Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Julho de 2004 - Vol.9 - Nº 7

História da Psiquiatria

Antonio Carlos Pacheco e Silva (1898-1988)

Walmor J. Piccinini

Momentos de um grande realizador.

1919-20. Formatura na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e estágio no Serviço do Prof. Pierre Marie em Paris.

1920. Contratado para organizar o Laboratório de Biologia e Anatomia Patológica do Hospício de Juqueri.

1922. Dirige o Pavilhão de Menores anormais. (Em 1930 esse pavilhão recebe seu nome).

1924. Edita “Memórias do Hospício de Juqueri” (1924-1935).

Edita ainda os Arquivos Paulistas de Higiene Mental (1928-1930).

Em 1936 edita os Arquivos da Assistência a Psicopatas do Estado de São Paulo.

Em 1972 é co-editor da Revista de Psiquiatria Clínica do IP/USP.

1926. Visita de observação e estudos aos Estados Unidos da América. No retorno institui as reuniões clínicas semanais no Juqueri, nos moldes dos “grand rounds” americanos.

1927. Cria o Manicômio Judiciário e São Paulo.

1933/34. É indicado como Deputado Constituinte por São Paulo.

1934. É contratado pela Fac. De Medicina da USP.

1935. É contratado como professor de psiquiatria da nova escola de medicina de São Paulo. A Escola Paulista de Medicina. Em 28.07.35 dá a Aula Inaugural da nova escola.

1936. É vencedor do concurso para professor catedrático da Fac.de medicina da USP.

1937. Deixa o Juqueri optando pela USP.

1939. Recebe o Prêmio Oscar Freire de Criminologia.

1941. Participa do 97o. Congresso Americano de Psiquiatria em Richmond, Virginia.

1950. Participa do I Congresso Internacional de Psiquiatria em Paris.

1952. Inaugura o Instituto de Psiquiatria da FMUSP que hoje leva seu nome.

1966. Participa da fundação da Associação Brasileira de Psiquiatria e é eleito para seu Comitê Executivo.

1967. É eleito Presidente da ABP

1968. Jubila-se como professor de psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP.

1972. Participa da fundação da Revista de Psiquiatria Clínica

1977. Participa do Congresso Mundial do Hawai como representante brasileiro.

A organização de um banco de dados sobre a psiquiatria brasileira tem me permitido coletar informações sobre todos os psiquiatras brasileiros do presente e do passado. Nesse país sem memória nos propomos a resgatar a obra e as idéias dos nossos grandes psiquiatras. Pacheco e Silva o celebrado professor da cadeira de psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP é o objeto de nossa pesquisa. A grandeza da sua obra é facilmente constatável pelos frutos que dela decorreram. O Instituto de Psiquiatria Antonio Carlos Pacheco da Silva por si só justificaria uma vida, mas ele fez muito mais o que esperamos transmitir aos  psiquiatras brasileiros.

A maioria das informações,foram extraídas do próprio biografado que nos deixou inúmeros livros, publicações técnicas e artigos de jornais. Pouco foi escrito  sobre Pacheco e Silva e esse fato é por demais surpreendente considerando sua presença marcante na psiquiatria de São Paulo e do Brasil em grande parte do século XX.  Suas realizações mereceriam uma alentada biografia o que foge das ambições desse meu artigo.

A psiquiatria paulista começou no Hospício Provisório de Alienados inaugurado em 1952, com nove pacientes, a maioria criminosos ou com problemas legais. O hospício tinha uma administração leiga, seu administrador era o Sr.Thomé Alvarenga que o dirigiu auxiliado por seu filho Frederico. Em 1864 o hospício foi transferido para uma chácara na Ladeira de Tabatingüera e recebeu o nome de  Hospício de Alienados.

Em 1895 começou a trabalhar nesse hospício um jovem médico formado na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, o Dr. Francisco Franco da Rocha (http://www.polbre.med.br/ arquivo/wal0403.htm). Em 1898, Franco da Rocha constrói o Hospício de Juqueri. Nesse ano, em 29 de maio, nascia Antonio Carlos Pacheco e Silva.

