Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Fevereiro de 2004 - Vol.9 - Nº 2

História da Psiquiatria

Álvaro Rubim de Pinho

Dr. Walmor J. Piccinini

 

1922- 1994

 

 

Hoje sabemos que você é uma Estrela

Que traz consigo outras estrelas.

Sua tarefa foi dissolver escuridões.

Ajudar a formar pessoas,

Iluminando momentos difíceis

Com otimismo dedicação e inteligência.

                        Solange Rubim de Pinho.

A Psiquiatria Brasileira tem profundas raízes em solo baiano. Figuras ilustres da sua história estão ligadas à Faculdade de Medicina da Bahia. Por ela passaram, Juliano Moreira,( http://www.polbr.med.br/arquivo/wal0702.htm) o fundador da moderna psiquiatria brasileira, Raymundo Nina Rodrigues, Afrânio Peixoto (http://www.polbr.med.br/arquivo/wal0802.htm), Nelson Pires, Nise da Silveira(http://www.polbr.med.br/arquivo/wal0902.htm) e Álvaro Rubim de Pinho.

O baiano/amazonense Álvaro Rubim de Pinho, por dessas artimanhas do destino, nasceu em Manaus, AM. Seu pai, o Dr. Álvaro Madureira de Pinho, formado na Faculdade de Medicina da Universidade da Bahia em 1903. (SRP em sua homenagem ao pai cita 1904, ARP no seu discurso de agradecimento cita 1903 e refere entre outros, Clementino Fraga como colega de turma do pai). Ele e sua esposa Mercedes mudaram-se para Manaus onde além de brilhante carreira profissional tiveram vários filhos. O caçula, que recebeu o nome do pai, nasceu em 22 de fevereiro de 1922. Dizem que nome é destino, se isso for verdade, o jovem Álvaro cedo seguia os passos do pai. Sobre esse fato assim escreveu: “Na casa de Manaus, a figura de meu pai, médico baiano que, no começo do século, se radicara na Amazônia. Do modelo paterno terá vindo, ainda que tacitamente, o induzimento para a escolha da profissão”.

Começou assim seu encanto pela Faculdade de Medicina da Bahia e a aspiração de nela estudar. Aos 16 anos partiu cheio de esperanças para Salvador. Depois de dois anos de Pré-Médico no Colégio dos Maristas presta exames seletivos e em 1940 entra para a Faculdade de Medicina da Bahia. Do pai trazia o modelo de médico, a admiração pelos professores e uma especial estima e reverência por Nina Rodrigues identificado como o maior e o melhor. Começa aí uma brilhante jornada que o levou a Cátedra de Psiquiatria, ao título de Professor Emérito e a Presidência da Associação Brasileira de Psiquiatria.

As datas que marcam essa trajetória podem ser assim resumidas:

Em 1945, formatura em Medicina.

Em 1955, Livre Docente da Clínica Psiquiátrica.

De 1954 a 1956. Professor Adjunto de Clínica Psiquiátrica.

Em 1966, Professor Catedrático da Clínica Psiquiátrica.

Em 1968 torna-se Presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria.

Em 1987 foi Presidente da Academia de Medicina da Bahia.

Em 1987 aposenta-se como Professor Titular

Em 1993 recebe o maior título que um docente pode receber na Faculdade de Medicina da Bahia, o de Professor Emérito.

Em 9 de novembro de 1994 faleceu cercado do carinho dos seus familiares e amigos.

Datas que marcam uma vida, mas não contam tudo sobre esse homem múltiplo. Como professor foi mentor e formador de sucessivas gerações de psiquiatras baianos; como homem político foi de ativo participante na liderança da política médica em nível regional e nacional; como pesquisador, seguiu a trilha aberta por Nina Rodrigues e Arthur Ramos ampliando e difundindo as idéias de uma psiquiatria que levasse em conta as crenças, crendices e o imaginário popular. Sua atividade nas aéreas da psiquiatria forense, e na psiquiatria transcultural são reconhecidas tanto nacional como internacionalmente.

