Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Outubro de 2006 - Vol.11 - Nº 10

Psicanálise em debate

PRECONCEITO CONTRA NORDESTINOS (*)

Sérgio Telles
psicanalista e escritor

 

Haveria um toque de ridículo na forma como se noticia o crescimento do preconceito contra os nordestinos. É como se, vendo o preocupante ressurgimento, na Europa e no Oriente Médio, do nacionalismo xenófobo, do fundamentalismo re­ligioso, das intolerâncias frente às diferenças culturais, rapidamente se providenciasse similares nacionais, tratan­do-se o problema como se fosse mais um modismo a ser importado, dentro da costumeira atitude de copiar sub­serviente e indiscriminadamente modelos do Primeiro Mundo, numa postura típica de colonizado, sintoma de ­subdesenvolvimento e alienação, decorrente da compreensível nostalgia causada pela nossa posição subalterna, sempre a reboque dos grandes acontecimentos internacionais, nós aqui deste longínquo e pitoresco arraial, o Brasil.

Isso não quer dizer que não haja preconceito contra os nordestinos. Ele existe, é um fato absolutamente indiscutível, não é recente e tem-se intensificado nos últimos tempos, provavelmente em função da crise econômica. O fato de somente agora ser noticiado é que mostra nossa alienação, nossa falta de identidade, pois é preciso que algo semelhante ocorra no Primeiro Mundo, para ser então aqui reconhecido.       

A própria maneira de denunciar o preconceito – atribuí-lo a "nazistas" caboclos que picham instituições nordestinas, para usar um fato emblemático – é falsa não só pela  clara importação de modelos europeus, mas também por tentar centrá-los nestes grupos marginais e excêntricos, sem reconhecer que o preconceito é muito mais arraigado e disseminado, presente mesmo nos extratos supostamente mais bem pensantes da sociedade. Antes de tudo, não podemos negar que a grande maioria dos nordestinos que migram para São Paulo e demais cidades e regiões do Sul  do País é constituída por pessoas que viviam na mais absoluta miséria em seus lugares de origem, e que migram não por opção voluntária, mas para fugir de uma realidade insuportável. Literalmente fogem da morte. São pobres pessoas ignorantes, analfabetas, sem conhecimentos básicos de qualquer espécie, com graves e crônicas carências alimentares que se refletem diretamente em sua compleição física, desaparelhadas para enfrentar uma metrópole.

Claro que inevitavelmente vão ocupar os trabalhos mais braçais e humildes, engrossar os cortiços e favelas, sofrer um longo e terrível período de aclimatação e adap­tação cultural e social que muitas vezes levam ao esfacela­mento do núc1eo familiar, à perda de identidade, com todas as implicações daí decorrentes.

De tudo isso concluir que o nordestino - como mui­tos pensam e dizem cada vez mais freqüentemente - é um povo sujo, escuro e feio, baixinho e preguiçoso, em última instância, um povo inferior é erro grosseiro e que só demonstra a ignorância ­dos que assim. 

­São pessoas que não conseguem ver que este drama que se repete há muito tempo, esta cruel, terrível e involuntária migração interna se deve exclusivamente a fatores sócio-econômicos e políticos, principalmente decorrentes da falta de consciência de uma elite corrupta que não tem a menor visão da coisa pública, que encara o poder unicamente coma meio de enriquecer o mais rápido possível e que se nutre. no caso do Nordeste, como já foi denunciado inúmeras vezes, da indústria da seca. Uma elite política que, com as exceções de praxe, luta para manter uma estrutura arcáica, patriarcal, oligárquica, esmagando um povo que se estiola, totalmente alienado de seus direitos e de sua cidadania, imerso e aprisionado que está em escan­dalosa escuridão feudal em pleno final do século XX.

A situação, vista no próprio Nordeste, como era de se esperar, muda de figura. 0 que existe ali é uma negação da efetiva gravidade do problema, uma reação de orgulho ferido cada vez que se menciona o fato de ser ele uma das regiões mais miseráveis do mundo, palco de desigualdades absolutamente surrealistas, a convivência do esplendor de grandes riquezas com a miséria mais degradante. Com­preendo que seja uma ferida narcísica, difícil de aceitar, mas este reconhecimento é o primeiro passo para uma efetiva mudança neste quadro.

Como nordestino radicado há mais de vinte anos em São Paulo e que vai periodicamente para o Nordeste, sinto-me autorizado para dizer tudo isto.

Como analista, entendo os preconceitos como evidência de mecanismos psíquicos grupais. Caracterizam-se pela eleição, feita por um grupo, de um inimigo comum, no qual é depositado projetivamente todo o mal e imperfeição do próprio grupo. O grupo, assim purificado, passa então a perseguir o inimigo comum, o bode expiatório, que - exatamente por ser o representante de todo o mal e imperfeição do próprio grupo - tem que ser eliminado, simbolicamente ou de fato. Os preconceitos habitualmente ficam exacerbados em situações de crises econômicas e so­ciais, quando a luta pela sobrevivência no mercado de traba­lho se agudiza e se procura eliminar rivais e concorrentes. Ou seja, na enorme crise econômica e social que vivemos, não é surpreendente que nordestinos, judeus e outros gru­pos, sobre os quais é lançado todo o mal e toda imperfei­ção, passem a ser hostilizados.

Se nada disso nos surpreende, estes fatos continuam nos indignando e merecendo nosso repúdio e contra eles combatemos severamente. Ainda mais quando vemos, justa­mente ao contrário do que a visão preconceituosa tenta impor, nordestinos que enfrentando dificuldades enormes, gigantescas, conseguem não só sobreviver mas reorganizar totalmente suas vidas e de suas famílias, numa clara de­monstração de força e valor que precisam ser reconhecidos e valorizados.  

A saga dos nordestinos já foi descrita na literatura e no cinema. Dom Pedro II, numa fala grandiloqüente, dizia que venderia até a última pedra de sua coroa para que nenhum nordestino morresse de fome. Ainda hoje ouvi­mos arroubos retóricos que tais, mas o fato é que os nordestinos continuam morrendo de fome, fugindo para plagas que supõem mais amenas, onde pelo menos a sobrevivência imediata não está ameaçada. Não esqueçamos que não só os nordestinos morrem de fome nem que não só seus políticos são corruptos e inconscientes do papel que deveriam exercer no mando da coisa publica.

O Nordeste é o espelho onde o Brasil recusa ver a própria face.          


(*) Esse artigo foi publicado no “Caderno de Sábado” do “jornal da tarde” (São Paulo), no início dos anos 90. Apesar de reconhecer que algumas mudanças pontuais ocorreram desde então, penso que as estruturas básicas continuam inalteradas. A concentração de riquezas só tem se agravado, aprofundando o fosso entre ricos e pobres, o que mantém a atualidade do texto..


TOP