Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Novembro de 2006 - Vol.11 - Nº 11

Psicanálise em debate

O GESTO ESPONTÂNEO - D.W. WINNICOTT
Martins Fontes - 1990 - 178 pp – 1ª. Edição – 2005 – 2ª. Edição.

Sérgio Telles
psicanalista e escritor

Pediatra com grande experiência, D.W. Winnicott (1896-1971) cons­tatou a importância decisiva dos fatores emocionais e psíquicos nas crianças que atendia em sua clínica, o que o fez voltar-se para a psica­nálise. Analisou-se com James Strachey e, posteriormente, com Joan Rivie­re; tornou-se um grande analista; produziu uma contribuição teórica original (conceitos como "objeto transicional", "mãe suficientemente boa", por exemplo) e ocupou por uma vez a presidência da Sociedade Britânica de Psicanálise.

"O Gesto Espontâneo" traz 126 cartas selecionadas por Robert Redman, um psicanalista de Los Angeles, que é também o autor da elucidativa nota introdutória onde são fornecidos elementos da vida e obra de Winnicott.

Um livro de cartas selecionadas (Rodman nos diz que há 825 car­tas) imediatamente levanta o problema dos critérios de tal seleção, o que, para um analista, resulta sempre suspeito, por saber que a omissão de dados importantes, ou seja - a repressão -, pode ser raciona1izada e justi­ficada das mais variadas maneiras. Fica, assim, a curiosidade sobre as não publicadas. Além do mais, o próprio Winnicott imaginava que tais cartas um dia seriam publicadas, dado serem cópias retidas e arquivadas por ele mesmo. Se isso evidencia a percepção (correta) de Winnicott sobre sua própria estatura e a importância de suas opiniões, por outro la­do, tira-lhes o frescor e a espontaneidade, dado estar ele escrevendo não para o destinatário explícito, mas visando, em última instância, a posteridade, o que implica sempre numa certa pose.

Mesmo assim pode-se ver um Winnicott extremamente atuante e par­ticipante, opinando sobre os eventos científicos da Sociedade Britâni­ca de Psicanálise, criticando honestamente os trabalhos que julgava merecedores de reparos, escrevendo com freqüência e veemência para jor­nais dando sua opinião sobre os mais variados assuntos. As cartas abor­dam, temas como a política de socialização da medicina na Inglaterra, os efeitos psicológicos na criança decorrentes da aferição da temperatura pelo reto (habitual na Inglaterra), as implicações da fabricação de bonecas com o sexo bem definido, as causas da criminalidade e de como a sociedade reage a ela, a luta contra a psiquiatria organicista, o uso de serviço social em psiquiatria e psicanálise, o problema da análise leiga, as creches, o parto realizado na própria residência da parturiente, a maneira de encarar as enquetes jornalísticas, o autismo, o curandeirismo, a mastectomia.

As cartas mais importantes giram em torno de sua luta para ter um lugar reconhecido como autor de idéias originais na Sociedade Britânica, colhido que foi pela luta que naquele momento ali acontecia.

Em 1926, Melanie Klein, vinda de Berlim, chega em Londres, onde se esta­belece definitivamente. Desenvolve teorias sobre a análise de crianças e, posteriormente, sobre o psiquismo em geral, teorias que entram em choque direto com as de Anna Freud e, consequentemente, com as do próprio Freud. Em 1933, Melita Schmideberg (filha de Melanie Klein) juntamente com Edward Glover (seu analista) desfere ataques virulentos contra Melanie Klein. Em 1938, Freud chega a Londres, fugindo dos nazistas, exacerbando as diferenças teóricas já existentes. O choque entre kleinianos e freudianos atinge intensidade máxima nos inícios dos anos 40.

      A única forma de ultrapassar o problema foi a formação, dentro da Sociedade Britânica de Psicanálise, de dois grupos - o grupo A (kleinianos) e o grupo B (freudiano), com diferentes programas de formação. Fora da polarização, configurou-se o chamado "Middle Group" (Grupo do Meio). Winnicott fazia parte deste grupo, apesar de ter-se analisado com Joan Riviere e ter feito supervisão durante 6 anos com Melanie Klein. Inicialmente tinha bom contato com ela e Melanie Klein chegou a encami­nhar-lhe o próprio filho para análise.

