Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Dezembro de 2004 - Vol.9 - Nº 12

História da Psiquiatria

Higiene Mental e a Imigração

Walmor J. Piccinini

O termo “Mental Hygiene” apareceu pela primeira vez em 1843 no livro do Dr. W.C. Sweetzer - Professor of Therapy and Practice of Physic at the University of Vermon.

“Mental Hygiene or na Examination of the Intellect and Passion Designed to Illustrate the Influence on Health on Duration of Life”. Cem anos depois, Isaac Ray, considerado o fundador da Psiquiatria Forense Americana, voltou a empregar o termo “mental hygiene”. Em 1908, Clifford Beers (The Mind that Found Itself), junto com Adolf Meyer e outros criou o National Comitee for Mental Hygine.

Os objetivos desse Comitê Nacional eram:

  1. Trabalhar para a proteção da saúde mental do público.
  2. Buscar melhorar o padrão de atendimento ao doente mental e para aqueles em perigo de se tornarem mentalmente desorientados.
  3. Promover o estudo de todos os tipos de doença mental e disseminar informação referente as suas causas, tratamento e prevenção.
  4. Obter de todas as fontes, informações para lidar com as doenças mentais.
  5. Envolver o auxílio do Governo Federal na extensão desejável
  6. Coordenar as agências existentes, ajudar na organização em cada Estado de Sociedades de Higiene Mental, aliadas, mas independentes.

Essa idéia americana espalhou-se pelo mundo. Os antigos alienistas, agora transformados em psiquiatras, não se conformavam com a crescente superlotação dos antigos asilos, agora denominados hospitais (início do século XX), adotaram com entusiasmo a idéia de prevenir as doenças, e, evitando que os seus portadores chegassem aos asilos - hospitais.

Gustavo Riedel foi quem trouxe essa novidade para o Brasil. Segundo suas próprias palavras registradas em Ata (14 de fevereiro de 1925): “Foi em novembro de 1922, em Havana, como delegado brasileiro ao Congresso Latino-Americano que, por iniciativa minha se organizou o Comitê Latino-Americano de Hygiene Mental, o qual a” Sessão de Governo” daquelle Congresso, determinou se reunisse conjunctamente com os referidos Congressos.

De volta da América do Norte, por indicação enthusiastica de Clifford Beers, o apóstolo do movimento em prol da Hygiene Mental no mundo, como o cognominou Toulouse, descrevendo no “Le Quotidien” a memorável sessão da Sorbonne do anno transacto, fui incumbido de fundar na América do Sul a primeira Associação de Medicina Social, o que se levou a effeito nos últimos dias de 1922 com a denominação de Liga Brasileira de Hygiene Mental, à qual o Governo em 1923 houve por bem, pelo Decreto 4.778 de Dezembro, reconhecer de Utilidade Pública e conceder-lhe para o exercício de 1924, uma subvenção de trinta contos de réis, convindo registrar o interesse com que se empenhou neste favor o consócio benemérito Deputado Oscar Soares “.

Em março de 1925 foi publicado o primeiro número dos Archivos Brasileiros de Hygiene Mental (que tenho em meu poder graças ao Dr. Fernando Portela Câmara do Rio de Janeiro). Nos Archivos estão publicados os Estatutos da Liga do qual extrai seus objetivos:

Capítulo I-Denominação, Organização, Sede e Fins da Liga

Art.1. - Sob a denominação de Liba Brasileira de Hygiene Mental, é constituída uma associação, com sede na cidade do Rio de Janeiro tendo por fins:

  1. Prevenção das doenças nervosas e mentaes pela observância dos princípios da hygiene geral e especial do systema nervoso;
  2. Proteção e amparo no meio social aos egressos dos manicômios, e aos deficientes mentaes passíveis de internação;
  3. Melhoria progressiva nos meios de assistir e tratar os doentes nervosos e mentaes em asylos públicos, particulares e fora delles;
  4. Realização de um programma de Hygiene Mental e de Eugenética no domínio das actividades individual, escolar, profissional e social.

A Liga se propunha ainda a atuar nos órgãos públicos, propagar as idéias sobre profilaxia mental, publicar os trabalhos em revista própria, realizar congressos e intercambio com congêneres nacionais e internacionais.

Participavam da Liga, profissionais de diferentes áreas, médicos, psicólogos, advogados, políticos e outros. Ela tinha três Presidentes de Honra:

Professor Juliano Moreira (Diretor Geral da Assistência a Alienados);

Professor Aloysio de Castro (Director da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro); Professor Miguel Couto (Presidente da Academia Nacional de Medicina);

Professor A Austregésilo (Professor de Clínica Neurológica da Faculdade de Medicina;

Professor Henrique Roxo (Professor de Clínica Psychiatrica da Faculdade de Medicina);

Professor Fernando Magalhães (Presidente da Soc. Med e Cir. Do RJ).

Professor Conde Affonso Celso (Director da Fac. De Direito da Univ. Do RJ).

