Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Abril de 2005 - Vol.10 - Nº 4

Coluna da Lista Brasileira de Psiquiatria

 

Fernando Portela Câmara

Assuntos:

ARTIGO

 

EDUCAÇÃO CLÁSSICA DO MÉDICO

 

NOTICIÁRIO

 

OPINIÃO

ARTIGO:

Neurocirurgia no tratamento do transtorno obsessivo-compulsivo refratário

Antonio Carlos Lopes, MD; Ana Gabriela Hounie, MD, PhD

Psiquiatras do PROTOC-Projeto Transtornos do Espectro Obsessivo-compulsivo-Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo

Inúmeros estudos têm demonstrado que o Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) costuma cursar com uma taxa de resposta a tratamentos variando de 60 a 80 % dos casos, por meio do emprego de medicamentos inibidores de recaptura de serotonina (IRS) ou da terapia comportamental (TC). O tratamento é eficaz em 60 a 70 % (farmacoterapia) e em 60 a 80 % dos casos (Jenike & Rauch, 1994; Perse, 1988; Rasmussen & Eisen, 1997). A resposta ao tratamento farmacológico pode levar de 10 a 12 semanas para ser observada. Diferentes antidepressivos são por vezes empregados, até que um deles ofereça os melhores resultados. Existe, ainda, a opção de associação do antidepressivo a medicamentos potencializadores de efeito (como neurolépticos típicos e atípicos, clonazepam, carbonato de lítio, buspirona, etc.) (Jenike & Rauch, 1994; Turón & Salgado, 1995; Facorro & Gomez-Hernández, 1997). O uso concomitante de neurolépticos é particularmente vantajoso quando da comorbidade de TOC com tiques motores ou transtorno de Tourette (McDougle e cols., 1994). Eventualmente, utilizamos isoladamente antidepressivos inibidores da monoamino-oxidase, ou indicamos a eletroconvulsoterapia (ECT), se depressão grave associada (Shavitt e cols., 2001).

Encontramos, portanto, uma parcela de portadores de TOC que não respondem às opções terapêuticas clássicas, mesmo quando utilizadas em suas doses máximas e por períodos de tempo suficientemente longos, evoluindo com grave comprometimento psicossocial e ocupacional. Segundo Jenike & Rauch (1994) podemos considerar um paciente como refratário ao tratamento desde que ele preencha os seguintes critérios: 1-Utilização prévia de ao menos 3 IRS, sendo um deles obrigatoriamente a clomipramina, nas doses máximas preconizadas ou toleradas pelo paciente, por um período mínimo de 10 semanas; 2-Emprego de pelo menos 20 horas de TC (exposição e prevenção de resposta); 3-Melhora sintomática inferior a 25 % na escala Yale-Brown de sintomas obsessivo-compulsivos (Y-BOCS).

Nos casos refratários aos tratamentos convencionais, tem-se freqüentemente preconizado o emprego da neurocirurgia (especialmente as técnicas estereotáxicas). Por meio de uma de suas técnicas (capsulotomia anterior estereotáxica por “gamma-knife”) não existe sequer a necessidade de abertura do crânio, por se tratar de uma radiocirurgia por raios gama.

A utilização de neurocirurgia para o tratamento de doenças mentais é antiga, datando dos casos iniciais de Egas Moniz, em 1935 (Moniz, 1936). Em decorrência da então falta de outras opções de tratamento psiquiátrico, a psicocirurgia rapidamente se transformou em uma das modalidades terapêuticas mais difundidas nas décadas de 40 e 50, tanto nos EUA, quanto na Europa. Utilizava-se a leucotomia pré-frontal como principal técnica entre os vários centros de neurocirurgia. Esse procedimento, no entanto, era associado a eventos adversos e complicações, especialmente sintomas de disfunção de lobo frontal e alterações de personalidade. Após o advento de terapias medicamentosas efetivas e por pressões da opinião pública quanto aos possíveis efeitos negativos da psicocirurgia, esse método foi gradativamente abandonado ou restrito a alguns poucos centros no mundo, principalmente a partir da década de 70.