No capítulo que escrevi sobre a História da Psiquiatria Forense no Brasil, colhi inúmeros depoimentos que o colocam numa posição fundamental na revitalização da Psiquiatria Forense Brasileira. Por esse motivo a Associação Brasileira de Psiquiatria criou o Prêmio Álvaro Rubim de Pinho que é distribuído anualmente para o melhor trabalho dessa especialidade.

A Revista Brasileira de Psiquiatria publicou um excelente artigo sob o título: “A psiquiatria transcultural no Brasil: Rubim de Pinho e as "psicoses" da cultura nacional” Transcrição e adaptação para texto escrito, introdução e notas por:
Paulo Dalgalarrondo; Silvia Maria Azevedo dos Santos; Ana Maria Raimundo Oda. (Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria, Faculdade de Ciências Médicas, Unicamp. Campinas, SP, Brasil.).

No texto, há referência a uma extensa bibliografia com cerca de 70 trabalhos produzidos pelo autor. Muitos são sob forma de entrevistas, anais de congressos e outras publicações de divulgação. No nosso Índice Bibliográfico Brasileiro de Psiquiatria conseguimos reunir as seguintes publicações.

1. Almeida Filho, Naomar de; Santana, Vilma S., and Rubim de Pinho, Álvaro. Estudo Epidemiológico dos Transtornos Mentais em uma População de Idosos, Área Urbana de Salvador - BA. J. Bras. Psiquiat. 1984; 33(2): 114-20.
Keywords: idosos; desordens mentais; prevalência.
Abstract: Os autores relatam os resultados de um estudo de prevalência de desordens mentais, em uma amostra probabilística de 139 habitantes de uma área de baixa renda de Salvador, Bahia, na faixa etária acima de 55 anos.Analisa-se a influencia de algumas variáveis demográficas e sócio-econômicas sobre a distribuição da morbidade psiquiátrica na amostra, por meio de análise estratificada. Algumas discrepâncias entre estes achados e noções correntes na literatura clínica da área são identificadas e discutidas.

2. Garcia, J. Alves; Di Lascio, Arnaldo; Fernandes, Irmar; Rubim de Pinho, Álvaro; Martins, Clóvis, and Santaella, Antônio. Simpósio sobre aspectos psiquiátricos e sociais da Epilepsia: III-Aspectos Psiquiátricos e Sociais. Rev.Brasileira De Psiquiatria. 1967; 1(2):147-181.
Keywords: epilepsia; aspectos psiquiátricos e sociais.

3. Pires, Nelson; Novaes Filho, Érico; Castelo Branco, Alípio; Rubim de Pinho, Álvaro; Guerreiro, Manoel; Nery, Gabriel Cedraz, and Coelho, Jacques. Subdivisão Clínica do grupo das Esquizofrenias. Arq.De Neuro-Psiquiatria. 1951; 91:56-58.
Keywords: esquizofrenias; curáveis e incuráveis; subdivisão clínica
Notes: Trabalho do Sanatório Bahia (Salvador-Bahia), apresentado ao 1. Congresso Internacional de Psiquiatria (Paris, setembro de 1950)
Abstract: Trabalho curioso que começa assim: "reconhecendo a atual imprestabilidade da subdivisão kraepeliniana, a dificuldade e a falacidade de Carl Schneider, a inespecificidade de todas em geral e da de Carl Schneider em particular ( sintomas de primeira e segunda categoria, observados igualmente fora da esquizofrenia ), abandonamos as doutrinas e estudamos cerca de 80 casos, dos quais a metade curou. tentamos a subdivisão considerando o prognóstico, quer dizer a evolução em face dos tratamentos de choque... Nossos casos cuidados permanecem em remissão de 3 a 6 anos. É proposta a seguinte subdivisão: 1. Primeiro Grupo: Esquizofrenias que sobrevém antes dos 30 anos, com sintomatologia axial de introversão verdadeiramente inafetiva, patoplastia acentuadamente pobre, personalidade Anterior sem sintonia, sem astenia, sem hipertemia. São em regra incuráveis.
Segundo Grupo: Esquizofrenias que sobrevém em qualquer idade, com sintomatologia variável desde quadros aparentemente psicógeno-reativos (no sentido de jaspers) aos exógenos (Bonhoeffer), às psicoses da motilidade (Kleist), ricos de traços onírico-paranóides e de estados crepusculares obscuros. São em geral curáveis. Lembram as psicoses de reação e as exógenas.
Terceiro Grupo - (Esquizofrenias em surtos: a) formas nitidamente depressivas b) formas com inclusões diversas (paranóides, degenerativas etc.) c) Esquizofrenias tardias. Conclusao: unicamente os grupos 2 e 3a são benignos. O 3b tem restrito número de curas os demais são de mau prognóstico.