O Primeiro Presidente da Liga foi o Dr. Gustavo Riedel como já foi citado, foi indicado pelo próprio Clifford Beers. Seu Vice foi o Dr. Plínio Olinto e o Secretário Geral foi o Dr. Ernani Lopes.

A Liga estava dividida em Secções, eram doze ao todo, com dez membros cada:

I - Secção de Dispensários e Egressos dos Manicômios.

II - Secção de Deficiência Mental.

III - Secções de Serviços Sociais e Legislação.

IV - Secção de Delinqüência.

V - Secção de Educação e trabalho Profissional.

VI-Secção do Ensino de Neuro-Psychiatria.

VII-Secção de Medicina militar.

VIII-Secção de Propaganda e Publicações.

IX - Secção de Puericultura e Hygiene Infantil.

X - Secção de Medicina Geral e Especializada em Suas Relações com o Sistema

Nervoso.

XI - Secção de Cirurgia Geral e Especializada em suas Relações com o Systema

Nervoso.

XII-Secção de Medicina Legal, Indigência e Vadiagem.

Os Delegados Regionais eram:

São Paulo. Dr. A C. Pacheco e Silva.

Bahia. Dr. Alfredo Britto.

Minas Geraes. Dr. Samuel Libanio.

Rio Grande do Sul. Dr. Raymundo Gonçalves Vianna.

Estado do Rio. Dr. Waldemar de Almeyda.

Pará. Dr. Porto de Oliveira.

Pernambuco. Dr. Ulysses Pernanbucano.

Parahyba do Norte. Dr. Sá e Benevides.

A Liga nasceu num momento de grandes realizações e questionamentos da sociedade brasileira. Abandonado o “racismo científico” que nos colocava irremediavelmente como um país sem futuro devido a nossa constituição racial, sob o impulso das ações de Oswaldo Cruz, Carlos Chagas e outros grandes sanitaristas, era adotada a idéia que nosso povo não era inferior, era doente devido à pobreza, a ignorância, o analfabetismo, o alcoolismo e a doença mental. Aplicava-se na psiquiatria as idéias de prevenção, de mudanças na maneira de pensar fatalista. Passou a predominar a idéia que a ciência iria resolver todos os nossos problemas. Os cursos de direito se chamavam Curso de Ciências Jurídicas e Sociais, alguns de seus mestres como Silvio Romero e Oliveira Vianna tiveram marcada ascendência em toda sociedade e nos médicos em particular.

“Silvio Romero, autor de uma famosa História da Literatura Brasileira (1888), localizava a identidade étnica do brasileiro na mestiçagem, física ou psicológica. Para ele, a influência africana era maior que a européia ou a indígena, o que faria a distinção entre o elemento nacional brasileiro e o das outras nações hispano-americanas. (Muniz Sodré: Uma genealogia das imagens do racismo)”. Muniz Sodré coloca a Liga como eugenista e racista. Essa é uma afirmativa que vem sendo utilizada por grande maioria de intelectuais de esquerda e a origem está na História da Psiquiatria Brasileira de J. Costa. Não aceitamos essas afirmações como verdadeiras, os diferentes membros da Liga tinham idéias divergentes e representavam ideologias efervescentes no conturbado período de entre guerras mundiais. Em 1930 tivemos a subida de Getúlio Vargas ao poder, em 1932 ocorreu a revolução constitucionalista de São Paulo. Logo a seguir houve duas tentativas de golpe, uma pelos comunistas e a outra pelos integralistas, temperando estas questões havia a presença forte da Igreja, os Estados com suas forças públicas que em alguns casos ameaçavam o Exército, tudo isso desaguou na ditadura de 1937 com a Constituição Polaca, cópia da constituição autoritária polonesa.

Vamos examinar um fato histórico que, muitas vezes, é apresentado como prova do caráter racista dos membros da Liga. A questão da imigração. No primeiro número dos Archivos, Juliano Moreira apresenta estatística mostrando que a proporção de internamentos de imigrantes estava crescendo, de 7212 alienados homens do Hospício Nacional, 2.258 eram estrangeiros, isso correspondia a pouco mais de 31% dos internados. Alegava Juliano Moreira que o Brasil, pela sua vastidão territorial durante muito tempo seria atrativo para imigrantes e propunha que, se examinasse com cuidado, os elementos que aqui chegassem. Propunha que, como os EUA e a Inglaterra, fossem estabelecidos critérios para impedir a entrada de elementos indesejados.

Antonio Carlos Pacheco e Silva de São Paulo preocupava-se com a possibilidade de certas “raças” virem a desequilibrar o processo de miscigenação brasileira, referia-se ele, especificamente aos japoneses. É interessante observar o que ele entendia por raça: “Deve-se assim, denominar raça o conjunto de uma população cujos caracteres psicológicos latentes ou manifestos (língua em particular) e ou traços antropológicos constituem no tempo (História) uma unidade distinta”.

