Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Novembro de 2005 - Vol.10 - Nº 11

Coluna da Lista Brasileira de Psiquiatria

Fernando Portela Câmara

Esta coluna publica artigos de membros da LBP e um resumo de suas atividades no mês.

Assuntos:

HOMENAGEM PÓSTUMA DA LBP AO ILUSTRE MEMBRO, CLÁUDIO AUGUSTO DUQUE (1948-2005), NOTÁVEL PSIQUIATRA, PSICANALISTA, ESCRITOR E ERUDITO.

...meu amor se foi.
Ana Hounie

Colegas,

É muito difícil descrever o pasmo em que fiquei quando li a mensagem de Portela. Surpresa, espanto, perplexidade e dor... Liguei imediatamente para o celular de Cláudio e falei com Janaína (a mãe de Sebastião) e com Ana, as quais confirmaram a realidade terrível.

Após isso, minha cabeça não parou de rodaro filme da relação que tivemos. Decidi, então,dividir algumas lembranças com vocês.

Conheci CD através da Lista, quando ainda se chamava CláudioDuque. Naqueles primórdios, surgiu uma interessante discussão sobre a imputabilidade do pedofílico. As opiniões se dividiram.Como geralmente faço, moitei, mas admirei vivamente os argumentos sólidos apresentados por Cláudio. Poucas semanas depois, a convite da Hilda e dos colegas do Bairral,fui a um simpósio de psiquiatria forense em Itapira, interior de São Paulo.Lá estavamTalvane, Chalub, Elias, Kátia e diversos colegaspaulistas.Durante minha conferência, não pude deixar de observar na platéia aquele tipo diferente, grandalhão, vestido informalmente, barbudo, rabo de cavalo, com óculos defundo de garrafa.Pensei: um Bukowski dos trópicos.

Após a conferência, abre-se espaço para a platéia. Alguém diz alguma coisa que me trazà lembrança a discussãohavida na Lista e falo aos presentes sobre "um colega de Recife, Cláudio Duque, que disse isso e isso, etc... num fórum da LBP"e perfilhei suas opiniões.

Quando estou de saída o grandalhão se aproxima de mim, sorrindo, e me diz: "Eu sou o Cláudio Duque de Recife". Pensei: "O Bukowski tá pirado". Mas era ele mesmo. Iniciamos assim uma relação muito fraterna, ao longo da qual só cresceu minha estima e admiração por Cláudio.

Em nossa correspondência chamava-o de Nobre Imperador, brincando com seu augusto nome. Saudava-o com um "Ave, Claudius!"

Impressionava-me sempre a acurácia de suas observações clínicas e a compreensão que tinha dos fenômenos jurídicos. Compreensão essa raríssima de ser exibida no nível em que a demonstrava. Uma vez lhe disse isso e, aí, fiquei sabendo que era filho de desembargador e provinha de família de juristas. Em sua casa, desde pequeno, assistia inflamados debates jurídicos. A isso atribuía sua familiaridade com o tema. Em suma,o único da família que não era direito era ele, Cláudio, gauche, bon-vivant, generoso e maravilhoso amigo.

Quando organizei o livro de Psiquiatria Forense, foi uma decisão natural convidá-lo para ser o autor dos capítulos sobre "Simulação" e "Parafilias e Crimes Sexuais". Posso dizer, sem medo de errar, que são dos pontos altos do livro e que sua contribuição foi brilhante.

Pelos acasos da vida, tivemos uma experiência simétrica e recíproca. Em determinado momento, um paciente do Cláudio veio morar em Porto Alegre, seguiu em tratamento comigo e, meses após, retornou ao Recife. Dois anos após, uma paciente minha mudou-se para o Recife, onde ficou algunsmeses em acompanhamento com o Cláudio e retornou para cá. Ambos os casos não eram simples. Dessa dúplice experiência, posso testemunhar que se tratava de um profissional de grande habilidade clínica e com uma invejável capacidade de se relacionar com seus pacientes.

Ao longo desses anos, estivemos sempremuito próximos. Diversas vezes recorri a Cláudio buscando sua opinião. Quando, em época recente,passei porperíodo especialmente difícil em minha vida, Cláudio se constituiu em apoio constante e efetivo. Muito do bom que pudemos desfrutar em nossa viagem ao Egito, durante o mundial do Cairo, deve-se a haver ouvidosábio conselho de Cláudio.

Felizmente, pudemos, no último mês,encontrar-nos com uma freqüência bem acima da habitual: em Belo Horizonte e em Porto Alegre.

Aqui, participamos da Jornada de Psiquiatria Forense e tivemos bastante tempo para jogar conversa fora (como descrito por CD ao falar de seu tour pela Feira do Livro).

Quando nos encontramos, me disse de cara: "Trouxe uma surpresa para ti." No dia em que jantamos em nossa casa, na companhia de Elias, Ana, Walmor e outros colegas daqui, abriu sua mochila e dela tirou um livro, sobre o qual havíamos falado em e-mails - "Forensic Psychiatry in Islamic Jurisprudence" - e falou: "Fica o tempo que quiser, quenão vou precisar dele agora". É com muita dor que olho para esse livro, agora, em cima de minha mesa (pois nessas duas semanas, viajei algumas vezes em suas páginas) e constato que o Imperador não vai maisprecisar dele.

Faz pouco mais de 15 dias que nos despedimos. Minha casa ficou em silêncio com a notícia. Zenóbia e meus filhos rezamos por sua alma generosa, pedindo que descanse em paz e que dê forças a sua família e Ana.

Cláudio fará muita falta a todos nós.

José Geraldo Vernet Taborda

 

Duas coisas sobre CD: chegando a Recife em Julho de 2003, Othon Bastos convidou-me para participar da «VII Jornada Nordestina de Psiquiatria e XXI Jornada Pernambucana de Psiquiatria», onde, num «encontro com especialistas», falei sobre «Psicanálise , psicoterapias e psicotrópicos». Minha presença na Lista datava somente de alguns meses, porém eu notara o nome de Cláudio DUQUE entre os colegas pernambucanos que dela participavam.

Ao receber o programa das Jornadas, ví que Cláudio participaria de uma mesa redonda intitulada: «Política e saúde mental». Não o conhecendo de vista, pedí aos representantes dos laboratórios de me apresentarem o CD, o que fizeram. Quando me apresentei, abraçou-me, falando-me imediatamente da Lista, tudo se passando como se fôssemos velhos conhecidos.

No ano seguinte, outra vez em Recife, tentei encontrá-lo.Encontrava-se em São Paulo. Deixei-lhe uma mensagem lamentando o desencontro. CD telefonou-me de São Paulo e conversamos um bocado de tempo.

Eu estava aguardando minha ida a Recife em Janeiro próximo para contactá-lo e sairmos juntos. O destino não o quis.

Dele apreciei a facilidade com que escrevia, a clareza, o estilo ,a capacidade de síntese e de encontrar a idéia principal de uma problemática. E que dizer do humor de Cláudio? Quantas divergências entre colegas da Lista não se terminaram em disputas inúteis e desgastantesgraças a uma dessas mensagens cheias de humor e dotada de virtudes apaziguadorasque ele nos enviava?

Ele deixou traços e marcou nossas memórias, A homenagem que lhe faz a Lista é um reconhecimento sincero por tudo o que ele nos deu e legou.

