Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Novembro de 2005 - Vol.10 - Nº 11

Artigo do mês

PENSANDO ALÉM DAS CONSEQÜÊNCIAS...
PELA RESSUREIÇÃO DOS VALORES DO CAMPO DA PALAVRA.

Márcia Gonçalves
Prof. De Psiquiatria UNITAU
Mestrado e Doutorado - UNICAMP
Pós Doutorado - ITA
Autora do Livro, Religiosidade e Depressão
Perspectivas da psiquiatria transcultural

Quando a recusa em ouvir transcende a justiça e cai na vala do descaso.

As conseqüências podem ser mortíferas restritivas ou educativas... de acordo com a topologia do dano, que podem ser, respectivamente, irreparáveis, conflituosos ou discutíveis e passíveis de leituras simultâneas.

A conseqüências mortíferas, impedem que a vida siga seu curso... extinguem todas as possibilidades de reparação, e, esbarrando na densidade física, é perene... crava a realidade "in memorian"...  jazem na rarefação e na imobilidade, pois a vida não circula mais e encontra-se extinta em sua capacidade de recuperação e de criação... Aqui não se é possível um espaço para a abstração,e nem para palavra , pois a verdade esta próxima da materialidade.

A segundo tipo de conseqüência, restritiva, "rouba" o tempo daquilo que pode ser vivido... Improdutivamente ou em raras vezes paradoxalmente produtiva, perde-se o teor constitutivo da verdade e sob o amplo espectro do aspecto do equívoco e das interferências externas, não poupa a realidade do supérfluo e da parcialidade. A restrições deliberadas no processo de suspensão da ordem natural do que se tem por viver escamoteia a verdade, e aqui a verdade, por ser parcialmente inquestionável,   exibe uma geografia com poucos atalhos para reparação. Neste tipo de conseqüência apenas o tempo pode tornar-se o grande amigo,  virando as costas para a memória e reiniciando um novo caminho para as vivências plenas... já que a tendência natural da memória e guardar o prazer e apagar o desprazer.

O tempo pode reativar qualidades e diluir fatos deletérios com a força vivificante da compreensão e da consciência. Aqui o essencial da verdade pode ser redescoberto e revalorizado quando desfeitos os emaranhados equivocados das criticas infundadas e dos juízos elaborados sobre dados incompletos. Aqui, perde-se em viver através do tempo, mas ganha-se em compreensão... O tempo, apesar de remodelar o conflito arrasta a vida que pode ser inutilmente perdida por decurso...

 A conseqüência educativa tem tempo limitado de metabolização. Exibe caminhos e portas para reparação. Apesar de fruto do dano, na consequência educativa temos um dano reparável, superável e questionável quando observado sob diversas ópticas. Aqui existe a possibilidade de se indagar a veracidade dos fatos, e como Drummond em seu poema descreve "em um quarto a  verdade multifacetada resplandecia seus fogos... e carecia optar... conforme sua conveniência, sua visão ou sua miopia", Este tipo de conseqüência adorna o berço da possibilidade e relativiza a verdade dando oportunidade para a discussão ao se re-introduzir o campo da palavra ao processo de crescimento , engrandecimento e criatividade... Aqui existe a superação de dificuldades mediada pela palavra e um acréscimo em qualidade e compreensão para a vida que segue seus pulsos, incólume e placidamente, desde que ainda exista vida a ser vivida em seus múltiplos aspectos e tentáculos libidinais. Este tipo de conseqüência abarca pessoas, que Fernando Pessoa caracteriza... "Tudo vale a pena se a alma não é pequena..."

Aqui, certamente a palavra retoma seu lugar fora do ficcional podendo gerar novas conseqüências, que se remetem a outras. Este tipo de conseqüência restaura dos confins a vida em seu vigor... Vida enquanto energia potencialmente mantenedora do prazer. Sob o enfoque desta conseqüência o dito pode ter seu valor recuperado, e deve ser respeitado em sua expressão, posto que se traduz na verdade... Aqui a palavra integra a conseqüência e se torna conseqüência... Aqui a palavra também toma forma e tem característica de realidade deixando de ser discurso sonoro para se tornar verdade e integrar a realidade e a materialidade.

