Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Janeiro de 2005 - Vol.10 - Nº 1

France - Brasil- Psy

Atualidades - Informações

Eliezer de Hollanda Cordeiro

Sumário:

  1. Por uma resistência semântica e semiológica em psiquiatria
  2. Intersubjetividade entre o bebé e seus pais
  3. Atualidades: Livros recentes
  4. Reuniões e Colóquios
  5. Formações
  6. Associações
  7. Calendário científico
  8. Seleção de sites
  9. Quem somos

1. Por uma resistência semântica e semiológica em psiquiatria

Thierry FERAL*, Psychiatrie Française, Vol. XXIX, 1998

Tradução Eliezer de Hollanda Cordeiro

Inútil dizer-lhe, Doutor Duparc**, que eu estou inteiramente de acordo com suas análises [8].Tanto mais que há cerca de 25 anos que eu deambulo pelos arcanos da história alemã contemporânea e suas produções ideológicas mais consternantes [10, 11]. Por cnseguinte, tive a ocasião de encontrar muito frequentemente, psiquiatras eminentes e de grande reputação científica. Entre outros:

*Max NORDAU, com suas elucubrações sobre a degenerescência [30],

*Emil KRAEPELIN, zeloso defensor da sociedade guilhermiana, violentamente denunciado por Heinrich MANN como o auxiliar da ordem reinante [26], e cujo assistante EugeneKHAN, nomeado experto dos tribunais durante a selvagem repressão da revolução em Munique de 1918-1919, concluiu que os líderes proletários eram loucos [34],

*Alfred HOCHE, de Friburgo, autor em 1920 com o jurista de Leipzig, Karl BINDING, de um projeto de « Liberalização pela eliminação da vida indígna de ser vivida » [22],

*Carl Gusrav JUNG, grande vituperador das teorias do « judeu » Sigmund FREUD, que tomou as rédeas da psicoterapia alemã em 1933[12, 13, 14, 15, 25],

*os Professores RÜDIN, de Munique, e RITTER, de Tübingen, co-redatores das leis raciais de Nuremberg de 1935, em seguida co-organizadores do recenseamento dos « abastardados » judeus e ciganos afim de extirpá-los da « Comunidade racial popular alemã » [32],

*sem omitir o conciliábulo dos executantes voluntários do programa de eutanásia dos doentes mentais de 1939-1941[17, 33].

Assim Doutor DUPARC, quando o senhor se deu ao trabalho de determinar com lucidez se as ideologias atuais da transparência por meio das mídias, do contrôle informatizado da sociedade, do individualismo liberal que conduz ao retalhamento social e à revitalização dos planos racistas, não seriam reponsáveis de uma mutação regressiva da psiquiatria - sem esquecer a tendência insidiosa para um neo-eugenismo sob a influência do desenvolvimento da biogenética[6, 28]- o senhor parece-me situar-se na melhor tradição da psiquiatria humanista, a que inspirou Gaston FERDIERE, [18] com o seu corajoso relatório de Rodez e Roger GENTIS[19, 20, 21], em sua cruzada contra os asilos, ou ainda François TOSQUELLES e Lucien BONNAFE que eu ia escutar com paixão ainda há pouco tempo nos colóquios anuais de Saint-Alban, alí mesmo onde- nos anos de 1940- médicos e pacientes mobilisaram-se pela sobrevida, ao mesmo tempo em que na maioria dos hospitais psiquiátricos 40 000 mil pacientes foram condenados a morrer de fome pelo regime de Vichy[36, 37], com o qual colaborava um Prêmio Nobel que sonhara desde 1935 em sanear a sociedade graças a utilização de estabelecimentos eutanásicos dotados de gazes apropriados{4 e 7].

Ninguém ignora que foi a partir da resistência à ideologia fascista e à tirania da ocupação e da pressão do traumatismo provocado pelo horror dos campos de concentração que se articulará uma versão crítica da apreensão da doença mental.Focalizado no princípio da não-exclusão ou, como formulou L. Bonnafé de um modo deliberadamenre surrealista, « na apologia das singularidades e na cultura das solidariedades »[3], que esta idéia desconstrutiva da doutrina ritual da loucura cinduzirá a extrair a psiquiatria de sua coleira obscurantista e de seu estatuto repressivo herdado do Século XIX.

O Doutor Duparc demonstrou que outras ideologias surgiram na década 1980-1990, responsáveis de novas formas de alienação, e que devemos temer que espíritos servís venham codificar nosograficamente esta situação e legitimar uma nova exclusão social nas estruturas de vigilância e de assistência onde aparecerão bem rápido sintomas justificadores do ostracismo.Como lembrou Lucien Bonnafé: « Alienado, renegado pela sociedade, o doente fixa seu comportamento em função desta situação...A cronicidade é ...antes de tudo uma questão de ambiência. Os sintomas que consideramos como os mais importantes - gatismo, agitação, todas as formas de embrutecimento asilar- são sintomas artificiais, na imensa maioria dos casos, consecutivos às condições de assistência » [3].