Eliezer de Hollanda

 

Apenas hoje tive conhecimento da nossa perda. Senti a dor da falta de uma pessoa querida. Era fácil gostar do Cláudio, personificação da alegria e do compromisso com os outros e com a vida. Às vezes ia às reuniões no antigo CTP (Centro de Terapêutica Psiquiátrica), no Recife, mas nunca faltava aos encontros regados a música e conversas depois das reuniões em companhia do Lula Wanderley e do José Carlos Souto (também pranteado aqui). Pouco mais novo que ele, eu o admirava pela maneira com que descomplicava a clínica e se relacionava com os seus pacientes. Deixo como depoimento um fato particularmente marcante. Estagiários num manicômio judiciário num município próximo, éramos ajudados por um paciente sempre solícito, um homem grande e musculoso com cara de poucos amigos mas sempre disposto e prestativo. Era paciente do Cláudio, que o salvou, em todos os sentidos. Tirou-o da cela onde vivia permanentemente enjaulado (os guardas não se atreviam a aproximar-se dele) e ofereceu-lhe cuidados e responsabilidades. O paciente experimentou o significado de dignidade e compreendeu o que um médico tem obrigação de fazer.

Gláucio

 

Anna-Maria N. Costa para CD:

Passou. A vida é assim: é o temporal que chega,
Ruge, esbraveja e passa, ecoando, serra a serra,
No furioso raivar da indômita refrega
Que as montanhas abala e os troncos desenterra.

Mas o pranto, afinal, que essa cólera encerra
Tomba: é a chuva que cai e que a planície rega;
E a cada gota, ali, cada gérmen se apega
Fecundando, a minar, toda a alagada terra.

Também o coração do convulsivo aperto
Da dor e das paixões, das angústias supremas,
Sente-se livre, após, a um grande choro aberto.

Alma! já que não é mister que ansiosa gemas,
Alma! fecunda enfim nas lágrimas que verto,
Possas tu germinar e florescer em Poemas!

(Poesia de Germinal de Emilio de Menezes)

 

Eliezer de Hollanda Cordeiro para CD:

Cruz na Lista de psiquiatria « parodiando Fernando Pessoa »
Quem morreu? O próprio Cláudio?
Desde agora a Lista mudou.

Quem era? Ora, era quem eu lia,
Todos os dias o lia,
Estou agora sem esta alegria,
Desde agora a Lista mudou.

Meu coração tem pouca alegria
E isto diz que é morte aquilo onde estou.
Horror fechado de sua «mensageria»
Desde agora a Lista mudou.

 

Wagner e Mercedes para CD:

Oque dizer numa hora dessa?
Leve com vc bons charutos, um bolo de rolo e o afeto de quem fica.
Leve também uma boa leitura, uma cama com aconchego e a lembrança da mulher amada.
Leve o que lhe der na telha, só não leve a solidão.
Leve de minas tudo que desejar.
Leve que é leve.
E nós ajudamos a carregar.

Maria do Carmo Camarotti sobre CD:

Difícil acreditar que Cláudio se foi.

Meu querido amigo e eterno "Prof", como eu o chamava para relembrar os tempos em que fui sua aluna de Psicopatologia e de Psicossomática. Nossas aulas práticas no Hospital Ulisses Pernambucano, conhecido como Tamarineira, eram inesquecíveis. Aprendi entre outras coisas o respeito pelo paciente.

Compartilho com vocês o queescrevi para elecomo agradecimento, na minha dissertação de mestrado:

“Ao meu amigo Cláudio Duque, pelo encorajamento e estímulo e que por sua amizade especial me fez voltar a acreditar em anjo da guarda.”

 

Lucio F. M. Villaca para CD:

Quero compartilhar uma pequena e fugaz experiência do dia 15 de novembro, feriado, enquanto estava em casa, a tardinha...

No momento do passamento de CD, estava eu olhando as fotos do jantar da LBP no Restaurante Dona Lucinha e uma foto, em especial, me chamava a atenção : CD no fundo, esperando que o pessoal provasse o seu presente : "o bolo de rolo" com que nos brindou na sobremesa..

Não é a primeira vez que isso acontece comigo.

Cláudio, continue nos inspirando nessa Lista. Não deixe de pairar aqui algumas vezes, quando sentir que algum de nos precisa da sua presença e dos seus cuidados...

Agradeço ter te conhecido, mesmo por tão pouco tempo.

A Ana Hounie, o meu pesar e minha oração.

Lucio F. M. Villaca

 

Elizabeth Egarter e Cecília Casali Oliveira: Oração para CD (oração irlandesa)

Que a estrada se abra à sua frente,
Que o vento sopre levemente às suas costas,
Que o sol brilhe morno e suave em sua face,
Que a chuva caia de mansinho em seus campos...
E até que nos encontremos de novo,
Que Deus guarde você na palma de Sua mão.

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O poema preferido de CD:

O AMOR VOANDO

Éum casal no trapézio.

Elenovai-e-vem doscabos curtos
e ela pegando altura nos longos.
Ela se lança num duplo sem olhar
o lampejodo antebraço firme.
Ela diz: te amo de olhos fechados.
Ele diz: meu amor faz a mão infalível.
Ela dorme no ar de tranqüila.
Ele goza de vê-la dormir.

O encontro
éuma pequena eternidade.
Os meninos saem do circo excitados
como crentesem um santuário.

Hoje tevemágica!
Todo oditosobrea realidade
foi desmentido oficialmente.
Vimos o amor voar
sobre as dores burocráticas,
sobre os desconfiados,
os prudentes,
os sérios
e os sãos.

No camarim,o casal se entrega dormindo
ao abraço mole e deslizante
enquanto sonham
caindo ambos no escuro.

Gabriel Henrique, poeta pernambucano (1921-1971)


ARTIGO:

CINEMA E PSICANÁLISE - ANATOMIA DE UM DESENCONTRO - por Cláudio Duque

A psicanálise, melhor dizendo os psicanalistas, sempre se interessaram pelo cinema, como aliás por todas as manifestações do psiquismo, especialmente as artísticas. A recíproca é verdadeira, o assunto psicanalítico parece ser tão prolífico em bons roteiros quanto, por exemplo, a morte na guerra ou o tribunal do júri.

Entretanto, é preciso uma overdose de boa vontade para acreditar que o casamento entre esses dois centenários venha dando certo. Não são raros os filmes em que a psicanálise é o tema, houve mesmo tempo em que abundavam os "dramas psicológicos", e os essencialmente psicanalíticos, geralmente exibindo noções populares e superficiais de "trauma", "repressão" e "inconsciente"; O psiquiatra/analista sobriamente vestido, com um cachimbo e toda a sabedoria e sensatez do mundo era figurinha comum, embora não tanto quanto o "bobo" ajudante do mocinho nos faroestes de matinê, ou a loura secretária dos detetives de filme noir. Isso se deu lá pelos anos 40 e 50, fenômeno semelhante à popularização (diria mesmo vulgarização) dos ensinamentos do Dr. Freud nos Estados Unidos, com "Psicopatologia da vida Cotidiana" sendo alçado de livro fundamental do edifício psicanalítico, e portanto do pensamento terráqueo, à condição de quase best-seller de auto-ajuda.

