Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Julho de 2005 - Vol.10 - Nº 7

Coluna da Lista Brasileira de Psiquiatria

 

Fernando Portela Câmara

Assuntos:

EDUCAÇÃO CLÁSSICA DO MÉDICO - Luiz Salvador de Miranda Sá Júnior

 

DISCUSSÕES NA MÍDIA - Irma Ponti

 

MOMENTOS DA LBP

 

NOTAS BREVES

 

NOTÍCIAS

 

OPINIÃO - Manoel Berlinck

EDUCAÇÃO CLÁSSICA DO MÉDICO

ORIGEM E SIGNIFICADO DA PALAVRA “CIÊNCIA” - por Luiz Salvador de Miranda Sá Júnior, Conselheiro Efetivo do CFM, Titular de Psiquiatria da UFMS, Editor da Revista Bioética.

Tudo muda, inclusive a ciência e, principalmente, a noção que as pessoas fazem do que é ciência e do que não é.

Quando se estuda a trajetória semântica da palavra ciência, verifica-se que ela percorreu uma longa e trabalhosa marcha desde sua origem remota. De início, a expressão latina scientia significava apenas conhecimento, qualquer conhecimento ou saber. Com o mesmo sentido que se emprega na burocracia em tomar ciência. Qualquer informação poderia ser chamada de ciência. E continua ainda, ao menos na burocracia. A diferenciação que se faz atualmente entre o conhecimento científico, o conhecimento vulgar e o conhecimento filosófico é relativamente recente e assinala o estágio atual desta evolução civilizatória. A significação que as pessoas atribuem à palavra ciência varia muito de pessoa para pessoa, de uma cultura para outra e de um momento histórico para outro. O significado atual do conceito de ciência resulta de um processo constante de atualização permanente no qual são geradas sucessivas e simultâneas conceituações sobre seu objeto que traduzem o seu constante e progressivo aperfeiçoamento.

Cada momento desta evolução cultural, especialmente da evolução tecnológica, produziu o melhor conhecimento científico que era possível obter nele, tanto em termos de confiabilidade (confiança que merecia em relação às possibilidades da época de correlacionar a palavra com seu significado) e de validade (grau de correspondência daquele conhecimento com a parte da realidade a que ele se refere). Sobretudo, porque só se deve chamar “científico” em cada momento, o conhecimento caracterizado pelo maior teor de fidedignidade e de validade que for possível gerar ali. Ainda que possa haver algumas variações, na dependência das convicções doutrinárias do seu autor. Da mesma maneira que produziu os melhores (porque mais eficazes) recursos de diagnóstico das enfermidades e de tratamento dos enfermos, em um processo de constante aperfeiçoamento, permanente evolução. Mas que, igualmente, produz meios ideológicos e recursos propagandísticos cada vez mais eficazes para convencer os clientes a adquirirem ou prescreverem seus produtos. Mesmo desnecessários.

A ciência necessita uma linguagem específica. E especial. As palavras da linguagem comum tendem a mudar espontaneamente de significação com o passar do tempo, em função de um grande número de motivos, que não vem ao caso mencionar aqui e agora. Ainda que valha a pena destacar o significado da consagração do uso errôneo. Semântica é a designação que se dá a este fenômeno lingüístico. Os termos científicos também podem sofrer este processo, ainda que isso se dê com menor freqüência, intensidade e velocidade e a mudança deva ser sempre intencional e programada. As regras da linguagem científica inibem a semântica na ciência. Mas, a dinâmica do conhecimento, sobretudo com a evolução do conhecimento, pode obrigar a haver mudanças mais ou menos importantes no conteúdo significativo dos termos científicos. Tal fenômeno pode se mostrar muito acentuado quando os termos científicos conservam sua presença na linguagem comum com a mesma forma verbal e idêntico significado ou significado muito próximo.

O conceito de ciência, como qualquer outro, constitui uma estrutura verbal, lógica e psicológica que sintetiza três elementos interativos: uma idéia, que é representada por uma palavra, que sintetiza as características mais essenciais e mais gerais que podem ser reconhecidas em seu objeto ou conteúdo conceitual. No caso específico de que se trata aqui, o conceito de ciência tem como objeto os procedimentos científicos de obtenção de conhecimentos e, igualmente, os conhecimentos resultantes daí. Contudo, nem sempre a palavra ciência teve esta mesma significação. Muda na medida em que a prática científica se aperfeiçoa (permitindo-lhe mais profundidade) Muda por que a sociedade exige sempre mais dela em termos fidedignidade, validade, de possibilidade de explicar e de prever.