  Indo além das conseqüências...

As conseqüências podem ter suas topologias e graduações...

Moduladas pelo amor, de acordo com a qualidade de afeto e da pressa em se viver, sendo esta hoje confundida pelo ambiente caótico, com espaço fictício e em tempo real que a virtualidade impõe, podemos atravessar as fronteiras da conseqüência e se adiantando a ela, abordá-la em sua ante-visão (retrospectivamente).

Ao se usar a conseqüência na vertente educativa a palavra reedifica a forma do sentimento verdade(iro) e alicerça sob o vertiginoso tempo impalpável sua condição estruturante... O campo da palavra retorna a condição fora da virtualidade e do instantâneo fugaz, reconstituindo os vínculos reais de afeto e de aceitação do outro em suas múltiplas faculdades e limitações. Devolvendo a presença do que sempre foi, é e será, reintegrando a realidade ao que é verdadeiramente essencial, conjugando novamente o verbo do “para sempre”, essência da segurança, da confiança e do compromisso. Apenas na palavra pode-se erigir a consistência do porvir seguida ao menos de intencionalidade quando não de realidade, já que esta repousa na constante mobilidade .

A conseqüência educativa gera novamente o “sentimento”. Produz o “ além da conseqüência” e não se perde em emoções infrutíferas... Ela tem a capacidade de ofertar a oportunidade de reparação e de auto-aceitação, principalmente pela compreensão do dano e se abrindo espaço para a reparação do dano quando possível, pois ainda pode-se recriar em vida, o afeto genuíno e o amor.

Aqui a realidade não se modifica por não ser ouvida... Diante da falta do ouvido ela se mantém e continua a existir e se repete por diversas simbologias até que atinja algum sentido dos sentidos do interlocutor (abstrato-analista ou dual) . Aqui deve-se ter o cuidado para que o interlocutor-abstrato não empreste uma irreal aparência de conseqüência mortífera pois neste caso as perdas em se viver não mais seriam de responsabilidade do autor, mas daquele que inadvertidamente não quis ouvir... A inércia passa a ser de responsabilidade do interlocutor abstrato(ou analista)... Ao se negar a ouvir a verdade, este sim é que está morto e sem a vida,se um dia teve vida, criando apenas a morte do afeto e da esperança.

Ao se negar a ouvir e emprestar conseqüência equivocadamente mortífera, pode-se estar sendo parcial e injusto. Quando a palavra integra a realidade e esta coerente com o nível de consciência dos danos deve ser ouvida em sua plenitude, pois tem o poder de criação... A vida tem a capacidade da soma e de síntese e se identifica com a palavra que também modifica sua verdade e sua realidade com acréscimos e/ ou subtrações que perfazem um novo sentido...

Muitas vezes a única forma de se demonstrar verdade e reparar a realidade é através da palavra, o que nos remete a pensar que nem sempre o analista esta apto de deve “emprestar conseqüência” porque pode estar exercendo o papel de um juiz deliberadamente autoritário e injusto, parcial e irresponsável.

O interlocutor-abstrato ou analista deve identificar a priori qual é topologia do dano e qual o tipo da conseqüência que está sendo vivenciada, ou seja, mortífera, restritiva ou educativa .

A partir daí, sim, buscar sua posição e sua atitude não incorrendo em destruição do que ainda possui vida amorosa embutida em sua essência.

E desta forma não cair na vala da parcialidade injusta por omissão ou por imputabilizar o indivíduo em seus aspectos mais íntimos e dedicados do qual partilha em uma topologia abstrata e que não tem outra via para compreender sua verdade.

À figura do analista, ao “emprestar conseqüência” adentra e se posiciona na esfera da justiça humana que não é seu escopo fugindo da interlocução-abstracional do analista...

Em uma sociedade destituída de cultura e regida pela emoção mortificante não seja o interlocutor-abstrato (analista) mais um juiz que não abre espaço para o amor e aceitação do outro pela parcialidade de sua surdez destituída de amor ao próximo... ou a si mesmo... que é o mesmo.


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