4. Pires, Nelson; Rubim de Pinho, Álvaro; Alakija, George, and Nery, Gabriel Cedraz. Psicoses de Involução: Estudo clínico de 50 casos com vistas ao prognóstico. Arq.De Neuro-Psiquiatria. 1949; 7(2): 179-210.
Keywords: psicoses de involução; 50 casos.

5. Rubim de Pinho, Álvaro. A Visão Psiquiátrica do Misticismo. Dialogo Médico: Misticismo e a Psiquiatria, Rio De Janeiro. 1975; 1(2): 21-24.
Keywords: misticismo; visão psiquiátrica.

6. Rubim de Pinho, Álvaro. Aspectos da Medicina Informal em Algumas Áreas Culturais Brasileiras. Rev. Psiquiat. Clin. São Paulo. 1985; 12(3/4):93-5.
Keywords: medicina informal; grupos culturais; Brasil

7. Rubim de Pinho, Álvaro. Contribuição para o estudo da Sintomatologia Neurológica após eletrochoque. Rev. Neurobiologia, Recife. 1945; 8:19-39.
Keywords: eletrochoque; sintomas neurológicos.

8. Rubim de Pinho, Álvaro. Epilepsia e agressão: aspectos psiquiátricos e criminais. Rev.Psiquiat. Clin. São Paulo. 1986; 13 (1,4): 28-32.
Keywords: epilepsia-violência; epilepsia-criminalidade.
Abstract: Pesquisou-se no Manicômio Judiciário do Estado da Bahia, o total dos laudos psiquiátricos elaborados nos últimos 10 anos e, dentre eles, os relativos a doentes epilépticos. O material revela que, em sua maioria, os crimes cometidos por tais pacientes tem causas e mecanismos semelhantes àqueles observados quanto a outros delinqüentes. Existe, entretanto, uma maioria de casos nos quais o ato delituoso incompreensível e inconsciente pode expressar crises de automatismo psicomotor por descarga temporal.

9. Rubim de Pinho, Álvaro. Esquizofrenia hoje. Rev. Neurobiologia, Recife. 1976; 39(Supl.): 9-16.
Keywords: esquizofrenia; conceito; evolução em três décadas.

10. Rubim de Pinho, Álvaro. Mesa-Redonda; "Problemas Sócio-Psicológicos do Maconhismo". Rev.Neurobiologia, Recife. 1962; 25(9).
Keywords: maconhismo

11. Rubin de Pinho, Álvaro. O diagnóstico da psicose maníaco-depresiva. Livre-docência, Tese-Fac.Med.Da Un.Da Bahia. 1955.
Keywords: psicose maníaco-depressiva

12. Rubim de Pinho, Álvaro. O papel do psiquiatra no hospital geral. Bol.Psiq.SP. 1983; 16(3): 115-121.
Keywords: Psiquiatria no Hospital Geral

13. Rubim de Pinho, Álvaro. Tratamento Hospitalar do Paciente Internado: Terapêuticas Farmacológicas e Biológicas. Anais Do VIII Congresso Nacional De Neurologia, Psiquiatria e Higiene Mental. 1967; 93-102.
Keywords: paciente internado; terapêuticas farmacológicas e biológicas.