Mas a partir do momento em que a tendência ao confinamento em guetos virou moda, e que ela encontrou um apoio teórico, não estamos muito longe de entrar num mundo como o de Huxley[23] donde serão eliminados os doentes e suas doenças singulares. Finalmente, como escreveu Pascal Bruckner de maneira alegórica em seu romance Parias, há algo melhor para desembaraçar uma sociedade de sua miséria que se desembaraçar dos miseráveis ? [5] 

Devo a Gérard Mendel o ensino sobre a fragilidade das estruturas políticas democráticas. Uma fina camada de verniz que se fende até com mínimos sobressaltos da civilização, elas sobrevoam na realidade « acima de uma paisagem humana, cultural, social, de uma outra natureza »[29].Sabemos que o superego é uma manifestação individual ligada às condições sociais e que as tendências criminosas escondidas em cada indivíduo podem tornar-se patógenas desde que o clima se torne propício[16].Ora o psiquiatra «ele também homem e submetido às fraquezas a ao absurdo da condição humana(1) », é solicitado pelas relações sociais e ambientes. Se ele decide ser « politicamente correto », isto é conforme à ideologia dominante, segundo a aceitação primordial desta expressão recuperada pelo puritanismo americano, ele vai encontrar-se em quase toda a parte da história ligado à instrumentação dos eixos ideológicos definidos pelo poder estabelecido. Isto é naturalmente válido para a Alemanha e a França, para a Rússia ou ainda a Espanha com A.V. Nagera que, em 1968-1939, entregará 1500 prisioneiros das brigadas internacionais para se submeterem a testes afim de avaliar-se o Biopsiquismo do fanatismo marxista, mas isto será também válido para a Suécia, a Suissa ou os EEUU [31,38].

Numa palavra, ser « politicamente correto » para um psiquiatra, è frequentemente tornar-se éticamente incorreto, ou se preferirem, para retomar uma expressão de Jean-Paul Abribat, arriscar-se ao jogo da « traição da ética pela política » [27]. Sempre existiu em toda a parte e sempre existirá psiquiatras honestos e convencidos pelo sentido moral de sua missão que é de resistir.Mas não devemos nos enganar : como disse justamente G. Mendel[29], pensar poder resistir um dia a um regime moderno é por demais arriscado se este regime estabelecido decide de se dotar de meios coercitivos para se manter.Como me ensinou meu mestre Henri Arvon [1] é preferível resistir às «múltiplas alienações ligadas às virtualidades deshumanisantes » antes que seja tarde demais.Ora o que eu retive de Henri Lefèvre [24] quando estudei em Nanterre, e do estudo das Linguagens totalitárias de J.-P. Faye [9], é que as ideologias, muito antes de utilizar a coerção e a violência, captam as consciências através a linguagem e as construções fantasmáticas que ela edifica e que vão refletir como uma « nova-realidade »- eu cito novamente o Doutor Duparc- a publicidade, a televisão, ou ainda « o hábito toxicômaníaco das realidades virtuais do jogo e do lazer» [8].

Por conseguinte não nos enganemos : é na estufa da banalidade do falar de todos os dias e das imagens que ele suscita que amadurece a realidade do amanhã, o que significa que é ao nível semântico e semiológico que começa a resistência. O artigo de Pascal Boissel [2] sobre «  o discurso do Front Ntioanal »***, a reflexão coletiva conduzida por Psychiatrie Française sobre Psiquiatria e Política [35], e naturalmente seus propósitos, Doutor Duparc, são um soberbo exemplo do que cada um deveria considerar como um imperativo ético. Neste sentido, estas jornadas da Associação Francesa de Psiquiatria aparecem-me como uma aposta realista de esperança para o futuro.

NOTAS do tradutor

*Tierry FERAL é germanista, autor de numerosos trabalhos sobre o nacional-socialismo, diretor de coleção nas edições L'Hartmann, em Clermond-Ferrand, França. O artigo traduzido

**Doutor Duparc : Autor do relatório intitulado : « A psiquiatria seria politicamente correta » ? apresentado nas Jornadas da Associação Francesa de Psiquiatria, Paris, 1998.

***Front National : partido francês de extrema direita.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

[1] ARVON ( H .), La philosophie du travail,PUF,1973.

[2] BOISSEL (P.), Une subversion du langage, le discours du Front National, Synapse, 70/1990, pp.23-30.