Quando se estuda a evolução temporal do conceito de ciência, percebe-se que, nos diversos momentos da história, entendeu-se o que seria ciência de maneiras bastante diferentes. Diferenças de significado que descobrem a evolução das idéias vigentes sobre o que é ciência e como ela é elaborada, põem em evidência as mudanças que teriam se dado na necessidade social com relação à atividade científica e o significado que a ciência, como prática social, desfruta na sociedade. Não me parece possível falar de ciência senão como uma fenômeno histórico-social. Pois sua historicidade é elemento essencial de sua identidade. Inclusiva e principalmente no que respeita à Medicina.

Para entender a ciência atual é necessário conhecer os diferentes sentidos que a palavra ciência vem assumindo ao longo da história da humanidade. Sentidos que desvendam a história deste conceito e que se revelam nas circunstâncias de seu aparecimento e nas mudanças dos sentidos que este termo vem sofrendo. Os mais importantes deles devem ter sido os seguintes:

a) o primeiro sentido atribuído à expressão ciência, que foi característico da Antigüidade pré-clássica, foi o de qualquer conhecimento (como ainda hoje se pretende quando se diz: tomar ciência de algo);

b)  depois, ainda na Antigüidade clássica, o termo ciência passou a querer dizer conhecimento um pouco mais elaborado, sobretudo, qualquer conjunto mais ou menos organizado de conhecimentos, conhecimentos advindos da prática e da experiência ou conjunto de conhecimentos que possam contribuir com o progresso, mas incluía o saber fazer, a maior habilidade com que se realizava uma tarefa prática (como se vê, no início, a palavra ciência se confundia com o conhecimento comum, mas fundamentava a tecknê);

c) outro sentido que apareceu bem mais tarde (sendo típico da Antigüidade tardia, da Idade Média e do Renascimento) pretende se referir ao saber adquirido pelo estudo prolongado, cuidadoso e atento de um conhecimento ou conjunto de conhecimentos que se tenha sobre certos assuntos ou objetos determinados (esta
noção incluía a alquimia, a teologia, a astrologia, as ciências ocultas);

d) no Renascimento, o termo ciência passou a significar conhecimento com certeza, qualquer que tenha sido a sua origem ou o processo de sua aquisição, desde que experimentado subjetivamente como uma convicção; neste sentido específico, ciência, significa o oposto de opinião (o que, por esta época, queria dizer conhecimento provável, sem certeza), tal como instrução ou erudição, mas se referia principalmente a conhecimentos práticos, àqueles que têm uma finalidade determinada (ciência do mundo) ou todo conhecimento que possa ser reduzido a regras e preceitos;

e) mais tarde, no Romantismo e no Iluminismo, o termo ciência ainda significava qualquer conhecimento, mas desde que obtido da observação ou da experiência sistemáticas (ciência é experiência) ou, mesmo assistemática, mas sujeita a alguma programação prévia e alguma credibilidade (agricultura, música, homeopatia);

f) depois, pelo século XIX, ciência passou a querer dizer conjunto organizado e mais ou menos sistemático de informações e noções ideológicas sobre um aspecto mais ou menos definido do mundo do conhecimento, mas que possibilitasse elevada credibilidade (ciência astrológica, ciência cristã, bruxaria, ciência
espiritual, kardecismo, homeopatia, materialismo histórico, psicanálise);

g) atualmente, o termo ciência se refere ao estudo sistemático, orientado para um fim determinado, de um objeto definido e estudável objetivamente, no qual se utilizam meios e métodos adequados e que se dirige para a obtenção de conhecimentos cada vez mais amplos e profundos acerca de seu objeto, sendo que tais conhecimentos devem ser formulados em uma linguagem rigorosa e tão exata quanto possível (de preferência matemática), acompanhados de algum grau de convicção de que esses conhecimentos são verdadeiros;

h) não obstante, atualmente o termo ciência também significa adicionalmente o acervo determinado e estruturado de conhecimentos obtidos com o estudo e a metodologia mencionados no item anterior (conceitos, categorias, juízos e leis) resultantes desse estudo sistemático mencionado no item anterior (as ciências como acervo de conhecimento científico).

Cada um desses significados do conceito de ciência teve seu momento de atualidade, por representar a necessidade e a possibilidade daquele instante. Após, foi superado por outro conceito mais consentâneo com aquele novo instante. Incessantemente. E nada faz supor que este processo tenha se detido.

DISCUSSÕES NA MÍDIA:

SÃO CONFIÁVEIS OS TESTES PUBLICADOS COM ANTIDEPRESSIVOS? - Por Irma Ponti.

Richard Smith foi editor da British Medical Journal durante 25 anos. Escreveu agora um artigo que foi publicado na PLoS Medicine (revista de acesso gratuito) onde radicalmente se posicionou contra as publicações de testes clínicos de medicamento, em periódicos científicos. Por que? Smith disse que os resultados de testes clínicos de drogas antiinflamatórias contra artrite, por exemplo, eram todos - todinhos - favoráveis. Ele disse "Minha nossa, 58 testes e nem unzinho não-favorável!"