Em relação à imigração japonesa ele se baseava numa premissa particular: “Realmente, a psicologia de um povo deve ser estudada a fundo antes de se permitir a sua fusão com outros grupos raciais, porque sua assimilação depende em grande parte da sua estrutura psicológica”. Na obra de Maurício de Medeiros, O Inconsciente Diabólico (RJ. Ed.José Olympio,1959) tem um artigo “O Problema da Imigração” que era a transcrição de uma conferência na LBHM. Maurício de Medeiros se apresenta como jornalista, médico e professor catedrático de psiquiatria na Universidade do Rio de Janeiro. Sua conferência foi inflamada e eu diria assustadora. Se fôssemos nos basear nela teríamos necessariamente de concluir que era racista e nazista. Isso é surpreendente, pois Maurício de Medeiros se considerava mulato e teve um filho, tenente da FAB, morto em combate nos céus da Itália. Sobre os perigos da imigração assim se manifestou: “Nós estamos importando a escória das ruínas de uma Europa convulsionada, material e mentalmente, por seis anos de guerra e doze anos de loucura coletiva”. Em relação à Lei Alemã de Eugenia de 1934 ele dizia que a Lei era meticulosa, prudente e rigorosamente técnica.”“.

“Manifestei na ocasião o meu entusiasmo por essa lei que não era destinada à esterilização dos Judeus, mas apenas aos degenerados mentais e portadores de doenças transmissíveis por herança”. “Não tenho a menor restrição a fazer ao meu entusiasmo de então! Se, na prática, os nazistas se utilizaram dessa lei para cometer o crime de esterilizar, sem a menor forma de julgamento, homens e mulheres sadios, somente porque eram judeus - isso foi um crime, como tantos outros que eles cometeram na sua loucura racista”. Esse tipo de ideologia, professada por Maurício de Medeiros, ocorreu já nos anos pós-guerra, década de 1950. A imigração japonesa começou em 1908 e foi vivida com muita decepção e sofrimento. Vieram para o Brasil, cerca de 280 mil japoneses que hoje estão perfeitamente integrados no nosso país.

Vou transcrever um histórico da imigração japonesa: Os japoneses: sonhos e pesadelos por Rui Kban Sano: In Trabalhadores, Publicação mensal do Fundo de Assistência à Cultura, Prefeitura Municipal de Campinas, 1989.

Rui Kban Sano, Professor de Sociologia da Faculdade de Economia, Administração e Ciências Contábeis Pe. Anchieta (Jundiaí) e mestrado em História pela Unicamp.

Era 18 de junho de 1908: “às vésperas do dia de São João os rojões subiam, explodindo estrondosamente. E ainda, balões navegavam no céu. Contemplando comovidos o espetáculo os imigrantes tiveram a ilusão de que o povo brasileiro lhes estava dando as boas-vindas”. Assim Tomoo Handa, autor de "O imigrante japonês", descreve a chegada do primeiro grupo de japoneses ao Brasil, a bordo do vapor Kasato Maru. Mas, anos depois, um canto-lamento circulava entre esses mesmos imigrantes vindos da longínqua terra do arroz e do imperador para a terra do café e do coronel:

“Mentiu quem disse o Brasil era bom,

Mentiu a Companhia de Emigração:

No lado oposto da terra cheguei,

Fiado no Paraíso, para ver o Inferno.

Do jeito como vão as coisas,

Não passa de puro sonho

O dia de retorno glorioso.

Já que o fim é a morte por inanição,

Melhor então é ser comido

Por onça, por bicho qualquer"

Expulsos do Japão

Iludidos ou não com o “paraíso brasileiro”, os japoneses vieram para cá porque não tinham meios de permanecer lá. No Japão, a desintegração das camadas rurais, que já vinha ocorrendo desde os meados de século XIX, acelerou-se com a chamada “Restauração Meiji” (1868) e sua política de industrialização e urbanização ultra-rápidas às custas do setor agrário.

De fato, para financiar essa modernização do Japão sem recorrer a recursos estrangeiros, optou-se por uma pesada taxação sobre a terra e a produção agrícola - o que para muitos pequenos proprietários, arrendatários e camponeses significou a deterioração ainda maior de suas condições de vida. São essas pessoas, colocadas à margem do processo de modernização do Japão, que foram procurar no além-mar novas perspectivas para suas vidas.

Assim, ainda em 1868, os primeiros imigrantes japoneses desembarcaram em Honolulu, no Havaí, para trabalhar nas plantações de açúcar. No mesmo ano, outros chegaram à ilha de Guam, uma possessão alemã. Com a incorporação do Havaí pelos Estados Unidos, estabeleceu-se o fluxo migratório de japoneses para a América: primeiro, para o oeste dos Estados Unidos como trabalhadores da frente pioneira; depois, nas indústrias madeireira e pesqueira do Canadá e do Peru; e, posteriormente, para o Brasil, como colonos nas fazendas de café.