[3) BONNAFE (L.), Psychiatrie en résistance, Chimères 24/1995, pp. 11-27.

[4] BONNAFE (L.), TORT (P.), L'homme, cet inconnu ? Alexis Carrel, J.-M. Le Pen et les chambres à gaz, Éd. Syllepse, 1993.

[5] BRUCKNER (P.), Parias, Seuil, 1985.

[6] BRUNSWIC (H.) et PIERSO (M.), Médecins, médecine et société, Nathan, 1995.

[7] CARREL (A.), L'homme cet inconnu, Plon, 1935.

[8] DUPARC (F.), L'image sur le divan, L'Harmattan, 1995.

[9] FAYE (J.-P.), Langages totalitaires, Hermann, 1972.

[10] FERAL (T.), Anatomie d'un crépuscule, Essai sur l'histoire culturelle su toisième Reich, Tarmeye, 1990.

[11] FERAL (T.), Les allemands et l'obsession de la dégénérescence, in Études allemandes, Université d'Auvergne, fév. 93, pp. 59-103.

[12] FERAL (T.), Psychanalyse sous le troisième Reich, Journal de Nervure, 7/95.

[13] FERAL (T.), ibid, in Forensic, Revue de psychiatrie légale, 10/95, pp. 35 sq.

[14] FERAL (T.), ibid., in Allemagne d'aujourd'hui, 134/95, pp. 137-146.

[15] FERAL (T.), Nazisme et psychanalyse

[16] FERAL (T.), Justice et nazisme, L'Harmattan, 1997.

[17] FERAL (T.), L'éthique seul rempart véritable contre la paranoïa étatique : à propos de la médecine nazie, Psychiatrie Française 4/96, pp. 73-88.

[18] FERDIERE (G.), Rapport sur le fonctionnement de l'hôpital psychiatrique de Rodez du 23 juillet au 30 novembre 1942, Nervure, N° spécial, 1992.

[19] GENTIS (R.), Guérir la vie, Maspero, 1971.

[20] GENTIS (R.), La psychiatrie doit être faite/défaite par tous, Maspero, 1973.

[21] GENTIS (R.), Les murs de l'asile, Maspero, 1970.

[22] HOCHE (A.), BINDING (K.), Die Freigabe der Vernichtung lebensunwerten, Leipzig, 1920.

[23] HUXLEY (A.), Le meilleur des mondes, 1932.

[24] LEFEVRE (H.), Le langage de la société, Gallimard, 1996.

[25] LOHMANN (H.M.), Psychoanalyse und Nationalsozialismus, Fischer, 1984, pp. 136-155.

[26] MANN (H.), Die Armen, Munich, 1917.

[27] MATISSON (D.), ARRIBAT (J.-P.), Psychanalyse de la collaboration, Hommes et perspectives, 1991.

[28] MAYOR (F.), FORTI (A.), Sciences et pouvoir, Unesco/Maisonneuve et Larose, 1997.

[29] MENDEL (G.), De Faust à Ubu, Editions de l'Aube, 1996.

[30] NORDAU (M.), Entartung, Berlin, 1892-1893.

[31] PETIT (C.), Hérédité er races,Editions du Cerf, 1931, pp. 122 sq.

[32] Coll., Medizin im NZ-Staat, Täter Opfer, Handlanger, D.T.V., 1993.

[33] VIALLARD (A.), Psychiatres sous le nazisme, Nervure, V/1, 1991, pp. 51-69.

[34] VIESEL, (H.), Literaten an der Wand, Francfort,/Main, 1980, pp. 777 sq.

[35] Psychiatrie et politique, Psychiatrie Française, 4/95.

[36] Oitavo Colóquio de la Société Internationale d'Histoire de la Psychiatrie et de la Psychanalyse, Dijon, nov. 1990, Nervure, IV/2, 1991.

[37] Colloque de l'A.P.R.E.P.A., Situation des malades mentaux entre 1939-1945, Brumath, mars 1996, pub. Centre hospitalier de Brumath.

[38] Courrier International, 357/1997, pp. 31 sq.

 

2. Intersubjetividade entre o bebé e seus pais

Chloé LAVANCHY*

Elisabeth Fivaz-DÉPEURSINGE**

Artigo publicado em Psychiatrie Française, Vol. XXXVI, Julho 2004

Tradução : Eliezer de Hollanda Cordeiro

Em seu último livro, D.- N. Stern [11] defende a idéia de que a intersubjetividade é um sistema de motivação comparável ao apego ou o amor. Dito de outro modo, a capacidade de compartilhar a experiência vivida com um outro, ou os outros, é necessária à sobrevida da espécie humana.Para esta espécie eminentemente social, a capacidade de cooperar é crucial, de poder colocar-se no lugar do congênere ; inferir a direção de sua atenção e de seus objetivos ; compreender as significações que ele atribue aos acontecimentos; compartilhar suas emoções e seus valores morais, tudo isso contribui a fundar esta cooperação.