Publicar quais testes? Todos eles eram favoráveis. Smith não acredita que haja fraude nesses resultados, e nem que seja apenas um enterro de resultados não-favoráveis. Ele, então cita o caso da risperidona, onde os testes publicados em diversas revistas comunicavam que o remédio era eficaz. Contando os pacientes dos testes publicados observou-se que haviam sido publicados mais de uma vez, como se fossem estudos diferentes. Os 20 testes eram os mesmos colocados de maneira diferente. E no caso de odansetron - medicamento para esquizofrenia - os testes com resultados positivos foram publicados mais de uma vez, dando a impressão que a eficácia do remédio se referia a um número maior de pacientes, quando na verdade a quantia era de sobreposição de pacientes.

Os remédios são caros, mas as empresas farmaceuticas fundamentam em estudos da forma acima mencionada a eficácia dos mesmos e o fator de vantagem econômica por eles representados _ a eficácia do medicamento elimina/ diminui consideravelmente a internação hospitalar e visitas ao médico, portanto é mais econômico comprar remédios (e enriquecer as farmaceuticas, of course). Embora isso possa ser verdade, o que Smith questiona é o fato das avaliações economicas sempre beneficiarem as companhias farmaceuticas. Uma mera coincidência?

Quem faz os testes? Organizações de pesquisa por contrato (CRO) e não um grupo científico. São pagas pelas farmaceuticas.

Sobre a questão do "ghost writing" (uma pessoa contratada escreve o artigo e outro pesquisador é convidado a assiná-lo) Smith disse que é dificil assessar a dimensão desse problema, mas acredita que é comum. O problema que ele vê é que os nomes das pessoas que ajudaram no estudo - o profissional de estatística, o escritor do trabalho feito, e de todos que colaboraram no projeto - nunca aparecem. Ele conta de um amigo que recebeu um artigo escrito por outra pessoa dizendo "você estaria disposto a colocar seu nome aqui?"

Peer -review (revisão de pares, na qual cientistas da mesma área que os autores de uma pesquisa dão parecer anônimo sobre ela) é outra pedra no sapato. Relata Smith que pegou um artigo com 600 palavras onde haviam 38 erros e mandou pra 400 revisores. Nenhum deles achou mais do que cinco erros, 20% não achou nenhum . Eita bandinho preguiçoso. Isso na Inglaterra, imagine alhures.

Smith propõe uma moratória na publicação de estudos clínicos e que as revistas publiquem os estudos por inteiro, numa base de dados. Diz Smith: "o papel das revistas seria descobrir quais são realmente importantes, comentá-los, criticá-los e apresentar seus resultados médicos aos pacientes." Portanto, claro e sem "turvação", deveriam ser efetuados por grupo científico e não por CROs.

MOMENTOS DA LBP

Fragmentos de uma discussão sobre “Famílias Disfuncionais” (Junho/Julho, 2005)...

Colegas,

    Gostaria de meter o bico nesse angú, já que fui um especialista sociológico sobre a família. Minha tese de Ph.D. na Cornell University chama-se The Structure of the Brazilian Family in the City of Sao Paulo, Brazil e é uma pesquisa quantitativa com 1.017 famílias. Pretendia, com isso, demonstrar que, apesar do processo de urbanização e de industrialização, a família brasileira (não de migrantes estrangeiros) na cidade de São Paulo conserva muitos traços tradicionais, ou seja, não deixa de ser extensa, como propunha Talcott Parsons, o grande sociólogo norte-americano. Para ele, o processo de industrialização e de urbanização,  ou seja, o processo de modernização sócio-econômica produz uma alteração estrutural na família. Ela deixa de ser extensa e passa a ser nuclear. Minha tese pretendia colocar em questão essa afirmação justamente para criticar o funcionalismo estrutural que predominava na sociologia norte-americana.

    Nessa mesma época, uma antropóloga inglesa chamada Elisabeth Bott publicou um livro com argumentos muito parecidos com os meus. Ele se chama Family networks. Ela realizou uma pesquisa em Londres e constatou que a afirmação parsoniana não correspondia às sua provas empíricas. Hoje cruzo, às vezes, com Elisabeth Bott Spillius, que, como eu, tornou-se uma psicanalista e, diferentemente de mim, é uma das damas da British Society of Psychoanalysis, instituição regida por mulheres de grande força intelectual e moral.

    O funcionalismo estruturalista tem uma longa tradição sociológica e encontra as suas raízes em Augusto Comte. Mas é particularmente notável em Émile Durkheim. A partir daí infectou praticamente toda a sociologia e boa parte da antropologia. Restou, como concepção teórica alternativa, o marxismo, ou melhor, o materialismo dialético.