Para o governo japonês, a emigração representava a possibilidade de aliviar as tensões sociais provocadas pela crescente marginalização de amplos setores da população, agravadas ainda mais pela explosão demográfica verificada na época. Não foi à toa que os primeiros contingentes de imigrantes tenham sido recrutados entre os desempregados e indigentes espalhados pelas cidades japonesas, sendo sua saída estimulada pelo governo. Para isso, fundaram-se as Companhias de Emigração - empresas privadas, mas com incentivo político-econômico do governo do Japão, podendo representá-lo junto a países contratantes de mão-de-obra. Eram elas que negociavam os candidatos, providenciavam os meios de transporte e se responsabilizavam pelo cumprimento dos contratos. Também eram elas que, para expandir seus negócios recrutando o maior número possível de candidatos à emigração, difundiam a imagem paradisíaca do país de destino.

Assim, os primeiros imigrantes que aqui chegaram acreditavam que tinham desembarcado no “Novo Eldorado”, a fantástica “terra das árvores de frutos de ouro”.

A questão da mão-de-obra

Se no Japão sobrava mão-de-obra, aqui, no Brasil, tentava-se resolver o problema de sua carência para a lavoura cafeeira, então em expansão. Com a extinção do tráfico de escravos, em 1850, e o fim da escravidão, em 1888, a solução encontrada foi a contratação em massa de imigrantes europeus. O que, no entanto, fugia ao controle dos idealizadores dessa política imigrantista era que grande parte dos que entravam no país logo abandonavam as fazendas, desiludidos com as péssimas condições de trabalho. Muitos retornavam à terra natal, outros procuravam os centros urbanos, ou, ainda, partiam para a Argentina. Se nos anos anteriores a 1900 a entrada dos imigrantes mantinha-se em níveis elevados, nos primeiros anos deste século eles saíram mais do que ingressavam. Levando-se em conta, que o café, apesar das oscilações, constituía o principal setor da economia brasileira - com uma estrutura ferroviária de escoamento devidamente assentada e com a ampliação de novas frentes de expansão no interior do Estado de São Paulo - pode-se dizer que a procura de mão-de-obra superava a oferta.

É justamente nesse período de maior carência de força de trabalho que os olhos dos cafeicultores voltaram-se definitivamente para o Oriente, e em particular, o Japão. Desse modo, em 1907, após algumas tentativas de negociação entre representantes oficiais do governo japonês e o governo do Estado de São Paulo, assinou-se, por pressão dos fazendeiros e em caráter experimental, um contrato com a Companhia Imperial de Emigração, do Japão.

Pelo acordo, a Companhia ficava autorizada a transportar 3.000 japoneses, em parcelas anuais de mil pessoas, cabendo ao governo de São Paulo subvencionar parte dos gastos com o transporte desses imigrantes.

Tudo contrariava o imigrante

A chegada, em 18 de junho de 1908, de cerca de 800 japoneses foi o primeiro resultado desse contrato. Esse primeiro contingente de trabalhadores, após rápida passagem pela Hospedaria dos Imigrantes, em São Paulo, foi assim distribuído no interior do Estado: Fazenda Floresta, na região de Itu (173 pessoas provenientes da ilha de Okinawa); Fazenda Canaã, a 40 km de Ribeirão Preto (152 pessoas, também de Okinawa); Fazenda Dumont, na estação Dumont da Mogiana (210 pessoas de Fukushima, Kumamoto e Hiroshima); Fazenda Guatapará, entre Ribeirão Preto e Araraquara (88 pessoas de Kagoshima, Kochi e Niigata); Fazenda São Martinho, na estação Martinho Prado da ferrovia Paulista (101 pessoas de Kagoshima); e Fazenda Sobrado, próxima a São Manoel (48 pessoas de Yamaguchi e Aichi).

A experiência, porém, revelou-se desastrosa. Com exceção da Fazenda Sobrado, que sempre gozou de boa fama entre os imigrantes japoneses, em todas as outras ocorreram sérios conflitos entre esses colonos e a administração. Também houve conflitos entre os imigrantes e os funcionários da Companhia Imperial de Emigração, acusada de ser responsável por tal situação. Indignados com as péssimas condições de trabalho, moradia e remuneração, os japoneses promoveram sucessivas greves, fugas noturnas e rescisões de contrato em cada uma das fazendas.

Na Fazenda Dumont - considerada a maior plantação de café, de propriedade de Henrique, pai de Santos Dumont -, 52 famílias retornaram à Hospedaria dos Imigrantes e, por meio do departamento Estadual do Trabalho, foram realocados em outros empregos, em outras localidades. Na Fazenda São Martinho, após a ocorrência de motins, greves, revoltas e fugas, sete famílias foram expulsas. Em solidariedade, mais 12 famílias abandonaram a fazenda. Segundo Tomoo Handa, tudo contrariava o imigrante “desde a alimentação, a moradia, o clima e a atmosfera da fazenda, até o jeitão de superioridade do administrador, a arrogância do fiscal e o mau atendimento do intérprete”.