A formação médica ocorreu no Rio de Janeiro e seu interesse estava voltado para a neuropatologia. Junto com outros psiquiatras latino-americanos estagiou em Paris no Serviço do Professor Pierre Marie(http://www.polbr.med.br/arquivo/0404.htm). No seu retorno a São Paulo foi convidado a organizar o Laboratório de Biologia e Anatomia Patológica do Juqueri. Franco da Rocha, além da administração do Juqueri, (que em 1907 já tinha uma população de 900 insanos), assumiu a cadeira de Neuriatria e Psiquiatria da Faculdade de Medicina de São Paulo, inaugurada em 1918. Acometido de uma enfermidade que o impossibilitou de continuar a tarefa de dirigir o hospício, Franco da Rocha escolheu A C. Pacheco e Silva como seu substituto. Dessa forma, em 1923 Pacheco e Silva assume o hospício de Juqueri, já com uma população de 1.600 doentes. Feito notável para um jovem com 25 anos de idade.

Pacheco e Silva dirigiu, o Hospício de Juqueri no período de 1923 a 1937 e suas realizações podem ser encontradas no seu trabalho de candidatura à cátedra de psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. “A Assistência a Psicopatas no Estado de São Paulo”. O trabalho foi apresentado em 1936 e teve uma publicação em 1945. (Composto e Impresso nas Oficinas Gráficas da Assistência a Psicopatas. Juqueri, São Paulo. Brasil).

Por qualquer ângulo que se olhe a obra do professor Pacheco e Silva, ela apresenta marcos significativos. Uma das suas primeiras realizações foi editar, em 1924, a Revista  “Memórias do Hospital de Juqueri” Essa revista foi publicada no período de 1924-1935. Depois dela editou os Arquivos de Assistência a Psicopatas do Estado de São Paulo. Finalmente, em 1972, participou da criação da Revista de Psiquiatria Clínica, ligada ao Instituto de Psiquiatria da USP.

No Juqueri, ao lado das tarefas de construtor e administrador, contratou um emigrado russo que conheceu no Serviço do Prof. Pierre Marie, e foi assim que, com  profícuo trabalho e os conhecimentos de Constantin Trétiakoff, desenvolveu o Laboratório de Biologia e Anatomia Patológica do Juqueri. Essa era a vocação do Professor Pacheco e Silva, o estudo do cérebro, das bases biológicas das patologias psiquiátricas. Já no fim da vida propôs a fundação do Instituto Nacional do Cérebro.

Com a aposentadoria de Franco da Rocha a Cátedra de Neuriatria e Psiquiatria foi ocupada interinamente pelo Prof. Enjorlas Vampré que ficou de 1925 a 1934.

Essa cátedra deu origem a Cátedra de Neurologia, cujo primeiro ocupante foi o Prof. E.Vampré e a de Psiquiatria cujo primeiro ocupante foi o Professor Pacheco e Silva. Segundo alguns, o concurso dessa cátedra colocou dois candidatos em oposição. O Professor Pacheco e Silva de um lado e o Professor Durval B. Marcondes do outro. (Durval B. Marcondes foi o introdutor da psicanálise no Brasil.) A vitória de Pacheco e Silva foi vista por alguns como derrota da psicanálise e o triunfo dos organicistas. Examinando objetivamente a produção administrativa, científica e política dos dois candidatos, o resultado do concurso não podia ser outro. Que rumos a psiquiatria de São Paulo poderia ter tomado se fosse outro o resultado, jamais saberemos.  Da história da psicanálise retiramos a citação que segue:”Em 1934, Antonio Carlos Pacheco e Silva substituíra, interinamente, Francisco Franco da Rocha na cadeira de neuropsiquiatria. Em 1936, tornou-se o segundo professor a assumir essa cadeira. A tentativa de criar um Instituto de Psicanálise na Faculdade de Medicina tornou-se, desde então, um assunto arquivado por decurso de prazo...” Essa idéia que a vitória de Pacheco e Silva teria impedido a entrada da psicanálise na Medicina da USP tornou-o um inimigo da psicanálise, mesmo que ele não agisse como tal.

