Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Agosto de 2005 - Vol.10 - Nš 8

Psicanálise em debate

O ESCÂNDALO DO PT - O RETORNO DO REPRIMIDO EVIDENCIANDO AS AMBIGUIDADES DO DISCURSO POLÍTICO

Sérgio Telles
psicanalista e escritor

O Brasil assiste atônito o desdobramento incontrolável de uma crise política sem precedentes. A corrupção que está sendo exposta nas práticas do PT mergulha grande parte da população na desesperança.

Acuado pela opinião pública, a única defesa (se é que pode ser chamada assim) apresentada pelo PT é dizer que de longa data os demais partidos utilizam os mesmos meios. Considerando que seja verdadeira tal afirmativa, persiste uma inabalável questão, pois se os demais partidos praticam os mesmos delitos, até então nenhum foi pego em flagrante, como agora ocorre com o PT.

Frente ao impasse criado, propõe-se soluções bem "brasileiras" - são negosciados "acordões" entre os partidos para tentar circunscrever a catástrofe e é proposta uma farsa coletiva - a chamada "blindagem" em torno de Lula - em função da qual todos concordam em acreditar no inacreditável - que o presidente nada sabia do que se passava a seu redor...

O que ocorre agora com o PT lembra o que aconteceu na década passada com a Igreja Católica nos Estados Unidos. A pedofilia quase endêmica praticada por padres nos colégios religiosos veio à tona com imenso impacto social e econômico, pois além do escândalo moral a Igreja teve de enfrentar processos que a forçaram a pagar altas indenizações às vítimas de abuso sexual, deixando várias dioceses à beira da falência, como a de Boston.

Em ambos os casos - o do PT e o da Igreja Católica - foram feitas fortíssimas pressões para acobertar os fatos, que, no entanto, terminaram por se fazerem públicos.

Em ambos, práticas proibidas e denegadas (corrupção e pedofilia) são flagradas de forma irrefutável.

Ambos provocaram reações também semelhantes. Pelo lado da sociedade, indignação e a instauração dos competentes inquéritos para apurar responsabilidades e administrar as punições. Do lado dos "fiéis", um custoso processo de elaboração do luto pela idealização perdida, caminho que se inicia pela negação completa da realidade, passando pela atribuição a complôs realizados por inimigos externos, até chegar à assunção da dura realidade, única via possível para a reconstrução.

É verdade que os "fiéis" norte-americanos levaram a cabo esse processo, o que ainda está em curso entre os "fiéis" do PT. Uso propositadamente a expressão "fiéis" para ressaltar a proximidade entre ideologia política e religião, algo que não é nenhuma novidade, mas que é sempre bom lembrar.

É verdade que não foi o PT quem inventou a corrupção na política brasileira, assim como não foi a Igreja Católica norte-americana quem criou a pedofilia.

Seria má fé pretender desconhecer que essas práticas são largamente usadas, apesar de negadas e reprimidas.

Mas não se pode negar que o escândalo decorrente de sua exposição publica fica potencializado ao máximo quando se evidencia que instituições  - PT e Igreja Católica -, cujo discurso se caracterizava pelo combate ferrenho a essas práticas, nelas incidem sem restrições. Fica então difícil negar a essas instituições a pecha de hipócritas.

O que ocorre nesses episódios é o retorno do reprimido, provocando inicialmente um enorme mal-estar social e, num momento seguinte, a necessidade de uma elaboração e integração desses fatos até então denegados.

Atendo-se ao PT, penso que a exposição dessa realidade reprimida pode ser muito benéfica, quer seja por forçar uma desidealização do partido e a instauração de perspectivas mais realistas para sua prática política, quer seja por esvaziar um projeto autoritário que poderia ter conseqüências danosas para a democracia  - o chamado projeto de aparelhamento do estado. Além disso, torna mais premente a necessidade de reformas políticas saneadoras que impeçam tais práticas.

O escândalo do PT desencadeia graves e imediatos problemas na política brasileira, mas aponta para algo ainda maior, que transcende o âmbito nacional. O que ele mostra escancaradamente e a imensa "caixa 2" da economia mundial. Fica patente como, ao lado dos circuitos legais e reconhecidos por onde se movimenta a economia mundial, há uma outra rede, tão organizada quando a primeira, por onde circula o dinheiro "sem procedência" - eufemismo para se referir a dinheiro proveniente da contravenção, do crime e ilegalidade internacionais - roubo, corrupção, "caixa 2", venda de drogas e armas, proteção mafiosa, etc. A existência dos chamados "paraísos fiscais" são uma decorrência dessa economia subterrânea,  para cuja existência e vitalidade os estados internacionais fecham os olhos, numa franca denegação da realidade.

Recentemente o jornal independente "Le Monde Diplomatique" mostrou em detalhado artigo como a economia mundial não subsistiria por muito tempo sem a contrapartida desse regime ilegal especular, por onde gira o dinheiro "sujo" a ser "lavado".

Finalmente, o escândalo do PT mostra uma outra realidade que também transcende a situação imediata nacional, encaminhando-se para os campos da filosofia e da sociologia. Refiro-me às peculiaridades do discurso político.

Esse discurso não se preocupa com a verdade e sim com garantir o acesso ao poder. A mentira é própria desse discurso, que usa da dissimulação, da sedução, do convencimento do outro para atingir seus objetivos. Nas democracias, todos os políticos afirmam que querem o poder para usá-lo em prol da coisa pública. Mas, ali instalados, eles logo abandonam aquela promessa e procuram estabelecer mecanismos que perpetuem sua permanência no interior de uma minoria privilegiada que usufrui das benesses do poder.

O que é mais curioso nessa situação é sua aceitação por parte da sociedade.

Numa democracia, os políticos são eleitos para representarem os interesses daqueles que os elegeram, em gestões frente à máquina estatal. Para serem eleitos, os políticos seduzem e mentem. Atualmente usam de técnicas reconhecidamente eficazes da publicidade comercial para venda de bens de consumo. Ao serem eleitos, não são cobrados devidamente pelos que os elegeram. Passam a agir como se fossem donos do poder e não representantes de um poder que lhe foi delegado.

Uma população em larga escala iletrada, ignorante, despolitizada como a brasileira seguramente facilita o embuste das promessas dos políticos. Mas a situação é mais complexa, pois ao examinarmos o que ocorre em países do Primeiro Mundo, a situação não é muito diferente. Haja vista, por exemplo, o comportamento do eleitorado norte-americano reelegendo Bush, apesar de suas comprovada e deliberadas mentiras sobre as guerras do Afeganistão e do Iraque.

Aparentemente ocorre um fenômeno de ordem psicológica. O eleitorado projeta nos líderes a imago de figuras paternas e regride para uma posição infantil dependente, deixando-se levar passivamente por eles, abdicando de sua capacidade de pensar.

A atitude acrítica e submissa do eleitorado frente às mentiras patentes dos políticos poderia ser explicada como um remanescente da incapacidade infantil de entender a conversa dos pais. Regredido à posição infantil, o eleitorado desiste de entender os meandros da política, que passa a ser vista como "coisa de gente grande", algo que está acima de sua compreensão. Desta forma, não pode ver que estar sendo enganado, pois de antemão se coloca na posição de estar aquém daquele conhecimento.

Para concluir, uma outra grande verdade ilustrada pelo escândalo do PT: a existência de uma dupla moralidade - a pública e a privada. Na primeira, os fins justificam os meios; na segunda, não.


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