Também houve divergências entre os próprios japoneses. Os cafeicultores haviam estabelecido uma exigência contratual de permitir a entrada somente a famílias constituídas de, pelo menos, três membros de 15 a 50 anos de idade, acreditando com isso facilitar a adaptação dos imigrantes às fazendas e dificultar-lhes as fugas e as rescisões de contrato. Essa exigência, no entanto, foi burlada por um engenhoso expediente: a formação de “famílias artificiais”, na ocasião do embarque. Na maioria das vezes, essas “famílias” se desagregavam tão logo cumprido o prazo do contrato e até mesmo antes do seu término. Devido às dificuldades de relacionamento, os membros “artificiais” rebelavam-se contra a tutela do “chefe de família”, abandonando as fazendas para procurar outras formas de atividade econômica.

O balanço final da primeira experiência com os imigrantes japoneses é, desse modo, revelador: dos 772 japoneses distribuídos pelas fazendas, 430 tinham se retirado após 6 meses e, 13 meses depois, apenas 191 permaneciam no mesmo local. Devido a esse malogro, o governo do Estado de São Paulo tentou cancelar o contrato de 1907, o que não foi feito: as Companhias de Emigração comprometeram-se a fazer uma melhor seleção dos trabalhadores e a aceitar uma série de novas cláusulas contratuais para evitar greves,fugas e retiradas antes do prazo estipulado. Mesmo assim, os resultados obtidos foram escassos. Em 1912, por exemplo, 62% dos trabalhadores japoneses abandonaram as fazendas sem cumprir os contratos.

Ser proprietário, uma obsessão.

Esses japoneses, em sua grande maioria, encaravam a imigração de modo estritamente instrumental: a idéia era trabalhar alguns anos no exterior, onde acumulariam uma quantidade de capital suficiente para melhorar a situação de suas famílias quando retornassem ao Japão. Em geral, eram solteiros e tinham uma orientação sócio-cultural voltada para o país de origem.

Não era possível, no entanto, continuar alimentando o sonho de regresso após o enriquecimento enquanto eles permanecessem na condição de trabalhadores assalariados nas fazendas de café. A saída foi então procurar outras formas mais rentáveis de atividade econômica. Desse modo, muitos dos antigos colonos tornaram-se contratistas, isto é, formadores de cafezais. Segundo Zenpati Ando, em seu livro Estudos sócio-históricos da imigração japonesa, “o trabalho de contratistas ou formador de café era uma espécie de empreitada para a formação de cafeeiros, num período de 4 a 6 anos. Era um trabalho de derrubar, queimar e limpar as matas, semear e cuidar dos cafezais. Cada família empreitava de 4.000 a 8.000 pés, conforme o número dos braços disponíveis. (...) Com o fito de ajudar a sua receita o formador podia fazer as culturas intercaladas de arroz e feijão entre os cafeeiros, revertendo o produto total em seu favor. Quando o café começa a produzir, o que ocorre a partir do quarto ano, a colheita inicial também revertia em benefício do formador; embora esta fosse reduzida.

Findos os 4 anos, os cafezais eram entregues aos fazendeiros quando os contratistas recebiam um tanto pela formação de cada pé. O contrato de formação durante quatro anos era acessível mesmo aos colonos que quase não possuíam capitais, pois eles podiam ir vivendo com a receita obtida das culturas intercaladas”.

Foi na região de Araraquara que ocorreu o primeiro trabalho de contratistas para a formação de cafezais envolvendo imigrantes japoneses. Em 1912, o administrador da Fazenda Guatapará comprou uma grande extensão de terra e encarregou 40 famílias japonesas a formar e cuidar do cafezal.

Posteriormente, em 1916, essas famílias adquiriram terra em conjunto, tornando-se o primeiro núcleo de proprietários japoneses plantadores de café. O trabalho como contratistas na formação de cafezais foi uma forma eficiente encontrada pelos japoneses para acumular poupança e passar da condição de colonos à de pequenos proprietários.

Quando isso se deu, a idéia de retorno ao Japão começou a perder sua força. A obsessão em adquirir terras levou os japoneses a multiplicarem sua jornada de trabalho nas culturas independentes. Era muito comum entre os colonos brasileiros à acusação de que os japoneses eram pecadores, pois não respeitavam as folgas nem os dias santos. Segundo Tomoo Handa, a enxada tornava-se o instrumento mais importante para o trabalhador japonês, adquirindo o significado equivalente ao da espada dos samurais: uma verdadeira arma de guerra.

Banzai, Banzai

“A banda começou a tocar. Os alunos das escolas primárias alinhados apertadamente no molhe dos cais abriram simultaneamente as bandeirolas que até então haviam conservado enroladas. Eram bandeiras japonesas.

Agitando-as ao som da banda as crianças começaram a cantar:

Vamos companheiros, além-mar

Para o Brasil, um país meridional...

