     As Loucuras passam a ser consideradas doenças.

      Felix Plater (1625): cria o termo “alienação mental”.

William Cullen William Cullen (1710-1790)

http://www.healthsystem.virginia.edu/internet/library/historical/rare_books/classics/#Cullen

William Cullen

Title page

Third edition (three volumes) published in Edinburgh in 1781.

First Lines of the Practice of Physic

Nascido em Lanarkshire, Scotland, William Cullen estudo medicina na Universidade de Edinburgh sob orientação de Alexander Monro,um dos mais destacados anatomistas daquela época. Cullen foi um dos fundadores da “Glasgow Medical School” em 1744.  Ele deixou Glasgow em 1755 e terminou sua carreira na Universidade de Edinburgh.Ele atraia estudantes de todo mundo ocidental, entre eles estava o americano Benjamin Rush ( depois considerado o pai da psiquiatria americana). Em 1777, Cullen publicou as partes essenciais de suas aulas em  Edinburgh “ First Lines of the Practice of Physic”. As doenças eram classificadas em quatro grandes classes (1. Pyrexiae ou doenças febris 2. Neuroses (Conjunto de afecções em que há perturbação da razão, do sentimento e do movimento, sem lesão perceptível do cérebro e sem febre). 3. Cachexiae, 4. Locales (tais como câncer).  Ele sugeriu que a doença era resultado de distúrbios do sistema nervoso. Como conseqüência, condenava o uso de laxantes e purgativos  e prescrevia somente tônicos como o quinino, a cânfora ou vinho que agiriam como estimulantes ou sedativos do sistema nervoso. Seu livro tornou-se o principal texto sobre classificação e tratamento da doença.  Sua época passou, mas persistem as idéias de “energia nervosa”  e de “neurose”.

Cullen foi um marco na medicina do seu tempo. Pinel o traduziu para o francês e adotou algumas das suas idéias, mas não temos indicativo que o tenha citado em seus tratados.

Philippe Pinel (1745-1826). Primeiramente tentou a vida religiosa, em 1776 entrou na Faculdade de Teologia de Tolouse. Desistiu da vida religiosa e entrou na Faculdade de Medicina de Toulouse, onde se formou em 1773. Passou depois quatro anos em Montpellier se aperfeiçoando e depois foi para Paris. Chegado a Paris em 1778, ele se sustentou por muitos anos fazendo traduções científicas e médicas, e ensinando matemática. Nesse período, também visitava doentes mentais confinados, escrevendo artigos sobre suas observações. Inicialmente clinicou e somente passou a se interessar pela psiquiatria por volta de 1780, aos quarenta anos, devido à preocupação em socorrer um amigo, vítima de psicose maníaca aguda. Em agosto de 1793, por influência dos amigos Cabanis e Thouret, foi nomeado médico-chefe do Asilo de Bicêtre, por decreto da Convenção.

Pinel corretamente considerou as doenças mentais como resultado ou de tensões sociais e psicológicas excessivas, de causa hereditária, ou ainda, originada de acidentes físicos, desprezando a crendice entre o povo e mesmo entre os médicos de que fosse resultado de possessão demoníaca. Nesse particular seguiu as idéias de contemporâneos seus como Tuke, Chiarugi e Daquin. William Tuke (1732-1822) foi um comerciante de café e chá, e um filantropo, que fundou em 1792 um hospício em York na Inglaterra para dar tratamento humanitário aos doentes mentais; Chiarugi foi o médico diretor do Asilo Bonifácio, em Florença, onde em 1788 ele aboliu o tratamento desumano dos pacientes; e Joseph Daquin (1733-1815) o médico francês, de Chambéry, que havia estudado em Turim, na Itália, e que em seu La philosophie de la folie, em 1787 propôs um "tratamento moral" para os doentes mentais. (R. Cobra - www.cobra.pages.nom.br).

Durante os primeiros 15 anos em Paris, Pinel não tinha autorização de clinicar. Trabalhava em asilos geriátricos, fazia traduções e convivia com naturalistas. A conseqüência disto foi uma classificação psiquiátrica dentro da linha de Lineu e dos botanistas. Aprendeu a observar, descrever e organizar os pacientes em categorias.

n      Observação sistemática, agrupamento de dados verificáveis, esquema explicativo baseado na verificação empírica.

n      Modelo da História Natural: catalogar as espécies de loucura.

n      Constatando-se uma doença, determinar seu lugar no quadro nosológico. Tratado médico-filosófico sobre a alienação mental ou A mania (1800). Influência de Cullen e do método analítico das ciências naturais, da história natural (Lineu, Cuvier). (apud Oda, A.2006).

Classificação de Pinel

 

Cinco grandes classes de loucura: 

n      Mania: delírio generalizado, lesão de várias funções, como percepção, memória, julgamento, etc. Viva excitação.

 

n      Mania sem delírio: sem lesão das funções do entendimento, idéia delirante alguma justifica o furor ou o impulso a atos violentos.