14. Rubim de Pinho, Álvaro; Lessa, Luís Meira; Bloisi, Silvia; Ramos, Uraci S., and D'Almeida, Waldeck. Fatores sócio-culturais nas depressões. Rev.Brasileira De Psiquiatria. 1969; 3(1): 63-96.
Keywords: depressões; fatores sócio-culturais.

15. Rubim de Pinho, Álvaro. O Cultural e o Histórico no campo do Delírio. Bol. CEPP (Boletim Do Centro De Estudos e Pesquisas Em Psiquiatria), São Paulo. 1983; 1(3)..
Keywords: cultura; história; delírio.

16. Rubim de Pinho, Álvaro. O delírio depressivo. Bol. CEPP (Centro De Estudos e Pesquisas Em Psiquiatria), São Paulo. 1984; 2(1): 5-12.
Keywords: delírio; depressão.

17. Rubim de Pinho, Álvaro. "As funções cognitivas dos epilépticos" Tese Fac. Med. Da Bahia, 1965.

17. Veiga, E. P. and Rubim de Pinho, Álvaro. Contribuição ao estudo do maconhismo na Bahia. Rev.Neurobiologia, Recife. 1961; 25(1): 38-68.
Keywords: maconhismo
Notes: similar em: Rev. Neurobiologia,Recife. 1962; 25(1): 38-68.

Rubim de Pinho defendia o conhecimento psicopatológico e o respeito pelas manifestações culturais da população. Seu interesse pelo sincretismo religioso o levou a estudar os estados de possessão, a crença no “mau olhado, o banzo, o fenômeno da caruara e tantos outros. Vou transcrever trechos de uma entrevista por ele dada em 1990 e publicada por Dalgalarrondo e col. Na Rev. Bras. Psiquiatr. (2)”.

Eu acho que, sobretudo as situações decorrentes dos chamados estados de possessão. No Brasil, tradicionalmente, desde antes da descoberta pelos portugueses, já existiam determinadas situações, influenciadas por mitos, consideradas como possessões por animais. Isso, aliás, tem a ver com modelos que são internacionais. Mas nós temos ainda em nossos dias, em plena atuação, as situações de possessões por espíritos, as situações de possessões demoníacas e as situações de possessões por divindades. No caso das religiões de procedência africana isto corresponde à possessão pelos Orixás. O médico desavisado seguramente confunde o que é um distúrbio psiquiátrico com estes estados de possessão. E aquelas pessoas capazes de possessão durante os cultos religiosos são freqüentemente pessoas absolutamente normais na sua vida fora daqueles momentos. Não há razões para pensar que a possessão esteja a expressar qualquer indício de patologia mental.

P - No Norte e Nordeste houve-se falar muito no chamado Calundu. O que o senhor pode nos dizer a respeito deste fenômeno?

R - Outro conceito que não se pode dizer que corresponda a uma psicose, mas que seguramente corresponde a um fenômeno do âmbito psiquiátrico é o chamado Calundu. Os brasileiros do Norte e particularmente da Bahia se habituaram desde pequenos a ouvir em Calundu como correspondente a uma distimia irritável. Há determinadas pessoas que, em certos dias, diz-se assim, "já acordam com os seus calundus" - já acordam zangadas, sensíveis quanto a tudo que lhes acontece e, nestes dias, são evidentemente capazes de reações incomparavelmente mais agressivas do que o que acontece na média do seu humor normal.

Calundu foi também palavra usada com uma intenção de referir certos festins de pretos africanos, mas o Calundu no sentido de disforia, no sentido de distimia irritável, teve, diferentemente do Banzo, interpretação religiosa. Parece que, em nenhum momento, foi atribuída ao Banzo uma causa relacionada com castigos ou com influências de Orixás ou de diabos. Ao invés disto, o Calundu foi visto como um estado de possessão. Diferente dos outros estados de possessão, porque nos outros, como acontece habitualmente no Estado de Santo, há uma modificação imediata, uma modificação transitória da consciência quanto à identidade pessoal, enquanto que a pessoa com Calundu não sabe que está sendo possuída por essa divindade que a faz assim irritadiça.