    Eu pretendia criticar o funcionalismo estruturalista sem assumir uma posição materialista, ou seja, pretendia introduzir um relativismo cultural no funcionalismo estruturalista.

    Como vocês podem imaginar, não fui bem sucedido.

    Meu orientador, o Prof. Robin M. Williams, Jr., discípulo de Parsons, foi muito generoso e compreensivo com o jovem latino-americano questionador (talvez rebelde, como se diz hoje em dia). Mas, depois do exame final, convidou-me para um elegante e delicioso almoço em New York City e me disse uma coisa que me marcou: "Você acredita que teorias científicas se modificam graças a provas empíricas (empirical evidences)?" Respondí: "claro, eu acredito nisso". Aí ele disse: "Você está muito enganado. Não são provas empíricas que modificam as teorias científicas. São as convicções dos cientistas."

    Essa noção de família disfuncional é um revival do funcionalismo estruturalista europeu e norte-americano. Esse paradigma teórico afirma que a família é a instituição responsável pelo processo de socialização e que a criança é, em grande parte, uma tabula rasa que é moldada por esse processo. A socialização, por sua vez, é o processo de transmissão da cultura, ou seja, das normas e valores institucionalizados que garantem o funcionamento da sociedade. A família disfuncional seria, portanto, um grupo desviante da estrutura e produziria crianças com comportamentos desviantes (das normas e valores institucionalizados), ou seja, disfuncionais (podendo significar desde rebeldes até delinqüentes). Vocês percebem, então, como essa grande teoria é conservadora, pois funcional é o que mantém a estrutura vigente e disfuncional é o que altera a estrutura vigente.

    Freud realiza, em relação à família e à teoria estrutural funcionalista, uma reviravolta equivalente (ainda que nada semelhante) à realizada por Marx. Freud é, para o funcionalismo estruturalista uma verdadeira catástrofe (palavra que quer dizer reviravolta).

    Para o Professor vienense, a família é a instituição psicopatológica por excelência. Ela é a responsável pela neurose (no sentido mais amplo dessa palavra) e pela miséria psíquica humana. A família está fundada no patriarcalismo e no complexo de Édipo e para uma criança virar gente, com essa estrutura familiar, só ficando gravemente enferma.

    Assim, na psicanálise freudiana, não há família disfuncional simplesmente porque não há família funcional. - Manoel Berlinck

>>> Tosta, permita-me, ingenuamente, discordar sobre esta parte de teu discurso: "A família está fundada no patriarcalismo e no complexo de Édipo e para uma criança virar gente, com essa estrutura familiar, só ficando gravemente enferma."

Dito assim, tu não somente simplificas Freud como também assumes que a criança é um ser passivo, uma tabula rasa onde os pais escrevem sua história. Acontece que segundo Freud, cada sujeito representa seus objetos dentro de seu mundo psíquico a partir daquele desejo arcaico de possuir o objeto de modo absoluto, sem nunca ter conflito algum. O palco edipiano comparece como a expressão triangular desse desejo arcaico, onde a criança já se arvorando como mestra da linguagem expressiva e se locomovendo a mil horas por minuto (toda mãe de uma criança de dois - tres anos é uma atleta consumada) pode externalizar mais eficientemente sua tentativa de ser dona - unica e soberanamente - do objeto. Não é a estrutura familiar que causa neurose. É nossa teimosia em querer o que é proibido e assim querendo nos esborrachamos todos. É a partir dessa vertente que as familias

se estruturam e seus membros interagem um com outro - com maior ou menor grau de sucesso, mas nunca chegando lá.

E sabe duma coisa? Depois de trabalhar cinco anos aqui no Recife, cheguei à conclusão que esta sociedade recifense não é patriarcal. É matriarcal. Te juro. Mas, isto é outra conversa.- Irma Ponti

>>> Há alguns meses li na Folha de São Paulo uma entrevista com um psiquiatra supostamente famoso aí de São Paulo que qualificava de "terapia de família" uma ou duas entrevistas que fazia com a família de seu paciente. É lamentável a ignorância sobre a dinâmica familiar vis a vis os conflitos que levam o paciente aos consultórios. Creio que mesmo quando atendemos em psicanálise alguém individualmente, estamos afetando o funcionamento de sua constelação familiar - nunca devemos nos esquecer disso, dentro da IPA ou das "não oficiais" - risos; (by the way, conheço muitos psicanalistas americanos da IPA que tratam a família também ou estão bastante sintonizados com as mesmas através de seus pacientes de uma forma ou outra).

Repensando o assunto do excesso de prescrição de psicotrópicos, há vários pontos que nos chamam a atenção:
1.  O que é excesso de prescrição de psicotrópicos?  Seria quando o médico o faz apenas em cima de sintomas descritos pelos pais no caso de crianças?  Por que há conflitos sérios dentro da família, não devemos pensar em psicotrópicos por que isso seria um "excesso"? São prescritos na base de "trial and error", isto é mudando de um tipo de medicação para outra até os sintomas desaparecerem? Ou excesso é definido pela quantidade em mg do remédio receitado?  E se há excesso, de quem é a culpa - se é que existem culpados?

