Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Junho de 2005 - Vol.10 - Nº 6

Psiquiatria, outros olhares

Eutanásia, um mal do agora

Antonio Mourão Cavalcante
Psiquiatra

A palavra eutanásia tem origem grega e significa morte serena, morte suave, sem sofrimento ou dor. Atualmente, entretanto, o termo é usado para referir-se à morte concedida àqueles que acometidos por doenças incuráveis, padecendo de angústia e dores insuportáveis desejam apressar a morte. Diz-se que essa prática é utilizada em benefício dos enfermos.

A grande questão que se coloca é de ordem ética. Pode-se determinar a morte de alguém? Para a Ética a vida é um bem supremo. Absoluto. Nada pode suplantá-la como valor. Nesse aspecto, tentar prender a vida a algum outro valor, carece de consistência ética. Por exemplo, ela não fala mais. Não enxerga mais. Não anda mais...Ora, a finalidade do ser humano não se restringe a falar, a enxergar, a andar. A multiplicidade de situações nos leva a pensar que são infinitas as possibilidades de existência da vida. E, uma sociedade mostra-se injusta quando estabelece parâmetros - ditos de normalidade - para os seus membros. Se é negro, não presta...Se é pobre, não presta.. Se é judeu, se é homossexual... etc. A exclusão não é humana.

Por outro lado queremos inaugurar um modelo de sociedade que cultua o hedonismo. Não dá prazer, desliga. Desconecta. Assumimos uma moral pragmática e utilitarista. Isso serve, aquilo não presta. Baseados unicamente num certo sentimento de praticidade. Ora, mas não vai morrer?...Ao que pergunto: E, quem não vai?

O homem não pode ser um instrumento servindo a um objetivo preciso. Como adverte Fernando Savater: “ A ética não se fundamenta sobre critérios materiais e formais. .... Nós não sabemos ao que serve o homem. Daí ele não poder se conter num projeto. Nós sabemos quando um equipamento funciona direito porque ele tem uma função.” Para lançar um apelo ainda mais veemente: “Inventar sua própria vida e não se contentar de viver aquela que os outros inventaram para você.”

Passemos, então, ao caso específico da jovem americana Terri Schiavo que foi motivo de grandes discussões em toda imprensa mundial. Ela morreu por inanição em um hospital para doentes terminais, na Flórida, USA. Ela viveu 41 anos, 15 deles em estado vegetativo. A morte ocorreu 13 dias depois de uma corte judicial ter ordenado a retirada da sonda que a alimentava, a pedido de seu marido.

Na realidade não houve eutanásia, mas um assassinato. Simplesmente ela foi privada de alimentação e, em conseqüência - inanição - ela morreu. Em outras circunstâncias isso poderia ser tipificado como crime. Sobretudo quando a família dela não queria isto e se responsabilizava pela continuidade do tratamento.

Existem muitas situações em que são essas pessoas especiais que marcam suas famílias. São criaturas que agregam em torno delas toda a família e que permitem o exercício da solidariedade.

Essa conversa nos conduz, inexoravelmente, a importância do amor. Uma força capaz de vencer a morte e fundar a vida.


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