Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Novembro de 2005 - Vol.10 - Nº 11

História da Psiquiatria

CLÁUDIO AUGUSTO DUQUE (8.11.1948 - 15.11.2005)

Walmor J. Piccinini

A Psiquiatria do Nordeste, particularmente a Pernambucana, tem nos brindado com figuras de talento, cultas, afetuosas, generosas, enriquecedoras, intensas e brilhantes. A perda recente de Cláudio Duque deixa a Psicanálise, a Psiquiatria e, principalmente a Forense, mais pobres. Em 2004, CD publicou dois capítulos no Livro “Psiquiatria Forense”. (Porto Alegre. Artmed. 2004). De Taborda, GV;Chalub,M;Abdala-Filho,E e col. Parafilias e Crimes Sexuais. Simulação. Demonstrando seu profundo conhecimento e facilidade de troca de idéias. Ativo membro nas discussões da Lista Brasileira de Psiquiatria, por ocasião do Dia do Médico em 18 de outubro pp. Nos brindou com um depoimento singelo que se espalhou como rastilho de pólvora no mundo da Internet.

O velho clínico

Cláudio Duque - médico psiquiatra
Publicado no (a): Portal Médico- Em: 21/10/2005

Há alguns anos fui chamado para atender, em casa, um clínico geral já passado dos 80 que estava com uma doença grave e crônica. Vinha apresentando episódios de turvação da consciência, especialmente "sundowning", com alucinações cenestésicas e delírios. Tratava-se de um dos mais ilustres médicos do estado, com quem me consultei uma vez quando ainda estudante e cuja família tem amizade com a minha. Na ocasião da minha consulta fiquei impressionado com o exame meticuloso que me fez e com a firmeza com que disse que eu não tinha nada além de uma virose dessas corriqueiras.

Fui vê-lo no tempo de que dispunha, sábado de manhã, numa casa no subúrbio. Ao chegar, como sempre faço, tentei sentir o ambiente e fiquei muito impressionado sem saber direito por que. Era uma casa grande, moderna, confortável, sem o menor sinal de luxo, e onde as coisas se harmonizavam como se tivessem todas nascido lá; como um jardim ao mesmo tempo bem cuidado e sem jardineiro que o podasse. As coisas simplesmente estavam lá. Havia silêncio. E havia um painel com um poema que eu lia discretamente sempre que entrava e saía. Toda às vezes me emocionava. Era o retrato daquela casa. Simplicidade, emoção silenciosa e força inesgotável. Filhos e netos sempre circulavam ou estavam em suas ocupações. Mesmo com 30 anos de profissão, desde o início me senti como principiante, recém-formado, diante dos quase 60 anos da convivência daquele ambiente com a medicina. Quando entrei, a atitude de todos foi de alegria silenciosa e um respeito tão grande que me senti minha carteira do CRM crescer no bolso. O que ouvi da fala de todos, mesmo silenciosos, foi: "Que bom, chegou o médico!". Percebi então que não era eu quem chegava, era a medicina que entrava pelo jardim e era assim que a medicina era recebida e habitava aquela casa. Poucas vezes na vida me senti tão orgulhoso de ser médico, porque estava recebendo por tabela o respeito à profissão que o então enfermo havia ensinado a eles. Pensei: essa é a casa de um médico, é assim que os médicos devem viver, é numa casa assim que devem morrer. Foi quando encontrei o paciente na sala.

Nunca havia visto um doente grave com tanta dignidade e serenidade. Usava o pijama como um almirante se orgulha da farda. Percebi seu respeito por todos os pijamas que havia encontrado na vida. Olhou-me serenamente, sem me reconhecer, com a voz fraca, sussurrante, perguntou se eu estava bem e começou a relatar, com todos os detalhes, o seu sofrimento. Falou com a sinceridade e a confiança que merecera a vida toda. Ouvi, perguntei, respondeu, acrescentou. Disse-lhe o que achava e como pretendia ajudá-lo. Ouviu com curiosidade e otimismo. Aceitou sem nada comentar. Sorriu, olhando-me nos olhos. Éramos aliados contra a dor e a morte.

