Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Junho de 2006 - Vol.11 - Nº 6

História da Psiquiatria

APONTAMENTOS PARA A HISTÓRIA DA PSIQUIATRIA MINEIRA Á LUZ DAS SUAS PUBLICAÇÕES. (III).

Walmor J. Piccinini


A coleta de dados para escrever esses apontamentos para a História da psiquiatria em Minas Gerais, à luz das suas publicações, foi se avolumando e determinou a necessidade de organizá-las em etapas.

Na primeira, a ênfase foi dada para as diferentes legislações que nortearam a psiquiatria em Minas Gerais.

Na segunda, foi destacada a bibliografia coletada no Índice Bibliográfico Brasileiro de psiquiatria (http://www.biblioserver/walpicci).

Nessa terceira etapa, tentaremos examinar alguns nomes que se destacaram nessa história. Foram diferentes gerações de médicos que se envolveram no cuidado do doente mental. Os mais antigos tiveram seu aprendizado no trabalho diário das enfermarias, podemos considerá-los alienistas ou psiquiatras práticos. De uma listagem publicada por J.A. Moretzsohn extraímos os seguintes nomes:

Antonio Gonçalves Gomide (1770-1835). Estudou na Faculdade de Edimburgo na Escócia, um dos melhores centros de ensino médico daquela época. Político foi Senador do Império e tem seu nome na formação da Escola de Minas em Ouro Preto. Foi responsável pelo primeiro documento médico-legal do Brasil: "Impugnação analytica ao exame feito pelos Clínicos, Antônio Pedro de Souza e Manuel Quintão da silva em uma rapariga que julgarão Santa na Capella de Nossa Senhora da Piedade da Serra", em 1818.

Dr. Joaquim Antônio Dutra (1853-1943). Formou-se no Rio de Janeiro, em 1888. Foi o primeiro diretor do Hospital Colônia de Barbacena em 1903 e lá permaneceu até sua aposentadoria em 1936.

Dr. Nagib Abdo (1910-1952).

Dr. Iago Victoriano Pimentel (1890-1962). É apontado como o primeiro tradutor de Freud para o Brasil. "Cinco Lições de Psicanálise" publicada em, A Revista, editada por Carlos Drumonnd de Andrade.

Dr. Moacir Martins Andrade (1910-1969).

Dr. Antônio Bernardino Alves (1894-1971).

Dr. Silvio Ferreira da Cunha (1893-1972). Formou-se no Rio de Janeiro e foi Diretor do Instituto Raul Soares.

Dr. Geraldo Roedel (1920-1975).

Dr. Heleno Coutinho Guimarães (1928-1977).

Dr. José Jorge Teixeira (1899-1980).

Dra. Aspásia Pires (1921-1980). Foi a primeira psiquiatra feminina em Belo Horizonte.

Dr. Odilon Dias Becker (1913-1982).

Dr. Flávio Neves (1908-1984)

Na primeira metade do século XX, brilha o nome do Professor Ermelindo Lopes Rodrigues (1889-1971). Na capa da Primeira Memória Médico-Administrativa dos Serviços de Assistência a Alienados no Instituto Raul Soares (1929) assim se apresenta: Interno do Hospício S.João de Deus (Bahia, 1919)-Interno do Hospital Nacional de Alienados (Rio de Janeiro,1920)- Membro da Sociedade Brasileira de Neurologia, Psiquiatria e Medicina Legal (1922) – Docente-Livre de Clínica Psiquiátrica ( por concurso) da Faculdade de Medicina da Universidade do Rio de Janeiro (1925) – Professor Catedrático (por concurso) da Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais (1926) – Diretor do Instituto Raul Soares (Belo Horizonte, 1929). Seguem-se outros títulos e seu último cargo foi o de Diretor do Serviço Nacional de Doenças mentais na década de 60. (Citado por J.A. Moretzsohn). Na História da Psiquiatria Mineira de J.A. Moretzsohn, nas páginas 132-133 está reproduzido o Prefácio que o Professor Lopes Rodrigues escreveu para a "Primeira Memória". Nele estão expressas as mágoas do dedicado Professor às críticas que sofria como diretor do Instituto Raul Soares. Na sua maneira de ver, o esforço de um diretor pode ser dividido em três partes: a primeira "se perde no vórtice dos relatórios, dos apellos oficiais, das insinuações, dos escriptos e dos reclamos emergentes que dilataram noitadas, lavraram sobressaltos e fiaram meditações". Na segunda parte "se desfaz no vozeiro que lhe opõem as forças repulsivas onde ella se opera, isto e, o testemunho tarado que se irradia das collectividades psicopáticas, em cujos meandros parasitam aquelles que maltratam a consciência com autoridade". Na terceira, a sensação de dever cumprido "na mais difícil conduta humana: lidar com os que lidam com alienados".

