Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Maio de 2006 - Vol.11 - Nº 5

Artigo do mês

Modelo Cognitivo da Fobia Social

Gustavo J. Fonseca D'El Rey
Coordenador do Programa de Fobia Social do Centro de Pesquisas e
Tratamento de Transtornos de Ansiedade - São Paulo-SP, Brasil.

Resumo: A fobia social é um grave transtorno de ansiedade, que traz sofrimento e incapacitação. O tratamento da fobia social baseado apenas na técnica de exposição não costuma ser efetivo, uma vez que as pessoas fóbicas sociais processam a situação social de maneira negativa. Desta forma, a modificação de crenças disfuncionais torna-se essencial para potencializar os efeitos da exposição. Este trabalho tem como objetivo apresentar o modelo cognitivo da fobia social. Palavras-chave: Fobia Social, Modelo Cognitivo.

Summary: The social phobia is a severe anxiety disorder, that brings suffering and disabiling. The treatment of social phobia based only in exposure's techniques is not effective, due to social phobics biased cognitive processing of social situations. Thus the modification of disfunctional beliefs has proved to be essential to strength the effects of exposure. This article presents the cognitive model of social phobia.

Key-words: Social Phobia, Cognitive Model.

INTRODUÇÃO

Apesar da fobia social (transtorno de ansiedade social) ser um transtorno altamente prevalente na população geral e trazer muito sofrimento e incapacitação para seus portadores (Wittchen & Beloch, 1997), poucas pessoas com este quadro clínico chegam até o tratamento apropriado (D'El Rey, 2001).
Atualmente, as intervenções farmacológicas e técnicas cognitivo-comportamentais constituem-se no tratamento de escolha para a fobia social (Rodebaugh et al, 2004; Lincoln et al, 2003; Heimberg, 2001).
No manejo do paciente com fobia social, deve-se dar muita atenção ao medo da avaliação negativa por parte dos outros, que estes pacientes apresentam, pois a exposição ao estimulo temido e os medicamentos nem sempre remitem esta característica que muitas vezes mantém o quadro fóbico social (D'El Rey & Pacini, 2005; Clark & Wells, 1995).
Tratamentos que utilizaram técnicas cognitivas aliadas a técnicas comportamentais, obtiveram um melhor resultados no tratamento de pessoas com fobia social (D'El Rey & Pacini, 2005; Powel, 2004; Mersch et al, 1989; Mattick & Peters, 1988; D'El Rey et al, no prelo).

MODELO COGNITIVO

Conforme o modelo cognitivo proposto por Clark & Wells (1995), os indivíduos com fobia social possuem uma auto-crença negativa relacionada à auto-desvalorização (ex.: "Eu não tenho valor"; "Eu sou insignificante"; etc.). As suposições e as regras construídas para lidar com essa crença central incluem: "Se eu demonstrar segurança e falar de forma impecável, serei respeitado pelos outros"; "Se eu falhar ou me mostrar inseguro, os outros irão me desprezar"; "É muito ruim demonstrar ansiedade". A partir dessas suposições e regras, as pessoas com fobia social criam estratégias para enfrentar as situações sociais (padrões irrealistas de desempenho, excessiva atenção ao próprio comportamento, etc.) que acabam intensificando e mantendo a ansiedade e a auto-crença negativa e disfuncional.
Ainda conforme estes mesmos autores acima, o aspecto central da fobia social parece ser um forte desejo de causar uma boa impressão nos outros e uma insegurança marcante quanto à própria habilidade em conseguir esse objetivo.
Segundo Hofmann (2004), ao se ver em uma situação social, o indivíduo fóbico social acredita que irá se comportar de forma inadequada e, como conseqüência, será rejeitado, rebaixado e desacreditado pelas outras pessoas. Ele vê a situação social como perigosa e essa avaliação de perigo irá ativar uma espécie de "programa de ansiedade", que envolve reações cognitivas, emocionais, fisiológicas e comportamentais. Essas reações interagem umas com as outras de tal forma que mantêm a fobia, ou seja, impedem que a pessoa fóbica desconfirme as suas crenças negativas sobre os supostos perigos sociais.
De acordo com Hofmann (2004); Taylor et al (1997); Clark & Wells (1995); Stopa & Clark (1993), os processos cognitivos característicos da fobia social que mantém as crenças de perigos sociais são:

- Atenção auto-focada e auto-processamento negativo: Ao entrar em uma situação social, a pessoa com fobia social volta a atenção para si mesma, num processo chamado pelos teóricos cognitivo-comportamentais como atenção auto-focada. Em vez de prestar atenção nos sinais emitidos pela outra pessoa, ela fica atenta ao próprio desempenho e emoção. Essa auto-observação gera ansiedade e interfere na interação com os outros indivíduos. A pessoa, então, avalia-se negativamente e assume que essa avaliação negativa é feita pela outra pessoa. Por exemplo, a pessoa pode experimentar uma forte sensação de tremor e achar que os outros estão percebendo as suas mãos tremerem fortemente, quando na verdade as outras pessoas podem perceber apenas um leve tremor ou até mesmo nenhum tremor.

