Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Junho de 2006 - Vol.11 - N 6

Psicanálise em debate

Resenha do livro Visita às casas de Freud e outras viagens de
Sérgio Telles (Casa do Psicólogo, São Paulo, 2006, 195 pgs), por Betty Fuks

Betty B. Fuks, psicanalista, autora de Freud e a Judeidade A vocação do exílio (Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2000) e Freud & a Cultura (Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2003)

Próximo ao final da aventura que o levou a inventar a psicanálise, Freud, referindo-se aos versos de Goethe, reconheceu que sua disciplina sempre esteve submetida à autoridade do escritor e do poeta. Selava, desta forma, o que havia apreendido no início de sua prática: psicanálise e criação artística dizem respeito à Outra cena. Das artes, privilegia a que melhor franqueia o acesso ao inconsciente: a literatura. Uma escolha legitima. Basta lembrar que da tragédia de Sófocles, retirou o tom do que hoje se conhece como o lugar nuclear do mito edipiano na estrutura psíquica do sujeito. A análise freudiana sobre a estruturação do sujeito encontrou em Édipo Rei uma figura conceitual impar, uma metáfora privilegiada, um exemplo conclusivo do que a experiência clínica testemunha. O poeta de Colono, talvez tenha sido o maior dos aliados de Freud: cantava em prosa e verso, muitos séculos antes da invenção do inconsciente, os mais profundos desejos que habitam a alma humana - o incesto e o parricídio - matéria prima da investigação psicanalítica.

Foi em base à sua convicção de que os artistas, poetas e escritores "costumam saber de uma multidão de coisas entre o céu e a terra, cuja existência nossa sabedoria acadêmica nem alcança sonhar", que Freud estabeleceu a conexão indelével entre a psicanálise e a arte, apesar do fato de ter desejado inserir sua disciplina no campo da ciência. Neste percurso, opondo-se às categorias científicas e às concepções fisiologistas sobre o sonho, funda a "Ciência dos sonhos", toma partido da verdade dos artistas e da superstição popular do que o sonho é uma escritura que se dá a ler. Esta união da arte com a ciência que desde sua fundação a psicanálise exercita em alto grau, ganhou destaque na trajetória de Lacan: sabe-se que ele se deixou mover pelo sentimento de estranheza de que era acometido, toda a vez que percebia o fato de o artista provar conhecer o que o psicanalista ensina. À exceção dos escritos de Freud são, sobretudo, os grandes monumentos literários que comenta em seus Seminários: Sófocles, Shakespeare, Sade, Joyce, Duras, etc.

Sérgio Telles se dedica, com rigor obstinado e inflexível, a este ofício de saber colher do enredo literário ou de uma obra de arte elementos bastantes significativos, com os quais ressalta determinadas teorias fundamentais da ciência médica da alma. Com um olhar singular sobre este domínio, muitas vezes empobrecido por muitos analistas que ao comentar uma determinada obra fazem uma espécie de psicobiografia do autor, ou inventam de "psicanalisa-la" através de uma grade teórica qualquer, Telles, em Visitas às casas de Freud e outras viagens, leva o leitor a perceber de que modo a psicanálise avança por onde os artistas, novelistas e romancistas a precedem. Dono de invejável cultura, acuidade de raciocínio e sensibilidade crítica, revela uma capacidade inquietante de viajar, como um nômade, pela escritura da psicanálise e pela produção artística. Um errante: entre e sai do estranho país freudiano, trazendo sempre uma perspectiva de fora de criadores consagrados, como Van Gogh, Tchecov, Maupassant, Machado de Assis, Stephan Tunick, Munch, Santa Tereza dÁvila, Guimarães Rosa, Paul e Jane Bowels. Mas não pára por aí: a consciência de que todo o analista é também um crítico da cultura que testemunha faz com que agregue a série de ensaios que compõem o livro, alguns textos sobre o mal-estar na civilização.

Para compreender de que modo foi possível a Telles produzir uma série de ensaios tão criativos e fecundos, sugiro começar a leitura por Visitas às casas de Freud. Uma casa sempre nos remete para um dos pontos cardeais do horizonte em que se coloca a vida interior, matéria prima da ciência da alma. Bergassen 19- Maresfield Garden 20. Telles funde as moradas freudianas sob um terreno no qual, nos lugares escondidos, se desce para onde os sonhos, os atos falhos, os sintomas, a transferência e a transmissão da psicanálise desembocam. Desde este lugar prende-se à sua própria experiência, o que torna possível instrumentar de modo subjetivo a teoria, a enunciar um dizer no lugar do dito, enfim, a reinventar a psicanálise, como tantas vezes recomendou Lacan, diante de analistas que se preocupavam com a transmissão do legado freudiano.

De Viena à Londres e fiel ao desejo de retorno ao Brasil, Sérgio nos convida a viajar dentro e fora da psicanálise. Se sua escrita nos convoca, conforme as palavras de Chaim Katz no belo prefácio que abre o livro, a viajar cuidando ""do ser humano" dividido entre pulsões e desejos, que convergem e divergem constantemente", é porque ela cria condições de transmissão da psicanálise, de acordo com as leis de buscar no outro a verdade, sempre nômade. Agrega-se a este efeito o fato de que além de psicanalista, nosso autor é ficcionista consagrado e premiado. Enfim, em tempos de penúria - quando alguns fazem avançar a idéia de regulamentar a profissão de psicanalista e outros, com grande estardalhaço na mídia, insistem em que o lugar da psicanálise na contemporaneidade não é mais aquele construído por Freud - um livro que expõe a luta de um escritor-analista pela transmissão da psicanálise, merece saudação.


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