P - Professor Rubim de Pinho, o senhor poderia nos dizer qual o interesse para o psiquiatra brasileiro nos chamados estudos de psiquiatria transcultural?

R - Ao nosso ver, esse interesse é fundamental porque há muitos comportamentos, há muitas reações, muitas expressões da personalidade que decorrem de condicionamentos culturais, e o psiquiatra mal avisado seguramente as confunde com autênticos distúrbios mentais. Eu gostaria que a média dos psiquiatras brasileiros, e baianos em particular, tivessem a capacidade que têm as mães-de-santo mais hábeis e certos líderes espíritas para diferenciar aquilo que são fenômenos que eles consideram religiosos e nós consideramos culturais, mas que sem dúvida são diversos daquilo que está no conteúdo da psiquiatria tradicional. Claro que esses líderes religiosos erram, como nós os médicos também erramos, mas eles sabem freqüentemente diferençar aquilo que comportaria um tratamento natural, ou seja, o tratamento médico, o tratamento da medicina formal e aquilo que são fenômenos sensíveis aos tratamentos da medicina informal. Nós, o médico, em geral, tem a nossa formação específica, vendo a medicina acadêmica como aquela que nos ensina basicamente os fenômenos biológicos e encarando os distúrbios da saúde como situações que seriam idênticas em todas as pessoas e em todos os povos.

Entretanto, há algo que diferencia o tratamento da doença e o tratamento da pessoa do doente. A pessoa do doente, freqüentemente, pode beneficiar-se de tratamentos populares. De fato, muitas das situações que são levadas ao psiquiatra no nosso meio ou que vão aos serviços públicos psiquiátricos são mais sensíveis a tratamentos religiosos e populares do que a tratamentos da medicina formal.

P - O senhor poderia nos relatar se existem, ou existiram, no Brasil, "psicoses da cultura nacional?”.

R - Presentemente, difícil seria dizer que há psicoses próprias da cultura ou das nossas sub-culturas.5 Entretanto, em diferentes momentos históricos, tem havido certos quadros mentais que, seguramente, tiveram uma fisionomia bem própria e que têm sido específicos da nossa cultura. Vale a referência a que, ainda que em tempo colonial, os viajantes europeus aqui encontraram epidemias da chamada Malinconia, estados de tristeza epidêmicos que os padres Jesuítas tratavam à custa de métodos de persuasão. Os portugueses, provavelmente tendo recebido da Guiné este conceito, para cá trouxe uma outra forma, uma outra vertente, uma outra feição disso - o Tangolomango. A noção do Tangolomango corresponde tradicionalmente aquela de um mal súbito que conduziria ao definhamento. É possível que nisso existissem fatores de ordem biológica, doenças somáticas agudas, mas também é possível que nisso estivessem estados de anormalidade mental aguda, sobretudo estados depressivos.

Há conceitos etiológicos populares que têm sido muito importantes para a população brasileira do Norte, sobretudo do extremo Norte e Nordeste, mas que também estiveram presentes na Bahia. O conceito Quebranto, por exemplo, como influência (é duvidoso se de práticas mágicas ou de "miasmas"), conduzindo a uma sensibilidade maior das pessoas às doenças, inclusive às doenças mentais e a possíveis estados depressivos. Outro exemplo é o conceito do Olhado, provavelmente uma versão nacional correspondente àquilo que foi na Europa o chamado Magnetismo Animal, a possibilidade de influências magnéticas dos olhos de determinadas pessoas conduzindo ao comprometimento da saúde física e mental de outras pessoas.