2. A India é um país vastamente diferente dos USA. Talvez poderia ser melhor comparado com o Brasil, visto que ambos têm o índice de mortalidade infantil maior no mundo e ambos têm uma tradição religiosa de crença na reencarnação e medicina de ervas e coisas assim. E no Brasil tomamos remédio até pra dor de cotovelo. Se não é pílula é um chazinho de ervas bentas. Talvez pudessem ser comparados em alguma dimensão, não sei. O que  quero dizer é simplesmente que devemos ser sensíveis às diferenças culturais e mesmo às maneiras diversas - neurótica, psicóticas, entre aqui e alí, etc - com que as famílias se organizam dentro de um mesma cultura pra dar conta do recado. Sendo alguém que sempre trabalhou com grupos de étnicos, compartilho contigo que aprendi algo curioso: as semelhanças entre famílias oriundas de diferentes partes do planeta são bem maiores em relação à classe social a que pertencem. Algo para se pensar mesmo dentro da ótica "transgeracional". Lembre-se que mesmo falando de "transgeração" ( e nem sei se há um termo equivalente em português) a dinâmica de uma família se configura em relacionamento objetal de seus membros, e é justamente esse dinamismo que os impulsiona a criarem modelos novos para expressarem conflitos internos que são da ordem do proibido e de eros e tanatos. Ficar num lugar só como recurso de trabalhos com famílias é se limitar demasiado e perder muito da riqueza criativa da complexidade do ser humano, este ser que até mesmo adoece para ser feliz. - Irma Ponti.

Uma reflexão sobre os rumos da medicina atual...

Digo, com uma certa freqüência, que a igreja (não importa qual) e a técnica são grandes ameaças ao livre exercício de atividades tradicionais como a medicina e a psicanálise (esta bem menos tradicional que a medicina).

    Hoje, com muita freqüência, um estudante de terceiro ano de medicina começa a pensar como irá adquirir ou se associar a alguém que possua um "equipamento". Entenda-se por "equipamento" um sistema maquínico formulador de diagnóstico.

    Como para a psiquiatria ainda não foi apresentado um "equipamento", ela corre o risco de desaparecer na medicina. Isso, entretanto, terá grande importância, pois a própria medicina corre o risco de desaparecer da medicina, graças à intensificação da tecnologia dos "equipamentos". A medicina baseada em evidência está dentro dessa perspectiva.

    Entretanto, o DSM e o CID passam a desempenhar a função de "equipamento" para os psiquiatras e os trabalhadores de saúde mental. Principalmente porque estão acoplados à medicação. Trata-se, portanto, de um sistema maquínico como outro qualquer.

    [...] diante do doente, não há como escapar do desamparo, mesmo que se faça a cisão entre doente e doença.

    Dizer, por exemplo, "O exame cardiológico foi um sucesso, pena que o doente tenha falecido na esteira ou na bicicleta ergométrica" é, apenas, um recurso cínico lançado para proteger o médico da terrível dor de uma perda. Mas, é, também, uma fala a respeito da inatualidade da técnica que se interpõe entre o médico e o doente.

    Cindir o doente da doença - Ganguilhen chama a atenção para isso ao tratar da evolução da medicina -  é um recurso defensivo elaborado pela medicina, pois o doente quase nunca se enquadra na distribuição de freqüência obtido pelas "evidências".

    Ao proteger do desamparo que assola o médico diante do doente, a medicina vai elaborando uma série de recursos tecnológicos (desde o medicamento até máquinas caríssimas e sofisticadíssimas) que pretendem neutralizar o doente e dar destaque à doença. Mas, fazendo isso, produz o desaparecimento do médico e da medicina.

    Outro dia fui fazer um exame de rotina num sofisticado laboratório de análises clínicas de São Paulo. O médico que operava o equipamento (um ultrasom de última geração) era meu aluno. Tratava-se de um excelente germanista, que foi fazer um curso que ofereci junto com o Arthur Nestrovski sobre criatividade. Enquanto ele fotografava minhas víceras, trocávamos idéia sobre o fantástico livro de Victor Klemperer. Os diários de Victor Klemperer. Testemunho clandestino de um judeu na Alemanha nazista. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. Ele fazia uma crítica serena à tradução e comentava, com muita perspicácia, algumas dificuldades enfrentadas pelo tradutor. Falávamos, na verdade, da tradução como etnocídio.