Em psicologia desenvolvimentista e clínica, já se estudou a relação intersubjetiva entre duas pessoas, particulamente entre a mãe e a criança ou entre o terapeuta e seu paciente ; mas considerou-se muito pouco a possibilidade de uma relação intersubjetiva plural, na família ou em outros grupos. Ora, a relação intersubjetiva dual não basta à sobrevivência de um grupo. Sabemos também que a realidade do bebé é de estar em contacto com vários indivíduos [8] em nossa cultura, principalmente com os pais (ou seus substitutos) e a eventual irmandade. Seria por conseguinte uma vantagem para o bebé se ele pudesse desenvolver imediatamente um sistema de comunicação com vários partenários

As observações sobre a brincadeira da tríade constituida pelo pai, a mãe e o bebé levaram-nos a essa hipótese [3].Com efeito, o bebé mostra-se imediatamente capaz de inter-relacionamento com o seu pai e a sua mãe ao mesmo tempo, isto é a « triangular » [2, p.63-69]. Nós nos referimos aqui ao resultado de um estudo de quarenta famílias demonstrando as competências do bebé de 12 semanas. Este divide sua atenção com seus pais fazendo « rápidas transições » : ele desloca muito depressa seu olhar (exatamente num intervalo máximo de cinco segundos) assim como o sinal afetivo positivo ou negativo entre seus pais. Nós interpretamos essas interações como manifestações de uma forma primária da intersubjetividade ou da partilha da experiência vivida [5].

A INTERSUBJETIVIDADE PRIMÁRIA

Um número crescente de desenvolvementistas consideram que já existe uma intersubjetividade durante os primeiros meses de vida. Trevarthen [13] definiu-a como a partilha de estados emocionais semelhantes entre a mãe e a criança, subtendidas por uma intenção de comunicar e de inter-relacionar. Segundo Rochat e Striano [7], a intersubjetividade primária permite a emergência de uma consciência de si mesmo como agente e de um senso da experiência compartilhada. Assim, a criança entra em contacto com os sentimentos, interesses e intenções do outro, e adquire então uma primeira forma de conhecimento do outro.

Diferentes comportamentos podem decorrer dessa procura de estados emocionais compartilhados, em particular a imitação precoce. Na imitação precoce, a criança reproduz o comportamento do outro partenário, o que a leva a sentir a vivência do outro [6]. Para a criança, isto constitue um modo privilegiado para tomar consciência das relações humanas. Este tipo de comunicação passa pela ação e a percepção direta imediata, ela é de ordem expressiva e contém nela mesma a relação [1,13].

Mais ou menos no fim do primeiro ano, a intersubjetividade torna-se referencial e vai se constituir como intersubjetividade secundária [9].Ela continuará a evoluir nas fases de desenvolvimento da criança : a da emergência das emoções morais e da função simbólica em torno de 18 meses, em seguida a das narrações a partir de 3 anos.

QUADRO DO ESTUDO

Nossa pesquisa foi feita com famílias voluntárias e primíparas seguidas desde a gravidez até os dois primeiros anos da criança. Nós estudámos as competências triangulares do bebé em uma situação quase -estandardizada que elaborámos, intitulada o Jogo Trilógico de Lausanne (LTP)[3].Ela se estrutura em quatro partes, que representam as quatro interações possíveis entre três partenários. Na primeira parte, em « 2+1 », um dos pais brinca com o bebé enquanto o segundo fica simplesmente presente, observando a relação dual. Na segunda parte, os papéis entre os pais se invertem, isto é o pai que era observador brinca com a criança enquanto a mãe assume o papel de terceiro (2+1). A terceira parte comporta uma brincadeira entre os pais e a criança. Enfim, na quarta parte, os pais discutem entre eles enquanto a criança assiste à discussão (2+1). As cadeiras dos três partenários são dispostas em triângulo e o equipamento técnico permite de filmá-los de frente.Graças a esta situação, podemos medir várias dimensões importantes do funcionamento familiar, especialmente a coodenação da família para realizar uma tarefa como o jogo do trílogo, denominado aliança familiar, assim como a triangulação entre o bebé e seus pais.

Um exemplo nos permitirá de melhor representar este funcionamento.