Em 1947, Spiegel & Wycis desenvolveram as primeiras neurocirurgias estereotáxicas, reduzindo-se muitos eventos adversos e complicações pós-operatórias. Já eram conhecidos os possíveis efeitos benéficos da psicocirurgia no TOC. Diferentes centros começaram a empregar variadas técnicas estereotáxicas, como a cingulotomia anterior nos EUA (Ballantine et al., 1967), a capsulotomia na Suécia (Mindus et al., 1994), a tractotomia subcaudada (Knight, 1964) e a leucotomia límbica (Kelly et al., 1966) na Inglaterra e Austrália. Posteriormente, Leksell conseguiu simular lesões de capsulotomia por meio da focalização de feixes de raios gama emitidos pelo isótopo radioativo Cobalto-60, direcionados a um ponto específico da cápsula interna (Leksell, 1983).

Conforme descrito anteriormente, até 40 % dos pacientes podem não responder adequadamente tanto à TC quanto à farmacoterapia. Para muitos desses pacientes, a psicocirurgia torna-se a última alternativa terapêutica disponível. As taxas de melhora global pós-operatória nas técnicas da cingulotomia, capsulotomia, tractotomia do subcaudado e leucotomia límbica, foram respectivamente, de 27 a 57 %, 56 a 100 %, 33 a 67 %, e 61 a 69 % dos pacientes em ema revisão feita por Lopes (2001). Não se descreveram pioras com a capsulotomia, mas as taxas relatadas com a cingulotomia, tractotomia subcaudado e leucotomia límbica estiveram ao redor de 7 a 30 %, 0 a 5 %, e 6 a 13 %. Foram relatados alguns casos de convulsões isoladas, cefaléia, delirium nas primeiras semanas e retenção urinária transitória. Raras vezes se observaram alterações comportamentais ou de personalidade e hemorragias intracerebrais.

Estudos preliminares com a radiocirurgia (“gamma-knife”) para o tratamento do TOC sugerem melhoras globais em 55 % dos pacientes (Rylander, 1978). Lippitz e cols., (1999) compararam mudanças em sintomas de TOC na capsulotomia padrão e na capsulotomia por raios gama, demonstrando eficácia em 47 % e em 70 % dos pacientes, respectivamente. Rasmussen (2001) avaliou os efeitos de lesão única bilateral, versus dupla lesão bilateral, na gamacapsulotomia, concluindo que a lesão bilateral é mais eficaz. Déficits em testes neuropsicológicos ou de personalidade não foram observados. Dentre os eventos adversos observados, encontramos 2 em 15 casos com infarto assintomático em caudado e edema associado a cefaléia, tratável com dexametasona (3 em 15 casos) (Rasmussen, comunicação pessoal). Técnicas radiocirúrgicas apresentaram a vantagem de não ser necessária a abertura do crânio, evitando-se assim possíveis complicações relacionadas à neurocirurgia (hemorragia intracerebral, por exemplo).

Concluindo, apesar das técnicas neurocirúrgicas estarem em estágio nascente, tornam-se uma opção interessante no arsenal contra os casos de TOC refratários que foram comprovadamente tratados por todos os outros meios disponíveis atualmente.

Referências:

Jenike MA, Rauch SL. Managing the patient with treatment-resistant obsessive compulsive disorder: current strategies. J Clin Psychiatry 1994; 55(3 Suppl):11-7.

Perse T. Obsessive-compulsive disorder: a treatment review. J Clin Psychiatry 1988; 49(2):48-55.

Pippard J. Rostral leucotomy: a report on 240 cases personally followed up after 1½ to 5 years. J Ment Sci 1955; 101:756-73.