Há, entretanto, alguns conceitos nosológicos que eu quero particularmente referir e estes são muito relacionados à Bahia. O Banzo teve, sem dúvida, uma presença nacional. Aprendemos com os historiadores que os negros importados da África traziam consigo, muitas vezes, a vocação para a tristeza. A partir da viagem até a chegada às nossas costas, apresentavam estados de definhamento, ficavam parados, e a própria expressão Banzo, suposta de procedência angolana, reflete seguramente uma nostalgia, uma saudade da terra. Diferentes estudiosos atribuíram interpretações diferentes às causas do Banzo. Entre eles, Satamínio Duarte, que pensava tratar-se de psicoses esquizofrênicas de tipo catatônico e Pirajá da Silva, que acreditava que fossem casos de doença do sono.

A partir de entrevistas que nós realizamos com pessoas idosas, que tinham recebido a transmissão de conhecimentos dos velhos do tempo de sua juventude, a impressão que nós temos é que a identificação do Banzo deve ter correspondido, rigorosamente, àquilo que ao tempo de guerra da década de 40 foi chamado Síndrome de Campo de Concentração. Havia um estado depressivo ao qual se superpunha toda a síndrome decorrente duma pluricarência alimentar; assim havia, da depressão, a anorexia que lhe era própria, mas havia, ao lado disso, realmente, fatores de ordem biológica dependente da insuficiência de proteínas e provavelmente da insuficiência de fatores complementares do tipo vitamínico.

O Banzo, pelas descrições que nós assim obtivemos, sem dúvida indiretas, em geral ocorria nas longas viagens dos navios negreiros, com os escravos sujeitos ao trabalho forçados. A notícia que pudemos recolher é aquela de que, ao chegarem, ao menos aqui na Bahia à chamada Praia do Chega Negro (onde hoje está o aeroclube de Salvador), havia alguns que estavam caquéticos, próximos de morte, mas outros que se reanimavam apenas passados poucos dias ao contato da luz do sol e com outra alimentação, mesmo que continuada a situação de escravidão e mesmo que continuada a distância em relação à terra natal.

A pesquisa feita por Joildo Ataíde sobre as causas de morte dos escravos da Bahia no século XIX não revelou qualquer caso em que tivesse constado como motivo imediato da morte este diagnóstico, mas o Banzo seguramente já tinha terminado desde que terminaram as viagens. Os escravos aqui residentes, filhos de escravos, aqueles nascidos já em terra brasileira, ao que parece, não apresentavam o Banzo e, apesar da discordância de Nina Rodrigues, há depoimentos apreciáveis no sentido de que, mesmo na condição de escravo, o preto africano aqui adquiria uma relativa acomodação no plano do bem estar pessoal.6

P - Existe uma síndrome chamada Caruara7 que deixa as pessoas sonolentas e sem forças, gostaria também que o senhor comentasse sobre essa psicose.

R - Quero referir um outro conceito nosológico, que foi bastante importante, a Caruara. Esta entidade caminhou na segunda metade do século passado do Maranhão até a Bahia, instalando-se, sobretudo na cidade do Salvador e, mais particularmente, no Bairro de Itapajipe. As pessoas ficavam incapazes de se pôr em pé e de andar. Nina Rodrigues foi um dos grandes estudiosos do tema, identificando-a com a astasia-abasia histérica descrita por Charcot e por discípulos seus na Salpêtrière. A Caruara funcionava sob diferentes formas clínicas e era necessário ao médico, até o começo deste século na Bahia, fazer o diagnóstico diferencial entre Beribéri e Caruara sempre que as pessoas tinham incapacidade de movimentar os membros inferiores.