Para a futura fortuna elaborar

Corajosos colonizadores pioneiros...

Então, os imigrantes começaram, todos, a gritar: Banzai, Banzai (viva, viva). Os escolares alinhados nos cais eram alunos das escolas primárias de Kobe, trazidos pelos professores, toda vez que partia um navio de imigrantes “.

Assim narra Tatsuzo Ishikawa em seu romance Sooboo. O clima de partida já era outro, triunfal, quase guerreiro: nesses navios, além de trabalhadores, embarcavam grande quantidade de capital para financiar os projetos de colonização no Brasil, com o objetivo de produzir matéria-prima em larga escala para o mercado japonês.

Era, de fato, quase uma operação militar. A partir da segunda metade dos anos 20, em consonância com os ideais expansionistas que ganhavam impulso no Japão na época, a emigração passou a ser politicamente orientada: assim, em 1924, quando os Estados Unidos fecharam definitivamente as portas para os japoneses, o Parlamento japonês aprovou a concessão de um subsídio integral da passagem marítima para os trabalhadores que se destinavam ao Brasil. Já no ano seguinte, segundo Francisca I. S. Vieira, o “Brasil é para o Japão, não apenas praticamente o único país recebedor de emigrantes, mas também mercado potencial para investimentos. O capital japonês buscava novos mercados para investir fora da Ásia e a ação combinada do governo e dos capitalistas imprime novas características à política migratória japonesa no Brasil”.

Em nome da “expansão da raça japonesa para o além-mar”, com forte conteúdo nacionalista e militarista, os navios partiam mês a mês, transportando até 1.500 imigrantes por vez para o porto de Santos. Ao todo, entre 1925 e 1935, chegaram ao Brasil 141.732 japoneses, enquanto no período anterior, de 1908 a 1924, haviam entrado 34.899. Desse modo, multiplicaram-se os núcleos de colonização japonesa em São Paulo e no Paraná. As Companhias de Colonização, criadas especialmente para organizar e desenvolver tais núcleos, adquiriam grandes glebas de terras, repassando-as em pequenos lotes para os imigrantes. Elas também financiavam a produção, abriam estradas e escolas, instalavam serviço médico, além de sanear zonas insalubres. O desenvolvimento do Norte do Paraná, da Alta Paulista (região de Marília) e da região Noroeste do Estado de São Paulo está diretamente relacionado com a ação dessas companhias.

Esse período, de 1925 a 1935, é por isso considerado a fase mais próspera da imigração japonesa no Brasil. Boa parte dos imigrantes tornou-se proprietário e os núcleos japoneses alcançaram grande desenvolvimento.

Pode-se dizer que nesses núcleos - que os japoneses chamavam, com seu sotaque peculiar, de “corônia” - os imigrantes conseguiam manter, em linhas gerais, tanto do ponto de vista social quanto cultural, o mesmo tipo de vida que levavam nas comunidades rurais de origem.

O Perigo amarelo

“Não há mais remédio para o mal”, lamentava em 1934 o deputado constituinte Félix Pacheco, a respeito da “indigestão japonesa”. “Tudo agora, aqui, é Japão, a propósito e sem propósito, todas as semanas, todos os dias, nas seções pagas e não pagas dos jornais, em livros de edições apuradas e reedições caras, em viagens, em conferências, em telegramas, em entrevistas com retratinhos e dados de toda a ordem”. O médico Miguel Couto também alertava para o perigo da “japonização do Brasil” e da transformação da Amazônia na “Nova Manchúria”, e liderou uma campanha antinipônica na Assembléia Constituinte de 1934, que acabaria por aprovar a limitação da imigração japonesa. Em conseqüência, entre 1936 e 1950, entraram apenas 14.662 japoneses, ficando o fluxo migratório interrompido de 1942 a 1945.

Essa ofensiva contra o expansionismo japonês foi também parte da política nacionalista implementada na época pelo governo Vargas. Com o golpe de estado, em 1937, que implantou o chamado “Estado Novo”, a ditadura de Vargas desencadeou a nacionalização forçada de tudo o que tivesse coloração estrangeira. Os grandes alvos foram os núcleos de colonização japonesa, agora chamada de “quistos raciais”. A língua japonesa foi proibida de ser falada em locais públicos; escolas e jornais japoneses foram fechados; livros confiscados, e as pessoas que fossem flagradas cometendo tais delitos eram imediatamente presas e enquadradas na lei.