ERIKA E SEUS PAIS NO JOGO DO TRÍLOGO

Pedimos aos pais de Erika, 12 semanas, de brincarem juntos, cerca de dez minutes, nas quatro configurações descritas mais acima. Foi a mãe quem começou a brincar com o bebé, enquanto o pai era o terceiro. Quando a mãe se debruçou em direção de sua filha, o pai se encostou na cadeira, marcando seu papel de terceiro. Erika dirigiu-se primeiro à sua mãe estirando-lhe a língua e esta fez a mesma coisa com a sua filha, sorrindo-lhe em seguida ; então Erika respondeu com uma longa vocalise ao mesmo tempo em que ela voltou-se para o pai e em seguida para a mãe (rápidas transições). A brincadeira prosseguiu num clima calmo, contrastando com a próxima brincadeira com o pai.

De fato, ele adotou um estilo mais animado e intenso, o que agradou muito Érika que apressou-se em iniciar com ele a brincadeira de estirar a língua. Num dos momentos mais intensos voltou-se para a mãe, em terceira posição, sorriu-lhe, como para levá-la a compartilhar o prazer que ela teve de brincar com o pai (rápidas transições). A mãe respondeu-lhe com um sorriso discreto, validando o sinal de Érika, sem intervir na brincadeira do pai.

Érika pareceu cansada no início da brincadeira triangular. Os pais propuseram-lhe uma pausa, mostrando uma empatia com o estado de cansaço da filha, para que ela voltasse progressivamente ao registro afetivo positivo. As bricadeiras de estirarem a língua, de se beijarem, de fazerem-se caretas, sucederam-se. Num dado momento Érika fez uma careta ao pai e depois à mãe ; um pouco mais tarde, ela estirou a língua para o lado em direção de sua mãe, continuando a olhar para o pai, antes de orientar depois seu olhar em direção de sua mãe.

No momento em que os pais colocaram-se um em frente do outro e começaram um diálogo, Érika passou de um a outro, olhando-os com muita atenção (rápidas transições). Os pais começaram então uma conversação lúdica, em seguida começaram a discutir de maneira mais séria sobre os motivos que impediam os tres a brincarem mais frequentemente em casa. Como eles desenvolveram este tema, Érika alternou entre episódios onde a sua atenção voltou-se para ela ou para o que a cercava, e episódios em que ela observou seus pais. Num dado momento, ela captou o sorriso de sua mãe, sorrindo-lhe por sua vêz e olhando-a.

A brincadeira durou pouco mais de oito minutes. Durante as transições de Érika, os afetos que ela endereçou aos pais foram em grande maioria positivos (prazer e interesse). Isto corresponde, mais ou menos, ao que observámos na maioria das famílias que estudámos.

RESULTADOS

Nestes diferentes contextos interativos, as crianças demonstraram assim capacidades de comunicação tiangulares. Elas mostraram-se capazes de coordenar a atenção visual e os sinais afetivos entre seus pais. Elas produziram rápidas transições em todas as configurações do LTP, porém mais frequentemente naquela dos três juntos do que nas dos 2+1. Em média, fizeram cerca de vinte rápidas transições durante a totalidade da brincadeira (cerca de 10 no jogo dos três juntos ; entre 3 e 4 no jogo do 2+1.

Os resultados mostraram também que as rápidas transições são mais numerosas nas interações familiares suficientemente bem coordenadas (alianças familiares funcionais) do que nas interações insuficientemente coordenadas (alianças familiares problemáticas)[4, 5].

Nós analisámos o contexto onde transições rápidas apareceram nas interações mútuas. Elas poderiam ser uma resposta a uma estimulação por um dos pais : se ele bole (estimulação visual), se ele chama a criança (estimulação auditiva) ou se ele toca (estimulação tátil). Assim, uma primeira forma geradora de transições rápidas relaciona-se com uma solicitação visual, auditiva e/ou tátil de um ou dos dois partenários. Mas o bebé pode também desviar o olhar de um pai para o outro, sem solicitação exterior observável. A criança pode queixar-se, protestar e começar a chorar olhando um, depois o outro pai, assinalando seu afeto negative. Estas rápidas transições são inesperadas para o observador, manifestam-se em ausência de estimulações ou então na continuidade de estimulações vindas dos pais (sem que haja um súbito aparecimento ou rutura dos estímulos propostos).

Na amostra ( as quarenta famílias estudadas), a proporção de rápidas transições começadas sem estimulação do contexto variou entre um terço e dois terços em função das crianças. Este resultado constituiu um argumento em favor da triangulação precoce e da pesquisa da intersubjetividade a três.