Rasmussen SA, Eisen JL. Treatment strategies for chronic and refractory obsessive-compulsive disorder. J. Clin. Psychiatry 1997; 58(Suppl. 13):9-13.

Turón VJ, Salgado P. Estrategias terapéuticas en el trastorno obsesivo-compulsivo refractario. In: Ruiloba JV, Berrios GE, editors. Estados obsesivos. 2.ª ed. Barcelona: Masson, 1995:397-416.

Facorro BC, Gomez-Hernández R. Tratamiento del trastorno obsesivo-compulsivo resistente: una actualización. Actas Luso Esp Neurol Psiquiatr Cienc Afines 1997; 25(1):61-9.

McDougle CJ, Goodman WK, Leckman JF, Lee NC, Heninger GR, Price LH. Haloperidol addition in fluvoxamine-refractory obsessive-compulsive disorder. A double-blind, placebo-controlled study in patients with and without tics. Arch Gen Psychiatry. 1994 Apr;51(4):302-8.

Shavitt RG, Ferrão YA, Bravo, MC, Belotto C, Lopes Jr A, Miguel EC. Transtorno obsessivo-compulsivo resistente: conceito e estratégias de tratamento. Rev Bras Psiquiatr 2001; 23(Suppl. II):52-7.

Moniz E. Tentatives opératoires dans le traitement de certaines psychoses. Paris, Masson, 1936.

Spiegel EA, Wycis HT, Marks M, Lee AJ. Stereotaxic apparatus for operations on the human brain. Science 1947; 106:349-50.

Ballantine HT, Cassidy WL, Flanagan NB. Stereotactic anterior cingulotomy for neuropsychiatric illness and intractable pain. J Neurosurg 1967; 26:488-95.

Mindus P, Rasmussen SA, Lindquist C. Neurosurgical treatment for refractory obsessive-compulsive disorder: implications for understanding frontal lobe function. J Neuropsychiatry Clin Neurosci 1994; 6(4):467-77.

Kelly D, Walter CJS, Sargant W. Modified leucotomy assessed by forearm blood flow and other measurements. Brit J Psychiat 1966; 112:871-81.

Knight GC. The orbital cortex as an objective in the surgical treatment of mental illness: the development of a stereotactic approach. Br J Surg 1964; 51:114-24.

Leksell L. Stereotactic radiosurgery. J Neurol Neurosurg Psychiatry 1983; 46:797-803.

Lopes AC. Tratamento radiocirúrgico estereotáxico do transtorno obsessivo-compulsivo: uma revisão sistemática [dissertação]. São Paulo: Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), 2001.

Rylander G. Försök med gammakapsulotomi vid ångest- och tvångsneuroser. Lakartidningen 1978; 75(7):547-9.

Rasmussen S. Anterior gamma capsulotomy for intractable OCD. 5th International Obsessive Compulsive Disorder Conference; March/April 2001; Sardinia, Italy.

Lippitz BE, Mindus P, Meyerson BA, Kihlstrom L, Lindquist C. Lesion topography and outcome after thermocapsulotomy or gamma knife capsulotomy for obsessive-compulsive disorder: relevance of the right hemisphere. Neurosurgery 1999; 44(3):452-8; discussion 458-60.

EDUCAÇÃO CLÁSSICA DO MÉDICO:

Nosotaxia, Nosologia e Nosografia

Luiz Salvador de Miranda Sá Júnior,

Conselheiro Efetivo do CFM, Ex-Titular de Psiquiatria da UFMS, Editor da Revista Bioética.