Em 1942, o Brasil declarou guerra aos países do Eixo (entre eles, o Japão). Em conseqüência a situação dos imigrantes japoneses tornou-se aterrorizante. Pessoas eram presas, casas invadidas e fabricavam-se em série “quintas-colunas” (traidores e espiões). Todo japonês tornou-se um inimigo em potencial. Em setembro do mesmo ano, inspirando-se na política de “evacuação” instituída nos Estados Unidos, ordenou-se a “desocupação” da área da Rua Conde de Sarzedas, em São Paulo, onde havia grande concentração de japoneses. Em julho de 1943, iniciou-se a desocupação em massa do litoral paulista, como narra Tomoo Handa: “era noticiado o início da evacuação para interior de cerca de dez mil famílias de pessoas oriundas do Japão e da Alemanha que habitavam no litoral do Estado de São Paulo. (...) No dia 12 de julho, 4 mil japoneses vindos da região de Santos já haviam passado pela Hospedaria dos Imigrantes de São Paulo para se dirigir à Noroeste, à Alta Sorocabana e à Alta Paulista”. Estranha e trágica passagem pela Hospedaria dos Imigrantes, que então servia de prisão aos imigrantes acusados de traição e espionagem. Anos atrás, ao passar pela mesma Hospedaria, os imigrantes traziam consigo seu sonho de Eldorado. Agora, presos na hospedaria -cárcere, qual o conteúdo de seus pesadelos?

Indiscutivelmente o movimento antijaponês era liderado por Miguel Couto, seus escudeiros eram muitos: Xavier de Oliveira, Pacheco e Silva, Maurício de Medeiros entre outros. A Biografia de Miguel Couto é rica em realizações. Tomamos a liberdade de publicar uma pequena biografia que encontramos na página da Biblioteca Virtual Carlos Chagas.

Miguel de Oliveira Couto nasce na cidade do Rio de Janeiro em 1° de maio de 1864. Diploma-se pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (FMRJ) em 1885, com tese de doutoramento sobre “A etiologia parasitária em relação às Moléstias infecciosas".

Paralelamente à sua atividade como clínico, inicia carreira docente na FMRJ em 1891, substituindo na cátedra de Clínica Propedêutica o recém-falecido Francisco de Castro, um dos mais eminentes professores da escola. Promove ampla Reforma no ensino dessa disciplina, criando laboratórios para exames e pesquisas Médicas. No ano seguinte, passa a encarregar-se de uma enfermaria na Santa Casa De Misericórdia, instituição na qual se tornaria chefe do serviço clínico.

Em 1898, é efetivado, por concurso, como catedrático da FMRJ, assumindo em 1911 a cátedra de Clínica Médica. Em 1914, é eleito presidente da Academia Nacional de Medicina, cargo de grande projeção nos meios médicos e que ocuparia durante 20 anos, até a sua morte.

Couto é amplamente reconhecido com um dos mais ilustres médicos de sua Época. Além de renovar as práticas correntes da clínica no país, adequando-as aos novos conhecimentos científicos produzidos pela evolução da medicina experimental, realiza importantes pesquisas farmacológicas sobre o valor Medicinal da flora brasileira e também sobre doenças como a febre amarela e a Malária.

Além da Academia Nacional de Medicina, participa de diversas associações Médicas, nacionais e estrangeiras, dentre as quais as Sociedades de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro e de São Paulo, a Sociedade de Neurologia, Psiquiatria e Medicina Legal do Rio de Janeiro, a Société de Pathologie Exotique de Paris, as Academias de Medicina de Paris, de Buenos Aires, de Havana e de Berlim, a Real Academia de Roma e a Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa.

Couto interessa-se também por temas de destaque no debate político e intelectual da época, realizando estudos sobre a educação, a imigração e o serviço militar obrigatório. Em 1916, é eleito para a Academia Brasileira de Letras e, em maio de 1933, elege-se deputado à Assembléia Nacional Constituinte, pelo Distrito Federal, na legenda do Partido Economista. Membro da Comissão de Saúde da Assembléia, não chega, todavia, a concluir seu mandato, pois falece em 6 de julho de 1934 no Rio de Janeiro. Biblioteca Virtual Carlos Chagas.

Se existiam vozes contrárias a imigração japonesa dentro da Liga, existiam, também, vozes ponderadas e amistosas. Graças a diligência da Professora Ana Maria Raymundo Oda da UNICAMP e da pesquisadora Lazara Carvalhal que recuperou um material que estava em más condições, conseguimos um artigo de Juliano Moreira, Presidente de Honra da Liga Brasileira de Higiene Mental.

MOREIRA. Juliano. Impressões de uma viagem ao Japão em 1928. Rio de Janeiro. Oficinas Reginaldo Neustadt. 1935.

Convém ao Brasil a imigração japonesa?

Dentre os povos do Oriente o que melhor se adaptou aos chamados progressos do Occidente foi incontestavelmente o japonez. Em todas as sciencias e até nas artes majores como nas menores, são inúmeros os filhos do Japão que têm distinguido, como demonstram as reiteradas contribuições por elles publicadas, quer em revistas européas e norte-americanas, quer em revistas japonezas escriptas não só na língua daquelle paiz. Mas também em allemão, inglez. Francez e ultimamente o esperanto.

A circumstância de procurarem elles escrever em uma das chamadas línguas universaes demonstra nem só que elles desejam dar ao mundo seu contingente de trabalho intelectual como ainda que não se esquivam à ação disnacionalisante do intercambio de idéas com outros paizes.

