Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Setembro de 2004 - Vol.9 - Nº 9

Psicanálise em debate

Os filhos navegando em sua rota própria
Resenha de A CAUSA DOS ADOLESCENTES de Françoise Dolto - Idéias e Letras - Editora Santuário - Aparecida do Norte - 2004

Sérgio Telles

Na França, Françoise Dolto - falecida aos 80 há 16 anos - transformou-se paulatinamente numa legenda nacional.

Nome de rua numa cidade da Bretanha, teve cinqüenta escolas maternais batizadas em sua homenagem e regidas por seus princípios - as “maisons vertes”. Uma medalha com sua efígie foi cunhada pela Casa da Moeda francesa em 1990. Fenômeno editorial, seus dois livros póstumos foram grandes best-sellers: “Auto-portrait d´une Psychanalyste” vendeu 80 mil exemplares em dois meses, “Paroles pour l´Adolescent” vendeu 130 mil. Alguns de seus livros anteriores, como “La Cause des Enfants” vendeu também 130 mil exemplares e “Lorsque l´Enfant paraît”, 300 mil. Influenciou diretamente as reformulações em andamento das leis francesas referentes aos direitos das crianças e adolescentes, bem como na revisão do Estatuto da Criança da UNESCO.

Uma longa matéria de capa, que trazia também uma entrevista sua até então inédita, foi publicada na prestigiosa revista semanal francesa L`Express em janeiro de 1990.

De fato, esta analista muito fez pela aplicação da psicanálise na criação e educação das crianças, enfatizando a responsabilidade e os deveres dos pais, ao invés de reforçar sua autoridade tida como inquestionável.

Dolto, personalidade polêmica, defendia algumas idéias controvertidas, como a suposta capacidade de entendimento de bebês recém-nascidos, com quem costumava falar. Levava, assim, às últimas conseqüências o fato de sermos seres culturais, seres da linguagem. Como diz L´Express, tais idéias geraram certo afastamento inicial e crítica dos colegas, atitude essa posteriormente superada. Ao lado de seu nunca negado gênio clínico, Dolto é reconhecida, junto com Lacan, ocupando um lugar excepcional na psicanálise francesa..

Este seu livro agora relançado aqui - A CAUSA DOS ADOLESCENTES - Editora Santuário - , cujo manuscrito Dolto corrigiu poucos dias antes de morrer, foi produzido na esteira do grande impacto pedagógico e educativo causado pela “Cause des Enfants”.

Com sua sensibilidade habitual, sua capacidade de compreensão, Dolto enfoca temas importantes deste período tumultuado que é o da adolescência, vista aqui como uma passagem, uma morte para a infância e um renascimento na vida adulta.

A partir de mitos, dos arquétipos da juventude; da presença dos jovens nas artes, na literatura; dos estudos dos heróis e modelos dos jovens; dos sonhos de eterna juventude da humanidade, Dolto chega aos mais pungentes problemas que atingem esta faixa etária: suicídios, fugas, condutas delinqüenciais, uso de drogas, fracasso escolar, o efeito de lares desfeitos, os comportamentos amorosos.

Dolto discorre sobre as dificuldades do adolescente em falar de sua própria confusão, dividido entre os desejos de crescer e de permanecer criança, vivenciando esta transição como uma morte, já que - de certa forma - tem que morrer como criança , tem de abrir mão das prerrogativas e vantagens desta condição, num momento em que a vida adulta é vista, muitas vezes, como um desafio acima de suas próprias forças, quando não são visíveis ainda as benesses e aquisições deste novo estado. Nesse conflito, Dolto situa a importância das idéias suicidas, tão freqüentes nesta época.

Tal confusão é compartilhada pelos pais, atrapalhados pela revivescência de suas próprias adolescências, entrando em inveja e competição com os filhos, transformando-se também em adolescentes, abandonando o lugar que deveriam ocupar, tão necessário nesta ocasião, de modelos e representantes da Lei. Os pais agem com excessiva indulgência ou exagerado autoritarismo repressor.

Em ambos os casos, está em jogo o fazer o luto pelo filho pequeno que cresce, que não é mais “seu”, que não é mais dos pais, que têm de perdê-lo para o mundo, têm que deixa-lo soltar as amarras e navegar em sua própria rota. Os pais se defrontam com a sucessão das gerações, têm que aceitar o prenúncio do próprio envelhecimento, do tempo que passa, da morte.

Neste livro, Dolto usa com parcimônia seus exemplos clínicos, abundantes em outros livros e tão elucidativos e esclarecedores para os pais - que são o maior alvo deste livro -, assim como para os profissionais da área. Isso não diminui a utilidade do livro, que fornece uma grande massa de informações em seu texto e nos sete anexos com abundante bibliografia sobre os assuntos abordados.

Uma observação inevitável: no correr do livro, vamos vendo, mais uma vez, a distância enorme entre os recursos públicos (escola, saúde, assistência social, etc.) da França no trato da criança e do adolescente, quando comparada com nosso país, com nossa infância abandonada, nossos trombadinhas, nossos Pixotes no irreversível caminho da delinqüência, da perversão, da loucura, toda uma geração de futuros adultos mentalmente incapacitados para o amor, para o trabalho, para a vida.


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