Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Julho de 2005 - Vol.10 - Nš 7

Psicanálise em debate

Resenha do livro "O perigo de curar-se" - Beatriz Mecozzi -
Fapesp / Via Lettera - 2003

Sérgio Telles
psicanalista e escritor

O filme de Pasolini foi lançado em 1968 no Festival de Veneza, quando recebeu o prestigiado prêmio do Office Catholique du Cinéma (OCIC). Sua exibição desencadeou grande polêmica na Itália. Ameaçado de prisão, Passolini foi atacado como "obsceno" pela direita e como "místico" pela esquerda. A Igreja Católica se viu obrigada a retirar o prêmio que lhe tinha dado.

A história é simples. Uma família da alta burguesia de Milão recebe inesperadamente um visitante, aparentemente um ser divino, anunciado por um suposto anjo. O visitante é visto lendo Rimbaud e Tolstoi, ouvindo o Requiem de Mozart e praticamente nada fala. É sua mera presença o que mobiliza a todos da casa - o pai, a mãe, o filho, a filha e a empregada. Eles são atraídos pelo visitante e o seduzem sexualmente. Tal como chegara, o visitante desaparece, deixando a vida de todos eles completamente revolucionada.

O pai - grande industrial - abandona a fábrica para os operários. A mãe entrega-se a uma ninfomania desenfreada. O filho se descobre homossexual e procura com desespero achar um caminho para extravasar sua criatividade. A filha fica catatônica. A empregada volta para seu povoado onde começa a fazer milagres e passa a ser considerada uma santa.

Uma leitura datada veria o filme como o drama de uma burguesia acuada pelo anjo da revolução, pois a obra foi feita no auge da radicalização política da esquerda. O filme inicia com uma entrevista dos operários da fábrica doada pelo proprietário, que se indagam se o gesto do patrão propiciaria ou dificultaria o avanço da revolução. Respeitando o Zeitgeist, o único personagem que cresce com a experiência vivida é a empregada. Santificada, ela faz o bem para todos. Uma idealização do proletariado, a classe que conduziria toda a sociedade para o paraíso socialista.

Mas TEOREMA transcende as polarizações ideológicas da época e se abre para questões mais amplas da existência humana.

Após a passagem do visitante, todos os personagens perdem suas identidades, devido a experiências inusitadas centradas na sexualidade. Os homens se desestruturam por se depararem com aspectos homossexuais até então desconhecidos. As mulheres, por se verem possuídas de um desejo avassalador e incontrolável.

Assim como transcendeu o aspecto meramente político, Pasolini também vai além das questões ligadas à sexualidade, transformando-a numa metáfora: o que acontece se uma experiência destrói todos os referenciais sobre os quais organizamos nossa personalidade, nossa identidade? O que acontece se perdermos os simulacros que nos identificam com o sexo, a posição social, a profissão? Restaria alguma coisa além do desespero, da angústia frente à percepção de um tempo voraz que nos consome e leva para a morte?

A imagem final mostra o pai que, depois de entregar a indústria para os empregados, vai para uma estação ferroviária, onde se despe. Nu, sai dali e chega a um ermo lugar, ao sopé de uma montanha ou vulcão. Na mais completa solidão, solta um plangente e doloroso grito.

Ao se despir de todos os valores que a cultura e o mundo simbólico nos oferecem para ocultar o real de um tempo mortífero, resta uma natureza inóspita, não tocada ou modificada pela mão humana. Resta o grito, essa manifestação primeira que antecede a linguagem. Mas talvez somente aqueles que enfrentaram esse despojamento e essa angústia poderão dizer que efetivamente viveram.

Artigo publicado na revista Viver Mente&Cérebro, junho 2005, no. 149


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