Visitei-o todos os sábados pela manhã durante mais de um ano. Depois, amiudava ou espaçava as visitas conforme o seu estado exigisse. Não lhe fiz uma só visita da qual não saísse emocionado, não raro com os olhos molhados. Era o contato direto com a sacralidade de uma coisa que tinha um link direto com Hipócrates e que eu via pelo mundo afora se desvanecendo como um riacho minguado na terra seca e estéril do dia-a-dia.

Sua esposa, simples, bonita e sorridente, me tratava com se fosse da família e eu era, era do time do marido, era da confraria universal dos lutadores contra a morte, irmãos para sempre. Ela sempre assistia às consultas, deixava-nos a sós um pouco e depois confidenciava sobre o estado e o comportamento dele. Uma vez, reconheci que um dos medicamentos não estava funcionando e resolvi mudar. Ela me disse que ele ia achar bom, pois não simpatizava com a droga desde o início, mas que proibira qualquer pessoa da família de sequer mencionar o fato; eu era o médico e o médico deve ter toda a liberdade de escolha do tratamento.

Outra vez, ao relatar suas alucinações, comentou pensativo: "agora entendo o que alguns pacientes me diziam; quando eu ouvir alguém me contar uma coisa dessas, vou encarar de uma forma diferente, só vivendo é que a gente sabe mesmo como é". Esse "quando alguém me contar" na hora me pareceu tudo menos uma negação do fato óbvio de que não voltaria a clinicar e não ouviria mais queixa alguma. Ouvi como um recado, uma lição, bem assim:
"você pensa que algum dia vai parar de aprender a ouvir os seus pacientes?".

Coincidiu um dia de quando eu chegar ele estar sendo examinado pelo neurologista. Contemporâneo dele, já teria atendido juntos dois mil e trinta pacientes. O velho neurologista não tinha boas notícias. Olhavam-se nos olhos com cumplicidade. Sabiam do que estavam falando. A situação era a mesma de tantas vezes, ser com um deles não faria diferença. Era "a luta", a medicina funcionando como devia funcionar.

Em março do ano passado saiu uma portaria da ANVISA desaconselhando o uso em idosos de um medicamento com que ele estava se dando muito bem. Comuniquei-lhe imediatamente a razão da mudança do remédio. Não lamentou, disse apenas que ainda bem que nada de mal tinha acontecido. Assisti a trocas de roupa, sessões de fisioterapia, mudança de posição na cama, manobras para preparação de banho, transporte nos braços de enfermeiro da sala para o quarto e vice-versa e jamais o ouvir se lamentar de qualquer incômodo nem deixar de agradecer a mim e aos outros por qualquer melhora.

Numa das primeiras consultas, percebi que a esposa, muito discreta e encabuladamente, tentava introduzir na conversa o assunto dos meus honorários. Respondi com a mesma moeda; falando de outros assuntos dei a entender que não cobrava de colegas. Nunca mais se falou no assunto. Os médicos do tempo dele se tratavam assim.

Estava em sistema de “home” hospital. Todos os resultados de laboratório e as evoluções lhe eram apresentados. Lia e comentava com naturalidade. Estava em casa. No final de cada consulta me apresentavam o prontuário, importante ali como se fosse à bíblia de Gutemberg. Mesmo depois de centenas de blocos rabiscados, na primeira prescrição minha mão vacilou como na primeira emergência do primeiro plantão. Fiz a letra mais bonita que consegui, reli e conferi trezentas e quatorze vezes e ainda não fiquei tranqüilo. A medicina devia ser sempre assim.

Este ano ele finalmente venceu a morte. Foi-se em paz, com naturalidade, sem desespero. A Dama da Foice, brutal e tenebrosa, não teve vez naquela casa. A partida foi digna e em harmonia. A medicina dele venceu mais uma vez.

Desculpem ter-me alongado tanto, mas na última terça-feira, 18 de outubro, acordei me lembrando do velho médico.