Assim sendo, não sei porque não nos conviria a immigração japoneza ?

Não vejo inconveniente na localisação dos japonezes no valle do Amazonas, sobretudo se ao Governo brasileiro occorrer installar nas proximidades dos colonos japonezes núcleos de gente nacional ou proveniente de outros paizes de origem occidental. O essencial será o desbravamento, sem dúvida que la afluirão elementos de outra origem. Tornando dentro em pouco mais habitáveis aquellas regiões que actualmente tanto amedrontam operários e trabalhadores de toda a espécie e de todas as origens

Os artigos de propaganda contra a emigração para aquella região existem em todas as línguas de povos que por excsso de população necessitam emigrar.

A propósito do cruzamento do japonez com o nacional, conheço um número considerável de japonezess casados com estrangeiras: inglezas. francezas. belgas. allemães. italianas e brasileiras etc

Os productos destes casamentos são do ponto de vista occidental incontestavelmente mais bellos do que o comum do tipo japonez.

A capacidade de nacionalização desses productos ao paiz do progenitor não japonez é tão grande quanto a de qualquer outro povo. Dependendo apenas da capacidade de assimilação deste ou daquelle paiz.

Temer a imigração japoneza com receio de que não a assimilação, é descrer da capacidade do brasileiro de incorporar o alienígena. .

E esta capacidade é ao meu ver. Inconteste. Não ser talvez o inglez, todos os outros povos andam ahi diluídos em nossa população. Ás vezes até com perda completa das características mais frisantes dos seus ascendentes, com a aquisição dass qualidades e até infelizmente, dos defeitos de nossa gente.

E isso augmenta cada vez com o aumento paralelo de nossa confiança em nossa nacionalidade.

Ora se os Schmidts e os Müllers, os Wagners e Hagendorns, os Hasslocher, os Graffées e Guinles, os Porchats e Frontins, os Smiths e Darcys, os Dodworths e Himes, os Marchesinis e Sicilianos, etc, etc. foram nacionalizados, porque não o hão de ser os japonezes se os não isolarmos nos do convívio do resto da nacionalidade brasileira.

Eu mesmo já conheço filhos de japonezes que não falam a língua de seus paes. Só conhecem nossa língua. E' claro que no Japão há publicistas inquietos pela possibilidade da perda dos elementos emigrados em favor dos paizes que os recebem.

O mesmo, porem, incorre em relação aos outros povos que são obrigados a emigrar.

Os remedios indicados para evitar essa occurrencia felizmente nenhum resultado tem dado.

Os paizes que recebem os immigrantes vão assim aproveitando os elementos que lhes chegam tratando arenas os mais avisados de fazer a seleção individual dos advenas.

Caso se verifique este cruzamento as conseqüências serão boas e até excellentes se se cruzarem bons elementos de um e outro grupo, por isso que os typos resultantes dos cruzamentos estão quasi sempre em relação às qualidades dos elementos que se cruzam. Do estudo que há muito venho fazendo sobre cruzamentos em nosso paiz, veio-me a convicção de que não devemos tirar regras absolutas condenatórias taes cruzamentos.

Sob o ponto de vista biológico e social não condemno a imigração japoneza, pelas razões já allegadas, assim como porque sob o ponto de vista biológico, estou certo de que o japonez da segunda geração em deante, nascido no Brasil, será um brasileiro tão afastado do tipo original como o filho e neto do portuguez, do hespanhol, italiano, allemão, etc, nascido no Brasil que não se julgam mais ligados, senão excepcionalmente. A pátria de seus paes e avós.

Do ponto de vista social não vejo o perigo daquella immigração, porque se em seu paiz de origem são os japonezes da máxima tolerância para as creanças uns dos outros. Quanto mais os seus filhos nascidos em terras em que essa tolerância também existe!

Muitos suppõem que no Japão só há budhistas e shintoistas. É certo que assim não é por isso que a propaganda christã ali iniciada por 'S. Francisco Xavier deixou vestígios inapagáveis e actuallmente ninguém irá fazer desapparecer do solo japonez as religiões christãs.

Grande injustiça faz ao Brasil quem dos factos occorridos na Coréa tira conclusões a nós desfavoráveis. Em primeiro logar a proximidade entre o território japonez e a Coréa torna incomparáveis os dois casos. Em segundo logar todo aquelle recanto da Ásia, cujo atraso era enorme não tem senão tirado lucros inestimáveis do interesse japonez pela sorte daquella região.

Alem disto é sabido que desta mesma região provieram muitos elementos constituintes do japonez da atualidade. Circunstancias estrategicas, defesa do próprio Japão, explicam de sobra à necessidade de interessar-se esse país pela sorte da Coréa.

Eis aqui o que sinceramente penso destas questões, de accordo com as convicções que cheguei a ter sobre o assunto.

(continua)


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