Winnicott gradativamente se afasta de determinadas posições do kleinismo radical, reprovando-lhe o proselitismo incessante dentro da Sociedade, a intolerância, o messianismo.

A importância dos fatores externos (ambiente, pai, mãe, família, etc.), a balança entre eles e os fatores internos (pulsões, “instintos" inatos) na estruturação do psiquismo continua sendo, a meu ver, um problema teórico fundamental em psicanálise. Winnicott defendia a impor­tância destes fatores externos, do “ambiente" (como chamava), na estru­turação básica do psiquismo infantil. Nisto se afastava largamente de Melanie KIein, que virtualmente ignorava a mãe real, enfatizando a importância das pulsões, do instinto de morte na formação do que chama "seio bom" e "seio mau", imagos primitivas da mãe, decorrentes não da intro­jeção de aspectos ou condutas reais, “concretas", da mãe e sim fruto de distorções devidas ao jogo pulsional da criança. Tal tendênca é levada a extremos quando postula o conceito de inveja primária, avatar direto da pulsão de morte, elemento inato decisivo na constituição do aparelho psíquico.

Como diz Rodman: “Klein havia levado a ênfase de Freud [nos fa­tores internos, pulsionais] a níveis irracionais, virtualmente excluindo a importância causativa da realidade externa na vida mental... O papel da realidade externa foi colocado em questão pela descoberta de Freud de que os relatos de ataques sexuais na infância geralmente eram resultado antes de fantasias edipianas que de eventos reais. Isso abriu o mundo da fantasia ao estudo cuidadoso e lançou Freud ao grande trabalho de demonstrar que os ímpetos pulsionais e a neurose infantil de uma pessoa colorem e dão forma ao curso da vida. Esse ponto de vista, que pode­ria ser considerado como a espinha dorsal da teoria e da terapia psicanalítica , foi desafiado repetidas vezes. Klein provavelmente representa sua apoteose. Ao virtualmente excluir a realidade externa de um papel formativo no desenvolvimento, sua teoria transmite a impressão de que a técni­ca por ela gerada irá beneficiar o paciente através de insights que "me­xam" com ele. Winnicott, firmemente enraizado na tradição psicanalítica, mas também um observador prático de crianças e pais aflitos, podia intro­duzir a realidade externa como influência sem sacrificar o significado da vida de fantasia da criança no processo. Seu senso de realidade, tal­vez até mesmo seu senso de justiça, exigiam isso dele". (p. XIX-XX).

Em muitas cartas Winnicott aborda esse tema, de fundamental importância teórico-clínica: "A 'mãe boa' e a 'mãe ma' do jargão kleiniano são objetos internos e nada têm a ver com mulheres reais"  ( p.34). "Meu problema, quando começo a falar com Melanie a respeito de sua formulação sobre a primeira infância, é que me sinto falando sobre cores com um daltônico. Ela simplesmente diz que não se esqueceu da mãe e da parte que a mãe desempenha, embora, na verdade, eu ache que ela não dá indí­cio nenhum de ter compreendido a parte que a mãe desempenha bem no início" (p. 84)".

Não quer Winnicott que sua postura seja considerada como um abandono da importância do interno, do pulsional e diz: “Estremeço ante o peri­go de que meu trabalho seja tomado como uma tentativa de fazer a balança da argumentação pender para o lado ambiental, embora eu realmente seja da opinião de que a psicanálise tem agora condições de dar importância plena aos fatores externos, tanto bons como maus, e, especificamente, à parte desempenhada pela mãe no estágio bem inicial, quando o bebê ainda não separou oeu” do “não eu” (p.122).

Winnicott teve de lutar muito, inclusive contra a própria ex­-analista, para manter seus pontos de vista e poder desenvolver suas teorias. Em suas cartas vemos muito bem como a política institucional pode interferir diretamente no trabalho científico desta mesma instituição.