    Terminado o exame, perguntei: "E aí doutor. Tenho chances de sobrevida?" Ele riu e disse: "Você tem uma bola no rim direito. Olha aqui. ... A medicina não sabe o que é isso. Provavelmente é uma formação congênita. Você, muito provavelmente, tem isso desde que nasceu e não saberia da existência desse fenômeno não fosse pelos avanços tecnológicos. De qualquer forma, nada sabemos sobre isso". Saí de lá com uma frase na minha cabeça: "quem procura acaba achando". Muitas vezes não sabemos o quê. De qualquer forma, carrego, desde então, essa misteriosa bola em meu rim direito. Bola que não existia até o exame. Mas carrego também a confissão cândida desse médico de última geração. Passei a me tratar com ele. - Manoel Berlinck

Sobre a palavra “Saudade”

Saudade é um vocábulo pitoresco pois é um substantivo de um sentimento, que em geral é definido por expressões nas demais línguas românicas. Não tem correspondentes diretos nos idiomas irmãos, como ricordo, recuerdo, souvenir, significam apenas lembrança; fora dizer que nostalgia (e homólogos) tem muito pouco a ver com saudade em português.

  Embora concorde que se possa dizer qualquer coisa em qualquer língua, os puristas gostam de destacar o caráter afetivamente paradoxal e nobre que desde o início do seu registro, marcou essa palavra. Também pedem que a usemos no singular, usando o plural só pra dizer quando as saudades são grandes demais...

  A palavra 'saudade', que significa lembrança triste e gostosa, foi apresentada pela primeira vez pelo Rei Dom Duarte, que, por isso, ficou sendo chamado Rei-Saudade. Ele escreveu suydade; depois apareceu soidade (como o aldeão lusitano ainda hoje diz), e depois saudade.

  Saudade tem uma etimologia misteriosa: pode ser uma alteração de soledade (solidão, deserto; tristeza), mas há quem afirme que vem do árabe suai-dâ que significa melancolia. Zoran Ninitch, iugoslavo que em 1939 defendeu a idéia de que é mesmo árabe e que, na Bósnia, Herzegóvina e Novitaszar, que estiveram outra sob jugo arábico, utilizam-se das palavras sevdah e savdah, que exprimem o sentimento representado pelo português saudade.

  Contrariamente às línguas irmãs, há sinônimos para o vocábulo em russo (toscá), alemão (sehnsucht), árabe (shauck), armênio (garod), japonês (koishii), sérvio (jal) e em letônio (ilgas=saudades)."

  E pra terminar uma definição de Bilac: "Saudade é a presença dos ausentes." - Marcos Klar

 

NOTAS BREVES

1. Na última edição do The Journal of Neuropsychiatry and Clinical Neurosciences (vol. 17, nº 2,  maio/2005), num artigo intitulado “Psychopathology in Neuropsychiatry: DSM and Beyond”, os autores   Michael Alan Taylor e Nutan Atre Vaidya, fazem uma importante previsão. Aqui vai o resumo para apreciação dos leitores desta coluna. “Os relatos de casos descritos neste artigo indicam que a prática neuropsiquiátrica atual está limitada fortemente pela confiança no DSM. O conhecimento da nova psicopatologia possibilita aos neuropsiquiatras e neurocientistas a identificação de áreas específicas em disfunções cerebrais, o que é essencial à prática moderna da neuropsiquiatria. Atualmente, menos de 20% dos programas de neuropsiquiatria e de neurociência ensinam tal psicopatologia. O desenvolvimento de tecnologias de captação de imagens cerebrais e medidas metabólicas; a contínua e rápida introdução de muitos fármacos novos na prática clínica; e as várias edições detalhadas do DSM, moldam o treinamento psiquiátrico moderno e, deste modo, a futura prática psiquiátrica. Esta “conformação” é comumente observada no ensino da psicopatologia e no exame do estado mental, ambos orientados para os critérios do DSM. Uma vez ajustado a tais critérios, a melhor escolha de tratamento será realizada com base no diagnóstico orientado pelo DSM e os algoritmos farmacoterápicos a ele associados. Espera-se que a confiabilidade conhecida do diagnóstico orientado pelo DSM maximize a validade da decisão diagnóstica e torne apropriada a escolha farmacoterápica. A psicopatologia descritiva que vai além do DSM está primariamente relegada à consideração histórica e raramente participa das questões relativas ao tratamento do paciente”. - Fernando Portela Câmara

2. O Forum De Ação Social: Reinserção Biopsicossocial De Cidadãos Portadores De Transtornos Mentais.

O Grupo de Trabalho "Fórum de Ação Social" iniciou em junho de 2000 o projeto RENASCER de atendimento ao adolescente infrator em parceria com a 2a Vara da Família, Infância e Juventude da Comarca de São João de Meriti.

A evolução deste trabalho trouxe, em conseqüência, a necessidade de ampliação e desenvolvimento de novos projetos, abrangendo outros campos de atendimento. Nesta nova perspectiva, fez-se necessária a participação da comunidade local e o apoio de recursos financeiros.