Ultimamente é Woody Allen quem tem abordado sistematicamente e com a habitual maestria, não a psicanálise, mas a prática psicanalítica tal como se exerce em New York. Como navegante de longo curso do divã, sabe onde pisa, detendo-se nos aspectos aparentes do ato analítico, como se dissesse que visto de fora o ato analítico é absolutamente ridículo, e não seria injusto chamá-lo maluco. Em "Desconstruindo Harry" (1998), isto está claro: uma mulher descobre que seu marido Harry tem um caso com uma de suas clientes; se descontrola, grita, chama-o de canalha, ameaça bater-lhe, chora e toma um tranquilizante. Até aí tudo bem, nada mais humano nem mais feminino, qualquer que seja a profissão da mulher. Só que ela é uma psicanalista. Pior, tudo ocorre na hora da sessão, na presença do cliente. A hilaridade vem da perplexidade deste (e nossa), sugerindo um monstruoso cabedal de fantasias transferenciais que estaria se passando na sua cabeça, envolvendo uma analista onipotente

Allen se põe fora do ato analítico e o ridiculariza, mas sem crueza, até mesmo com certa simpatia pela analista descontroladamente humanizada e o incauto no divã, como quem diz: isso aí, visto de fora, é de um non sense sem limites. Ao dizer isso, faz coro com os analistas. O Dr. Marcelo Blaya dizia: "Voce só estará fazendo psicanálise se o psicótico dentro de você estiver conversando com o psicótico dentro do paciente". O que vem ser o mesmo que me disse outro mestre, Dr. Octavio Salles : "uma sessão de análise, ouvida de fora por uma terceira pessoa, se afigurará incompreensível em sua essência, como um diálogo de loucos". "Ay, there's the rub", diria o nunca bastante filmado e psicanalisado Shakespeare. O cinema, ao se aproximar da psicanálise o faz de fora, com o olho do espectador, e a psicanálise não existe para terceiros. Por isso, um filme sobre o trabalho psicanalítico parece tão sem vida quanto uma sessão anotada por um aprendiz para mostrar ao seu supervisor. Tão expressiva quanto um calendário-brinde de bolso, com uma reprodução da Santa Ceia, em comparação com o original.

Mesmo o grande Hitchcock exibiu uma visão simplória, policial (podia ser diferente, em se tratando dele?) em Marnie (1964), ao trocar o tradicional "cherchez la femme" por "encontrar o trauma". Em "Psicose" (1960), não é Perry Mason nem Mr. Holmes (esta figura esteve mais vezes nos livros ou nos filmes?) quem faz o discurso final elucidativo, mas um inacreditável e mauricinho Dr. Richmond, psiquiatra. Quando Bertolucci filmou La Luna (1979), segundo conta a lenda, havia recém encerrado sua análise (com um Lacaniano, dizem) e o que se vê é um amontoado de tentativas de representação de clichês psicanalíticos aos quais falta, sobretudo, força emocional e consistência.

Dizia Claude Renoir (1914-1993), o fotógrafo, com a autoridade que lhe confere o ilustríssimo pedigree (filho de Pierre, sobrinho de Jean e neto do pintor): "a forma mais mentirosa de cinema é o documentário". Pois ocorrendo o ato psicanalítico na intersecção dos mundos internos da dupla envolvida, toda tentativa de documentá-lo parecerá tão autêntica quanto uma cédula de três centavos.

Claro que existem raras e parcas exceções; em Zelig (1983 - sempre W. A.) alguns segundos de uma sessão de Leonard Z. com a Dra. Fletcher (será uma referência à enfermeira desumana representada pela oscarizada Louise Fletcher em "Um estranho no ninho", de 1975?) transmite uma emoção verdadeira. Mas são só alguns segundos.

Na outra ponta, a tentativa de compreensão/interpretação psicanalítica dos filmes esbarra de saída em um problema: ela é originariamente um método de interpretação de um discurso verbal, e apesar de eventualmente ser utilizada para interpretar outras formas de representação (Freud o fez, todos sabem) esse não é o seu campo preferencial de atuação. O analista está quase sempre a um passo da verborragia ou do reducionismo teórico, ao enunciar seu entendimento dos fatos.

Mesmo aquilo que foi fundamental para a criação de um pensamento psicanalítico, ou seja a interpretação dos sonhos, era na verdade uma interpretação de palavras. Incapaz de distinguir entre o que se passara durante o sono e as construções e deformações da vigília, a genialidade de Freud decretou: "sonho é o que o sonhador conta". Uma análise das palavras do narrador, qualquer que tenha sido sua fonte de inspiração. Seria tolice negar a possibilidade da interpretação psicanalítica de uma obra de arte, mas talvez não o seja indagar até que ponto possamos fazê-la sem a empobrecer, ainda mais se tratando de um trabalho de absurda complexidade como um filme. Vou além; indago, explicitamente, sobre compreender mais e sentir menos. Ganhamos ou perdemos com isso? A medula da obra é seu significado ou sua voltagem de emoção? O que ganhamos ao abdicarmos do deslumbramento diante do mistério?

Os poucos livros psicanalíticos que conheço sobre cinema ou são psicanalíticos e distante da emoção pura das telas ou se emocionam e se afastam da imparcialidade analítica, que é a maneira habitual dela ser expressa fora das sessões. É que a psicanálise é também um método de pesquisa do inconsciente, e como tal, um instrumento para abordar o objeto compreensivamente, sem se deixar devorar por ele. O propósito da abordagem psicanalítica (definido pelo oráculo antes do próprio nascimento, tal como ocorreu com Édipo) é decifrar a esfinge para não ser por ela devorado. Os filmes querem devorar o espectador, (pela emoção ou pela inteligência) e se não o fazem, tornam-se aborrecidas projeções de luz. Muito melhor o teatro de sombras chinês. O espectador deveria, nesses casos, pedir de volta o dinheiro do ingresso.

Por ser devorado, quero dizer deixar-se tocar pelo encantamento, mesmo tentando a compreensão, o que só é possível com a renúncia à abordagem técnica profissional, como expresso por Heinrich Zimmer no artigo de 1943 "O diletante entre os símbolos", (in A Conquista psicológica do Mal, ed. Palas Atenas, 1990). O Prof. Zimmer fala sobre a abordagem psicológica dos contos folclóricos. Permito-me fazer a transposição para o cinema, primeiro porque seria absurdo pretender-se que uma forma de arte tão popular não trouxesse em si o mesmo fermento desse inventário da emoção humana, essas eternas situações dramáticas. Segundo porque os filmes, em sua vertiginosa onipresença, claramente se transformaram nos contos da nossa época, deleitando multidões e pondo para dormir (ou o mais das vezes aterrorizando) as crianças. Quem é o bicho papão, a bruxa e o lobo mau? Jason, Fred Krueger ou Darth Vader?.

Diz o Dr. Zimmer: "A psicologia aplica um raio-x às imagens simbólicas da tradição folclórica, trazendo à luz elementos estruturais vitais antes mergulhados em trevas. A única dificuldade consiste na impossibilidade de reduzir-se a um sistema confiável a interpretação das formas desveladas. Porque os verdadeiros símbolos tem algo cuja delimitação é impossível. Sua capacidade de sugerir e transmitir conhecimento é inexaurível. (...) Nenhum sistematizador que valorize muito a própria reputação atirar-se-á, voluntariamente, nessa aventura arriscada. Quem termina por entregar-se a ela, portanto, é o ousado diletante.(...)

"No momento em que abandonamos essa atitude diletante para com as imagens do folclore e do mito e começamos a nos sentir seguros sobre a exatidão de sua interpretação (como compreendedores profissionais, manejando o instrumento de um método infalível), privamo-nos do contato revitalizante, da investida diabólica e inspiradora que é o efeito de sua virtude intrínseca. Perdemos o direito à nossa própria humildade e receptividade ante o desconhecido, recusando-nos a que nos ensinem - recusamo-nos a que nos mostrem o que jamais disseram, a nós ou a qualquer pessoa. Em vez disso, tentamos classificar o conteúdo da imagem obscura sob títulos e categorias já conhecidos. Isso impede que aflore qualquer novo significado ou compreensão original.

