Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Outubro de 2005 - Vol.10 - Nº 10

História da Psiquiatria

Índice Bibliográfico Brasileiro de Psiquiatria

Walmor J. Piccinini

O resgate da História pode ser feito tomando de múltiplas formas. Documentos, registros de diferentes formatos, pesquisas arqueológicas e testemunhos pessoais e outros. Sinto que não seja fora dos objetivos de registro da história da psiquiatria brasileira, o relato da construção de um banco de dados da sua produção bibliográfica.

Em todo trabalho científico é fundamental uma boa revisão bibliográfica sobre o tema estudado. Chamou a nossa atenção à raridade de citação de trabalhos em língua portuguesa, mais especificamente a raridade da utilização da bibliografia existente no país sobre os assuntos abordados. Quando interpelados, os autores referiam-se a dificuldade de encontrar registro das publicações, já que não eram indexadas. Até o advento da Internet em 1995/96 quem desejasse realizar uma pesquisa bibliográfica tinha que consultar o Index Medicus que era encontrado nas boas bibliotecas das faculdades de medicina. Surgiu depois a forma eletrônica do Index, O Pubmed, publicação da National Library dos EUA. Para os pesquisadores foi um grande progresso, para as produções nacionais dos países de língua não inglesa, foi uma cortina que escondeu suas produções nacionais. Não foi apenas a língua portuguesa a sofrer esse obscurecimento, francês, italiano, russo, tcheco, polonês e os demais, sofreram do mesmo problema.

Alguns autores brasileiros tentaram resgatar o que havia sido produzido no nosso meio, organizaram fichas de leitura, selecionaram trabalhos e os publicaram nas revistas nacionais. A dificuldade de acesso ao material publicado, à falta de recursos técnicos, a falta da informação automatizada propiciada pelo computador, limitaram as possibilidades desses trabalhos. Selecionamos os mais importantes para registro dessas tentativas:

Bibliografias da Psiquiatria Brasileira

1. Cerqueira, Luiz. Uma Bibliografia Brasileira com vistas a uma reabilitação no hospital psiquiátrico. J.Bras. Psiquiat. 1964; 13(2): 255-301.

2. Frota, Leopoldo H. Cinqüenta anos de medicamentos antipsicóticos em psiquiatria: II. Fenotiazinas piperazínicas. J. Bras. Psiquiat. 2001; 50(5-6): 213-230.

3. Frota, Leopoldo H. Cinqüenta anos de medicamentos antipsicóticos em psiquiatria: III. Fenotiazinas piperidínicas. J. Bras. Psiquiat. 2001; 50(7-8): 267-284.

4.Lopes, Ernani. Bibliographia brasileira do alcoolismo. Archivos Bras. De Hygiene Mental. 1925; 1 (..):161-166.

5. Madalena, J. Caruso and Paprocki, Jorge. Bibliografia Brasileira de Psicofarmacologia 1948-1970. A Folha Medica. 1972; 64(2): 391-420.

6. Paim, Isaías. Bibliografia brasileira de alcoolismo e toxicomanias. Revista De Psiquiatria. 1963; 2(3): 80-96.

7. Paim, Isaías. Bibliografia Brasileira de assuntos afins à Psiquiatria. Revista De Psiquiatria. 1967; 6(12): 217-234.

8. Paim, Isaías. Bibliografia brasileira de legislação e assistência aos doentes mentais. Revista De Psiquiatria. 1964; 3(6): 240-257.

9. Paim, Isaías. Bibliografia brasileira de Neuro-Sífilis e Paralisia Geral. Revista De Psiquiatria. 1965; 4(8): 166-183.

10. Paim, Isaías. Bibliografia Brasileira de Neurose. Revista De Psiquiatria. 1966; 5(9): 70-83.

11. Paim, Isaías. Bibliografia Brasileira de psicologia forense. Revista De Psiquiatria. 1964; 3(5): 88-116.

12. Paim, Isaías and Madalena, J. Caruso. Bibliografia brasileira de psicofarmacologia. Revista De Psiquiatria. 1966; 5(10): 201-211.

13. Paprocki, Jorge; Rocha, Fábio Lopes; Villela, G. F. J., and Lima, W. L. Bibliografia Brasileira de Psicofármacos - 1954/1984: glossário de psicofármacos. São Paulo: Sandoz. 1986; 1-86.

14. Souza, Maria Conceição Bernardo de Mello e and Alencastre, Márcia Buchi. Produção da enfermagem psiquiátrica no Brasil, 1932-1993. Rev. Bras. Enfermagem. 1999; 52(2): 271-282.