É necessário também lembrarmos que uma boa proporção das rápidas transições sucederam-se numa cadeia de idas e vindas da orientação do olhar entre os rostos dos pais. A maioria das crianças efetuaram cadeias comportando pelo menos duas rápidas transições, elas olharam por exemplo o rosto materno, voltaram-se para o rosto paterno, depois orientaram novamente o olhar para o rosto materno. A cadeia mais longa produzida neste estudo foi de nove rápidas transições. Estas cadeias revelaram que o bebé é capaz de coordenar suas rápidas transições e de comunicá-las sucessivamente.

Estes resultados confirmam os trabalhos de Trembley e Nadel obtidos no quadro do paradígma da exclusão [12].

DISCUSSÃO

Numa interação de jogo trílogo entre o pai, a mãe e a criança, a finalidade é a de estabelecer e manter um laço interpessoal a três em situações afetivas.Os partenários buscam naturalmente uma comunhão entre eles.A criança desenvolve assim suas competências triangulares. No decurso desta interações precoces, o bebé constrói uma referência mostrando como se situar com relação a três pessoas, ou seja um esquema-de ser-a -três. Este tipo de esquema « de estar com » é um « modelo mental de experiência de estar-com-alguém de uma certa maneira, e que se repete na vida corrente [10]. » Isto permite à criança de explorar e aprender as diferenças entre sí e os outros, de conhecer os outros entre eles tanto quanto os outros com ela. Os momentos de comunhão afetiva que ela vive com seus pais ao longo dos primeiros meses prefiguram os momentos de comunhão intersubjetiva a três, compreendendo a comunicação referente, a comunicação cultural e moral, e enfim narrativa. Eles fazem parte dos fundamentos da socialização em grupo e das representações das relações sociais. Também, supomos que as crianças que se desenvolvem num contexto de alianças familiares funcionais e que têm muitas ocasiões de praticarem a comunicação triangular, ficarão mais à vontade nos grupos de pares. Elas desenvolverão uma « teoria do espírito » mais diferenciada do que as crianças que crescem num contexto de alianças familiares problemáticas.

Nossos resultados têm assim implicações clínicas importantes. Ao mesmo tempo, eles contribuem a fundar, de maneira empírica, a teoria da intersubjetividade como sistema de motivação, segundo D.-N.Stern.

*Chloé LAVANCHY:psicóloga, Centro de Estudo da Família, Site de Cery, CH-1008 Prilly.

**Elisabeth FIVAZ-DEPEURSINGE : PhD, Centro d Estudo da Família, Site de Cery, CH-1008.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

[1] BUTTERWORTH (G.), Origins of joint visual attention in infancy[Commentary], Monographs of the Society for Research In Clhild Devrlopment, 63 (4 Serial No 255), 1998.

[2] FIVAZ-DEPEURSINGE (E), Corps et intersubjectivité, Psychothérapies, n. 21, 2001.

[3] FIVAZ-DEPEURSINGE (E), CORBOZ-WARNERY(A), Le triangle primeire, Paris, O. Jacob, 2001.

[4] KOLLER (R.), Le partage affectif du bebé de trois mois avec ses deux parents au cours du jeu du trilogue (à paraître).

[5] LAVANCHY (C.), L'interaction visuelle de l'enfant de trois mois avec ses deux parents, D.E.S.S. en psychologie, Univ. De Genève, Suisse, 2002.

[6] MELTZOFF (A. N.), MOORE (M.K.), A theory of the role of imitation in the emergence of self, in P. Rochat, The self in infancy: Theory and research, Amsterdam: Elsevuer, 1995.

Tradução: Eliezer de Hollanda Cordeiro

 

3. ATUALIDADES: Livros recentes

LIVROS RECENTES

La Lettre de Psychiatrie Française informa aos seus leitores a publicação dos seguintes livros :

Métamorphoses de la parenté

Maurice GODELIER

Fayard-30euros

Linstant d'un geste: le sujet, l'éthique et le don

Jean-Daiel CAUSSE

Labor et Fides-18 euros

La traité des hallucinations

Henri EY

Bibliothèque des introuvables -95 euros

Nouveau traité de psychiatrie de l'enfant et de l'adolescente

Serge LEBOVICI, René DIATKINE, Michel SOULE

PUF-49euros

Temporalité et psychiatrie de l'enfant : éloge de la durée

Ed. Centre Alfred BINET 

Claude AVRAM, Sophie BARRE, Sabine CANN et al.

In Press-24 euros

Leçons psychanalytiques sur l'angoisse

Paul-Laurent ASSOUN

Anthropos-8euros

La psychanalyse à l'épreuve de l'islam

Fethi BENSLAMA

Flammarion-9,20 eusros

Narcissisme et perversion

Nicole JEAMMET, Françoise NEAU, René ROUSSILLON

Dunod-26 euros

Phénoménologie, psychiatrie, psychanalyse

Pierre FEDIDA, Mareike WOLF-FEDIDA(sous la dir.)