Esse texto, mais do que qualquer dado biográfico, nos permite vislumbrar traços marcantes da personalidade do CD como era carinhosamente chamado pelos amigos. Amigos que são tantos, por todo o Brasil. Amigos que desfrutaram dos seus textos, do seu bom humor, que privaram da sua intimidade sem nunca tê-lo visto em pessoa. Alguns, como nós, viemos a conhecê-lo ao vivo e a cores, graças aos inúmeros Congressos da especialidade onde sua figura era impossível passar despercebida. CD era grandalhão, peso pesado, movia-se com a leveza de um bailarino, ostentando um cabelo comprido, amarrado com um rabo de cavalo. O depoimento de José Geraldo Vernet Taborda ilustra nosso pensamento:

Conheci CD através da Lista, quando ainda se chamava Cláudio Duque. Naqueles primórdios, surgiu uma interessante discussão sobre a imputabilidade do pedofílico. As opiniões se dividiram. Como geralmente faço moitei, mas admirei vivamente os argumentos sólidos apresentados por Cláudio. Poucas semanas depois, a convite da Hilda e dos colegas do Bairral, fui a um simpósio de psiquiatria forense em Itapira, interior de São Paulo. Lá estavam Talvane, Chalub, Elias, Kátia e diversos colegas paulistas. Durante minha conferência, não pude deixar de observar na platéia aquele tipo diferente, grandalhão, vestido informalmente, barbudo, rabo de cavalo, com óculos de fundo de garrafa. Pensei: um Bukowski dos trópicos.  

Após a conferência, abre-se espaço para a platéia. Alguém diz alguma coisa que me traz à lembrança à discussão havida na Lista e falo aos presentes sobre "um colega de Recife, Cláudio Duque, que disse isso e isso, etc... num fórum da LBP" e perfilhei suas opiniões.

 Quando estou de saída o grandalhão se aproxima de mim, sorrindo, e me diz: "Eu sou o Cláudio Duque de Recife". Pensei: "O Bukowski ta pirado". Mas era ele mesmo. Iniciamos assim uma relação muito fraterna, ao longo da qual só cresceu minha estima e admiração por Cláudio.

Em nossa correspondência chamava-o de Nobre Imperador, brincando com seu augusto nome. Saudava-o com um Ave, Caldeus!"

Impressionava-me sempre a acurácia de suas observações clínicas e a compreensão que tinha dos fenômenos jurídicos. Compreensão essa raríssima de ser exibida no nível em que a demonstrava. Uma vez lhe disse isso e, aí, fiquei sabendo que era filho de desembargador e provinha de família de juristas. Em sua casa, desde pequeno, assistia inflamados debates jurídicos. A isso atribuía sua familiaridade com o tema. Em suma, o único da família que não era direito era ele, Cláudio, gauche, bon-vivant, generoso e maravilhoso amigo.

Quando organizei o livro de Psiquiatria Forense, foi uma decisão natural convidá-lo para ser o autor dos capítulos sobre "Simulação" e "Parafilias e Crimes Sexuais". Posso dizer, sem medo de errar, que são dos pontos altos do livro e que sua contribuição foi brilhante.

Pelos acasos da vida, tivemos uma experiência simétrica e recíproca. Em determinado momento, um paciente do Cláudio veio morar em Porto Alegre, seguiu em tratamento comigo e, meses após, retornou ao Recife. Dois anos após, uma paciente minha mudou-se para o Recife, onde ficou alguns meses em acompanhamento com o Cláudio e retornou para cá. Ambos os casos não eram simples. Dessa dúplice experiência, posso testemunhar que se tratava de um profissional de grande habilidade clínica e com uma invejável capacidade de se relacionar com seus pacientes.

Ao longo desses anos, estivemos sempre muito próximos. Diversas vezes recorri a Cláudio buscando sua opinião. Quando, em época recente, passei por período especialmente difícil em minha vida, Cláudio se constituiu em apoio constante e efetivo. Muito do bom que pudemos desfrutar em nossa viagem ao Egito, durante o mundial do Cairo, deve-se a haver ouvido sábio conselho de Cláudio.

Felizmente, pudemos, no último mês, encontrar-nos com uma freqüência bem acima da habitual: em Belo Horizonte e em Porto Alegre.

Aqui, participamos da Jornada de Psiquiatria Forense e tivemos bastante tempo para jogar conversa fora (como descrito por CD ao falar de seu tour pela Feira do Livro).