Diz ele: "Cara Dra.Riviere: Após o ensaio da Sra. Klein, a senhora e ela falaram comigo e, num contexto de amizade, deram-me a entender que am­bas estão absolutamente seguras de que não há nenhuma contribuição positiva que eu possa dar à interessante tentativa que Melanie está empreendendo o tempo todo para formular a psicologia dos estágios mais precoces. A senhora concordará que ambas sugeriram que o problema é que sou incapaz de reconhecer que Melanie diz exatamente as coisas que estou pedindo que diga. Em outras palavras, há um bloqueio em mim. Isso  naturalmente me preocupa muito e espero sinceramente que possa me dispensar um pouco de seu tempo (...) Quero que saiba que não aceito o que a senhora e Melanie insinuam, ou seja, que minha preocupação com a formulação de Melanie da psicologia da infância mais precoce fundamenta-se antes em fatores subjetivos que objetivos." (p. 84-85).

Vê-se a que grau de atuações a política institucional pode levar, fazendo Joan Riviere, respeitada psicanalista, assumir uma atitu­de anti-ética, sob todos os aspecto indefensável, que foi a de usar seu poder advindo da transferência e de seu conhecimento do inconsciente de um ex-paciente, para castrá-lo, impedindo-o de desenvolver uma teoria contrária à que ela própria defendia, taxando-a come sintomática, uma manifestação patológica, fruto de uma inibição ou bloqueio.

Por imposição política, Winnicott também foi impedido de ensinar por um longo período: "Durante um bom tempo, como você sabe, não fui convidado para ensinar psicanálise, porque nem a Srta. Freud nem a Sra. Klein queriam me usar ou permitir que seus alunos viessem até mim em busca de ensino regular, mesmo em análise infantil. Eu, portanto, senti falta, num momento crítico de minha vida, do estímulo que teria feito com que eu elaborasse uma série de aulas claramente voltadas pa­ra o ensino da técnica. Mais tarde, quando me tornei aceitável e fui convidado a dar algumas aulas, eu já havia tido algumas idéias originais e estas naturalmente me vinham à mente quando eu planejava falar aos estudantes. Isso explica até certo ponto o modo como as coisas são. Não estou reclamando, apenas acho que essas questões de história às vezes são interessantes". (p. 156). ­

Claro que Winnicott está se queixando, apesar da sua negação (coisa que faz inúmeras vezes em suas cartas) e, a meu ver, as questões de história são sempre muito interessantes. A questão da história do movimento psicanalítico, das sociedades de psicanálise são circundadas por um campo minado de transferências, idealizações e identificações, que levam a uma quase intransponível resistência, onde imperam a repres­são, o pacto de silêncio, a negação, a luta pelo poder, jogo de interesses nem sempre muito cristalinos.

Assim, o livro de cartas de Winnicott, apesar de expurgado (das 825 apenas 126 vêm a lume) é muito salutar. É sempre saudável a desidealização, o ver santidades como Hanna Segall sendo desancada em sua pretensão e arrogância (p. 23) ou Bion sendo ironizado pelo uso excessivo dos clichês kleinianos (p. 81), ou ainda a maneira com Winnicott fustiga a formação dos grupelhos e igrejinhas, no caso as klei­nianas (p. 63, 19).

Ao responder a um torturado correspondente americano, que lhe fala da angústia insuportável da qual padece, Winnicott diz: “Pode ser que se e senhor estiver ‘inteiro’ lá, mais cedo ou mais tarde essa angústia que vai além do que pode tolerar se apodere do senhor, e o senhor não consiga mantê-la o suficiente para olhá-la e examinar seu conteúdo. Se conseguisse fazê-lo, perceberia que ela contém – na raiz – a fonte mais profunda de sua própria energia psíquica, de modo que, quando o senhor tem de encobrí-la (ou quando ocorre que ela seja encoberta) o senhor, por assim dizer, perde sua raiz principal".(p 159).

Winnicott sintetiza aí, com rara felicidade, a função e o trabalho do analista. Decifra-me ou te devoro, diz a esfinge-angústia para o ana­lisando. O analista é aquele que ajuda o analisando a entender que não deve fugir da angústia e sim enfrentá-la, tolerá-la, olhá-la nos olhos e decifrá-la. Em assim fazendo, o analisando integra a seu psiquismo impor­tantes forças até então paralisadas e inoperantes, provocando com isso seu enriquecimento e crescimento internos.


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