Da História do Instituto de Psiquiatria apresentada em 2003 na Revista De Psiquiatria Clínica pelo Prof. Jorge W.F.Amaro retirei esse depoimento: “Estando eu, na ocasião, em formação psicanalítica, pensei em consultar o Titular da Cadeira de Psiquiatria, o Prof. Pacheco e Silva, no sentido de aproveitar um pequeno espaço do então chamado hospital-dia e organizar um Serviço de Psicoterapia com as técnicas mais conhecidas e usadas na ocasião, que eram a Psicanálise, a Psicoterapia de Grupo e a Terapia Comportamental. Havia um boato, que se espalhara entre muitos psiquiatras dentro e fora do Instituto de Psiquiatria, no sentido de que o Prof. Pacheco e Silva era contra a Psicanálise e que, se eu fosse conversar com ele para organizar esse Serviço, corria o risco de receber uma reprovação. Fui conversar com o Prof. Pacheco e Silva e este concordou plenamente que eu organizasse o Serviço de Psicoterapia, mas alertou-me de que era apenas contra psicoterapeutas que não conheciam Psicopatologia Psiquiátrica e que promoviam prejuízos aos pacientes devido ao “psicologismo” e ao “furor interpretandis” desses mesmos psicoterapeutas. Concordei plenamente com ele e, a partir daí, após a sua autorização, fui convidar alguns colegas para comigo iniciarem a estruturação do chamado, na ocasião, Setor de Psicoterapia, pois não havia ainda a institucionalização oficial do Serviço, o que aconteceu em 1965.

Para nós, observadores externos, a psiquiatria paulista polarizava-se em torno das figuras de Pacheco e Silva na USP e Darcy de Mendonça Uchôa na Escola Paulista de Medicina. Essa disputa se estendia aos subordinados e a divisão da psiquiatria de São Paulo era evidente.

O Professor Pacheco e Silva foi deputado constituinte por duas ocasiões, em 1933-34 e em 1946. Sempre como representante patronal, indicado que foi pela Associação Comercial de São Paulo. Sua atuação política era conservadora e era um dos 60 médicos que se tornaram constituintes. Essa bancada médica voltava-se para assuntos de higiene pública, proteção e prevenção de doenças nos cidadãos brasileiros. As concepções do Professor Pacheco e Silva eram conservadoras, defendia idéias eugênicas, apoiava as críticas do Prof. Miguel Couto que criticava a imigração japonesa temendo o “perigo amarelo”. Um outro ponto polêmico é a sua defesa da eugenia. Esse termo tem sido mal utilizado por uma série de críticos da psiquiatria da primeira metade do século XX. Há uma deliberada confusão da Eugeniacom Higiene Mental, com racismo e nazismo. O movimento eugênico começou na Inglaterra, cresceu nos EUA e era adotado por 28 países, principalmente europeus. O momento patológico da eugenia aconteceu na Alemanha nazista. No Brasil, depois da famosa frase de Miguel Pereira "o Brasil é um grande hospital", os meios médicos passaram a defender medidas higiências de prevenção da saúde pública e os psiquiatras a estenderam para a higiene mental.. Combate ao alcoolismo, exame pré-nupcial, prevenção da disseminação da sífilis e da tuberculose. Uma idéia que foi muito debatida era de evitar que imigrantes doentes viessem para o Brasil. Muitos terminavam apresentando problemas mentais em função do desgarramento, do estresse, da penúria em que viviam e isso era interpretado como conseqüência de taras hereditárias, fraqueza mental. Havia, por outro lado o Movimento de Higiene Mental criado a partir da obra de Clifford Beers que escreveu um livro contando sua vivência durante três anos de internamento num hospital americano.”Um espírito que achou a si mesmo”. Em 1923 Gustavo Riedel do Rio de Janeiro fundou a Liga Brasileira de Higiene Mental que tinha sucursais nos Estados (Ulisses Pernambucano em Recife, Pacheco e Silva em São Paulo). Dentro do movimento de higiene mental alguns psiquiatras passaram a defender idéias eugenicas. O fato do nazismo usar e abusar das idéias eugências fez com que a posteriori esses psiquiatras fossem julgados dentro do novo pensamento político. Tenta-se criar um Nuremberg para a psiquiatria brasileira. Dos artigos que tratam do assunto, registrei 163 artigos sobre Higiene Mental e 18 artigos sobre eugenia. Alguns autores misturam os assuntos. Pacheco e Silva foi um grande defensor da Higiene Mental. chegando a presidência da Federação Mundial de Higiene Mental. Defendeu idéias eugênicas, defendeu a esterilização de casos graves e seu grande erro foi se aliar aos que viam os japoneses como perigosos para a "raça brasileira".

Com a constituição de 1937 foi proibido o acúmulo de cargos estaduais com federais e como conseqüência o Professor Pacheco e Silva exonerou-se do Hospício de Juqueri em 31 de dezembro de 1937 optando pela Faculdade de Medicina da USP.