Quando nos encontramos, me disse de cara: "Trouxe uma surpresa para ti." No dia em que jantamos em nossa casa, na companhia de Elias, Ana, Walmor e outros colegas daqui, abriu sua mochila e dela tirou um livro, sobre o qual havíamos falado em e-mails - "Forensic Psychiatry in Islamic Jurisprudence" - e falou: "Fica o tempo que quiser, que não vou precisar dele agora". É com muita dor que olho para esse livro, agora, em cima de minha mesa (pois nessas duas semanas, viajei algumas vezes em suas páginas) e constato que o Imperador não vai mais precisar dele.

Faz pouco mais de 15 dias que nos despedimos. Minha casa ficou em silêncio com a notícia. Cláudio fará muita falta a todos nós.

Os depoimentos sobre a personalidade de Cláudio duque e os afetos que despertava em todos se sucederam aos borbotões. Resolvi pinçar algumas mensagens bem humoradas de CD para mostra como ele se sentia à vontade entre nós. A Lista Brasileira de Psiquiatria existe desde 1996, fundada por Giovanni Torello e, atualmente, co-administrada por Fernando Portella Câmara. Tornou-se uma tradição a reunião dos membros da lista num Jantar comemorativo durante os congressos da ABP. Não chega a ser um encontro de grandes proporções, é mais uma reunião do grupo mais ativo da lista. É uma espécie de panela e a última reunião foi em Belo Horizonte no Restaurante dona Lucinha (os anfitriões, Wagner e Mercedes Alves, Márcio e Érika Pinheiro, Raquel Wanderley e o mineiro brasiliense Lucio Villaça). CD participou e de volta a Recife escreveu a CRÔNICA DO JANTAR DA LBP - Cláudio Duque

(Durante o Congresso Brasileiro de Psiquiatria ocorrido em Belo Horizonte, ocorreu o jantar anual da lista Brasileira de Psiquiatria, em 13.10.2005, as fotos estão no site http://manati.fotos.uol.com.br/jantarbh )

Quando chegamos, depois de nos perdermos mais uma vez em BH, acho que metade já estava à mesa. Imediatamente anunciei: "Finalmente chegou! O mais esperado, o mais gostoso, o mais desejado por todas... o Bolo de Rolo!". Notei um ar de decepção. Acho que esperavam outra coisa. Talvez o Portela. Aí anunciamos a presença de Raquel Chilvarquer, psiquiatra paulista (ligada ao PROTOC) que além de inteligente, culta, competente e simpática, se dá ao luxo de ser bonita. Disse que ela estava lá para conhecer a turma e era uma provável futura-listeira. Imediatamente Salvador gritou de lá: "mas não fique só conhecendo, coma alguma coisa!". Walmor se entusiasmou, mas em vão. Ela casou há pouco, estava morrendo de saudade do marido, ligava de vez em quando para ele. Aliás, as duas prováveis futuras listeiras (Raquel e Ligia França Pereira, esta doutora pela Unicamp e especialista em História do Juqueri) que foram sacar  o pessoal, não se inscreveu até agora. Sorry, vcs não agradaram.

A mesa era em forma de U, com um braço em cada sala. Uma parede me separava de Walmor; a gente falava como presos em celas vizinhas (providência antecipatória do Gre-Nau de hoje). O Leandro de Paiva às vezes se queixa de um certo isolamento em Presidente Prudente. Em represália, foi posto quase na extremidade, na outra sala. Só foi chamado para se integrar ao grupo na hora de pagar a conta.

Tivemos a presença do Portuga Rodolfo, outro que talvez se filiasse e até agora nada. Talvez tenha se magoado com as piadas de Português que Paulo José contava o tempo todo. Aliás, devido à presença do Rodolfo, proponho que o Jantar da Lista passe a se chamar Encontro Internacional Informal da Lista de Psiquiatria. Marketing é tudo, diria Duda. O Luiz Paulo, namorado da Raquel W, não sei por que, ria às gargalhadas de todo assunto sério que se conversava. Para ele, devemos parecer animais muito estranhos.

