Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Maio de 2006 - Vol.11 - Nº 5

Psicanálise em debate

A MÃE E A IRMÃ DE VUILLARD

Sérgio Telles
psicanalista e escritor

Perambulando pelo MoMA (Museum of Modern Art de Nova York), fui fisgado por uma pequena tela exposta num lugar de pouca visibilidade. Era a "Interior com mãe e irmã do artista", quadro de 1893 assinado por Vuillard, um pintor que até então não conhecia. (http://www.insecula.com/us/oeuvre/O0026071.html)

Meu interesse fora despertado pela forma com a qual o artista dispusera no espaço as figuras de sua irmã e de sua mãe, deixando patente a grande dificuldade existente no relacionamento das duas. Seu quadro era um sofrido depoimento de um conflito familiar do qual ele mesmo - Vuillard - não estava isento, desde que era seu cronista e historiador.

A mãe, com sua figura maciça vestida de preto, possui uma grande força gravitacional. Sua face severa e seu gestual decidido, quase masculino - as pernas abertas muito afastadas, as mãos nos joelhos e um dos ombros desafiadoramente mais elevado - dão-lhe a aura de um inquestionável poder. Ali está ela - impositiva, inquisitorial, exercendo a ferro e fogo sua inflexível tirania. Um denso retângulo negro de onde emergem as manchas brancas das mãos e da face, tão concreta e robusta quanto a cômoda marrom que lhe fica atrás.

A seu lado, a irmã - uma mulher jovem, frágil, que se inclina frente a esse monólito negro. Não lhe é possível ficar ereta, de pé, nem ocupar um lugar confortável na sala. Naquele recinto, a única posição possível é a curvada, em reverência à mãe, que parece exigir tais mesuras e as recebe de modo impassível, indiferente, como se sequer as notasse, mas deixando claro que não toleraria qualquer negligência na prestação dessas homenagens.

A imagem da irmã é muito evocativa. Lembra um bambu dobrado pelo forte vento centrípeto que converge para o poder materno ou uma árvore impedida de crescer por falta de espaço. Ali, o definitivamente o espaço não é dela; é da mãe, que nele reina inconteste.

À primeira vista, ela parece inclinar-se em reverência à mãe, prestar homenagens à sua soberania. Observando melhor, vê-se o medo no olhar assustado, em seu rosto ensombrecido. Temerosa, ela resvala de costas pela parede, como se na presença de uma fera para a qual não se ousa dar as costas por se temer o bote fatal.

Ela orbita calada em torno do terrível colosso negro, afundando maciamente na parede, fundindo-se com o papel colorido que a reveste, cujos matizes se concentram nos grandes quadrados de seu vestido elegante. É como se fosse uma extensão do próprio papel de parede. Ou um utensílio doméstico, um móvel a mais da casa.

Sua figura carece de consistência e solidez, parece atravessar as paredes, fluindo de um aposento para o outro como um débil fantasma sem poder de assombrar quem quer que seja, muito menos a inabalável mãe.

A irmã não tem existência própria, vive em função da mãe, que a ignora, desprezando sua solicitude, sua vontade de agradá-la e servi-la. A mãe só tem olhos para o filho pintor, a quem olha de frente, com exclusividade.

Com seu quadro, Vuillard demonstra ter plena consciência da tensão quase mortífera que existe entre a irmã e a mãe. Ao preferir não registrar sua própria figura em cena, estaria tentando afastar-se desse conflito, afirmar que dele não participa? Fora esse seu intento, não teve sucesso, dado que sua presença se faz evidente por ser aquele que registra na tela o acontecimento e, mais importante, por ser o inequívoco objeto do olhar materno.

Assim, Vuillard é o terceiro personagem do drama familiar - o irmão, o filho - que, apesar de ausente da cena está nela inescapavelmente incluído, desde que é quem a retrata, desde que é sobre ele que repousa o olhar da mãe.

Posteriormente conheci um pouco mais da vida e da obra de Vuillard. Soube então de sua longa ligação com a mãe, com quem viveu a vida inteira, sem constituir família própria. A mãe era costureira e tinha um atelier em sua residência. Viria daí o grande interesse de Vuillard por tecidos, texturas e interiores decorados, tantas vezes tomados como motivos em suas ricas obras.

Observando outros quadros de Vuillard, penso ter descoberto um outro, chamado "A Conversa", pintado em 1891 - ou seja, dois anos antes do "Interior com a mãe e a irmã do artista" -, no qual a tensão entre mãe e filha se esboça de maneira mais contida. (http://www.nga.gov/feature/artnation/vuillard/portfolio_1b.htm)

Pelo que se vê na tela, a conversa evocada pelo título da obra não poderia ser muito amistosa. As duas mulheres estão em campos opostos, distantes uma da outra, tendo entre si uma mesa e uma cadeira. A posição da filha com a cadeira evoca o uso que dela os domadores de circo fazem no picadeiro - um instrumento para espicaçar as feras e delas se defender. Neste quadro a irmã parece um pouco mais forte, tem mais energia, consegue ficar de pé sem se curvar, pode se defender, manter a mãe (a fera) à distância, ao contrário do outro, onde se esgueira pelas paredes, tentando passar desapercebida, aprisionada num espaço claustrofóbico. Como se quisesse deixar clara a ligação entre os dois quadros, Vuillard mostra, pendurado num cabide ao fundo de "A Conversação" o mesmo vestido de xadrez que a irmã usaria posteriormente em "Interior com mãe e irmã do artista".

Que o drama da irmã era percebido dolorosamente por Vuillard fica, pois, patente nesses quadros. Mas ele não se contentou com a mera denúncia ou registro do mesmo. Ativamente tentou ajudar a irmã, tirá-la da órbita da mãe, providenciando-lhe um casamento com seu maior amigo, Kerr-Xavier Roussel. A relação dos dois namorados é registrada por Vuillard no belo quadro "Interior com mesa de trabalho", que os retrata no atelier de costura da família. (http://www.thecityreview.com/vuilar17.jpg).

Infelizmente, sua tentativa fracassou. Roussel estava afetivamente envolvido com outra mulher e manteve a ligação durante todo o casamento. Pode-se ver a desventura desse matrimônio arranjado no quadro "A família depois do jantar". (http://www.abcgallery.com/V/vuillard/vuillard11.html) .

O que teria efetivamente feito Vuillard para solucionar o conflito familiar está perdido para todo o sempre e só a eles interessava. Mas Vuillard usou essa dolorosa experiência emocional para produzir uma obra de arte que continua viva e em interlocução com os que a vêem hoje. A infelicidade e a tristeza que via ante seus olhos enquanto pintava "Interior com mãe e irmã do artista", sua compaixão com o sofrimento de seus entes queridos, continua tocando profundamente aqueles que a vêem, proporcionando-lhes um maior conhecimento sobre si mesmos e seus semelhantes.


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