Entendo, do acima escrito, que o psicanalista só estará assistindo cinema depois do consultório se esquecer suas teorias, e mastigar suas pipocas entre sustos e lágrimas como qualquer criança das matinês de antigamente. E quando o Prof. fala de "jamais disseram, a nós ou a qualquer pessoa", vem-me a lembrança de que o inconsciente é pré-verbal, não compreensível, a verdadeira "bruta flor do querer". Qualquer outra forma de manter contato com ele se assemelharia a alguém que quer se enlevar com música lendo as partituras ou apreciar o sabor dos alimentos pelo estudo do cardápio ou das receitas. Pergunto: quantos dos milhares de fãs inarredáveis de Blade Runner (1982) (inclusive eu próprio) estão preocupados com o dilema criador/criatura (religioso, em última instância) que alguns insistem em apontar como o cerne desse magnífico trabalho? Queremos mais é assistir de novo, e mais uma vez, e sair do cinema cantarolando "One more kiss, dear, one more sight..." E se um dia vier a sonhar com um unicórnio, brigarei com quem tentar agredir esse momento mágico com qualquer explicação.

Mas nem tudo está perdido nas cenas desse casamento: os cônjuges desfrutam seu momento de identificação na similaridade evidente entre os filmes e os sonhos. Estes, conforme o professor de Viena, são uma tentativa de realização alucinatória de um desejo. Alucinatória porque nada ocorre no mundo externo, mas no escurinho do mundo interior, e mais ainda por terem principalmente uma representação pictórica. Devido ao estado peculiar de funcionamento do cérebro durante o sono, as formas mais primitivas de expressão são privilegiadas. Um sonho é primordialmente visual. Nele, bem sabem os psicanalistas, tudo é disfarçado pela repressão, distorcido, deformado, deslocado, condensado, o significado nunca é aquele que aparenta ser, e só uma coisa se apresenta como verdade absoluta: o sonho é criação do sonhador. Ele é a única personagem e tudo lhe diz respeito. Qualquer detalhe aparentemente insignificante tem importância crucial na história, e mesmo o menor dos sonhos pode resumir toda uma vida. Por sinal, na abordagem deles, há um século, se lançaram as bases para o entendimento psicanalítico da mente - o famoso capítulo VII da Interpretação dos Sonhos (1900). Diria mesmo que o sonhar é um assunto essencialmente psicanalítico, tanto que foi um dia apontado por Herr Doktor como "a via régia para o inconsciente".

Esse poder absoluto, disponível nos sonhos, de criar uma realidade alucinatória, desde há muito tem sido comparado com a atividade de construir um espetáculo cênico e se torna mais evidente se tomarmos o cinema como exemplo. Quem faz cinema se aproxima mais que ninguém desse poder criador. Muito antes das brincadeiras dos irmãos Lumiére, Joseph Addison, no The Spectator n. 487, Londres, publicou em 18 de setembro de 1712, um artigo intitulado "Sobre os sonhos", em que dizia:

"Não há ação mais penosa da mente do que a invenção. Não obstante, nos sonhos funciona com uma facilidade e uma diligência que não ocorrem quando estamos acordados". (...) "O que desejo destacar é o divino poder da alma de construir a sua própria companhia. Conversa com inumeráveis seres de sua própria criação e se transporta a dez mil cenários de sua própria imaginação. É o seu próprio teatro, seu ator, e seu espectador. Isso me faz recordar o que Plutarco atribui a Heráclito: todo homem acordado habita um mundo comum; porém cada um pensa que habita seu próprio mundo quando dorme (sonha)"(...).

Pergunto-me se hoje Mr. Addison não diria: "É seu próprio operador de câmera, seu sonorizador, seu iluminador, seu fotógrafo, seu travelling, seu montador, seu ator, roteirista, produtor, diretor, maquiador, figurinista, best boy e key grip (todos os créditos tem isso), continuista, etc., além de poltrona, tela, dolby surround e companhia ao lado". E se Heráclito não se juntaria a ele: "Todo homem lá fora habita um mundo comum; porém no escurinho do cinema é Indiana Jones e Rick Blaine, namora Marilyn e Bassinger.
Os sonhos são, em essência, psicóticos. A psicanálise se acostumou a encarar isso com naturalidade. Um analista que os interprete compulsivamente, bem como aos demais fatos da sessão, além de ficar devendo à boa técnica, se constituirá num chato. Por outro lado, ao se deixar envolver pelo discurso não-explícito da sessão, plugando o que Freud chamou de "atenção livremente flutuante", nada mais que uma porta aberta para que os seus sentimentos (também frequentemente irracionais e psicóticos) se transformem no seu principal instrumento de trabalho, ou seja a contratransferência, o ato analítico poderá se apresentar em toda a sua beleza e monstruoso esplendor. É quando o lógico e o explícito dão lugar ao sentimento inexplicável, e este estende sua luz à relação. Não raro, conduz o processo com a harmonia e fluência de um bom filme, que "corre como os trens dentro da noite" diria Truffaut em "A noite americana" (1973).

A psicanálise e o cinema se unem na irracionalidade, quando um não procura explicar o outro, e este outro não tenta obedecer à lógica que julga ser psicanalítica, geralmente absorvida nas publicações psicológicas populares. O poder absoluto dos cineastas vai muito além daquele de expor perante os olhos do espectador a realidade alucinada, mas sequestrá-los na lente-pupila (como fazia Hitchcock), tornando-o habitante do espaço onírico das telas. O que ocorre nelas é tão livre quanto o material dos sonhos: vacas voadoras, moscas da cabeça branca, cavalos falantes, homens voadores, monstros da lagoa negra, anjos e minotauros, mortos redivivos, mulheres divinas (ia dizendo "mulheres de sonho") fantasmas e ETs.

Nenhuma outra arte pode retratar o sonho com tanta fidelidade como o cinema, pela sua capacidade de distorção da imagem, o manejo das cores, a inserção da música, a sucessão de cortes e ângulos absolutamente irracionais e outros recursos. Não conheço quem não tenha identificado o clima do sonho no início de "Morangos Silvestres" (1957) com o de algum dos próprios. Sem falar que alguns filmes são completa e assumidamente oníricos. A obra de Fellini está aí. Oito e meio (1963) é puro delírio, em Amarcord (1974) não se sabe o que é narração da realidade externa ou fantasia inconsciente, e por aí vai. São filmes profundamente psicanalíticos, sem que se lhes precise identificar os cânones dessa ciência neste ou aquele detalhe. Ultrapassam em muito a simples catarse.

Essa aproximação se estreita ainda mais quando ambos, sem nada combinar, permitem que tanto a origem quanto o resultado final do trabalho lhes escapem das mãos, tornando-se passageiros de uma nau sem rumo conhecido. Qual diretor ou produtor, diante da multiplicidade de pessoas envolvidas, cada qual com seu modo de ser e de ver o filme em construção, (existirá entre eles alguém sem desejo? - levem-no ao zoológico mais próximo!) poderá dizer que o filme é seu? Ninguém me convence que Fellini entendesse completamente seus filmes enquanto os fazia, embora soubesse exatamente o que lhe dava vontade de filmar. E Amarcord sem Nino Rota, seria um filme de Fellini? E se o cabeleireiro e o figurinista de Sean Young em Blade Runner não tivessem criado aquela Rachael da primeira aparição, se não houvesse o toc-toc dos seus saltos altos, o filme seria o mesmo? E os roteiristas premiados de Casablanca (1942), rabiscando os diálogos enquanto os atores esperavam no setting, sem saber ao certo como a história ia terminar? Justamente quando o cinema não procura a compreensão psicológica dos personagens, que se entrega ao intuitivo, àquilo que surge dessa "atenção livremente flutuante" (Gláuber fazia isso, ao que parece, o tempo todo) é que consegue transmitir a densidade do fato psicológico.