Resolvemos trazer essas afirmações de Lopes Rodrigues para comprovar que as discussões, debates, lutas ferozes acompanham a psiquiatria mineira desde seu nascimento.

Desse período clássico um outro nome se destacou, foi o do Dr. Galba Moss Velloso (1889-1952). Foi fundador da revista "Arquivos de Neurologia e Psiquiatria". Livre-docente da Faculdade de Medicina. Foi destituído da direção do Instituto Raul Soares por ter assinado o Manifesto dos Mineiros em 1943. Em maio de 1962 foi inaugurado um Hospital destinado a pacientes femininas que foi nomeado "Galba Velloso" em sua homenagem.

Dr. Joaquim Affonso Moretzsohn (/1999)Entre suas múltiplas realizações o Dr. Moretzsohn foi ex-presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de Minas Gerais. Na área acadêmica foi membro titular da Academia Mineira de Medicina e do Instituto Mineiro de História da Medicina e da Academia Brasileira de Administração Hospitalar. Também membro titular da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais e do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais. Graças ao seu trabalho estou podendo escrever esses Apontamentos sobre a Psiquiatria em Minas Gerais.

Até o início dos anos 60, a assistência psiquiátrica em Minas Gerais era baseada em hospitalizações. Hospitais Estaduais como o Hospital Colônia de Barbacena, o Instituto Raul Soares, O Hospital de Oliveiras, o Hospital Galba Velloso e inúmeras clínicas psiquiátricas particulares. Esse fenômeno ocorria tanto na capital como no interior do estado. Um grupo de médicos se unia, alguns nem eram psiquiatras, e constituíam uma entidade destinada a atender doentes mentais. As mais conhecidas, segundo J.A.Moretzsohn foram:

Casa de Saúde Santa Clara (1937).

Casa de Saúde Santa Maria (1947) de propriedade do Dr. Austregésilo Ribeiro de Mendonça.

Clínica Pinel (1946).

Clínica Afrânio Peixoto (1952-1968).

Clínica Senhora de Fátima (1954) fundada pelo Dr. Tasso Ramos de Carvalho.

Clínica Nossa Senhora de Lourdes (1959).

Clínica Boa Esperança (1961).

Hospital Espírita "André Luiz". Inaugurado em 1967.

Clínica Serra Verde (1971).

Centro Terapêutico Comunitário "Santa Margarida" (1974).

No Brasil, no final dos anos 50 e início de 60, eram poucos os locais para formação psiquiátrica. Para os mineiros, o caminho era sair, alguns foram para o Rio de Janeiro onde o Serviço Nacional de Doenças Mentais dava cursos, alguns foram para o exterior, entre eles posso citar Márcio Pinheiro e Lucio Villaça e a maioria obtinha conhecimento nos hospitais e clínicas de Belo Horizonte, Juiz de fora e Barbacena.

Nos anos 60, repetindo um fenômeno comum em vários estados brasileiros, começaram a aparecer novas idéias no campo psiquiátrico. A psicanálise foi introduzida em Belo Horizonte pelo Professor Malomar Lund Edelweiss. Fundou o Círculo Psicanalítico, arregimentou jovens entusiastas e isso de certa forma influenciou a maneira de trabalhar em psiquiatria. Um depoimento do Dr. Marco Aurélio Baggio sobre a "Turma do Galba" dá uma idéia de como funcionava e como era o ambiente de ensino naquela época. Não deu para fazer uma simples citação, resolvi transcrever o texto, quase na íntegra e espero a compreensão do Dr. Marco Aurélio: "A Turma do Galba".