Embora as palavras nosologia, nosografia e nosotaxia sejam freqüentemente empregadas como sinônimas, por quem presta pouca atenção à correção de sua linguagem, não o são. Cada uma delas tem significação diferente na terminologia científica e as três são igualmente importantes para quem pretende conhecer sobre diagnóstico e classificação de enfermidades. Veja-se. Na patologia clássica, distinguiam-se nomenclatura, nosotaxia, nosografia e nosologia:

- Nomenclatura (designação das condições mórbidas, nominação das condições patológicas de quaisquer graus de complexidade, fossem sintomas, síndromes ou enfermidades);

- Nosotaxia (qualquer classificação de conceitos de enfermidade);

- Nosografia (descrição das enfermidades e sistematização de diagnósticos); e

- Nosologia (estudo e classificação das patologias a partir de suas características tidas como essenciais, de sua etiopatogenia).
A designação mais genérica, nosotaxia designa a sistematização de qualquer entidade clínica(designação preferida pelos ontologistas) ou condição patológica (expressão predileta dos fisiologistas), englobando os conceitos de nosografia e nosologia. Até hoje, quando se menciona o status nosológico ou a situação nosológica de uma condição patológica (como acontece nos diagnósticos psiquiátricos da CID/10), faz-se referência ao conhecimento que se tenha de sua origem e de seus mecanismos patogênicos, de sua resposta à terapêutica conhecida e da previsão de sua evolução.

A despeito de sua significação original, os termos nosotaxia, nosologia e nosografia atualmente são usados atualmente por muitos autores de trabalhos na Medicina com superposições significativas inaceitáveis e significações confundidas. Veja-se os seguinte autores:

O dicionário de Campbell e o de Vidal, Alarcon e Lolas, ambos de muito boa qualidade, no geral, tratam lexicamente os termos nosologia e nosografia como análogos ou equivalentes. O mesmo acontece com o Lexicon de Ayd (que só emprega o verbete nosology, mas confunde-o com o significado de nosografia). O que se pode tentar explicar porque a cultura dos positivistas e fenomenistas americanos do campo psi negarem a explicação e se aferrarem à descrição como objetivo do conhecimento científico. O hoje clássico Manual Alfabético de Psiquiatria de Porot, nem menciona estes termos (mesmo com a revisão de Pelicier, sucessor de Porot, na edição espanhola).

O mesmo sucede ao recente Dicionário de Psiquiatria de Valdez-Miyar, da escola de Barcelona; e ao Dicionário Taxonômico de Psiquiatria de Garrabé; bem como ao Glossário de Termos de Psiquiatria, Saúde Mental e seus Derivados, organizado por Bertolote. Coisa idêntica verifica-se no Dictionary of Epidemiology de Last. Mesmo o autor deste trabalho, em livro publicado recentemente, também cometeu algumas confusões com os estes conceitos. O Dicionário Dorland de Ciências Médicas define nosografia como descrição das enfermidades; nosologia, como a parte da Medicina que tem por finalidade descrever, diferenciar e classificar as enfermidades; e nosotaxia como classificação das enfermidades. O que é, no mínimo, insuficiente.
O Dicionário Médico de Ceu Coutinho, baseado na 29a. edição do Black Medical Dictionary, define nosografia como descrição das doenças, em particular, a sua classificação metódica; nosologia, classificação científica das doenças, estudo das características distintivas que permitem definir as doenças. Não faz menção a nosotaxia. Não obstante, esta confusão terminológica é lastimável e deve ser combatida, porque prejudica o conhecimento da Medicina; além de afrontar o conteúdo dos termos que entram em sua composição.
Nosotaxia, nosografia e nosologia são termos importantes para a estrutura do conhecimento médico e não devem ter seus significados ignorados por um médico. Conhecer os exatos limites entre os significados de tais termos constitui necessidade para quem pretende conhecer a patologia e, mesmo, para a prática médica quotidiana, principalmente no terreno da psicopatologia e da psiquiatria, em que são muito confundidos.
Tudo isto posto, deve-se dissecar a significação de cada um dos termos usados no título deste ítem.