O primeiro desses trabalhos que tivemos contato, foi o de Luiz Cerqueira (1964) . O título Uma Bibliografia Brasileira com vistas a uma reabilitação no hospital psiquiátrico. A parecer na nominativa dos autores citados, foi motivo de muito orgulho para um então estudante de medicina da UFRGS. Se esse foi o germe do nosso interesse, é algo a ser analisado.

Os anos se passaram e fomos registrando o descaso com a produção dos nossos psiquiatras. Era uma equação cruel e injustificada. O mesmo autor que relegava ao segundo plano o trabalho dos colegas acabava recebendo o mesmo desprezo para o seu trabalho. As alegações eram às de sempre, falta de acesso, desconhecimento, falta de indexação e em muitos casos pura inveja mesmo. O que fazer? Para quebrar esse círculo vicioso. A resposta era simples, organizar um Index Medicus Brasileiro. Resolvemos começar pela psiquiatria e fomos à luta.

Começamos organizando fichas, nos moldes de paim, Cerqueira, Paprocki e os demais logo a realidade foi cobrando seu preço e concluímos que não iríamos a lugar algum. Meus conhecimentos de informática eram poucos, cheguei a ter um TK 3000 da Aple, depois um XP da Toshiba e uns aparelhos mais primitivos que pouco me ajudava a criar um banco de dados. Estava nesse impasse quando minha esposa resolveu se candidatar a uma bolsa de pós-doutorado. Resolvemos escolher com cuidado o melhor local para ela e um em que eu poderia fazer alguma coisa em psiquiatria. Tínhamos várias possibilidades e antes de decidir resolvemos visitar os possíveis locais. Na Inglaterra visitamos Newcastle e Edimburgo, nos EUA visitamos New York, Washington DC e Ann Arbor. Deixamos de lado os locais glamourosos e optamos por Ann Arbor, sede da Universidade de Michigan. (Por acaso, conhecia Ann Arbor, em 1977 estive visitando o Prof. José Onildo B.Contel, de Ribeirão Preto-SP que lá estava estagiando e nos alojou na sua casa, de número 2408 do campus Northwood V. pertencente à Universidade de Michigan. Dezoito anos depois nós residimos na casa 2409 do mesmo campus. Coisas da vida).

Em Ann Arbor fui aceito para trabalhar com o grupo de informática psiquiátrica do Departamento de Psiquiatria da UM. Na ocasião, lá funcionava o primeiro curso de psiquiatria informática dos EUA. O chefe era um psiquiatra infantil, Norman Alessi, seu discípulo mais adiantado era Milton Huang. Eles são autores de alguns trabalhos sobre o assunto e se alguém desejar conhecer, basca colocar seus nomes no Google. Foi nesse estágio que tomei conhecimento da existência de um aplicativo desenvolvido por professores do departamento de biblioteconomia da UM. Mais tarde esse aplicativo foi comprado por uma grande empresa de comunicação a Thompson, a mesma que domina o Web of Sciences e outros indexadores que estão no mercado. O trabalho inicial foi aprender a lidar com o aplicativo chamado Procite (www.procite.com):

O procite funciona com fichas onde constam até 45 itens que podem ser dispostos e, formas de trabalho tipo revista, longa e curta ou sob a forma de livro. Ele permite indexar artigos, discos, livros e revistas. Depois de dominado o aplicativo o trabalho é braçal. O procite permite importar resumos do pubmed, mas no geral as fichas têm que ser digitadas uma a uma ou copiar e colar das publicações disponíveis on-line. Nos dez anos que venho acumulando fichas, já reuni aproximadamente 15.200. O procite permite com facilidade separar as fichas por data, palavra-chave, ano, título etc. Tudo isso está disponível on-line no endereço www.biblioserver.com/walpicci

Até chegar a colocar on-line foram longos anos de espera de um formato adequado, acompanhamos o desenvolvimento do Biblioserver por um grupo de programadores da Estônia e quando achamos que estava em condições de funcionamento fizemos o upload do banco de dados. Traduzimos alguns termos para o português e os estonianos, gentilmente, colocaram nosso nome nos créditos.

Todo esse trabalho foi feito com recursos próprios e com a ajuda dos colegas que adquiriram o banco de dados em livro e em CD. Começamos com um disquete no Congresso de Brasília em 1997. O livro e o CD no congresso de São Paulo e sucessivamente fomos ampliando o banco de dados. Um trabalho desse porte, quixotesco para alguns, serviu para que fizesse grandes amigos, começasse a escrever sobre história da psiquiatria brasileira e participar do Departamento de Informática da ABP a convite de Giovanni Torello e a continuar no departamento com auxiliar do atual coordenador Fernando Portela Câmara


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