"Presenciei uma sessão de aplicação de eletrochoques. O colega José Domingues de Oliveira teve a gentileza de me explicar às razões, os motivos, as indicações e as vantagens de procedimento biológico tão radical e tão heróico. Era a dura realidade que imperava por sobre os tolos sentimentalismos humanos.
Na saída, ouvi da jovem enfermeira Suzana os milagres que o Dr. Jorge Paprocki estava operando com as doentes psicóticas e agitadas, na 1ª Enfermaria, com o emprego de um novo medicamento chamado Haloperidol.

Barreto, Francisco Pais Barreto, era interno no Galba. Disse-me que havia uma vaga para plantonista. Inscrevi-me e fui aceito junto com o Dr. Vicente Santos Dias.
Passei a fazer parte do corpo clínico do paupérrimo Galba. Virgílio Bustamante Rennó ensinou-me a sedar pacientes agitadas, no plantão. Fui trabalhar na 7ª Enfermaria, chefiada por meu primeiro professor de Psiquiatria, Dr. Aldorando Ricardo Nascimento. Não tive medo. Rapidamente aprendi a lidar com as pacientes e as rotinas do Hospital. Sofri uma única agressão: ao sair da 7ª, uma paciente veio sobre mim, furiosa, e jogou-me... Um travesseiro. Assustei-me e palpitei, mas foi só.
Aprendi que o doente mental é um desesperado que se torna dócil e submisso, quando sente que está sendo tratado, bem cuidado, considerado, olhado olho no olho, bem respeitado.
O Dr. Paprocki fez escola. Como Diretor do Galba, era um dos cinco principais pesquisadores brasileiros de dezenas de substâncias psicotrópicas que começavam a ser ensaiadas clinicamente no Brasil e no mundo. Já era um nome consagrado tanto no nível nacional quanto no internacional. Como diretor, era severo, respeitado e temido. Suas deliberações eram tomadas com inteligência e firmeza.
A avidez de aprender e de saber, que é sempre a estrela que me guia, logo me

Éramos um grupo ótimo de colegas: César Rodrigues Campos, José de Assis Corrêa, Eudes Ramón Montilla, Francisco Xavier, Chicão, Barreto, Vicente, Virgílio, Mário Catão Guimarães, José Domingues, José Raimundo da Silva Lippi, José Carlos Amarante, Eunice Rangel, Hélio Tavares Filho, Rodrigo Teixeira de Salles.
Alguns colegas mais velhos conviviam conosco: Dr. Helênio Coutinho Guimarães, Neusa Magalhães Carneiro, José James de Castro Barros, Dalton Lintz de Freitas, Benítez Conde. Com especial carinho, lembramo-nos do grande clínico mineiro, pioneiro da Medicina Psicossomática, Dr. Ermílio Grinbaum. Emílio era uma espécie de criterioso e bondoso irmão mais velho, referência para todos de como deveria ser o "bom médico".
Com muito orgulho, os "Paprocki’s boys" editaram a obra Psicofármacos, livro que marcou época e serviu de referência para estudos de psicotrópicos durante duas

Décadas.

O Centro de Estudos fora criado em 1964, e passamos a estudar psicopatologia no "Beta", um horroroso livro de Psiquiatria que estava lá, disponível. Buscamos aulas com grandes nomes da Psiquiatria da época - 1966, 1967 -: Clóvis Alvim, Joaquim Affonso Moretzsohn, Paulo Saraiva, Ivan Ribeiro da Silva, Fernando Velloso, Francisco Badaró, Geraldo Megre, Aspásia Pires, Austregésilo Mendonça, Hélio Durões Alkimim. Descobrimos estão às obras de Kurt Schneider e de Karl Jaspers. Estudávamos tudo que nos caía às mãos.
Eu estudava Noyes e Kolb. Descobrira Franz Alexander junto com um instigante livro de psicoterapia - Estratégias em psicoterapia, de Jay Haley. Tomei afeição pela psicodinâmica, pela psicanálise e descobri que meu coração gostava de ser psicoterapeuta. No final de 1966, montei consultório com Barreto, Juarez, Welber e Lippi.

André Faria D´Azevedo Carneiro, vindo de residência no Rio de janeiro, trouxe o livro dos livros - o Alonso-Fernández: 1970.