Em suma, para mim o cinema e a psicanálise se encontram quando não se procuram. Quando o psicanalista acolhe o sentimento bruto inerente aos filmes, recebendo-os como desencadeadores das suas próprias emoções (o que equivale a dizer que os filmes devem ser analisados no espaço interno); e quando estes procuram expressar a necessidade de quem os faz, independentemente de se isso vá fazer sentido para este ou aquele ramo do pensamento.

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SOBRE O ATO DE INTERDIÇÃO - por Cláudio Duque

O seguinte artigo de CD é uma adaptação de uma mensagem que ele enviou à lista (09.11.2005) em resposta à uma pergunta formulada por um dos membros. Solicitei a ele para estender mais o assunto formando um artigo sobre o tema. Ele prometeu que o faria assim que voltasse de São Paulo, o que jamais aconteceu. Assim sendo, edito a mensagem modificando ligeiramente algumas passagens para formatá-la adequadamente. FPC

Uma pessoa incapacitada para o trabalho não está impedida necessariamente de tomar as decisões sobre sua vida. Uma coisa nãoimplica na outra, conforme está na pág 189 do livro Psiquiatria Forense” de Taborda, Chalub e Abdalla-Filho (Artmed, 2002), cuja leitura recomendo. Lá pode-se ler: "Não é incomum que a fontepagadora do benefício, quer previdenciária quer o tesouro público, exija para a liberação do valor do benefício ou da aposentadoria que esta seja recebida pelo curador do trabalhador. Esta exigência, entretanto é, por si só, abusiva e discriminatória. É evidente que, para alguém manter-se produtivo em sua profissão, precisa valer-se de uma série de aptidões mentais que não necessariamente as mesmas imprescindíveis à prática dos atos da vida civil em geral (embora até possa haver alguma superposição entre elas)".

Se o paciente tem condições de conduzir sua vida e administrar o próprio dinheiro, ele mesmo deve entrar com um pedido de aposentadoria por invalidez (ou diretamente,no INSS, oudando procuração a um advogado). Ele mesmo pode e deve tomar essa iniciativa, igualmente no que se refere à pensão da mãe / pai.Se ele tem condições mentaispara isso, então vai se deparar com essa exigência burocrática e abusiva. Mas é possível. Nesse caso, só uma perícia por junta atestando sua incapacidade laborativa basta. O que acontece é que a incapacidade laborativa por doença física (câncer, cardiopatia,afecções neurológicas, etc)raramente interferem na capacidade do paciente decidir. Com a incapacidade laborativa por doença mental, isso ocorre freqüentemente.

Se um paciente com doença mental pode decidir sobre sua vida, a interdição está descartada. Devemos lembrar que para uma interdição o perito da justiça terá que responder a seguinte pergunta do juiz: "O Sr. Fulano de Tal é capaz dedirigir sua pessoa e gerir seus bens?" (receber e administrar odinheiro, comprar e venderbens, dar procuração, constituir advogado, testar, casar, separar, etc). Se a resposta é “sim”, devemos descartar a interdição. Sefor “não”, a interdição é o melhor caminho.Difícil é explicar porque ele é civilmente capaz e outras pessoas precisam decidir por ele.

Outra coisa que pode ser feita é a interdição parcial (apenas para dispor de bens, por exemplo). E temporária, apenas enquanto durar o transtorno psíquico causador do impedimento. Vai depender de cada caso. Nesses tantos anos como perito acostumei-me a encarar a interdição como uma medida protetora do paciente. Outra coisa; ela pode ser levantada a qualquer momento, a pedido do interdito e mediante perícia psiquiátrica determinada pelo Juiz. Nunca trabalhei em um caso em que o interdito tivesse condições mentais para tomar essa iniciativa, mesmo estando informado do procedimento. Por outro lado, já neguei incapacidade em alguns (raros) casos em que não só a família, mas o próprio periciado queria a interdição.

Há poucos anos, dei parecer (particular) sobre um caso emque o paciente, aposentado como bancário, gastava sem controle, endividava-se compulsivamente e, quando a família descobria, tinha que vender carros e imóveis para pagar as dívidas. Sequer ele desfrutava dogasto anormal. Não tinha amantes, não jogava, não bebia, não viajava, não farreava, apenas pedia dinheiro a agiotas para pagar outros agiotas, numa "bola de neve" sem fim. Meu parecer terminava assim: "...que é indispensável a adoção de medidas legais de proteção ao examinado que o impeçam de continuar dilapidando o patrimônio próprio e da família, impedindo-o de contrair novas dívidas. O fenômeno, como visto, tem mau prognóstico. O examinado é incapaz de autocontrole exclusivamente no que se refere ao endividamento. Privá-lo dessa providência, portanto, seria adotar atitude de omissão e condená-lo à reincidência". O perito da justiça recomendouinterdição parcial e temporária, e assim o Juiz decidiu.Mês passado esteve no meu consultório solicitando novo parecer. Disse-me (o interdito) que estava vivendo "a melhor fase da sua vida".Desfrutava a aposentadoria, pescava, encontrava os amigos, e não se preocupava com dinheiro. Poucas vezes (apesar do tratamento, prestado por outro profissional)procurou agiotas pedindo dinheiro. O filho mais velho (curador) foi ao agiota e disse que se ele emprestasse ao pai, não receberia o pagamento porque ele era interdito. O problema acabou. O curador recebe o dinheiro, dá parte à mãe para administrara casa e poupa para as necessidades (troca de carro, tratamento médico, etc). Estão todos mais tranqüilos, sem medo de um cobrador bater à porta com uma conta astronômica e injustificada.

Interdição não tem que ser ruim para o interditado.

PSICOFARMACOLOGIA NA LBP - Leopoldo Hugo Frota

in memoriam,

CLÁUDIO DUQUE, CD

1 - Dias atrás, Isaac, Paulo Negro e eu, trocamos mensagens a respeito do potencial epileptogênico dos antipsicóticos atípicos. Na ocasião, lembrei que em nossa (minha e do Romildo) proposta de protocolo para a escolha do atípico (http://www.medicina.ufrj.br/cursos/JBP%20%20PROPOSTA%20DE%20PROTOCOLO%20PARA%20A%20ESCOLHA%20DO%20ATIPICO.pdf ), a clozapina figurava como última escolha para pacientes com história de convulsões ou epilepsia diagnosticada, e que aripiprazol, risperidona e ziprasidona (ordem alfabética) figuravam como de primeira escolha. Embora não tenhamos feito figurar a substância no e-book Cinqüenta Anos de Medicamentos Antipsicóticos em Psiquiatria

(http://www.ipub.ufrj.br/FROTA%20LH%20-%20AP%2050%20ANOS.pdf ), ainda é tempo de reparar nossa omissão. Já de há algum tempo se têm conhecimento da utilização da alstonina, um alcalóide indólico poli-heterocíclico, por colegas psiquiatras da Nigéria onde a substância é comum na flora nativa, pela medicina tradicional no tratamento de doenças mentais. Como a clozapina, na clínica e nos testes paradigmáticos animais, a alstonina, de fato, comporta-se como um antipsicótico atípico, lembrando o perfil da dibenzodiazepina sintética, embora sem propensão à alterações da bioeletrogênese cerebral e/ou manifestações comiciais como se vêem no caso desta última, conforme foi frisado em nossa discussão.