Aí estavam na mesa uns torresminhos, umas linguicinhas, foi descendo uma cachacinha mineira, aí foi todo mundo se animando, se animando e se misturando. Aí me lembro de pouca coisa, só fragmentos. Toda vez que o Marcos Klar a.k.a. Pira dizia alguma coisa, um grupinho se reunia para tentar discutir e entender o sentido oculto das palavras dele. A maioria não conseguiu. Houve quem pensasse em diagnóstico. O Lúcio passou o tempo como se fosse mineiro. Falava pouco e assuntava muito. Quem falava era o moiteiro prof. Talvane, cuja inteligência é tão grande que seu crânio só pôde sair nas fotos por partes. Havia duas "Salvadoretes", residentes que acompanhavam o mestre. Comentavam: "o professor é muito exigente", sem especificar o que ele tanto exigia. Ah, pude finalmente conhecer a esposa dele, Julita, cuja simpatia excede o muito que já me haviam falado. Além de ser conhecedora-admiradora do bolo-de-rolo.

Especulou-se sobre a ausência de Portela. Uns diziam que talvez estivesse lá nos quintos de qualquer coisa, como sugeriu nosso amável anfitrião. Outros supunham que estivesse entre lençóis, não dormindo, mas "combatendo o bom combate", única situação, segundo Paulo, em que sua ausência seria desculpável.

Havia também um gringo, Mr. Pinetree, recém chegado ao Brazil (nem cinco anos ainda), por um lado tentando se passar por mineiro e por outro espantado com as coisas do país, querendo saber do câmbio local, dos costumes, se a comida não poderia ser um pouco pesada, se a tal "Ca-sha-sa" não era muito forte... Nívia, constantemente chamada de Nívea pelos bêbados, se divertia muito com as manobras dos homens para impressioná-la. Deve ter sido por isso que riu o tempo todo. E porque estava ao lado de Paulo José, com todo o respeito pelo charme do meu amigo. Ercy esteve sempre indeciso sobre se alegrava ou se arrependia de ter voltado. Circulava tentando formar opinião. Mudava de idéia a cada encontro. Luciano Munari, simpático com sempre, circulou tanto que terminou se envolvendo num dos desagradáveis incidentes da festa - vide foto. Walmor contou a Raquel C, em breves palavras, a história do Judaísmo de Abraão a Henry Sobel. Empolgou-se tanto que tomou um susto com o cortador de charutos. Pensou que era pra fazer circuncisão.

Sim, os charutos! Que maravilha! Só lamento não ter tomado mais umas cinco cachacinhas; aí teria cara-de-pau para enfiar uns cinco no bolso e fumar até hoje. Aliás, foi tanta gente fumando que o fumacê espantou o restante dos comensais de D. Lucinha que já não havia fugido da algazarra. E descobrimos que temos representantes da interessantíssima espécie das mulheres-charuteiras. Seguidoras de Hanna Segal, só que são bonitas e não têm bigode. Sandra, por exemplo, circulava dando, para quem quisesse ver demonstrações de boa charutagem.    

Uma palavra deve ser dita sobre os Anfitriões, especialmente a dupla WM (Wagner-Mercedes). O acolhimento que tiveram conosco pode ser simbolizado nos charutos que distribuíram. Puros, de boa qualidade, fartos, cuidados (em todos os quesitos) generosos, presenteados com alegria. Só que, ao contrário dos charutos, a lembrança de tanto carinho não vai desaparecer em fumaça.

De suas comunicações extraímos algumas observações: sobre saúde e atividade esportiva

Mesmo no caso de Jim Fixx, há controvérsias, Walwô. O próprio Cooper escreveu um livro defendendo que Fixx, por condicionamento genético e outras cositas, tinha expectativa de vida bem menor que 52 anos. Seu pai morrera bem mais jovem, de infarto. Sem corrida, morreria antes. Estava condenado, qual Édipo das pistas, pelo oráculo do DNA.  E, aí é que está, desobedeceu a uma regra elementar do próprio livro. Exercitou-se cansado, irritado, sentindo-se mal. Esse parece ser o ponto: o que mata é o aperreio. Os pachorrentos elefantes e tartarugas vivem muito. O nervosinho beija-flor morre logo. Veja os exemplos: Ademir da Guia era acusado de quê? De lerdo. Não corria; passeava em campo, lambendo a bola. E Nilton Santos? Bailarino, com equilíbrio e noção de tempo extraordinária, era econômico nos gestos. Gastava metade da energia que um jogador comum nas mesmas jogadas. Bauer, só ouvi falar.