Se, em 1966, recém-formados, podíamos ostentar o galardão de Psiquiatra, Barreto, Odília, José Carlos Câmara, Fábio Mendonça Porto e eu - da turma de 1965 da Faculdade de Medicina da UFMG - foi só após internalizar os bons, severos, precisos e atualizados conceitos da obra de Alonso-Fernández que nos sentimos autenticamente pós-graduados em Psiquiatria.

Arlindo Pimenta, José Ronaldo Procópio, Cláudio Pérsio Carvalho Leite, Barreto, Javert Rodrigues, Rodrigo Teixeira de Salles, Virgílio e eu éramos a grei estudiosa dos bons autores espanhóis. Lopez Ibor, Cabaleiro Goas e outros abriram caminho para chegarmos aos alemães: Jaspers, Schneider, Weibrecht, Mayer-Gross, Huber e H. Tellenbach.
Paprocki, então em formação psicanalítica com Malomar Lund Edelweiss, incitava-nos a todos a nos submeter à psicanálise pessoal. Todos fomos. Fui cliente de Célio Garcia pelos nos primeiros três meses, em grupo. Tivemos contato rico e instigante, por seis meses, com Eli Bonini Garcia - 1966, 1967 -, Odília, Francisco Juarez R. Pinto, Welber Braga e eu. Depois, durante dois anos, submeti-me a Psicoterapia de grupo com o Dr. Bernardo Blay Neto, que vinha de ônibus, mensalmente, de São Paulo. Dr. Blay me ensinou nobreza de atitudes, dignidade de postura na clínica e empenho em manter um ideal profissional viável.
Mais tarde, fui fazer Psicoterapia de grupo com Jarbas Portela, em 1968. Em 1969, Igor Caruso vem passar mais de um ano no Círculo Psicanalítico, em Belo Horizonte. Faço um curso de um ano com ele. "Filogênese e ontogênese da personalização". Um mundo novo de cultura se me descortinava. A psiquiatria se abria em interface com a sociologia, a cultura, a etologia, a política, a psicanálise e o humanismo.
Caruso sagra Jarbas analista didata no início de 1969. Começo com Jarbas minha psicanálise pessoal, que perdurou por apenas seis anos. Com a vivência de Psicanálise, constatei o que já presumia: eu era, e continuo a ser ainda, em parte, um sujeito vazio, pobre, lamentoso, ávido do que não tinha, esperançoso de lugares, de destaque e de riquezas muito acima de meus talentos e de minhas possibilidades.
Em 1968, no Governo Israel Pinheiro, Dr. Paprocki junto com o Dr. Fernando Velloso criaram a Fundação Educacional e de Assistência Psiquiátrica - FEAP -, base e núcleo para a criação posterior da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais - FHEMIG. Embutida no projeto da FEAP estava a criação da Primeira Residência em Psiquiatria, em Minas Gerais. Eudes, Cláudio, Virgílio, Arlindo, Procópio, João Luiz Silva Toni, José Carlos P. Amarante e Hélio Roscoe eram os alunos.
Paprocki lecionaria "Terapêutica Psiquiátrica". Catão, César, Barreto, Geraldo Megre e Newton Figueiredo eram os outros professores.

Em 1971, o Galba se havia esvaziado de nossa turma. A FEAP estava em crise. Pedi exoneração da Diretoria do Hospital, deixei a Residência e abandonei o serviço público estadual.
Paprocki, Aldorando, Barreto, César, Virgílio, Dorinha, Catarina, Suzana, Vicente, Zé de Assis, Eudes, Cláudio, Procópio, Catão, Dominguez, Xavier, José Raimundo, José Carlos Amarante, Lia, Dodora, Delcir Antônio da Costa, Rodrigão, Maurício Sartori, Antônio Carlos Corrêa, Arlindo, Hélio Tavares, Eunice, Javert, André, Adelgício de Paula, Lélio Dias, Rosemberg Fonseca, Marcos Couri constituíam o grupo mais significativo do Galba.

Ouso afirmar que, no período áureo do Galba - 1964/1971 -, uma plêiade de psiquiatras se formou com disposição, garbo e competência, espaventando para sempre a pecha de que "psiquiatra era médico de segunda classe".
Quero crer que constituímos a primeira turma de psiquiatras respeitados, "sadios", "tratados", psicanalisados, como grupo e como profissionais, individualmente, cada um de nós. Cada qual seguiu seu destino. Alguns já não se encontram entre nós. A maioria se tornou líder, professor, mestre, chefe-de-fila, ajudando a dar formação a dezenas de turmas posteriores. "A Turma do Galba foi e continua sendo referência notável na História da Psiquiatria Mineira."