Estes fatos motivaram a formação da organização sem fins lucrativos FÓRUM DE AÇÃO SOCIAL objetivando a aplicação ampliada e desenvolvimento da experiência obtida, em benefício da conquista ou recuperação da cidadania de estigmatizados e desassistidos.

O FAS desenvolve as seguintes atividades:

A- Práticas de reinserção biopsicossocial

B- Estudos em desenvolvimento

DESCRIÇÃO DAS ATIVIDADES

A- Práticas de reinserção biopsicossocial

NÚCLEO DE ATENDIMENTO SOCIAL - NAS, dedica-se ao atendimento psicológico e psicanalítico em diversos níveis como conseqüência natural da vocação do FAS - Para isso mantém atendimento psicoterápico em espaço dedicado ao atendimento da população carente de todas as idades por profissionais de saúde mental em diversos horários da semana por preços acordados entre o paciente e o terapeuta. As entrevistas são marcadas com antecedência pelo telefone (021) 2287-7786

ACOMPANHAMENTO TERAPÊUTICO - Um grupo de terapeutas e supervisores do NAS, com experiência em tratamento extra-hospitalar para psicóticos, mantém um Grupo de Acompanhamento Terapêutico suplementar aos trabalhos desenvolvidos no NAS para pacientes acometidos de grave sofrimento psíquico.

ATENDIMENTO INSTITUCIONAL - Assessoria ao Judiciário - prestando serviço sob a forma de perícias, palestras, orientação, etc. ao sistema judiciário, principalmente em casos de violência doméstica (abuso sexual).

ASSESSORIA A GRUPOS DE ARTES CËNICAS- através de parceria com o GRUPO ENCENA - Assessoria Psicanalítica às Artes Cênicas do FAS - participação em oficinas de teatro na compreensão psicodinâmica e psicanalítica de textos dramatúrgicos em encenação visando as perspectivas do diretor, do ator e a articulação com a platéia.

B- Estudos em desenvolvimento

O CENTRO DE ESTUDOS DO FAS - CEFAS - é um espaço dedicado ao estudo dos temas abordados pelo Núcleo de Atendimento Social (NAS), visando aprofundamento da compreensão dos fenômenos observados, troca de experiências e divulgação dos resultados obtidos.

Estão em andamento os seguintes Grupos de Estudo:

Grupo de Estudos Clínicos

Composto pelos membros do FAS, terapeutas do NAS e convidados, reúne-se mensalmente para leitura e discussão de trabalhos científicos de própria autoria ou sobre temas afins ao atendimento. Reúne-se também semanalmente para reflexão e discussão de casos clínicos em atendimento no NAS.

(Resumo das leituras e discussões sobre a bibliografia disponíveis).

Grupo de Estudos Sobre Violência Doméstica

Composto pelos membros do FAS, terapeutas do NAS e convidados, estuda a violência doméstica principalmente na vertente do abuso sexual através de textos bibliográficos significativos, da experiência pericial no atendimento de casos enviados pelo sistema judiciário e do atendimento clínico desenvolvido no NAS

(Resumo das leituras e discussões sobre a bibliografia disponíveis)

Grupo de Estudos Sobre Artes Cênicas e Psicanálise

Composto pelos membros do FAS, terapeutas do NAS e convidados, promove leituras e discussões mensais sobre temas dramatúrgicos em sua dimensão psicanalítica.

(Resumo das leituras e discussões sobre a bibliografia disponíveis).

Os grupos de estudo do FAS são abertos a convidados e pessoas interessadas, devendo estas últimas fazer contato com a administração para exame das solicitações de adesão.

A Home Page do FAS, acha-se atualmente em reformulação, devendo os contatos serem feitos, no momento, pelos e-mails:

[email protected]

[email protected]

ou pelos telefones (21) 2287-7786 - falar com Helena Santiago de Matos ou

(21) 2224-9277 - falar com José de Matos

NOTÍCIAS

1]

Circular CFM n° 040/2005-SEPRO e da Resolução CFM n° 1.718/2004, publicada no DOU de 03/05/2004,  alerta quanto à obediência sobre a proibição do ensino de atos médicos, sob qualquer forma, à não-médicos (cursos, congressos, jornadas, aulas, etc.).

2]

O Instituto Fluminense de Saúde Mental que, dentre outras coisas boas, tem os nossos listeiros Cláudio Lyra e Luiz Carlos, juntamente com a clínica Evolução, oferecerão, os seguintes cursos que começarão em Agosto próximo:

1. Curso de Psicopatologia, com duração de 10 meses (no Flamengo). Informações 21-2205 7223/3826 6817;

2. Fomação e Aperfeiçoamento em Tratamento de Álcool, Tabaco e Outras Drogas (em Niterói), com duração de 12 meses. Informações 21-3604 1583.