São poucas as referências familiares encontradas nos escritos do,Professor Pacheco e Silva, uma das exceções foi seu discurso de posse na Cátedra de Clínica Psiquiátrica da Faculdade de Medicina da USP em 28 de março de 1936, Ele reverencia Arnaldo Vieira de Carvalho, o fundador. Francisco Franco da Rocha o primeiro professor e Enjorlas Vampré o segundo. Da família cita sua avó materna Francisca Ferreira Pacheco, sua tia Clara Lacerda Piza e os tios Gabriel de Toledo Piza e Almeida e Antonio de Lacerda Franco.

Cita os Drs. Sá Leite e Artur Fajardo. Da sua formação médica lembra os Professores Antonio Austregésilo e Henrique Roxo.

Temos referências do seu filho Antonio Carlos Pacheco Filho, psicanalista e dois netos um também recebeu o nome do avô.

Em 15 de julho de 1937 o Professor Pacheco e Silva foi convidado a das a Aula Inaugural dos Cursos da Escola Paulista de Medicina, dela extraí alguns trechos:

“Nasce agora, modesta, pequenina e pobre, mas bafejada por idéias sagradas, que hão de faze-la germinar com pujança a Escola Paulista de Medicina.” (Ele foi o primeiro professor de Clinica Psiquiátrica da EPM)

“Ninguém poderá, pois, pretender possuir conhecimentos profundos de uma ciência, sem mergulhar no passado, sem acompanhar um a um os passos dos seus pioneiros e a evolução das idéias fundamentais, que a experiência, a grande mestra que corrige o homem todos os dias, no dizer de Goethe, contribuiu para aperfeiçoar.”

Defende a idéia que os médicos devam ter cultura filosófica. Aproveita para citar Pinel que na sua Nosografia Filosófica aconselha: “ Para a pesquisa da verdade em Medicina devemos adotar os mesmos métodos seguidos nas ciências naturais; idênticas regras para adquirir gosto apurado e conhecimentos sólidos, igual atenção em se aproveitar dos preceitos gerais dados pelos filósofos para assegurar a marcha e os progressos do espírito humano..."

Cita Augusto Comte: “nenhuma ciência poderá ser compreendida sem a sua própria história, sempre inseparável da história geral da humanidade.”

Da história do Instituto de Psiquiatria contada pelo Professor Jorge Wowey Amaro Ferreira extrai alguns parágrafos que tocam diretamente na ação do professor:

"O Prof. Pacheco e Silva, ao concluir e instalar o Instituto de Psiquiatria, teve a visão de buscar a instalação de um Setor de Psiquiatria Infantil. Ele, nessa mesma década, ministrando aulas de Psiquiatria, demonstrava aos estudantes de Medicina da FMUSP a importância do desenvolvimento do estudo e das pesquisas em Psiquiatria Infantil. Nessa ocasião, uma jovem estudante do 4o ano médico, empolgada com a possibilidade de exercer a Psiquiatria Infantil, passou a dirigir sua vida acadêmica nesse sentido. Essa jovem estudante, hoje a Profa. Dra. Eneida Baptistete Matarazzo, decidiu, após sua formatura, permanecer um ano em residência médica em Pediatria; a seguir, mais um ano em Psiquiatria Geral e um outro ano de residência, que dessa vez seria dedicado exclusivamente à Psiquiatria Infantil. Isso só foi possível devido à visão pioneira de Pacheco e Silva, pois a seu pedido, a Comissão de Residência Médica do HC admitiu um terceiro ano de residência em Psiquiatria Infantil, sendo a médica Eneida Baptistete Matarazzo contemplada nessa fase pioneira".

"Naquela época, com o apogeu da Psicanálise, era comum muitos considerarem o Instituto de Psiquiatria, em particular o SEPIA, dirigido por Eneida, como de “orientação organicista”

"O Prof. Pacheco e Silva já se preocupava com a Terapia Ocupacional em Franco da Rocha e no Instituto estimulava o seu início.Podemos dizer que o atual Serviço de Psicologia  teve seu início com a psicóloga Sonia Letaif Lipzig. O Prof. Pacheco e Silva designou Sonia para organizar esse Serviço, que ainda não estava institucionalizado".

