Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Fevereiro de 2006 - Vol.11 - Nº 2

História da Psiquiatria

Momentos da História da Psiquiatria

Walmor J. Piccinini

A História pode ser contada de inúmeras formas e a partir de pontos de vista pré-estabelecidos. Predomina em inúmeros trabalhos um ponto de vista político-ideológico que mascaram, muitas vezes, o que de fato aconteceu. Vamos relatar uma série de episódios, alguns anedóticos, mas todos refletindo acontecimentos interessantes. Ouvi do Professor David Zimmermann a seguinte história. Lá pelos anos 50 do século passado, um grupo de médicos entusiasmados com a florescente psicanálise, foi trabalhar num Sanatório para tuberculose. Havia o entusiasmo, mas as condições eram precárias, não havia um local para examinar os pacientes. Examinando as instalações o grupo encontrou dois depósitos de material de limpeza. Estava resolvido o problema, um dos depósitos seria transformado em consultório e o outro seguiria com sua função original. Parecia decidido, mas a realidade se mostrou mais complicada. A Irmã chefe das religiosas que atendiam o Sanatório se opunha e não arredava da sua decisão. O grupo foi então em comitiva tentar demovê-la, e ela nada. Finalmente alguém solicitou que ela explicasse seus motivos, se fossem razoáveis desistiriam da idéia. Na maior candura a Irmã disse que não era possível misturar as vassouras e material de limpeza da ala dos homens com às da ala das mulheres, isso para ela era promiscuidade sexual. Resumindo, o consultório foi conseguido e a primeira paciente foi à própria Irmã. Uma outra história sobre consultório se passou na Divisão Pinel do Hospital Psiquiátrico São Pedro, nos anos 60. Um grupo de psiquiatras enfrentava a seguinte situação. Como atender 1500 doentes em melhores condições sendo tão poucos. A Divisão consistia de vários pavilhões e um grande pátio. Os pacientes eram trazidos para a consulta pela enfermagem. Atender 15 ou 20 pacientes por dia estava longe de significar algum progresso no tratamento do grande grupo. Surgiu então a idéia de aproveitar um espaço do grande pátio e lá instalar os consultórios, dessa forma qualquer paciente teria acesso aos médicos e os mesmo observariam de perto a situação do pátio. Prontos os consultórios, começou a pairar uma incerteza no grupo, será que teriam coragem de ir para o pátio no meio dos pacientes? A solução foi uma operação de guerra, todos os médicos, enfermeiros e auxiliares tomaram de assalto o pátio e lá se estabeleceram. Não houve nenhum problema, vencido o medo da loucura, passaram a tomar iniciativas mais ambiciosas. Um dos psiquiatras, Ely Cheffe, aproveitando a passagem de um Circo pela cidade, contatou o dono e conseguiu que fizessem uma apresentação no Hospício. No dia, foi aquela alegria. Palhaços, trapezistas, leões e elefantes entraram no hospício e lá se apresentaram.(Cheffe, Ely ; Faria, Carlos G.; Fonseca, Paulo; Sander, Sinay; Célia, Salvador H. Estruturação da Ambientoterapia num Setor de Crônicos. Revista Psiquiatria Dinâmica. 1966. 6 (4);173-178).
As mudanças se sucederam e uma delas despertou curiosidade pela simplicidade e resultados obtidos. Um jovem psiquiatra, Moacir Gaspar dos Santos, que nunca envelheceu por ter morrido muito cedo, junto com os demais bolou uma espécie de barzinho, mais uma birosca que um bar. A moeda era cigarro e lá os pacientes podiam negociar a compra de bolachas, refrigerantes, doces etc. Novamente o efeito foi marcante e resultou num trabalho cujo título pouco informa sobre o que foi realizado. (Santos, Moacir G., Et al. Observações clínicas de um fenômeno sociológico num hospital público. J. Brás. Psiquiat. 1970 (19 (3); 215-223).
Esse modelo de "invasão" dos psiquiatras das cidadelas da loucura aconteceu em vários outros hospitais do país. (No futuro próximo, relataremos a experiência de Osvaldo Santos e colegas na transformação de uma Unidade do Engenho de Dentro no Rio de Janeiro). Nos anos 60, os jovens psiquiatras, imbuídos de grande entusiasmo e desprendimento, passaram a modificar as estruturas do macro-hospital. Isso acontecia em todo país e correspondia a um novo entusiasmo que tomava conta dos egressos dos cursos de formação. Iniciavam-se os estágios dos alunos de psicologia e serviço social o que acrescentava novas iniciativas e porque não dizer, beleza ao contingente de revolucionários. Os pacientes foram identificados, recenseados, preparados para a alta e criadas as condições de sua manutenção fora do hospital. (Silva, A.C. Características da População de Pacientes existentes no HPSP. Revista de Psiquiatria Dinâmica, 1978, 4(3);238-245).
Nos anos sessenta, os diferentes grupos de psiquiatras pouco se comunicavam. Existiam Sociedades Estaduais, algumas muito fortes, mas faltava uma integração nacional. De uma experiência isolada surgiu um fator de aproximação entre alguns Estados. Em 1965 realizou-se em Fortaleza o VI Congresso da Associação Brasileira de Neurologia, Psiquiatria e Higiene Mental. Essa era a maior entidade de psiquiatras então existente e congregava os psiquiatras do Nordeste. No Rio Grande do Sul, graças a uma iniciativa do Dr. Manoel Antonio Albuquerque, começou a se pensar na ida de gaúchos para aquele Congresso. Os fatos se mostraram favoráveis. Manoel Albuquerque era amigo do Dr. Levy Albuquerque de Souza, oncologista que havia sido oficial da aeronáutica durante a guerra e depois fora aposentado por motivo de saúde. O Dr. Levy era amigo do Brigadeiro Eduardo Gomes e daí veio à autorização para que um avião da FAB levasse os gaúchos para Fortaleza. Foi um acontecimento, 35 dos mais destacados psiquiatras do sul foram a um Congresso nordestino e isso teve inúmeros desdobramentos. O VII Congresso foi marcado para Porto Alegre em 1967. O Professor Lucena ficou bastante ligado aos gaúchos, principalmente o Dr. Manoel e a Revista Neurobiologia passou a publicar autores do sul.