Le cercle herméneutique Bayard Editions -Centurion- 18,30 euros

Responsabilité médicale et droit du patient en psychiatrie

Carol JONAS, Jean-Louis SENON

Elsevier- 25 euros

 

4. Reuniões e colóquios

La Lettre de Psychiatrie Française selecionou os colóquios e reuniões seguintes :

*Em BRON, dia 2 : Seminário de psiquiatria fenomenológica : « Delírio,alucinações e problema do inconsciente fenomenológico.»Informações : Doutor Jean-Louis Griguer,

E-mail : [email protected]

*Em Paris, dia 7 : Seminário : »Mal estar », insistência, arte e política. O sempre atual « mal estar na civilização de S. Freud. Informações : Jean-Jacques Moscovitz E-mail : [email protected]

*Em Lyon, dia 10 : O Grupo Lionês de Psicanálise organiza o colóquio: “Tornar-se sujeito no grupo”. Reflexões sobre alguns dispositivos de grupos institucionais. Informações: e-mail: [email protected]

*Em Paris, dia 12 : A Associação Francesa de Criminologia organiza o seminário : « Confrontação sobre as políricas de segurança passadas e futuras.Informações :e-mail : [email protected] SITE : www.afc-assoc.org

* Em Paris, dia 15 : a Academia das Ciências organisa uma grande conferência: Os desafios científicos do Século XXI: “Os novos sucessos da compressão das imagens e a contribuição das neurociências ». Informações : e-mail : [email protected] Site : www.academie-sciences.fr

 

5. Formações

*A Associação Francesa dos Centros de Consultas Conjugais oraganiza diversas formações. Contacto : e-mail : [email protected]

*A Associação da Saúde Mental da XIII circunscrição (Centro Alfred Binet) organiza diversas jornadas. Informações : e-mail : [email protected] Site : www.asm13.org

*O Instituto Francês de Análise de Grupo e de Psicodrama organiza diversas formações.

Contacto : e-mail [email protected]

*O Círculo de Estudos Franceses para a Formação e a Pesquisa Picanalítica de grupo, psicodrama, a instituição organiza diversas formações. Contacto : e-mail : [email protected] Site : www.ceffrap.info

*O Grupo de Pesquisas sobre Autismo organiza duas formações universitárias. Contacto : e-mail : [email protected]

*A Universidade Paris 8 organiza um diploma de Estudos Superiores de Universidade sobre PSICOSOMATICA : medicina, psicanálise e neurociências. Contacto : e-mail : [email protected]

 

6. Associações

Association Française pour l'Approche Intégrative et Eclectique en Psychothérapie (AFIEP)

Association Française de Psychiatrie et Psychologie Légales (AFPP)

Association Française de Musicothérapie (AFM)

Association Art et Thérapie

Association Française de Thérapie Comportementale et Cognitive (AFTCC)

Association Francophone de Formation et de Recherche en Thérapie Comportementale et

Cognitive (AFFORTHECC)

Association de Langue Française pour l'Etude du Stress et du Trauma (ALFEST)

Association de Formation et de Recherche des Cellules d'Urgence Médico-Psychologique (AFORCUMP)

Association Nationale des Hospitaliers Pharmaciens et Psychiatres (ANHPP)

Association Scientifique des Psychiatres de Secteur (ASPS)

Association Commission Des Hospitalisations Psychiatriques France (CDHP France)

Association Promotion Défense de la Psychiatrie à l'Hôpital Général (PSYGE)

Association Karl Popper

Association pour la Fondation Henri Ey

Association Internationale d'Ethno-Psychanalyse (AIEP)

Collectif de Recherche Analytique (CORA)

Ecole Parisienne de Gestalt

Ecole Française de Sexologie

Ecole de la Cause Freudienne www.causefreudienne.org

Groupement d'Etudes et de Prévention du Suicide (GEPS)

Groupe de Recherches sur l'Autisme et le Polyhandicap (GRAP)

Groupe de Recherches pour l'Application des Concepts Psychanalytiques à la Psychose (GRAPP)

Regroupement National en Psychiatrie Publique (RENEPP)

Société Française de Gérontologie

Société Française de Thérapie Familiale (SFTF)

Société Francophone de Médecine Psychosomatique

Société Française de Psychopathologie de l'Expression et d'Art-thérapie(SFPE)

Société Française de Recherche sur le Sommeil (SFRS)

Société Française de Relaxation Psychothérapique (SFRP)

Société Française de Sexologie Clinique (SFSC)

Société Française de Psycho-oncologie/Association psychologie et cancers

Société d'Addictologie Francophone

Société Ericksonienne

Société de Psychologie Médicale et de Psychiatrie de Liaison de Langue Française

Société Médicale Balint

Union Nationale des Associations de Formation Médicale Continue (UNAFORMEC)

