Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Fevereiro de 2006 - Vol.11 - Nº 2

AMOR SÓ DE MÃE

Sérgio Telles
psicanalista e escritor

Recentemente uma mulher jogou sua filha recém-nascida na lagoa de Pampulha.

A ampla repercussão do fato parece dar uma medida de sua significação no imaginário coletivo.

Ao invés de mostrar o proverbial amor que supostamente todas as mães têm por seus filhos, esta mãe rejeita o seu, expondo-o a uma situação na qual sua vida correu sérios riscos.

Esse seu gesto abala arraigadas convicções compartilhadas por todos no que diz respeito às relações familiares, especialmente as relação mãe-filho/a.

Habitualmente essas relações são muito idealizadas, descritas de forma irrealística, como se fossem a expressão pura de um grande e inesgotável amor.

A força dessa crença é notável e resiste a qualquer evidência em contrário, coisa que facilmente se constata quando se observam as relações familiares com um cuidado mais detalhado. Quantas queixas contra os pais por parte dos filhos, quantas queixas dos filhos por parte dos pais!

A rigidez com que se apresenta a crença no amor materno e na devoção filial, a dificuldade de tolerar que tais sentimentos não sejam universais e inquestionáveis, parece revelar uma formação reativa, uma fachada que oculta uma realidade psíquica reprimida bem diferente - aquela dos afetos conflitivos e ambivalentes que envolvem as relações primárias próprias de todo ser humano.

Não sendo psicóticos, todos nos constituímos passando pelos desfiladeiros agônicos da ruptura da relação fusional com a mãe e os constrangimentos inevitáveis do Édipo. Ao longo desse trajeto, abrimos mão do desejo de exclusividade do amor materno e aceitamos, a duras penas, que o amor da mãe seja compartilhado com o pai e com os demais irmãos, além de eventuais outros interesses que ela possa ter. Assim, constatamos que a mãe necessariamente nos causou uma grande decepção, ela não correspondeu a nossa expectativa amorosa, ela nos "traiu". É verdade que, no decorrer do tempo, constatamos que essa "traição" era necessária e constitutiva. Somente assim abre-se o caminho para o mundo das relações com o outro, com o mundo, com a realidade. Mas é duro reconhecer essa perda prototípica, essa perda que será o modelo de todas as demais perdas que teremos de suportar pela vida afora. O grau de ressentimento e ódio que ela desperta não é pequeno, e deve ser contrabalançado pelo amor que, apesar de tudo, persistiu.

Se descrevemos acima a situação vista pelo ângulo do filho, ao mudarmos de posição e observarmos pelo lado da mãe, vemos que a situação não é mais fácil. O filho vem reavivar na mãe seus antigos conflitos edipianos, nos quais joga importante papel a fantasia de ter um filho como substituto do desejado pênis, assim como aquela de ter um filho do pai, a quem se ligou intensamente após a grande decepção sofrida com a mãe, que a fez "castrada". Além do mais, ter um filho a faz ocupar o lugar de mãe, o que reativa toda a conflitiva que vivenciou anteriormente com a própria mãe, com a qual se sentirá identificada ou não.

A ruptura da relação com a mãe é constitutiva, pois engendra um vazio que nos organiza como sujeitos desejantes. Mas pode ser vivida imaginariamente como um primeiro e definitivo abandono, o que não afasta a possibilidade de efetivos abandonos realizados na realidade por uma mãe impossibilitada de exercer adequadamente a função materna. Essa impossibilidade pode chegar ao extremo de fazê-la vivenciar a maternidade dentro de referenciais infantis e regressivos, em função dos quais o filho é vivido como um produto incestuoso, prova viva de um crime insuportável e que precisa, conseqüentemente, ser eliminado.

Toda essa momentosa, complexa e delicada trama de fantasias, desejos, amores, ódios, vinganças e culpas fica sepultada, esquecida e substituída por uma "versão oficial" - as mães amam os filhos e, em contrapartida, os filhos igualmente amam as mães.

Essa negação radical parece pateticamente expressa no costume daqueles que se fazem tatuar com a frase "amor só de mãe".

Ao fazerem tal afirmativa, declaram que o amor de todas as mulheres é falso e enganador, todas elas são infiéis e traidoras. Apenas a mãe foge a essa regra. Ela não trairia jamais, ela merece toda a confiança, somente dela o amor vale a pena.

Não seria o oposto? Por terem vivido de forma traumática e violenta a ruptura da relação com a mãe ou por terem sofrido efetivos abandonos por parte dela, não podem mais confiar em mulher alguma. Todas elas são traidoras e infiéis, como a mãe o foi.

Ao se fazerem tatuar, ou seja, ao gravarem de forma indelével na própria pele essa declaração, estariam negando o irreversível trauma vivido com suas mães. Tentariam assim fazer calar as evidências internas que permanentemente a questionariam ou a negariam.

É como se dissessem "Preciso tatuar isso em mim, para me convencer que é verdade; para negar a terrível percepção do abandono que sofri e o ódio dele decorrente. Preciso tatuar minha mãe em mim, como forma de tentar fazer aquilo que nunca consegui: mantê-la sempre perto de mim, grudada em minha pele, me dando forma e conteúdo, ela que tão pouco ficou comigo".


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