"O ensino de Psiquiatria na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo era realizado em parte no Hospital de Juqueri, fundado e dirigido por Francisco Franco da Rocha, em parte no antigo recolhimento das Perdizes e também no Laboratório de Anatomia Patológica da Santa Casa e, a partir de 1936, no antigo casarão do Departamento de Assistência aos Psicopatas do Estado de São Paulo, à Av. Brigadeiro Luiz Antônio. Os primeiros psiquiatras pertencentes à equipe do Prof. Pacheco e Silva foram os professores Fernando de Oliveira Bastos, Cauby Novaes, Carvalhal Ribas e Aristóteles Cardo".

"O Prof. Pacheco e Silva, em sua gestão, preocupado com a assistência aos psicopatas e com o ensino da Psiquiatria aos alunos da Casa de Arnaldo, empenhou-se desde logo em implantar um hospital de psiquiatria universitário moderno para casos agudos no Campus do Hospital das Clínicas. Vencendo preconceitos em relação a doentes mentais próximos ao Hospital Geral, o Prof. Pacheco e Silva, com a colaboração do Prof. Benedito Montenegro, então Diretor da Faculdade de Medicina da USP, e do Prof. Jorge Americano, na ocasião Reitor da Universidade de São Paulo, conseguiu do Governo do Estado (na gestão do Dr. Fernando Costa) que fosse construído o prédio para a instalação da Clínica Psiquiátrica. O atual prédio do Instituto de Psiquiatria, projetado e construído graças aos esforços do Prof. Pacheco e Silva, começou a funcionar em 1952, quando ainda estava parcialmente concluído o edifício. Em 1952, começou a funcionar o ambulatório e, em fevereiro desse mesmo ano, o primeiro atendimento. A primeira internação ocorreu em outubro de 1953. O Setor de Registro e Estatística era coordenado pela Dra. Nei (Maria de Lourdes Martins), figura gentil que se interessava muito pelo Instituto e a ele dedicou-se até a sua aposentadoria. A equipe do Prof. Pacheco e Silva era constituída pelos médicos Henrique Fonseca Marques de Carvalho, Paulo Camargo, Jairo de Andrade e Silva, Armando Caiuby Novais, Fernando de Oliveira Bastos, João Carvalhal Ribas, José Roberto de Albuquerque Fortes e Heinz Weber. Nos anos seguintes, foram contratados Jayme Gonçalves, Carlos de Morais Arantes, Clóvis Martins, Ivo Soares Bairão, Paulo Vaz de Arruda e Cláudia Severa Sampaio Fonseca. Em outubro de 1953, iniciaram-se as atividades da primeira enfermaria. A primeira guia de internação foi assinada por Pacheco e Silva e Henrique Fonseca Marques de Carvalho, em 8 de outubro de 1953. Nesse mesmo ano, inicia-se o Serviço de Eletroencefalografia, sob a direção de Jairo de Andrade e Silva e com a colaboração de Paulo Vaz de Arruda. Nos anos seguintes, Paulo Vaz de Arruda vai aos Estados Unidos para aperfeiçoamento em Eletroencefalografia. Com o seu retorno ao Instituto de Psiquiatria, torna-se líder no estudo e na aplicação da eletroencefalografia".

"O Prof. Pacheco e Silva, além de construir o prédio da Clínica Psiquiátrica, imprimiu orientação técnico-científica, estruturou a residência médica e, ao aposentar-se, deixou a Cátedra de Psiquiatria desdobrada em três disciplinas: Psicologia Médica, Medicina Psicossomática e Psiquiatria Clínica. O Prof. Pacheco e Silva queria que a Psiquiatria fosse assentada não só em diagnósticos descritivos, mas também no conhecimento e na pesquisa das bases orgânicas e bioquímicas do cérebro".

"Pacheco e Silva, além dos méritos descritos, deixou como herança muitos assistentes e colaboradores que se desenvolveram e procuraram acompanhar o estímulo do mestre. Em 1964, o Prof. Pacheco e Silva era assessorado por muitos assistentes competentes, bem como por dois professores livres-docentes: Fernando Bastos e Carvalhal Ribas. Estimulou outros assistentes a defenderem a livre-docência e, nessa ocasião, quatro de seus assistentes se tornaram professores livres-docentes: Henrique Marques de Carvalho (com a tese Contribuição para o Estudo das Modernas Terapêuticas Biológicas nos Estados Depressivos - 1964), José Roberto de Albuquerque Fortes (com a tese Psilocibina e Alcoolismo Crônico: Contribuição para o Estudos Somáticos e Psíquicos em Trinta Casos - 1964), Clóvis Martins (com a tese A Psicose Lisérgica: Psicopatologia da Percepção do Tempo e da Despersonalização - 1964) e Jayme Gonçalves (com a tese Do Asilo à Comunidade Terapêutica: Contribuição para o Estudo da Terapêutica Ocupacional em Esquizofrênicos - 1964)".