Vale ainda um registro. Os que ainda estão vivos e que foram contemporâneos da Guerra de 1914 a 1919 sabem que, até esses tempos, existiu entre nós, com o nome de Diabo no Corpo, uma condição pela quais determinadas pessoas, quando agitadas, sobretudo do sexo feminino, eram levadas semanalmente à Igreja da Piedade para serem exorcizadas pelos frades capuchinhos. Tratava-se aí de algo de absoluta semelhança com as epidemias correspondentes à possessão de bruxas, à possessão demoníaca, que a Europa assistiu durante a Idade Média. Há dúvidas sobre os diagnósticos. Provavelmente não seria só histeria. É possível que outros doentes, inclusive bem psicóticos, quando agitados, fossem motivo desses tratamentos por exorcismos. Cabe pensar que, noutras regiões brasileiras, outras psicoses ou outros estados mentais caracterizados como anormais, tenham tido explicações populares ou tenham sido motivo de uma difusão no pensamento popular, tão específicos como a Bahia teve nestas situações.

Há também aspectos trans-históricos que, seguramente, merecem registro. É aqui perfeitamente cabível a paródia de uma frase tradicional: "A sociedade tem as doenças que merece!" Os momentos históricos comportaram, na dependência dos modelos para sugestão das massas, este ou aquele tipo de doença psíquica ou pelo menos este ou aquele tipo de comportamento caracterológico a merecer do psiquiatra uma apreciável atenção. Aquilo que eu gostaria de definir mais uma vez, como fecho desta palestra, é o fato de que o psiquiatra deve estar atento para tudo que numa dita doença mental, é inclusão da cultura. O psiquiatra deve, portanto, estar bem vigilante para tudo aquilo que é expressão da cultura e não autêntica doença mental.

A aproximação de Rubim de Pinho com os temas populares e o sincretismo religioso tornaram-no figura conhecida no Candomblé nele estão fundidas e resumidas as várias religiões do negro africano). Numa entrevista concedida por Mãe Stella à Dra Solange Rubim de Pinho em 4 de maio de 2001 ela se refere ao Dr. Rubim de Pinho como Ogã de Oxalá e que era uma figura muito querida, muito presente, muito doadora, uma pessoa que fez muita falta quando Deus levou. Ele, na qualidade de Ogã, não é mais um espírito comum, ele é um ancestral.

Em depoimento para “Memórias Vivas da Psiquiatria Brasileira”, Rubim de Pinho comenta sua participação nesse campo.

Eu acho que os trabalhos de Psiquiatria Transcultural - embora nenhum deles do porte em termos de extensão de texto das teses - eles me deram provavelmente maior gratificação e eu diria, sem nenhuma vaidade, que eles me individualizaram, possivelmente, dentro da psiquiatria brasileira. Rapidamente, eu entendi, quando assumi a cátedra, que, na Bahia, com as possibilidades de certa atuação no meio dos ambientes religiosos, no meio das seitas de religião afro-brasileira, eu teria oportunidade para retomar aquilo que eu considerava uma responsabilidade do catedrático de psiquiatria da Bahia; os temas que Nina Rodrigues inaugurara no fim do século passado e no começo deste século. (8)

Outras citações de Álvaro Rubim de Pinho extraídas de “Psiquiatria e Candomblé” de Solange rubim de Pinho e cols.

“Defendo o ecletismo como posição mais adequada, considerando a Psiquiatria como uma ciência interativa. Mantenho minha curiosidade sobre o biológico, o social, não desprezando contribuições psicodinâmicas e filosóficas”. (1)

“A cultura impregna a patoplastia de quase todos os delírios (...), isso adquire o máximo de evidência, quando se trata de psicose com feição vinculada a crenças e mitos comuns a certas populações”. (9)

“O misticismo propicia o conteúdo mais constante nos delírios da história, quaisquer que sejam as seitas em vigor. Entretanto, opiniões, desejos, temores e prejulgamentos, nem sempre diretamente vinculados às religiões, emprestam colorido próprio à temática das psicoses de cada momento”. (9)