Tenho visto esportistas adquirirem tal nível de destreza e resistência que onipotentemente desdenham normas de segurança. Foi assim com James Fixx, Cláudio Coutinho (o campeão-moral, lembram-se?), o mestre dos mestres dos mares Eric Tabarly, por aí. O exercício deixa de ser tratamento para ser guerra.

Por isso é que sinto profunda tentação de me lançar em exercícios intensos, mas não o faço para preservar a saúde.

Outro dia morreu a mulher mais velha do Brasil. Vi na TV uma das suas últimas entrevistas. Tinha mais de 110 anos, acho. Não sabia ler, não tinha rádio nem televisão, só andava a pé, não sabia ver horas e não conhecia dinheiro. Sem notícias, dinheiro, e relógio, não têm aperreio. Assim até eu.  Farei como você. Quando estiver quase perto dos 52 anos vou começar a me cuidar.   CD. (30/06/2005)

Há muitos anos todos os meus exames dão coluna do meio. De fazer inveja a quem faz dieta. No último, o Colesterol Total estava em 166.0. HDL em 51.0. (relação 30.72 = risco médio baixo). Costela no bafo é bom. Carne magra. Com vinho tinto, encorpado. CD.(28/06/2005)

Meia idade? Meia? Estaremos pretendendo viver 120 anos? Vige!!! CD (12.07.2005)

Sobre a doença de Freud escreveu: E consta que, mesmo com toda a dor, recusava analgésico, pois poderiam reduzir-lhe a capacidade pensante. Só no final aceitou aspirina. Ninguém entre os que estiveram com ele nos últimos tempos jamais o viu reclamar da sorte, lamentar-se ou se irritar. Manifestava grande gratidão por qualquer cuidado que tivessem consigo. Entristeceu-se profundamente quando percebeu que o cachorro o evitava devido ao mau cheiro. Schürr interveio quando Freud disse: "Já não consigo pensar, não há mais nada a não ser a dor".  Ou foi coisa assim ou eu imaginei assim. C.D. (04/08/2005).

Nossa civilização é quase toda antinatural. Pode-se avaliar o nível de civilização de uma sociedade pelo cuidado que têm os velhos, os doentes e as crianças. Os civilizados não deixam os predadores do rebanho, fazer a limpeza. Em vez de serem devorados pelas hienas e similares, os doentes saem por aí contaminando e reproduzindo. E, prevenindo doenças, estamos deixando mais espaço para o DNA se manifestar. Outro dia, na exposição "A Herança dos Czares" vi a cronologia da dinastia Romanov. Só um passou dos 60 anos; poucos, dos 50. Morreram todos jovens, pelos parâmetros de hoje. Devia haver bem menos Alzheimer naquele tempo. Em compensação, o "in-breeding" era muito maior, com "taras" de todo tipo. Os médicos, sim, são difusores, na medida em que tentam habilitar os fracos e doentes a circular, conviver e procriar. Transformar o planeta num grande “melting pot” genético, como vem ameaçando acontecer, só pode ajudar (filosofia sabatina, senhor adiantado). CD. (13/08/2005).

Discussão sobre sintomatologia:

O último caso que vi de esquizofrenia catatônica (com flexibilidade cérea e tudo) foi em 1985. Era um posto do INAMPS e juntou gente pra ver. Em compensação, vim a saber, o que era TDAH um dia desses. Mesmo a DCM (disfunção cerebral mínima) era rara. Uma grande amiga minha, a Ana (1), está defendendo a tese que o aumento de jovens com TDAH é resultado dos exames de ultra-som que são feitos durante a gestação. (papo furado sabático). C.D.

(1) Neuropediatra Malauiana. Costumava estudar ciência no  "Thesouro da Juventude", o que lhe valeu ser chamada de Ana Crônica. (13/08/2005).