Este ano, pesquisadores brasileiros do Depto. de Farmácia da Universidade Estadual de Santa Catarina (UNESC) em Crisciúma em paper no Journal of Ethnopharmacology em sua edição de Fevereiro último, vieram reforçar o papel da alstonina como ponto de partida para o desenvolvimento de novos APs Atípicos, guardando os benefícios da clozapina, porém sem a sua propensão a convulsões. Registre-se com destaque: Costa-Campos L, Iwu M, Elisabetsky E. Lack Of Pro-Convulsant Activity of the Antipsychotic Alkaloid Alstonine. J. Ethnopharmacol 2005 Feb 10; 97(1):165. Vale a pena conferir o enxuto abstract no MEDLINE.

Nota: Embora não tenha merecido destacado no paper dos colegas catarinenses, gostaríamos de lembrar que temos em nossa flora um alcalóide indólico policíclico muito próximo da alstonina (presente na Rauwolfia vomitoria) embora molécula ligeiramente mais simples: -a flavopereirina do nosso conhecido e popular Pau Pereira (Geissospermum vellosi), árvore típica da floresta amazônica brasileira que pode ser tóxica para o gado, mas já utilizada como medicamento fitoterápico para febre, impaludismo e até mesmo neoplasias, tendo seu extrato comercializado no Brasil e alguns outros países. Quem sabe não teríamos notícias em breve de uma eventual exploração de utilidade psicofarmacológica (potencial antipsicótico atípico?)? Fica o registro, com a sugestão de pesquisas inéditas para os nossos jovens pós-graduandos da área biomédica.

Reforçando: com a vantagem de com sua estrutura molecular mais simples, a flavopereirina penetrar com maior facilidade a barreira hemato-encefálica do que a alstonina.

P.S. - em tempo, nomes comerciais para extrato da Rauwolfia vomitória (alstonina) e do Pau-Pereira (flavopereirina) no exterior: respectivamente ROVOL V e PAO V; PAO V FM (concentrado).

2. Amissulprida e disfrenia tardia - Como já descrito no emprego de AP atípicos, encontra-se em vias de publicação, um caso clínico com desenvolvimento de sintomas obsessivos-compulsivos, em adolescente esquizofrênico após emprego da amissulprida, por colegas de Taiwan. Este caso parece ser mais um que vem validar o constructo da Disfrenia Tardia conforme proposta por nós em artigo do JBP no final de 2003:

http://www.medicina.ufrj.br/cursos/JBP%202%20COLUNAS%20-%20com%20referencia%20completa%20&%20foto%20-%20AGONISTAS%20PARCIAIS%20NO%20ARMAMENTARIUM.pdf

Como se sabe, a amissulprida (SOCIAN®) é um AP atípico ou semi-atípico com seletividade mesolímbica, embora mantenha forte ação túbero-infundibular (elevação da prolactina): Lin CL, Shiah IS, Yeh CB, Wan FJ, Wang TS. Amisulpride related tic-like symptoms in an adolescent schizophrenic. Prog Neuropsychopharmacol Biol Psychiatry. 2005 Oct 11.

3. Disfrenia tardia em idosos com Alzheimer - Uma das explicações que levantamos para um possível incremento da sintomatologia psicótica em pacientes com processos degenerativos senis simples observado após difusão no emprego clínico dos neurolépticos, foi o constructo da Disfrenia Tardia. A Disfrenia seria uma iatrogenia psiquiátrica vinculada à up-regulation dos receptores dopaminérgicos mesolímbicos pelo emprego continuado de antagonistas D2 (especialmente os APs atípicos, que têm ação seletiva mesolímbica). Sabe-se que a iatrogenia equivalente neuromotora, Discinesia Tardia é mais observada com APs típicos e teria por base o mesmo fenômeno, só que em localização nigro-estriatal. Um dos fatores reconhecidos de risco para Discinesia (up-regulation) além de gênero feminino e alguns raros polimorfismos genéticos, seria sem dúvida, a idade avançada:

http://www.medicina.ufrj.br/cursos/JBP%202%20COLUNAS%20-%20com%20referencia%20completa%20&%20foto%20-%20AGONISTAS%20PARCIAIS%20NO%20ARMAMENTARIUM.pdf

No número de novembro do American Journal of Psychiatry, temos artigo trazendo revisão sistemática da literatura em busca de fatores de risco vinculados à emergência de sintomas psicóticos nos pacientes com Doença de Alzheimer. A julgar pelo abstract do Medline, os autores não incluíram em consideração, infelizmente, possíveis fatores iatrogênicos medicamentosos (tempo, dose e potência de antipsicóticos típicos e atípicos, previamente empregados). Suas conclusões, aliás, não são definitivamente elucidativas, embora registrem, curiosamente, aumento crescente na incidência de psicose nos 3 primeiros anos após o diagnóstico de Alzheimer, com estabilização a partir de então (iatrogenia por intervenções iniciais com APs, tão comuns no atendimento destes pacientes?): Ropacki SA, Jeste DV. Epidemiology of and risk factors for psychosis of Alzheimer's disease: a review of 55 studies published from 1990 to 2003. Am J Psychiatry. 2005 Nov;162(11):2022-30.

4. Mais sobre risco metabólico dos atípicos - Mais um artigo em reforço ao que temos dito a respeito das últimas decisões da FDA quanto aos cuidados genéricos que propôs quanto ao risco metabólico dos atípicos, em favorecimento daqueles com riscos inquestionáveis (clozapina, olanzapina). Autores japoneses confirmam ocorrência de intolerância à glicose (hiperglicemia) em 4 novos casos, nem sempre dependente de ganho ponderal com olanzapina, e normalização das taxas após a suspensão. Conclusões que reforçam as normas oficiais vigentes naquele país, onde a prescrição de olanzapina foi proibida no Diabetes mellitus desde o registro de numerosos casos, inclusive redundando em 2 óbitos por coma em cetoacidose descompensada: Boku S et al. Atypical Antipsychotic-associated impaired glucose tolerance. Seishin Shinkeigaku Zasshi 2005; 107(8):811-9.

Mais um artigo por autores de Taiwan que vem reforçar a constatação de diferentes riscos metabólicos para risperidona e olanzapina, indo inteiramente de acordo com nosso protocolo (risperidona risco 2, olanzapina risco 1) de 2003. Assim, vai frontalmente contra a equivalência recentemente sugerida pela FDA. Desenho (“design”) cruzado (“cross-over”) interessante, embora com casuística reduzida (n=15). Entretanto, resultados invariavelmente consistentes indicando aumento de triglicerídeos, peso, índice corporal (estatisticamente significativos) e de colesterol total com redução de HDL (colesterol de alta densidade ou bom colesterol) (neste caso sem significância) após introdução da olanzapina/suspensão da risperidona e resultados inversos, ao contrário, com a substituição inversa, i.e., introdução risperidona/suspensão olanzapina: Su KP et al. A crossover study on lipid and weight changes associated with olanzapine and risperidone. Psychopharmacology (Berlin) Oct 2005; 1-4.