 

n      Melancolia: delírio parcial, limitado. Comportamento coerente, afeto triste ou alegre.

 

n      Demência: abolição do pensamento, incoerência nas manifestações das faculdade mentais.

n      Idiotismo: obliteração das faculdades mentais e afetivas.

n      Depois de Pinel, o conceito de “alienação mental” cada vez mais se refere à crença na existência de uma unidade, um grupo de fenômenos específicos, distintos das demais doenças tratadas pela medicina. (Bercherie, 1989).

n      Buscam-se essências comuns a este grupo de fenômenos mentais e comportamentais, chamados sucessivamente de alienação mental (século XIX), psicopatia, doença mental e transtorno mental (séculos XX e XXI).

n      Depois de Pinel, o conceito de “alienação mental” cada vez mais se refere à crença na existência de uma unidade, um grupo de fenômenos específicos, distintos das demais doenças tratadas pela medicina. (Bercherie, 1989).

n      Buscam-se essências comuns a este grupo de fenômenos mentais e comportamentais, chamados sucessivamente de alienação mental (século XIX), psicopatia, doença mental e transtorno mental (séculos XX e XXI).

 

Classificações no século XIX

n      B. A. Morel

n      V. Magnan

n      W. Griesinger

n      K. Kahlbaum

n      R. Kraft-Ëbing

n      Depois de Pinel, o conceito de “alienação mental” cada vez mais se refere à crença na existência de uma unidade, um grupo de fenômenos específicos, distintos das demais doenças tratadas pela medicina. (Bercherie, 1989).

n      Buscam-se essências comuns a este grupo de fenômenos mentais e comportamentais, chamados sucessivamente de alienação mental (século XIX), psicopatia, doença mental e transtorno mental (séculos XX e XXI).

                                                                                                               (Ana Oda, 2006)

 

Classificações Brasileiras: a história das classificações brasileiras sofre a influência européia, inicialmente francesa, depois alemã e, mais recentemente a americana. Esteve sempre presente uma luta para impor idéias científicas sobre as crenças religiosas. Para alguns, tratou-se da imposição do saber médico sobre o saber religioso. O campo da loucura foi incorporado a Medicina.

No Brasil, somente no século XIX, com os Cursos Médico-Cirúrgicos da Bahia e do Rio de Janeiro que depois deram origem as Faculdades de Medicina respectivas, em 1932, surge então uma nova classe de profissionais, os médicos. (A Faculdade de Medicina do Rio Grande do Sul foi fundada em 1898, mas sua primeira turma médica foi surgir no século XX).

As teses de doutoramento são os documentos que permitem o conhecimento e avaliação do pensamento médico daquele tempo. Mesmo aceitando a crítica de que eram trabalhos de formandos, portanto sem experiência, servem de indicativos ao pensamento médico da época. Uma das primeiras teses em psiquiatria foi apresentada por Antonio Luiz da Silva Peixoto, em 1937. “Considerações Gerais sobre a Alienação Mental”. Segundo o Professor Isaías Paim, essa tese tinha boa qualidade e representa bem o pensamento daquele tempo. (A bibliografia era difícil e, geralmente, em francês o que indica uma classe social com recursos para adquirir livros e o conhecimento de línguas estrangeiras. Alguns dos alienistas que deixaram nome na história do atendimento aos insanos, eram homens cultos, falavam várias línguas, o francês era dominante, mas muitos falavam alemão. Muitos pertenceram a Academia Nacional de Medicina, e alguns chegaram a Academia Brasileira de Letras).

Não custa lembrar que 1837 é uma época sem asilos. O primeiro foi inaugurado em 1852.  Os médicos só foram assumir a direção dos asilos com a proclamação da república. Antes disso, o atendimento era feito por religioso. A Faculdade de medicina teve seu primeiro professor de psiquiatria o professor Nuno de Andrade

E ele pro sua vez tinha uma classificação própria:

                                                    [Extasia.

                     {hiperphrenias  ----[Paranóia.

                                                    [Mania.

Phrenopatias-

 

                      {Hipophrenias ------[Anóia e Abulia.

 

 

     

            Nuno de Andrade. Seguia as classificações de KraftEbbing

            João Carlos Teixeira Brandão e seus discípulos Márcio Néri e Henrique Roxo. Seguiam a Escola Francesa, Pinel, Esquirol.

Classificação de Emil Kraepelin (8a. ed. Compêndio de Psiquiatria 1909-1913).

1- Loucura por lesões cerebrais (traumas).

2- Loucura por doenças cerebrais.

3- Distúrbios mentais tóxicos.

4- Delírio infeccioso.

5- Distúrbios psíquicos luéticos (sifilíticos).

6- Demência paralítica.

7- Distúrbios mentais senis e pré-senis.

8- Psicose tireógena.

9- Enfraquecimentos psíquicos endógenos (Demência precoce e Parafrenias).

10- Loucura epiléptica.

11- Psicose maníaco-depressiva.

