Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Março de 2004 - Vol.9 - Nº 3

Psicanálise em debate

Resenha de “De Que amanhã...” Diálogos de Jacques Derrida e Elizabeth Roudinesco
Jorge Zahar Editor - Rio de Janeiro - 2004 - 240p.

Sérgio Telles

Amigos de longa data, a psicanalista Elizabeth Roudinesco e o filósofo Jacques Derrida dialogam neste livro sobre a modernidade e refletem sobre o futuro, tendo como mote um verso de Victor Hugo: “De que amanhã se trata?”.

Pelo visto, um amanhã que já se desenha agora, no desdobramento das questões que Derrida e Roudinesco esmiúçam com grande acuidade, num esforço iluminista de afastar o obscurantismo e propagar conhecimento.

Um dos pontos de maior comunhão entre os dois autores é o apaixonado amor pela psicanálise, que os leva a preconizar a necessidade inadiável de que o saber psicanalítico, “sem álibi teológico ou metafísico”, seja absorvido pelos discursos ético, jurídico e político. Ambos se preocupam com a natureza das instituições psicanalíticas, fato que os levou a criarem, com René Major, o movimentos dos Estados Gerais da Psicanálise (www.estadosgerais.org).

Como é sabido, o próprio procedimento de “desconstrução”, pelo qual Derrida ficou famoso, apóia-se fortemente nas descobertas freudianas. As desconstruções realizadas nesse diálogo remetem, de certa forma, ao clássico freudiano “O Mal-estar na Cultura”.

A história da humanidade é uma tumultuada alternância entre civilização e barbárie, na qual tem sido necessário uma permanente vigilância para que a primeira não seja destruída pela segunda.

Essa visão corrente necessita correções, como mostrou Freud. A maior delas é o reconhecer que a oposição civilização-barbárie não marca campos completamente heterogêneos, pois a barbárie esta inserida no próprio cerne da civilização; estruturas simbólicas consideradas baluartes da civilização estão assentadas na mais pura barbárie. O conflito entre pulsão e repressão é constitutivo da civilização e a força da pulsão de morte não deve ser jamais ignorada.

Isso fica claro na desconstrução que Derrida faz da pena de morte. Descobrimos com ele que a organização do estado e o sistema jurídico - evidentes expressões de civilização - têm como pedra angular a pena de morte e que ela, por sua vez, se apóia em arcaicos e bárbaras idéias de sacrifício sangrento humano. O conceito de pena de morte está ligado à questão do poder de Estado, de sua soberania (o direito à exceção, direito de exercer a crueldade) e suas relações com a religião.

Ampliando a desconstrução, Derrida analisa a íntima relação existente entre a pena de morte e a Igreja Católica, que nunca se manifestou contra tal procedimento, fato curioso dado sua pregação centrada no perdão, no `amai o próximo como a ti mesmo'. Algo semelhante ocorre com a posição da filosofia, que - com raras exceções - silencia a respeito da pena capital. Aos muitos problemas filosóficos aí envolvidos (pena interna ou externa; auto-punição e hetero-punição; a interpretação kantiana da lei de talião; as questões da paz, da guerra e do perdão) Derrida acrescenta a descoberta psicanalítica de que o sentimento inconsciente de culpa precede o crime, o que coloca tudo isso sob nova perspectiva, possibilitando a idéia de que - no futuro - o mal seja considerado uma doença, como foi expresso por Reik e endossado pelo próprio Freud.

Citei com algum detalhe as considerações de Derrida e Roudinesco sobre a pena de morte, mas a mesma complexidade e beleza expositiva é encontrada nos demais temas abordados - a liberdade e a fundamental importância do encontro com o outro, as políticas das minorias, a violência contra os animais, o retorno do anti-semitismo e as mudanças na constituição da família possibilitadas pela técno-ciência.

Por fim, Derrida propõe a necessidade de elaborar o luto pela Revolução tal como a entendíamos, para que possamos resgatar seu Espírito na construção de uma nova Internacional, na qual as noções de “programa” e “política”, devidamente desconstruídas, possibilitariam a criação de direitos humanos além da “cidadania”, por colocarem em jogo uma extraterritorialidade e um abandono do estado como referência.

Aí então seria possível um novo “amanhã”.

Publicado no suplemento MAIS! do jornal “Folha de São Paulo” em 07/03/04


TOP