- Comportamentos de segurança / evitação: A pessoa com fobia social na tentativa de minimizar os efeitos negativos esperados nas situações sociais, procura encobrir as "falhas" ou manifestações de ansiedade engajando-se em comportamentos de segurança, por exemplo: ensaiar as frases mentalmente antes de falar; ensaiar um discurso várias vezes e falar rapidamente para evitar pausas longas e dar a impressão de segurança; segurar um copo com força para não aparentar tremor; vestir uma camiseta por baixo da camisa para encobrir o suor; olhar em volta para evitar contato "olho à olho"; etc. Estes comportamentos de segurança impedem que a pessoa desconfirme as crenças negativas sobre as reações que ele teme manifestar e sobre as conseqüências dessas manifestações (por ex.: uma pausa em uma conversa significa ser desprezado e desvalorizado). Os comportamentos de segurança também podem favorecer o aumento de manifestações temidas, por exemplo, segurar um copo com força pode intensificar o tremor.

- Processamento antecipatório e pós-evento: Antes de enfrentar uma situação social temida, a pessoa com fobia social é assolada por recordações de falhas passadas, por pensamentos negativos sobre si mesma, por predições de desempenho inadequado e rejeição por parte de outras pessoas. Esses processamentos cognitivos ativam a ansiedade antecipatória e a pessoa tende a evitar a situação temida. Se a pessoa não conseguir se esquivar da situação social, ativará o auto-processamento negativo em que irá se avaliar negativamente, ignorando ou desvalorizando qualquer sinal de aceitação por parte das outras pessoas. Ao sair de uma situação social temida que não pode ser evitada, a pessoa geralmente conduz uma operação cognitiva, revendo a interação, processando os sentimentos de ansiedade e a auto-percepção negativa. A situação é avaliada como muito mais negativa do que foi realmente. O fóbico social experimenta humilhação e vergonha e a experiência passa a ser adicionada à lista de falhas passadas. Em uma próxima situação social, este acontecimento constará como mais um item a favor da evitação da situação.

- Efeitos dos comportamentos do fóbico social sobre o comportamento dos outros indivíduos: O auto-processamento negativo aliado aos comportamentos de segurança podem dar uma impressão pouco calorosa e amigável da pessoa com fobia social às outras pessoas. Ao prestar pouca atenção no(s) interlocutor(es), o fóbico social cria deficiências na interação e faz com que a(s) outra(s) pessoa(s) se distancie(m). Este fator, aliado a evitação contribui para a manutenção da fobia social.

CONCLUSÕES

Conforme o modelo cognitivo apresentado neste texto, a utilização apenas de técnicas comportamentais de exposição no tratamento da fobia social, diferentemente do que acontece nas fobias específicas, costuma falhar em atingir mudanças cognitivas substanciais, porque os pacientes não processam o que está acontecendo realmente na situação social, engajam-se em comportamentos de segurança que impedem uma desconfirmação dos aspectos "perigosos da situação" e usam as impressões sobre si mesmo como as principais evidências de que serão avaliados negativamente e assim rejeitados pelas outras pessoas.
Assim, torna-se necessária a modificação de crenças disfuncionais para que a exposição possa ser efetiva.
Citando Butler et al (1984), para uma recuperação completa da fobia social e manutenção duradoura desta recuperação, é requerido mudanças cognitivas no paciente, pois sem estas a tendência à interpretar as situações sociais como perigosas se mantêm.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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D'EL REY, GJF. (2001) - Fobia social: mais do que uma simples timidez. Arquivos de Ciências da Saúde da Unipar 5: 273-276.
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MERSCH, PPA; EMMELKAMP, PMG; BÓGELS, SM; VAN DER SLEEN, J. (1989) - Social phobia: individual responses patterns and effects of behavioral and cognitive interventions. Behaviour Research and Therapy 27: 421-434.
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WITTCHEN, HU; BELOCH, E. (1997) - The impact of social phobia on quality of life. Biological Psychiatry 42: 134-135.

Correspondência: Gustavo D'El Rey. Rua Bom Jesus, 274-B - São Paulo-SP, Brasil. CEP 03344-000. Tel / Fax: (11) 6965-5163. E-mail: [email protected]



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