NOSOTAXIA
Etimologicamente, o conceito de nosotaxia provém do grego taxis (que quer dizer arranjo, arrumação, ordenação, classificação) e nosos (que significa enfermidade, doença) com o sentido bastante amplo com que se emprega na linguagem comum), significando classificação de enfermidades, organização taxonômica de um conjunto de enfermidades. Este parece ser o conceito mais amplo dentre os que se pretende estudar neste capítulo. Empregam-se os termos taxonomia e taxinomia (taxis+nomos = regra, lei, princípio) para referir qualquer procedimento classificatório de qualquer conjunto de quaisquer coisas materiais, palavras ou idéias. E nosotaxia para classificação de enfermidades, diagnósticos e de descrições de patologias. A taxonomia em Medicina deve abranger, pelo menos, as duas modalidades principais de nosotaxia (ou nosotaxonomia): a nosografia e a nosologia.

NOSOGRAFIA
Nosografia, do grego grafein (que significa escrever, descrever) e nosos (significando enfermidade ou doença, em sentido amplo). Nosografia, portanto deve ser entendida como o registro sistemático das enfermidades, procedimento de classificação das descrições das enfermidades ou de classificação dos diagnósticos médicos.

As palavras geografia (descrição da terra), caligrafia(escrita bonita, bem feita) e lexicografia (capítulo da gramática que estuda a forma das palavras) são bons exemplos disto. A palavra grafia, empregada como sufixo entra na composição de numerosas palavras de construção erudita, como geografia (descrição da terra), nosografia (descrição das enfermidades), patografia (descrição de um caso clínico), radiografia(com significação mais metafórica que realista de representação gráfica de órgãos ou tecidos), biografia(descrição da vida). O denominador comum de todas estas palavras construídas com o termo grafia em todas as ciências, tem sido seu conteúdo descritivo sistemático, seu caráter de estar voltado para a forma e para a aparência das coisas a que se refere.

NOSOLOGIA
Para entender o exato significado da idéia contida na palavra nosologia, é preciso decodificar seus conceitos-chave: nosos e logos. Nosos é um radicar que significa enfermidade; sem maior complicação ou detalhes; e logos? Etimologicamente, o termo logos traz em si, desde há muito tempo, um grande número de conceitos relacionados com as noções de pensamento, lei, conhecimento, razão, explicação; razão explicativa. O termo nosologia surgiu no começo do uso da linguagem conceitual, bem na origem da civilização grega, nos chamados tempos homéricos para designar o mesmo que designa atualmente, a enfermidade ou, mais precisamente, o estado de enfermidades.

No grego antigo, empregavam-se duas palavras, ambas com o significado de fala ou discurso, que eram mythos e logos. Mitos significava narrativa, a fala que narra; enquanto logos significava demonstração, a fala que demonstra (ou explica). A narrativa e a explicação. Para a narrativa com caráter descritivo, usava-se o termo graphein.
No início da Época Clássica grega, quando a Filosofia começou a ser sistematizada e estudada, como se de um com Heráclito, o termo logos se referia à lei e à ordem universais, à inteligência e razão humanas capaz de desvendar a ordem da natureza por meios racionais. Para Platão, o Logos significava o princípio cósmico que estaria no princípio (e, talvez, no fim) de todas as coisas. Muito de acordo com a ideologia platônica, com sentido idêntico ou muito semelhante ao vocábulo verbo (palavra) do texto do livro bíblico do Gênesis: “No princípio, era o verbo...” para se referir à divindade toda poderosa. Verbo aí com sentido de palavra, idéia, inteligência.
Aristóteles tinha concepção de logos semelhante à platônica, mas evoluiu e passou a usar o termo L. significando uma sentença que podia ser verdadeira ou falsa (com o sentido com qua atualmente se denomina proposição) e que expressa o pensamento inteligente. Bastante tempo depois, já na Idade Média, os filósofos Tomistas como Agostino e Tomás de Aquino, empregavam o termo logos para mencionar a divindade perfeita e absoluta dos judeus e cristãos, o deus onipresente, onisciente e onipotente; o Verbo. E chamavam ao Cristo, o Verbo (Logos) encarnado. Bem mais tarde, nos tempos chamados Modernos na periodização que se faz atualmente da História da Civilização, Hegel, segue considerando o logos como o conceito absoluto, usado quase sempre como uma referência à divindade cristã. Sem muita diferença do sentido expresso acima, ainda que sem a conotação religiosa.