Sobre laudos e discussão: Paulo, (que afirmou ter mais de 800 laudos em seu computador). Estou por aí. Fui ver, tenho mais de 500 laudos sobre imputabilidade e periculosidade no meu PC. Isso afora os 20 anos em que não tinha PC.  Bastaria que essas pessoas examinassem 5% dos casos em que trabalhamos para que mudassem de idéia e parassem de encher o saco. Aliás, bastaria um casinho só para esses desocupados remunerados terem que decidir para verem que o buraco é em outro lugar. Tecnicamente falando, no sentido estritamente psicanalítico, isso tudo é conversa de quem não entende do assunto, não conhece a realidade das perícias e, principalmente, não tem o que fazer. Hoje estou especialmente cordato, diplomático, sensível e aberto ao diálogo, deu para perceber? (17/10/2005).

Sobre duzentas coisas a fazer em São Paulo: 129 razões para não morrer tão cedo: 21 já fiz + ou - 50 não interessam C.D. (4/11/2005)

Sobre Ariano Suassuna e crônica de viagem a Porto Alegre: (Papo vadio de sábado com Walmor)

Não só quando sai do Recife, mas quando sai de casa. Costuma se esconder na biblioteca (recebe só poucos amigos) e manda dizer que está na fazenda de Taperoá. É quase meu vizinho, vejo-o vez em quando, em alpercatas, andando pelas calçadas de Casa Forte/Poço da Panela. Não aceita carona, diz que automóvel não tem a menor graça. Para ele o bom é andar a pé, olhando os jardins, as pessoas. E é. Hoje faz uma semana que eu, Ana e Elias Abdalla demos uma caminhada em Porto Alegre, pelo centrão, parando para ver besteira, feira de antiguidades (Ana comprou um manati ótimo, esculpido em Manaus), vendo dança na praça e camelôs, brincando com cachorro à venda, comprando CDs de Johnny Mathis, Etta James e Harry Belafonte, zanzando pelo Mercado Público, tomando sorvete e culminando numas salsichas com pão e cerveja Polar num boteco derrubado do Mercado. Elias também foi de pastel. Foi nessas horas vadias que me senti realmente em Porto Alegre. Depois, uma passadinha com Taborda e Zenóbia na Feira do Livro. Quer programa melhor? 

Ariano é mesmo uma figuraça. Conta que tomou cafezinho por gentileza durante anos em todo lugar aonde ia. Até que descobriu que não gosta de cafezinho. Foi uma grande descoberta. Aí parou. Penso em quanta coisa a gente fica engolindo por hábito, por inércia, sem pensar se realmente gosta. Num Congresso da A. B. de Psicanálise ele fez a Conferência inaugural e atacou, perante 400 psicanalistas, o tema: "O risível na obra de Freud". Fui um sucesso estrondoso, a platéia morreu de rir e muita gente que não conhecia Ariano disse que tinha sido a melhor coisa do Congresso.

Pelo contrário, Bolo-de-Rolo no natal não é heresia, é sagrado. Na minha casa nunca faltou. Com queijo-do-reino.  Aqui está chovendo e são 10:15. Vadiar é muito bom. Um abraço. CD (5/11/2005).

Cláudio Augusto Duque distribuía bom humor, informações, tiradas espirituosas. Estava muito feliz com o nascimento de Sebastião e Maria Luiza. Com Ana encontrou novo alento em sua vida, estava produtivo e cheio de energia. Parecia viver muitas vidas em pouco tempo, vivia nos aeroportos e não demonstrava cansaço. Tudo era felicidade. Foi então que no dia 15 de novembro chega à mensagem:

Prezados Amigos e Amigas da LBP, 

É com imensa tristeza e pesar, que noticio aqui o falecimento do nosso muito querido colega e amigo CLÁUDIO DUQUE, nosso CD, ocorrido minutos atrás em São Paulo, aos 57 anos. Neste dia 15 de novembro de 2005. A dor é imensa. Adeus ao amigo dileto. Portela. 

Cruz na Lista de psiquiatria « parodiando Fernando Pessoa »

Quem morreu? O próprio Cláudio ?

Desde agora a Lista mudou.

Quem era? Ora, era quem eu lia,

Todos os dias o lia,

Estou agora sem esta alegria,

Desde agora a Lista mudou.

Meu coração tem pouca alegria

E isto diz que é morte aquilo onde estou.

Horror fechado de sua «mensageira»

Desde agora a Lista mudou.

Eliezer de Hollanda Cordeiro


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