No ano de 1972 o Dr. Jorge paprocki, junto com o Dr. Luis Bustamante funda o Grupo de Estudos de Psicofarmacologia Clínica (GEPC).

Esse relato do Dr. Baggio, mostra como era a formação psiquiátrica antes das Residências em Psiquiatria. Com a formação dos novos especialistas surgiu uma nova geração de psiquiatras e aparecem alguns com mestrado e doutorado. Os mais conhecidos são Maurício Viotti Daker, Almir Ribeiro Tavares Junior, Uriel Heckert, Luís Carlos Calil, Helio Lauar, Fernando Madaleno Volpe, Francisco Goyatá.

Alguém poderá argumentar porque esses nomes são citados e respondo que são citados por estarem na Plataforma Lattes da CAPES. Na busca de dados sobre a psiquiatria, em Minas Gerais, utilizando o Google, pesquisei todos os nomes que estão nas listas das várias associações psiquiátricas, as publicações bem mineiras como o Risco, O Jornal Mineiro de Psiquiatria, e a revista Casos Clínicos em Psiquiatria. Como já referi no artigo anterior, as publicações em psiquiatria, são em número menor do que o esperado. Uma das explicações possíveis poderia ser que, em face da dualidade de atuação, psiquiatria/psicanálise muitos publiquem em revistas de psicanálise que não estão sendo consideradas para esse artigo.

Novos tempos, novas mentalidades, novos profissionais envolvidos e estourou a guerra entre os psiquiatras mineiros. Do artigo de Francisco Paes Barreto, "A História Mínima da Psiquiatria em Minas Gerais", publicada na página da APM, extraímos o seguinte trecho:

     "O ano de 1979 marcou virada decisiva. Culminando o trabalho de mais de um decênio, a Residência de Psiquiatria da FHEMIG (fundada no Hospital Galba Velloso, em 1968, e transferida para o Instituto Raul Soares, em 1971) programou o III Congresso Mineiro de Psiquiatria, para apresentar e discutir as suas teses. O programa não restringia o debate aos profissionais da área; pelo contrário, pretendia que a participação fosse a mais ampla possível. O êxito foi grande. O Congresso seria em dezembro. Desde agosto começaram as denúncias e as publicações nos jornais. Em setembro, numa decisão histórica, o Secretário da Saúde abriu as portas de todos os hospitais psiquiátricos públicos à imprensa. Veio a série de reportagens intitulada Nos Porões da Loucura, além do filme Em Nome da Razão. Em dezembro, com as presenças de Basaglia e de Castel, realizou-se o Congresso, com renovação das denúncias e a apresentação de propostas de reformulação da política de saúde mental. Hoje, avaliando retrospectivamente, podemos dizer que teve início ali a Reforma Psiquiátrica de Minas.
     Em 1980, com o apoio do Secretário da Saúde e da Direção Geral da FHEMIG, instalou-se o Projeto de Reestruturação da Assistência Psiquiátrica Pública, que teve início no Instituto Raul Soares, e que posteriormente se estendeu ao Hospital Galba Veloso, ao Centro Psicopedagógico (ex-Hospital de Neuropsiquiatria Infantil) e ao Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (ex-Hospital Colônia de Barbacena). As transformações verificadas foram tão impressionantes que, retornando a Barbacena em 1993, o jornalista autor daquela célebre série de reportagens publicou outra: Os Jardins da Loucura.
     A questão, porém, deixou de ser a mudança dos hospitais psiquiátricos. A partir de 1987, o movimento de saúde mental de Minas adotou as teses do II Encontro Nacional de Trabalhadores de Saúde Mental, realizado em Bauru, que propõem uma sociedade sem manicômios. Tratar-se-á não somente da transformação do hospital psiquiátricos mas de sua abolição, de sua substituição gradativa pelo modelo da saúde mental: ambulatórios, hospitais-dia, serviços de urgência, unidades psiquiátricas em hospitais gerais, centros de convivência, pensões protegidas".