Union Nationale des Amis et Familles de Malades Mentaux (UNAFAM)

Association Psychanalytique de France (APF)

Société Psychanalytique de Paris (SPP)

Ecole Freudienne de Paris

 

7. Calendário Científico

ABSTRAC PSYCHIATRIE : www.impact-medecin.fr

LA REVUE FRANÇAISE DE PSYCHIATRIE ET DE PSYCHOLOGIE MEDICALE : www.mfgroupe.com

L'ENCEPHALE:WWW.ENCEPHALE.ORG

LES ACTUALITES EN PSYCHIATRIE: www.vivactis-media.com

NEUROPSY : WWW.NEUROPSY.FR

NERVURE : REDACTION: HOPITAL SAINTE-ANNE, 1 RUE CABANIS, 75014 PARIS. TÉLÉPHONE: 01 45 65 83 09 FAX. 01 45 65 87 40

NEURONALE (REVISTA DE NEUROLOGIA DO COMPORTAMENTO) [email protected]

PSN :(PSYCHIATRIE, SCIENCES HUMAINES, NEUROSCIENCES) : rue de la convention, 75015 paris. Fax : 0156566566

PSYCHIATRIE FRANÇAISE : [email protected]

PSYDOC-BROCA.INSERM.FR/CYBERSESSIONS/CYBER.HTML

SYNAPSE : [email protected]

EVOLUTION PSYCHIATRIQUE

 

8. Seleção de sites

ETNOPSIQUIATRIA : www.ethnopsychiatrie.net

PEDO-PSIQUIATRIA

Associação HyperSupers http://membres.lycos.fr/hyperactivite/

PSICANÁLISE

www.carnetpsy.com

Association Psychanalytique de France (APF)

Collège de Psychanalyse Groupale et Familiale www.psychafamille.com

Œdipe www.oedipe.org

Quatrième Groupe http://quatrieme-groupe.org

Société Psychanalytique de Paris www.spp.asso.fr

www.doctissimo.fr

ASSOCIATION FRANÇAISE DES PSYCHIATRES D'EXERCICE PRIVE:www.afpep-snpp.org

Bulletin de L'ordre des Médecins: www.conseil-national.medecin.fr

Mediagora:http://perso.wanadoo.fr/christine.couderc/

Agoraphobie.com:http://www.agoraphobie.com/

Sitesfrancophones:http://www.churouen.fr/ssf/pathol/etatanxiete.html

Depressão

Distúrbios do humor (afetivos) : www.dépression.ch

Estados limites em psiquiatria: tratamento (D. Marcelli): Suicídio Escuta - 24/24 http://suicide.ecoute.free.fr

Informações sobre o suicídio e as situações de crise: http://www.suicideinfo.org/french

Centro de Prevenção do suicídio: http://www.preventionsuicide.be

Associaçao Alta ao Suicídio: http://www.stopsuicide.ch

Suicídio : http://www.chu-rouen.fr/ssf/anthrop/suicide.html

Toxicomanias e Drogas

Drogas : http://www.drogues.gouv.fr/fr/index.html

S.O.S. RÉSEAUX : http://www.sosreseaux.com/

IREB - Instituto de pesquisas científicas sobre as bebidas: http://www.ireb.com/

ADDICA : Addictions Précarité Champagne Ardenne : http://www.addica.org/

INTERNET ADDICTION : conceito de dependência à Internete: http://www.psyweb.net/addiction.htm

Estupefiantes e conduta automobilística; as proposições da SFTA: http://www.sfta.org/commissions/
stupefiantsetconduite.htm

9. Qui sommes nous?

France-Psy est le nouvel espace virtuel de “Psychiatry on Line” offert aux internautes et aux professionnels du secteur de santé mentale au Brésil.

Notre but est de rendre plus aisé, l'accès à certaines publications en langue française concernant la psychiatrie, la psychologie et la psychanalyse.

Quem somos ?

FRANCE-PSY é o novo espaço virtual de “Psychiatry On Line” dedicado aos internautas e aos profissionais do setor da saúde mental no Brasil.

Nosso objetivo é de facilitar o acesso a certas publicações em língua francesa concernando a psiquiatria, a psicologia e a psicanálise.

O leitor é cordialmente convidado a dar a sua opinião sobre os assuntos acima tratados, propor temas ou questões para as colunas ulteriores, apresentar sugestões para melhorarmos o site, tornando-o mais convivial. A participação dos colegas seria extremamente importante para o autor desta coluna. Meus agradecimentos antecipados a todos.

Contacto: [email protected]

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