Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Outubro de 2004 - Vol.9 - Nº 10

História da Psiquiatria

A Casa da Lapinha e outras histórias

Walmor J. Piccinini

 

 

Nesse mês de outubro no ano da graça de 2004 a psiquiatria brasileira reuniu-se na Bahia. Milhares de participantes e entre eles um veterano psiquiatra, George Alakija, que aos 81 anos, cercado de amigos e admiradores autografou um livro sobre a história da psiquiatria Baiana. Conta ele, numa escrita cuidada e carregada de afeto, a história do Sanatório Bahia fundado por Luiz Cerqueira em 1944, exatamente no mês de fevereiro, no Largo da Lapinha n* 27, daí seu codinome Casa da Lapinha. Alakija dedica seu livro a família em primeiro lugar e a três amigos que trata carinhosamente de o louco, o homem do morro e o conde. São eles os hoje admirados psiquiatras brasileiros Luiz Cerqueira, Nelson Pires e Álvaro Rubin de Pinho. Não preciso explicar a quem cabia tal ou qual alcunha, pois a história deles, sobejamente conhecida, permite dedução imediata.

A história da psiquiatria brasileira tem inúmeros exemplos de psiquiatras com suas famílias convivendo diariamente com os doentes mentais, porém, a utilização dessa vivência com fins terapêuticos e de ensino o número fica restrito. A Casa da Lapinha no período de 44 a 48 sob a direção de Luiz Cerqueira e a Clínica Pinel de Porto Alegre nos anos 60, sob a direção de Marcelo Blaya. Tocou-me especialmente, um trecho do prefácio do livro de Alakija: “Somos da época do” fogo criador “. Refiro-me à época onde uma estrutura de família unida sobrepujava aquela outra de empresa. Juntos irmanados lutávamos pelo doente mental; não só os médicos, mas grande parte dos demais funcionários demonstravam acentuado interesse pelos seus respectivos trabalhos. Não estavam ainda contaminados pela análise fria de direitos e deveres sob a égide das famigeradas leis trabalhistas”.

O Sanatório Bahia dispunha de 30 leitos e o lema defendido por Cerqueira era que; “o doente mental está sempre em primeiro lugar”. Seu primeiro estudante interno foi Álvaro Rubim de Pinho e o segundo foi George Alakija, o terceiro foi Érico Novais Filho.Poderíamos citar outro interno querido de todos que é o ativo Gabriel Cedraz Nery. “Morar no Sanatório Bahia era uma opção: Rubim e Érico a fizeram porque não tinham família em Salvador. Meu caso foi diferente. Minha família residia perto daquela casa de saúde, no Bairro do Barbalho. Mesmo assim era mais cômodo usufruir tão bendita hospedagem: casa, comida, roupa lavada, curso de especialização e um pequeno salário mensal, Quando nos tornamos médicos ainda tivemos a permissão de utilizar dependência apropriada do nosocômio como consultório, sem que nada fosse cobrado. O que Luiz Cerqueira queria era ter sempre médicos no sanatório, independentemente do plantonista”. Em 1946 veio transferido para a Bahia o Capitão do Exército Nelson Pires que também passou a morar no Sanatório. Alakija lança a hipótese que sua mudança para a Bahia não teria sido ocasional e que ele já estava de olho na cátedra que veio a conquistar em 1953. Outro nome expressivo que freqüentou o Sanatório Bahia em 1947-48 foi o Professor Emílio Mira y Lopez. Vamos ao relato de Alakija. “Entre os psiquiatras de fama internacional havia um que nos era muito simpático: Emílio Mira y Lopez. Professor catedrático da Universidade de Barcelona teve que fugir da Espanha por motivos políticos. Veio para o Brasil, foi para o Rio e acabou se fixando na Bahia. Conheceu Nelson Pires e foi por ele levado ao Sanatório Bahia. Em menos de um mês gozávamos da sua companhia, com freqüência. Ele e Nelson se tornaram amigos e este para ajudá-lo financeiramente, começou a encaminhar pacientes da burguesia baiana para ele”. A presença de tão ilustre figura durante os anos de 47-48 foi marcante na vida dos jovens médicos e acadêmicos que freqüentavam o Sanatório. O livro de George Alakija aborda outros aspectos interessantes das personalidades envolvidas e descreve os rumos do sanatório da Bahia depois da saída de Cerqueira em 1948. A queda de Nelson Pires em 1956, por fim sua profissionalização e crescimento com Sílio de Andrade.

Sobre o autor extraio do prefácio de Lamartine Lime o seguinte trecho: “O Dr. George Alakija, mais antigo e dos mais representativos entre os psiquiatras em exercício na Bahia, condecorado com a Ordem do rio Branco pelos seus altos méritos culturais e pelo exemplo na integração étnica brasileira e nas relações internacionais com países africanos, há mais de vinte anos tomou posse na cadeira sob a égide do grande Juliano Moreira, conterrâneo e mestre da especialidade no Instituto Bahiano de História da Medicina”.

Cerqueira exigia respeito, convivência, participação na vida diária do hospital e sempre estava cheio de idéias inovadoras. Na comparação que faço com a experiência da Clínica Pinel é necessário partir de outros parâmetros. Enquanto Cerqueira vinha de Sergipe onde trabalhava num macro hospital. Marcelo Blaya iniciou sua experiência inovadora vindo dos estados Unidos da América onde permaneceu quatro anos em formação na Clinica Menninger de Topeka, Kansas. A Clínica Menninger era, na época, a mais inovadora das experiências de atendimento hospitalar psiquiátrico. Blaya trouxe para o país a idéia do hospital de orientação dinâmica, o trabalho em equipe psiquiatra, a idéia de comunidade terapêutica, os grupos operativos, os novos psicofármacos. A semelhança com a experiência de Cerqueira foi reunir colaboradores que viviam o hospital. Nos fins de semana os psiquiatras e colaboradores iam com suas famílias confraternizar com os pacientes. Blaya ia com suas três filhas (hoje, uma é patologista, outra é psicanalista e a mais nova é psicóloga e dirige a atual Clínica Pinel) pequenas, os demais com esposas e namoradas. Esse também foi nosso período de “fogo criador” como bem cita Alakija. Essas semelhanças aproximaram Luiz Cerqueira de Marcelo Blaya e fez com que, quando Cerqueira lançasse seu livro sobre Psiquiatria Social, Blaya fosse seu prefaciador. Nós, mais jovens, sempre contamos com a amizade e o estímulo de Cerqueira e muito aprendemos com Marcelo Blaya, mas isso fica para ser contado em outra ocasião.

Bibliografia: Alakija, George. A casa da Lapinha - Fragmentos históricos da Psiquiatria Bahiana. 2004. Editora EGBA ([email protected]) Fone: 71 380-2850/2806.


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