12- Doenças psicógenas.

13- Histeria.

14- Paranóia.

15- Estados mórbidos originários.

16- Personalidades psicopáticas.

17- Oligofrenias.                                (Bercherie, 1989; Moreira, 1919).

O governo Rodrigues Alves (1902-1906), teve algumas realizações importantes. Saneamento do Rio de Janeiro, grandes obras de remodelação, abertura da Avenida Central, depois Avenida Rio Branco, em homenagem ao seu ministro das relações exteriores. O Barão de Rio Branco, que se notabilizou no acerto das fronteiras com nossos vizinhos. Na área médica atuou Oswaldo Cruz com sua tenaz campanha contra a febre amarela, que quase desestabiliza o governo em função da revolta da vacina, em 1904. Na área da assistência aos doentes mentais o governo foi buscar na Bahia, Juliano Moreira que assumiu o Hospital Nacional de Alienados em 1903 e de lá só saiu em 1930 em função dos novos tempos da política nacional. Juliano, em função de sua doença, estivera na Europa e de lá trouxe novas idéias de administração dos asilos, agora transformados em Hospitais. “Juliano Moreira transformaria o Hospício Nacional em um efetivo centro difusor psiquiátrico de assistência, ensino e pesquisa, tendo como base a sua vertente prioritária de voltar-se par a assistência clínica”. (Dalgalarrondo, P.).

Juliano Moreira participou da fundação de várias entidades, inclusive a Academia Nacional de Medicina. Em 1907, junto com discípulos e outros médicos, fundou a Sociedade Brasileira de Neurologia, Psiquiatria e Medicina Legal. Em 1908, Antonio Austregésilo, propôs a formação de uma comissão com a finalidade de apresentar um projeto de classificação de doenças mentaes, que serviria de base para as estatísticas dos asilos nacionais. Participavam dessa comissão, Juliano Moreira, Dr. Eiras, Afrânio Peixoto, Antonio Austregésilo e Henrique Roxo. Em 1910 foi aprovada a nova classificação.

Classificação da Sociedade Brasileira de Neurologia, Psychiatria e Medicina Legal, segundo Lima.

1)      Psicoses Infecciosas

2)      Psicoses autotóxicas

3)      Psicoses heterotóxicas (alcoolismo, morfinomania, cocaino-mania, etc.).

4)      Demência Precoce (Esquizofrenia)

5)      Delírio sistematizado alucinatório crônico. Parafrenias.

6)      Paranóia

7)      Psicose maníaco-depressiva (psicose periódica). Formas maníaca, depressiva predominante, mista.

8)      Psicose de involução.

9)      Psicose por lesões cerebrais e demências terminais (arteriosclerose, sífilis etc.).

10)  Paralisia Geral

11)  11. Psicoses epilépticas.

12)  Psicoses ditas nevrósicas (histeria, neurastenia, psicastenia, nervosismo e coréia).

13)  Outras psicopatias constitucionais (estados atípicos de degeneração).

14)  Imbecilidade e idiotia.

Na segunda parte desse trabalho citei as demais classificações que foram utilizadas no Brasil. Oliveira et al, em artigo publicado no Jornal Brasileiro d Psiquiatria em 2003; vol.52(6)433-446 sob o título de Evolução das Classificações Psiquiátricas no Brasil, um esboço histórico, destacam que existiu, através dos tempos, intensos debates sobre classificações e que esse salutar debate deixou de existir depois que o governo impôs por decreto o CID-8, em 15 de julho de 1970. Felizmente, a Associação Brasileira de Psiquiatria, através do seu Departamento de Diagnóstico e Classificação em Psiquiatria, está estimulando um salutar debate sobre o assunto.

Muitos aspectos deixaram de ser abordado nesse artigo, que ficou muito extenso esse tornou uma missão muito complexa. Gostaria de sugerir a leitura de um trabalho de Mário Eduardo Costa Pereira; “A paixão nos tempos do DSM: sobre o recorte operacional do campo da psicopatologia”.

http://www.etatsgeneraux-psychanalyse.net/mag/archives/paris2000/texte88.html

Outro artigo que deverá ser pesquisado é o de Carlos Francisco A. De Oliveira, Paulo Dalgalarrondo e Alexandre b. Nogueira. “Evolução das classificações psiquiátricas no Brasil: um esboço histórico”. Jornal Brasileiro de Psiquiatria (2003) vol.52(6); 433-446.

Finalmente, devo agradecer a Dra. Ana Maria Galdini Raimundo Oda que, generosamente, me permitiu o acesso ao seu trabalho “Classificações baseadas em etiologia:esboço histórico”, apresentado no Simpósio do Departamento de Diagnóstico e Classificação em Psiquiatria da ABP no Congresso de Curitiba, 2006. O Jornal Psiquiatria Hoje traz notícias daquele simpósio na edição de dezembro deste ano e ao qual tive acesso por gentileza da jornalista Lola Rodrigues.


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