O número de outubro de 2005 do American Journal of Psychiatry, traz raro ensaio comparativo internacional (apresentado originalmente no VI Congresso Internacional de Pesquisa da Esquizofrenia, em Colorado Springs, em março/abril de 2003 e aceito para publicação no ano seguinte), metodologicamente correto, com participação do Prof. brasileiro Wagner Gattaz da USP. É mais um paper que reforça as recomendações de nossa proposta de um protocolo para os APs atípicos. Apesar de publicada em 2003, a proposta para escolha a partir de condições médicas pré-existentes ou dos efeitos adversos temidos, ainda não sofreu contestação relevante em suas recomendações pelo que, até agora, foi publicado. E mais uma vez temos ensaio (e insuspeito porque patrocinado pela própria Lilly!) a desautorizar as tendenciosas recomendações genéricas de cautela por parte da FDA quanto a um pretenso equivalente alto risco metabólico para os atípicos. Risco que como os levantamentos comprovam até agora, seria diferencialmente alto para clozapina e olanzapina, talvez quetiapina; intermediário para risperidona, talvez quetiapina e menor (ordem alfabética) para amissulprida, aripiprazol e ziprasidona. E isto mais uma vez, se confirma segundo o estudo. Registre-se, porém, que nesta comparação (há necessidade de muitas mais!), a olanzapina mostrou-se leve, mas significativamente superior à ziprasidona em eficácia global (sintomas positivos e negativos) no curso das 28 semanas. Registre-se, com sugestão de leitura do abstract, ao menos, no Medline: Breier A et al. Olanzapine vs Ziprasidone: Results of a 28-week doublé-blind study in patients with schizophrenia. Amer J Psychiatry oct 2005; 162(10):1879-87.

5. Diferem os atípicos em eficácia? - Permanece a questão: além da escolha por condições médicas pré-existentes e efeitos adversos particularmente temidos conforme propusemos em nosso protocolo, haveria um atípico superior a outro em eficácia na Esquizofrenia e/ou no Transtorno Esquizo-Afetivo? É notória a escassez de ensaios comparativos diretos duplo-cegos com 2, ou mais, atípicos diferentes. Especialmente com maior duração e controlados por placebo. Tais estudos encontram dificuldades de patrocínio uma vez que dispensáveis para obtenção de licenciamento e capazes de gerar disputas comerciais intensas com acusações e suspeitas entre as partes interessadas. Por outro lado, aqui, ao contrário por exemplo, da classe dos antidepressivos, onde imipramina e/ou amitriptilina ainda podem ser consideradas tratamento farmacológico padrão consagrado na Depressão Maior, nunca houve um atípico de 2ª geração que pudesse gozar do posto e servir como termo de comparação, uma vez que o lançamento de toda a classe deu-se com pequeno intervalo de tempo. A clozapina figura em situação especial, não só por sua antiguidade, riscos e protocolo diferenciado, como por sua já sobejamente comprovada superioridade na Esquizofrenia Refratária. Por tudo isto a Indústria, a grande patrocinadora, não costuma ter interesse nestas comparações, a não ser em situações muito especiais. Pois bem, agora dois conhecidos autores da área, Rajiv Tandom & Wolfgang Fleischhacker (Comparative efficacy of antipsychotics in the treatment of schizophrenia: A critical assessment. Schizophr Res. 2005 Nov 15;79(2-3):145-55), nos propõem discutir esta questão utilizando toda forma de evidência relevante disponível de ensaios clínicos individuais e revisões sistemáticas com metanálises:

1) melhoras médias obtidas com cada atípico, empregado individual e e separadamente;

2) melhoras médias na comparação com haloperidol por cada um e

3) ensaios diretos atípico vs atípico.

Conclusões finais dos autores: Não há ainda, comprovadamente, um atípico de segunda geração superior a outro em eficácia, nestas indicações. A clozapina mantém-se primeira escolha na Esquizofrenia Refratária. Continua portanto válida nossa proposta de Protocolo para Escolha do Atípico do final de 2003:

http://www.medicina.ufrj.br/cursos/JBP%20-%20PROPOSTA%20DE%20PROTOCOLO%20PARA%20A%20ESCOLHA%20DO%20ATIPICO.pdf

6. Doses superdimensionadas de aripiprazol? - Como vocês devem se lembrar, há muitos meses discutimos aqui na LBP evidências de que as doses diárias preconizadas para o aripiprazol estariam superdimensionadas. A suspeita iniciara-se com o registro de acatisia e insônia em freqüência inesperadamente alta na dose inicial então preconizada e ausência de ganhos terapêuticos adicionais com doses mais elevadas. As suspeitas foram reforçadas com um estudo muito bom e criterioso, de Davis e cols, mostrando não haver ganhos com doses diárias superiores a 20mg. Quando enviei para a Lista a resenha deste paper, ilustrada com gráfico, foi suscitada uma discussão com alguns se mostrando céticos e outros ressaltando a seriedade e o rigor do estudo, cuja reputação pudera constatar enquanto nos USA. Pois bem, agora acaba de sair o relato de um open-trial conduzido por Simon & Nemeroff (começam a pipocar vários deste tipo como outro de Papakostas e cols., com a quinolinona como coadjuvante em pacientes refratários a ADs ISRS, no mesmo número pág.1326) mostrando que o aripiprazol pode ser uma boa escolha (efeitos rápidos em 1 a 2 semanas além de acentuados, em muitos casos levando à remissão) na Depressão Maior refratária a monoterapia com diferentes ADs mistos, serotoninérgicos e, até mesmo, essencialmente dopaminérgicos como a bupropiona. Mas o que queria chamar a atenção de vocês, é que a acatisia, que impôs interrupção precoce em pelo menos 2 casos, passou a ser contornada quando foram adotadas doses iniciais diárias de 2,5mg e não 10mg/d como inicialmente planejado: Simon JS, Nemeroff CB. Aripiprazole augmentation of antidepressants for the treatment of partially responding and non-responding patientes with major depressive disorder. J Clin Psychiatry Oct 2005; 66(10):1216-20.

7. Aripiprazol na demência co psicose - Com satisfação damos conta da publicação internacional pelo colega e amigo Jerson Laks e colaboradores, do IPUB/UFRJ, de caso clínico de senhora idosa com Demência e Psicose com boa resposta clínica (melhoras em 4 semanas e remissão completa dos sintomas psicóticos e agitação na 14 semana), à exceção da sintomatologia depressiva. Este caso vem em reforço às nossas considerações no artigo de DISFRENIA TARDIA (www.medicina.ufrj.br ) com relação ao risco de agravamento/desencadeamento de sintomas psicóticos (hipersensibilidade mesolímbica) com o uso de APs antagonistas D2, típicos e atípicos, nos idosos e maior segurança dos agonistas parciais. Ressalta também, mais uma vez, aquilo que comentamos aqui nos últimos dias a respeito da segurança do aripiprazol quanto a agravamento/desencadeamento de sintomas psicóticos. Vale a pena pelo menos uma conferida no abstract: Laks J, Miotto R, Marinho V, Engelhardt E. Use of aripiprazole for psychosis and agitation in dementia. Int Psychogeriatr Oct 28, 2005; 1-6.