Alguns exemplos:
Blaya, Marcelo. Grupos Operativos Hospitalares. Revista Neurobiologia. 1968, 31 (3);249-260.
Blaya, Marcelo; Albuquerque, M.A. A Residência como fator fundamental na formação de psiquiatras. Revista Neurobiologia. 1965, 28 (3);208-216.
Faria, Carlos Gari; Myllius, Ruth; Piccinini, Walmor J. Aspectos Dinâmicos da Enfermagem Psiquiátrica. Revista Neurobiologia. 1967, 30(2)81-86.
Busnello, E. A Os Grupos de AA: notas sobre o sentido e a dinâmica da sua organização. Revista Neurobiologia, 1967. 6 (30-32);67-80. Essa aproximação de Lucena com Manoel Albuquerque e, mais tarde com o Professor José Leme Lopes, permitiu a formação de um grupo coeso que fundou a Associação Brasileira de Psiquiatria. Manoel Albuquerque, por mérito deveria ter sido presidente da ABP quando chegou a vez do Rio Grande do Sul. Problemas da política local terminaram por alija-lo e em seu lugar surgiu o Professor David Zimmermann. O Dr. Manoel nunca se deixou abater e seguiu sendo um prestimoso colaborador da ABP em todos seus 40 anos de existência. Afinal, isso era desdouro para quem foi vice-presidente da AMB, Presidente da SPRS e Presidente da AMRIGS, além de professor da Fac. De Medicina da UFRGS (homenageado pela minha turma médica em 1965) e professor da PUC até sua jubilação.
Nos anos 80 surgiu um novo fenômeno, a chamada movimento de reforma psiquiátrica que alguns relacionam com a greve dos estagiários dos hospitais do Rio de Janeiro outros a relacionam com a intervenção realizada pela Prefeitura de Santos na Casa de Saúde Anchieta em Santos São Paulo. A outra data histórica, seria a apresentação do projeto de lei do Deputado Paulo Delgado, MG. No Índice Bibliográfico Brasileiro de Psiquiatria relaciono 217 referências sobre o assunto, são artigos, teses, livros, monografias. Aos poucos tentaremos traduzir o que se passa nesse movimento. Para alguns, a história começa com esse movimento, para outros é uma ação política de tomada do poder em todas instâncias por elementos ligados a determinada facção política.
Esse movimento conseguiu introduzir no imaginário, da maior parte das pessoas, a idéia que a internação psiquiátrica é sinônimo de tratamento desumano e cruel e sobretudo ineficaz. (Schneider, I. O uso político da psiquiatria). Hoje em dia, diferentemente do passado, observa um acanhamento dos psiquiatras e trabalhadores de saúde mental que trabalham nos hospitais psiquiátricos públicos. Pior que psiquiatra de hospital psiquiátrico público é o psiquiatra dos Institutos psiquiátricos forenses em que a função de tratar é muito mais difícil e complicada pelos aspectos legais envolvidos. Do artigo de Iraci Schneider publicado na Internet, em Mídia Sem Máscara. Org, extrai mais alguns tópicos.
O tratamento psiquiátrico, sobretudo no momento da internação hospitalar, foi associado nos anos 70, à "repressão do sistema e de direitos de cidadania", e o hospital psiquiátrico, pejorativamente chamado de manicômio, associado a uma câmara de torturas, com supressão da liberdade de expressão individual de pessoas originais. Os médicos psiquiatras foram associados a torturadores e agentes do sistema antidireitos de cidadania.
O eletrochoque - procedimento terapêutico altamente eficaz, recomendado internacionalmente em todos os grandes centros, pela OMS e por toda a psiquiatria moderna (há uma censura branca deste dado) indolor, e que não lesa, destrói, nem frita os neurônios de ninguém, foi subliminarmente relacionado aos choques aplicados pelos torturadores nos "porões da ditadura".
A doutrinação anti-psiquiatrica foi - e é - maciça nas escolas de medicina, enfermagem, psicologia e serviço social, e em alguns meios "intelectuais".


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