Contemporaneamente, desde Heidegger, o termo logos vem sendo empregado com sentido de princípio ontológico, princípio de todas as coisas, que é apresentado aos outros. Como mostram Abbagnano e Brugger, em seus dicionários de filosofia.

De regresso ao seu significado original antigo bem mais remoto, o termo logos passou a poder ser empregado mais modestamente (e menos religiosamente), ainda que na linguagem culta e científica, significando discurso, palavra, verbo, mensagem verbal; comunicação mais inteligível que inteligente; cujo sentido foi ampliado mais tarde para significar verbo interior, a linguagem interna, o falar consigo mesmo, ainda que tenha caráter mais reflexivo que o solilóquio vulgar, o falar sozinho.

Hoje, significa razão, princípio inteligente que permite explicar algo.

Há mais de um século que o termo logos, quando empregado fora dos textos religiosos, expressa conhecimento racional, pensamento inteligente, razão explicativa; explicação e definição a partir da explicação; discurso lógico, abstração inteligente que integra e sintetiza o sujeito e o predicado do conhecimento em uma única entidade lógica. Em Filosofia do conhecimento, o termo logos significa realidade inteligível ou proposição que expressa uma realidade inteligível e possibilita o entendimento de uma coisa ou um processo; principalmente, o conhecimento de suas causas, de sua origem. Neste sentido, o termo logos está na raiz da palavra lógica e compõe, como sufixo ou prefixo, muitos termos inclusive nosologia, mas sempre com o significado de conhecimento da gênese, razão explicativa. Rápida mirada à literatura médica permite inferir que a confusão entre os conceitos de nosografia e nosologia tem se agravado com o tempo (e a influência positivista e fenomenista). Principalmente na literatura da psiquiatria e da Psicologia, esta confusão é muito grande e parece distante de ser elucidada.

Define-se nosologia no Dicionário de Littré, como ramo da Medicina que se ocupa de dar nomes às enfermidades, definí-las, estudar todas as circunstâncias de seu aparecimento, classificá-las e pesquisar sua natureza. E nosologismo, ali se define como variedade de ontologismo, essencialismo (ou especifismo) que encara cada enfermidade como um ente particular, dotado de uma essência que lhe seja própria. Esta noção evoluiu e no início deste século, a essência das enfermidades já era identificada com sua etiologia e sua patogenia. Isto é, sua causa e os mecanismos pelos quais o(s) agente(s) etiológico(s) produzia(m) dano na pessoa enferma e determinava o aparecimento dos sintomas das enfermidades e os prejuízos característicos de cada condição patológica.

Os ontologismos, inclusive o nosologismo, que é uma modalidade médica do ontelogismo, são contraditados pelo fisiologismo, concepção doutrinária da patologia que entende as enfermidades como variações dos padrões funcionais do organismo; aumento diminuição ou deformação do padrão característico da normalidade. Atualmente, desde que não se absurtizem os conceitos ontológicos e fisiológicos, é possível entendê-los como padrões diferentes de adoecimento. Mas que podem coexistir na construção da explicação de enfermidades diferentes.