8. Antipsicóticos e priapismo - Ocasionalmente a literatura registra a ocorrência de priapismo no uso de antipsicóticos (típicos e atípicos). O raro efeito adverso costuma ser atribuído a propriedades de bloqueio alfa-adrenérgico periférico nas diferentes substâncias.Na revisão feita para nosso ebook mencionamos esta ocorrência tanto com APs típicos: fenotiazinas (alifáticas: clorpromazina, levomepromazina; piperazínicas: flufenazina, perfenazina; piperidínicas: tioridazina; além de um dos outros compostos tricíclicos aparentados às fenotiazinas, descritos na seção D do capítulo I, como o protipendil) e tioxantenos (clorprotixeno, tiotixeno, zuclopentixol); como com atípicos. Para estes últimos já teria sido descrita com todos, a exceção pelo que nos consta, da amissulprida: clozapina, olanzapina, quetiapina e ziprasidona e aparentemente com maior freqüência para risperidona). http://www.ipub.ufrj.br/FROTA%20LH%20-%20AP%2050%20ANOS.pdf

Embora em 2003 a literatura registre caso com olanzapina que respondeu bem à substituição por quetiapina (Weisman RL. Quetiapine in the successful treatment of schizophrenia with comorbid alcohol and drug dependence: a case report. Int J Psychiatry Med. 2003;33(1):85-9), acaba de vir à luz mais um caso, desta feita no emprego isolado da última. Segundo os autores, este seria o segundo caso descrito até o presente para a quetiapina (primeiro com doses terapêuticas), sendo o primeiro caso, descrito em 2001, vinculado à superdosagem.

O priapismo é condição grave que costuma requerer atendimento especializado, muitas vezes não dispensando aspiração dos corpos cavernosos e aplicações intra-cavernosas de aminas vasopressoras, procedimentos conduzidos por especialista. À guisa de atualização, registre-se: Davol P, Rukstalis D. Priapism associated with routine use of quetiapine: case report and review of the literature. Urology. 2005 Oct;66(4):880.

9. Antipsicóticos canabinóides sintéticos? - Há muito se especula sobre o papel da maconha (isto é, do principal alcalóide Delta-9-tetra-hidrocanabinol, THC ou dronabinol) no agravamento / desencadeamento de sintomas psicóticos, e conseqüentemente sobre o possí-vel papel desempenhado pelos receptores canabinóides na etiopatogenia da Esquizofrenia. Alguns antagonistas deste sistema, inclusive, foram propostos como potenciais antipsicoticos (v. ebook, p.ex., o composto SR 141716A, um potencial AP antagonista dos receptores CB1, p. 451:

http://www.ipub.ufrj.br/FROTA%20LH%20-%20AP%2050%20ANOS.pdf).Â

Em Agosto do ano passado, durante meeting em Melbourne, Austrália, foi apresentado interessante relato por Marcus Leweke da Universidade de Colônia, Alemanha, e cols. californianos, sugerindo que a anandamida (AEA), um agente canabinoide produzido naturalmente pelo cérebro humano e encontrado em concentrações 6 vezes superiores à média em psicóticos e 8 vezes em esquizofrênicos (altas concentrações representariam esforço natural do organismo face ao desequilí-brio na neurotransmissão), poderia eventualmente se constituir no primeiro antipsicótico endógeno já identificado. Mais detalhes em:

http://www.newscientist.com/article.ns?id=dn6324 .

Desde então, dada a instabilidade quí-mico-estrutural da anandamida, intensificam-se esforços na pesquisa por potenciais antipsicóticos canabinóides sintéticos. Acaba de ser publicada a descrição de uma nova série de compostos afins, feita por investigadores italianos, na qual se destaca o composto 25 da série, que teria demonstrado potente afinidade por receptores canabinóides de subtipo CB1 e CB2, para um possí-vel desenvolvimento e aproveitamento farmacêutico.

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Aguardemos pois, iní-cio de experimentos laboratoriais preliminares. Vale acompanhar: Antonella Brizzi, Vittorio Brizzi, Maria Grazia Cascio, Tiziana Bisogno, Rossella Sirianni, and Vincenzo Di Marzo. Design, Synthesis, and Binding Studies of New Potent Ligands of Cannabinoid Receptors. J. Med. Chem. 2005, 48, 7343-7350.

ATUALIZE-SE!!!

1. O mais completo trabalho sobre antipsicóticos de autoria do prof. Leooldo Hugo Frota:

CINQÜENTA ANOS DE MEDICAMENTOS ANTIPSICÓTICOS EM PSIQUIATRIA:

http://www.medicina.ufrj.br/cursos/LH%20FROTA%20-%201%20Ed%20

%2050%20ANOS%20DE%20MEDICAMENTOS%20ANTIPSICOTICOS.pdf

ou

http://www.ipub.ufrj.br/FROTA%20LH%20-%20AP%2050%20ANOS.pdf

2. Tudo sobre a Disfrenia Tardia pelo seu descobridor original, prof. Leopoldo Hugo Frota:

http://www.medicina.ufrj.br/cursos/JBP%202%20COLUNAS%20-%20com%20refer%EAncia%20completa%20&%20foto%20 %20AGONISTAS%20PARCIAIS%20NO%20ARMAMENTARIUM.pdf

3. Protocolo para Escolha do Antipsicótico Atípico, de autoria do prof. Leopoldo Hugo Frota:

http://www.medicina.ufrj.br/cursos/JBP%20-%20PROPOSTA%20DE%20PROTOCOLO%20PARA%20A%20ESCOLHA%20DO%20ATIPICO.pdf

OPINIÃO

O estímulo à participação de pacientes em congressos de psiquiatria e alguns eventos proporcionados pela cidadania, soa-me como uma maldade ímpar na medida que diversas situações são, simplesmente, atropeladas por interesses evidentemente político-ideológicos.

A doença mental (e acho importante ressaltar que o psicótico tem, entre outros distúrbios, uma doença mental com disfunções orgânicas e psicopatologia específica) ao ser classificada como sofrimento psíquico ou mesmo sofrimento existência, incorre em graves riscos para o próprio paciente e sua família. Se não há doença mental não pode haver incapacidade mental, nem interdição judicial, nem curatela. Desta forma, o paciente tem validados todos os seus atos inclusive negócios jurídicos. Perde direito a pensões e outras proteções.

Não havendo doença mental, podem-se abolir todos os hospitais psiquiátricos e atender crises psicóticas em hospitais gerais, mesmo sabendo-se que estes tem pavor à doença mental porque falha a garantia da relação clínica médico-paciente e que, também o doente mental, tem pavor do hospital geral por lá ter de conviver com a morte.

Devem-se readmitir todos os médicos afastados por doença mental, assim como todos os juizes, arquitetos, engenheiros, policiais, etc

Este movimento lembra aquele outro, da mesma cepa, sobre a luta anticarcerária. Partindo-se do princípio que o sistema penitenciário cria mais a marginalidade do queos reabilita e que advogados e juizes são os principais agentes da exploração da classe apenada, propõe uma grande reforma: abolição do sistema penal, mudança da denominação de criminoso para portador de transtorno social, liberação de todos os presos e criação de centros de reabilitação substituindo os estabelecimentos atuais.

Sinceramente: com essas ponderações, dá para se confiar na coerência e propósitos de tais sandices? O hospital e o psiquiatra é pior do que a doença e o advogado é pior do que o crime?

Lembrando uma das histórias de minha mãe, havia em sua terra, no interior fluminense, um papa-defundo que afixou no alto da porta de sua funerária, pouco abaixo do nome do estabelecimento: "Não quero que ninguém morra, só quero que meu negócio corra".

Acho urgente uma reação da psiquiatria, como jáiniciada pelo nosso colega Josimar França, recolocando questões psiquiátricasem seu lugar. Umespaço para a discussão da psicose e famílias envolvidas com ela, pode ser muito importante durante um congresso, desde que essa solicitação parta dos próprios pacientes e famílias e atenda uma necessidade deles. No mais, tudo soa àquelas campanhas políticas de interior, em que por promessas e mesmo remuneração, enchia-se um caminhão depopulação desvalida, que votava em gente que nem conhecia e nem mesmosabia no que estava participando.

Se o papa-defunto enterrasse gente viva, com certeza, estaria saindo de sua missão para satisfazer seus interesses.

José de Matos


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