Nessa citação estão resumidas algumas das questões que vão além do debate mineiro. O termo reforma psiquiatria, a abolição do hospital psiquiátrico tornou-se uma espécie de bordão publicitário, mais tarde acrescido te um termo mais sonoro ainda, extinção dos manicômios, e extinção da psiquiatria, tornou-se uma arma poderosa nas mãos de grupos políticos. Os psiquiatras lutam pela Reforma do Modelo Assistencial em Psiquiatria, pelo desenvolvimento da psiquiatria como prática médica e pela dignidade do doente mental e sua família.

A Dra. Elizabeth Uchoa, psiquiatra e professora da Universidade de Minas Gerais, publicou o artigo Dilemas em Psiquiatria, Ciência, Clínica e Ética na Revista Bioética do CFM. 2001, 9(1). Aborda um tema que apresenta considerações nas quais devemos refletir

No momento atual, todas as profissões se interrogam sobre suas éticas. O exercício de reflexão sobre os princípios norteadores de nossas práticas adquire toda importância. Nós, psiquiatras, somos confrontados a uma situação complexa, controvertida e, muitas vezes, confusa.

Moura Fé (8) nos lembra que no campo da Psiquiatria "não raramente, se mesclam ciência e ideologia, conhecimento e preconceito, aspirações libertárias e medidas repressivas".

A questão ética nos convida a refletir sobre os fundamentos de nossas certezas, a nos posicionarmos com responsabilidade frente a outras certezas, a nos interrogarmos sobre os riscos e benefícios de nossas decisões e a buscarmos uma certeza maior que possa orientar nossas ações. Mesmo quando nossas certezas nos parecem inquestionáveis, devemos, parar, escutar e refletir.

No contexto da desinstitucionalização que caracteriza o momento atual da história da Psiquiatria, a ênfase é dada ao retorno dos pacientes psiquiátricos às comunidades com o objetivo de resgatar suas integridade, identidade e vida familiar, comunitária e profissional. Não há dúvida quanto ao fundamento de tal projeto, nem quanto à urgência de transformarmos nossos modelos de prática (17). A "necessidade de abandonar uma ética de exclusão e de instituir e legitimar uma ética de inclusão do sujeito social"(16) também é inquestionável. O momento já se constitui de novas certezas, mas, mesmo assim devemos parar, escutar e refletir.

Márcio Pinheiro, no seu artigo para a revista Casos Clínicos em Psiquiatria. Como vejo a psiquiatria hoje, dá um depoimento bem objetivo: Também não podemos ficar alheios ao ambiente sociocultural em que nós e nossos pacientes estamos inseridos. O tratamento psiquiátrico varia consideravelmente em função do status socioeconômico do paciente e, em decorrência disso, as nossas recomendações terapêuticas passam por essa variável. por essa razão, precisamos conhecer mais de perto os planos e seguros saúde, bem como os programas comunitários de custo mais acessível aos pacientes que não podem arcar com atendimentos particulares.

Outro fato a ser lembrado é que, no Brasil, como no resto do mundo, a tendência é a redução dos leitos hospitalares, à medida que aumentam os atendimentos ambulatoriais e as residências comunitárias. Esse movimento antimanicomial, apesar de muito importante, precisa ser realizado com cuidado, para não repetir o desastre que ocorreu nos Estados Unidos. Lá, os pacientes foram empurrados para fora dos hospitais e impedidos de ser readmitidos, indo viver nas ruas das cidades como sem-lares, com grande sofrimento. Foi escrito inclusive um livro sobre isso. Imagino que, no Brasil, uma desospitalização por decreto, por mais necessária e justificada que seja, poderá levar à mesma problemática, se não vier acompanhada dos programas comunitários adequados.

Quando resolvemos dar como título, Apontamentos ... Nosso objetivo com esses artigos eram simples, traçar um perfil dos psiquiatras mineiros a partir de suas publicações. Escrever uma história da psiquiatria em Minas Gerais ultrapassava em muito minhas possibilidades. Fica aqui uma pequena contribuição para um historiador que resolva dar seqüência ao trabalho de J.a. Moretzsohn e acrescentar novos conhecimentos sobre a História da Psiquiatria em Minas Gerais.


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