Podendo-se concluir que:

a) Nas construções eruditas, não se deve usar o termo logos para mencionar simples estudo, menos ainda um estudo resumido à descrição, nominação ou designação; para isto, existe grafein. Nem classificação, quando se deve empregar táxon. O termo logos tem um compromisso original com o conhecimento explicativo que subiste sempre que é adequadamente empregado e que não deve ser esquecido.

b) O termo nosotaxia pode ter abrangência extremamente ampla, significando qualquer classificação, organização ou sistematização de enfermidades mentais, seus diagnósticos, suas descrições e suas explicações, compreendendo, inclusive, a nosologia e a nosografia. Sempre que se ignore se uma sistematização de enfermidades (ou de diagnósticos) é uma nosologia ou uma nosografia, convém designá-la como nosotaxia. Corre-se menos risco de errar.

c) A palavra técnica nosologia encerra sempre uma conotação explicativa e só deve ser empregada para designar o conhecimento explicativo de uma enfermidade, a partir de componentes teóricos comprovados ou levantados a priori. E nas enfermidades, a explicação mais importante é a etiológica. Uma classificação nosológica deve presumir a explicação etiopatogênica como chave de sua sistemática.

d) Já a expressão científica nosografia tem conotação descritiva, mesmo que apenas narrativa, devendo-se empregar para indicar sistemas descritivos de condições mórbidas, sistematização de descrições de enfermidades ou ordenação pragmática de diagnósticos médicos (ou, ainda, de critérios para diagnosticar).

NOTICIÁRIO

Faz décadas que o elemento químico lítio é usado por pessoas com transtorno bipolar, um problema psiquiátrico que sujeita quem o tem a variações bruscas e às vezes trágicas de humor. Contudo, ninguém ainda sabe exatamente como o lítio atua sobre o cérebro. Pesquisadores da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) colocaram uma peça potencialmente importante nesse quebra-cabeças ao descobrir que a droga afeta uma substância ligada ao armazenamento de energia no organismo. A molécula é uma enzima (um catalisador de reações) e atende pelo nome de fosfoglicomutase. "Ela é muito conservada [ou seja, alterou-se pouco com a evolução] nos seres vivos", conta a pesquisadora mexicana naturalizada brasileira Mónica Montero Lomelí, do Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ. Isso permitiu que ela e seus colegas observassem que a ação da fosfoglicomutase (ou PGM, na sigla inglesa) era bloqueada pelo lítio na levedura Saccharomyces cerevisiae, o micróbio usado para fermentar pão: nesse nível bioquímico básico, não há grandes diferenças entre a levedura e uma pessoa. A influência do lítio sobre a mesma enzima foi confirmada em doentes que o utilizam. A hipótese do grupo é que o remédio afetaria o balanço do glicogênio no cérebro, que é controlado pelas células gliais, as "ajudantes" dos neurônios. "O mais provável é que outras enzimas além da PGM sejam afetadas. Se agíssemos seletivamente apenas sobre ela, diminuiríamos os efeitos colaterais do lítio", diz Lomelí.

OPINIÃO

“Quer dizer que a eutanásia já está aceita e a família é o foro escolhido?. Por favor minha gente, eu sou contra a eutanásia sob forma de lei. Echa la ley echa la trampa. Logo teremos a eutanásia de inimigos políticos. Vocês estão imaginando um mundo ideal, com pessoas honestas e caridosas decidindo o destino de algumas pessoas e em casos excepcionais. A realidade é bem outra, cansei de ouvir a seguinte afirmativa de familiares. Dr. cuida bem da mãe, do pai, da tia, mas não a deixa sofrer. em vez de sofrer, termina com ela. Acho perigosos para a classe médica ter esse poder, a paranóia ou melhor a desconfiança seria muito grande (...) Quem decide que o caso é terminal etc? Eu não gostaria de ter nenhuma lei autorizando eutanásia no nosso meio. Nesse modelo de justiça social que vivemos, o que vocês imaginam que irá acontecer? Na maioria dos hospitais que tem unidade de neonatologia, falta equipamento, os médicos tem que selecionar quem vai para a incubadora, e quem fica de fora, morre. A maioria das cidades pequenas não tem UTI, nas grandes cidades elas vivem lotadas (...) Botar uma lei para mascarar a falta de interesse em investir em saúde. é assustador. Walmor Piccinini”.


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