“(...) Aquilo que terá acontecido no passado não mudou, no sentido de que os avanços que se fazem no plano da psiquiatria biológica parecem, em média, mais estáveis do que aqueles que se fazem no âmbito dos tratamentos psicológicos (...). Hoje, penso eu esquizofrenia é esquizofrenia mesmo em qualquer cultura, transtorno afetivo é transtorno afetivo em qualquer cultura, embora continue a pensar que é um dever do psiquiatra estar instrumentalizado para perceber o patoplástico de sua cultura e então separar o que é realmente mórbido e o que é fenômeno própio da cultura (...)”. (8)

“Cabe ao psiquiatra brasileiro de hoje conhecer a psiquiatria folclórica de sua cultura; distinguir, no quadro clínico, o que é patogênico e o que é patoplástico, sabendo valorizar nesse conjunto os elementos impressos pelas seitas; discriminar os casos cuja orientação não deve ser permissivo para os que realmente podem beneficiar-se das práticas religiosas”. (5)

Poderíamos ir escrevendo os ensinamentos desse baiano que aprendemos a admirar e com quem convivemos pelos muitos Congressos Brasileiros onde era presença marcante. Sempre delicado, sem levantar a voz ia se fazendo ouvido pelos seus pares e pelos jovens psiquiatras que se reuniam ao seu redor. Sempre destacando as figuras que o influenciaram como Nina Rodrigues, Arthur Ramos, Luiz Cerqueira e Nelson Pires, demonstrava suas firmes raízes nordestinas e a universalidade das suas idéias. Junto com o peruano Carlos Seguin de quem era admirador construiu sua obra em torno da Psiquiatria Transcultural e Folclórica. Na primeira são feitos estudos clínicos e epidemiológicos visando apreciar as especificidades dos distúrbios psíquicos de cada cultura. Já a psiquiatria folclórica implicaria nos métodos adotados por curandeiros no tratamento dos distúrbios psiquiátricos. (no sentido mais amplo, corresponde a marca que o cultural imprime à fisionomia dos quadros patológicos.)

Fica aqui um agradecimento à Dra Solange Rubim de Pinho, filha amorosa do nosso professor, que nos proporcionou acesso a material rico de ensinamentos.

Bibliografia consultada

1. Alarcon Ricardo D. Identidad de la Psiquiatria Latinoamericana. México: Singlo Veintiuno Editores. 1990.

2. Dalgalarrondo, Paulo; Santos, Silvia Maria Azevedo dos: Oda, Ana Maria Raimundo. “A psiquiatria transcultural no Brasil: Rubim de Pinho e as "psicoses" da cultura nacional” . Rev. Bras. Psiquiatr. 2003;25 (1): 59-62.
Notes: Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria, Faculdade de Ciências Médicas, Unicamp. Campinas, SP, Brasil.

3. Pinho, Solange Rubim et col. Álvaro Rubim de Pinho. O Homem e o Mestre. Rev. Bras. Neurol. e Psiq. 1996:39-47.

4. Pino, Solange R.;Pinho, Simone R.; Serra, Penha de Fátima Santos, and Maia, Nadja Maria. Psiquiatria e Candomblé. Ed. Do Autor. 2002.

5. Rubim de Pinho, Álvaro. A Visão Psiquiátrica do Misticismo. Dialogo Médico: Misticismo e a Psiquiatria, Rio De Janeiro . 1975; 1(2): 21-24.

6. Rubim de Pinho, Álvaro. Compromisso Social da Psiquiatria. In: Associação Brasileira De Psiquiatria. Livro De Textos Do IV Congresso Brasileiro De Psiquiatria. Fortaleza CE. 1976.

7. Rubim de Pinho, Álvaro. Discurso por ocasião do recebimento do título de Prof. Emérito da Faculdade de Med. Da UFBA. Documento Particular. 1993.

8. Rubim de Pinho, Álvaro. Memórias Vivas da Psiquiatria. São Paulo. USP. 1986.

9. Rubin de Pinho, Álvaro. O Cultural e o Histórico no campo do Delírio. Bol. CEPP (Boletim Do Centro De Estudos e Pesquisas Em Psiquiatria, São Paulo. 1983; 1(3)).


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