3]

Congresso Internacional de Psicopatologia Fundamental. Acontecerá em Belém do Pará a segunda edição do evento, juntamente com o VIII Congresso Brasileiro de Psicopatologia Fundamental. Serão realizados em Belém do Pará, de 7 a 10 de setembro de 2006 e, como já é tradição, convidamos todos aqueles que se interessam pelo pathos psíquico a participar deste importante evento que reunirá profissionais e estudantes das mais variadas áreas do conhecimento: médicos, psicólogos, psicanalistas, filósofos, assistentes sociais, enfermeiros etc. de várias partes do mundo.
Informações:
Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental
Rua Tupi, 397 - Cj. 104
01233-001 São Paulo, SP - Brasil
Telefax: (11) 3661.6519
E-mail: [email protected]

4]

Inscrições para atividades da Livraria Pulsional já começaram. No segundo semestre, haverão cursos, debates e conferências abordando diversos assuntos na área da psicanálise. O programa completo dos cursos, painéis de debate e conferências pode ser acessado no site: www.pulsional.com.br
Informações e inscrições:
Livraria Pulsional - Centro de Psicanálise
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Eficácia do Antidepressivos em Dúvida.

Em um ensaio publicado em 16 de julho do corrente ano no British Medical Journal (volume 331, páginas 155-157, de 2005), Joanna Moncrieff (lecturer do University College London) e Irving Kirsch (Universidade de Plymouth), revisaram estudos sobre antidepressivos e concluíram pela falta de evidências que apóiem o suposto significado clínico da terapia com antidepressivos. Eles sugerem que a transformação de variáveis contínuas em categóricas, regressão da média e apresentação seletiva de dados dos testes com drogas explicam os benefícios que são alardeados. Em uma entrevista, a dra. Joanna Moncrieff afirmou não pensar que existe uma droga que especificamente mitiga a depressão. “Eu penso que os chamados antidepressivos são apenas drogas que fazem outras coisas, tais como sedar ou estimular pessoas”, disse ela e, continuando, afirmou ser céptica a respeito de um suposto “síndrome bioquímico da depressão apesar do que dizem as companhias farmacêuticas e certa literatura psiquiátrica”. Ela descreve a depressão como uma condição que seria tratada com drogas porque é mais fácil que uma pessoa aprender a lidar consigo mesma. Respondendo à dra. Moncrieff, o diretor da divisão de pesquisa da Associação Americana de Psiquiatria avaliou o citado trabalho como tendencioso. Ele continua dizendo que agora é “erro médico não tratar a depressão maior com medicação” e que a visão dos autores é uma abordagem sociológica radical que nega a existência de transtornos mentais decorrentes de alterações cerebrais, que considera o cérebro de algum modo sacrossanto e que por isso não pode haver doença mental, e que por isso o trabalho dos autores é tendencioso.

OPINIÃO

Aquilo que habita o nosso psiquismo, os chamados objetos, representações de coisas e de palavras, são aquilo que incorporamos, ou seja, aquilo que devoramos. Somos todos canibais e, às vezes, em nossos melhores momentos, somos antropófagos. Assim,  os objetos que povoam nosso psiquismo não mais existem, são  mortos. O psiquismo humano é um verdadeiro cemitério. É para alí que incorporamos, introjetamos, pomos para dentro aquilo que esteve vivo e fora de nós. Os objetos psíquicos tem uma duração porque estão mortos e só se movimentam dentro de nós porque os investimos com energia, esta, sim, vital. O que é vivo é a energia. Sem energia não há vida. Sem energia não há objeto. A energia, por sua vez, requer, às vezes, objetos psíquicos para se manifestar. Mas os objetos psíquicos, propriamente ditos, estão mortinhos da silva.

O vivo é ato. Não é objeto psíquico. O vivo é energia se manifestando. E a energia independe de objetos psíquicos aos quais eventualmente se liga. É por isso que atleta não pensa. Atleta que pensa se ferra. E quem pensa não atua, é atleta da mente e não da ação.

Por isso, quem pensa é melancólico. A primeira definição (a de Aristóteles) de melancolia está associada à inteligência. Quem pensa está metido com mortos. Está neste vasto cemitério dos objetos, dando vida a eles, que estão mortinhos da silva, porque não são, rigorosamente falando, o existente, mas aquilo que existiu e que incorporamos em nosso psiquismo, onde eles se eternizam enquanto duram, ou seja, enquanto os investimos com nossa energia vital, conhecida também por libido.

Para que atos sejam compreendidos, é necessário um tempo: o tempo do canibalismo, o tempo da antropofagia, o tempo de transformação em objetos psíquicos, o tempo da morte e devoração, o tempo da memória, ou seja, de objetos investidos por energia.

Manoel Berlinck


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