O Professor Pacheco e Silva esteve presente e atuante por mais de 60 anos, acompanhou a trajetória do alienismo, o nascimento da psiquiatria, o surgimento dos psicofármacos e as mudanças do asilo para o hospital, do alienista para o psiquiatra e depois para equipes multidisciplinares. Administrou o Juqueri, a Saúde Mental de São Paulo e o ensino de psiquiatria no HC da USP. Na sua vida atravessou duas guerras mundiais, a Revolução de 1930, a Revolução constitucionalista de 1932, o golpe militar de 1964 e muitas outras crises. Sempre se manteve coerente nas suas posições, era conservador, mas sobretudo era um cientista bem mintencionado e correto. Vou citar dois momentos que acho que caracterizam sua qualidade como cientista e homem público. A primeira, pode ser deduzida da sua carta solicitando autorização para empregar a malarioterapia em doentes do Juqueri, num determinado trecho ele fala dos rsicos do procedimento e da necessidade de obter a autorização dos pacientes para o tratamento.Hoje, o consentimento informado é uma obrigação, naquela época era uma raridade. O outro momento que quero destacar é que Pacheco e Silva foi o Presidente da banca examinadora para a cátedra da Faculdade de Medicina de Salvador,BA. O candidato favorito era Nelson Pires, considerado comunista e subversivo. Dias antes da prova ele foi preso. Pacheco e Silva recusou-se a realizar o exame sem a presença de todos os candidatos. Nelson Pires foi liberado e venceu o concurso. Tive ainda uma experiência pessoal com Pacheco e Silva na Assembléia de Delegados da Associação Mundial de Psiquiatria, no Congresso de Honolulu em 1977. Ele representava a ABP e eu representava a Sociedade de Psiquiatria do Rio Grande do Sul. O assunto era a exclusão da União Soviéticas devido do uso abusivo da psiquiatria contra prisioneiros políticos. Ele sentou ao meu lado e na hora da votação ele se absteve. No meu arroubo juvenil eu o interpelei.-Como professor? Aí êle me disse que em questões polêmicas ele se abstinha. No fundo êle e os demais brasileiros temiam que depois dos soviéticos outros países poderiam ser excluídos, entre eles o Brasil, por não cuidar adequadamente dos seus doentes mentais.

Bibliografia de Antonio Carlos Pacheco e Silva (anotadas no Índice Bibliográfico Brasileiro de Psiquiatria)

  1. Pacheco e Silva, A. C. (1925). Alcoolismo crônico.Delírio de ciúme.Uxoricida. Memórias Do Hospital De Juqueri, 2(2).
  2. Pacheco e Silva, A. C. (1929). Alcoolismo em Neuro-psiquiatria. Arq.Paulista De Higiene Mental, 2.
  3. Pacheco e Silva, A. C. (1932). As parafrenias. Memórias Do Hospital De Juqueri., 9-10.
  4. Pacheco e Silva, A. C. (1928). A assistência a psicopatas no Estado de São Paulo. São Paulo Médico, 2(2).
  5. Pacheco e Silva, A. C. (1940). A Assistência a Psicopatas no Estado de São Paulo. Arq. Assist. a Psicopatas Do Estado De São Paulo.
  6. Pacheco e Silva, A. C. (1945). A Assistência a Psicopatas no Estado de São Paulo. São Paulo, Graf. Do Hospital De Juqueri.,1-64.
  7. Pacheco e Silva, A. C. (1930). A Assistência aos alienados no Estado de São Paulo. Conferência Na Assistência Policial De São Paulo, 22. de maio.
  8. Pacheco e Silva, A. C. (1928). Assistência pública no Uruguay. Arq. Paulista De Higiene Mental, 1(1).
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  11. Pacheco e Silva, A. C. (1924). Contribuição para o estudo do treponema pallidum no córtex cerebral dos paralíticos gerais. Memórias Do Hospital De Juqueri, 1(1), 19-36.
  12. Pacheco e Silva, A. C. (1930). Cuidados aos psicopatas. Rio De Janeiro,Ed.Guanabara.
  13. Pacheco e Silva, A. C. (1925). Débil Mental alcoolista homicida. Memórias Do Hospital De Juqueri, 2(2).
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