Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Fevereiro de 2004 - Vol.9 - Nº 2

Psicanálise em debate

O caso do Jumento

Sérgio Telles

Relatarei aqui uma sessão de psicanálise que me parece ilustrativa tanto do ponto de vista teórico como técnico.

O RELATO DA SESSÃO

Cecília chega à sessão dizendo que acaba de sair de uma conversa muito difícil. Estava com Júlia, uma amiga que não via há muito tempo e com quem estava colocando as notícias em dia. Conta que Júlia é uma pessoa complicada, sempre namorando com homens casados. No momento tem um namorado solteiro com quem se dá muito bem. Ele tem insistido em morarem juntos em Campinas, onde trabalha. Júlia reluta em aceitar essa proposta. Desde a morte dos pais, sente-se responsável pelo irmão doente, que, apesar de praticamente ser um dependente seu, sempre a tratou com grosseria. Júlia acha que não pode “traír” o irmão, abandonando-o sozinho. Sente como uma vingança contra ele a possibilidade de ter uma relação amorosa estável e sair de casa. É como se dissesse: “está vendo, você não ligava para mim, pois agora fique aí sozinho que eu vou embora”.

Cecília diz ter ficado atrapalhada na conversa com a amiga por sentir que se identificava muito com ela. Via como o que Júlia dizia se assemelhava muito com aspectos dela mesmo, desde que não se sentia autorizada a casar pois, se o fizesse, abandonaria o pai viúvo e o irmão mais novo a quem é muito apegada.

Concordando com o insight de Cecília, digo-lhe que, de fato, muitas vezes tínhamos visto como para ela é difícil se separar do pai e do irmão e seguir o próprio caminho. Faz malograr todas as abordagens amorosas que recebe. Parece não querer deixar de ser a filha e a irmã para ser a mulher de um homem. Tal mudança parecia impedida por fantasias incestuosas e agressivas que terminavam por paralizá-la.

- S., não vá ficar puto, mas a Bia me disse que... - e Cecília faz um relato de algo que uma cartomante lhe dissera recentemente.

Não era a primeira vez que ela me falava da cartomante, na verdade o tem feito com alguma freqüência nos últimos tempos e tenho interpretado isso como um desejo seu de me provocar ciúmes, já que fala com grande respeito e admiração dos sábios conselhos da cartomante que tanto a ajudam, ao contrários de minhas desvalorizadas e inóquas interpretações.

Mostro para Cecília como está, neste momento, agindo da mesma forma que Júlia. Quando dizia para eu “não ficar puto” é porque de fato queria que eu assim ficasse - “já que você, S., não liga para mim, me vingo, ataco você e me ligo com a cartomante, abandonando você”.

Cecília responde que só falou aquilo porque toda vez que menciona a cartomante eu “fico puto”. De resto, não concorda muito com o que eu disse.

Após um curto silêncio, conta que foi jantar com Norma e uma outra amiga. Durante o jantar, deram boas risadas, “lembrando velhas histórias, como a do jumento, um episódio que ocorreu na fazenda”. Depois conversaram longamente a respeito de uma viagem que farão e cujos planos Cecília passa a me descrever com detalhes.

Escuto os planos de sua viagem e, ao fazer uma pausa, pergunto-lhe qual era a história do jumento que tanto as divertiu.

Cecília me conta que, tempos atrás, um grupo de amigos - entre eles, Norma - passou uma temporada na fazenda. Numa ocasião estavam andando a cavalo ela, Norma e outra amiga. “Acontece que na fazenda tem um jumento pega, que viera do Nordeste, daqueles pequeninos e bem orelhudos, com a cabeça enorme” - diz ela. Este jumento fora trazido para cruzar com as éguas, para a produção de burros e mulas, animais resistentes para o trabalho de cargas.

- Mas os jumentos são muito burros, diz Cecília. Um cavalo “inteiro”, ou seja, não castrado, ao ver de longe uma égua, já começa a relinchar, fica excitado. O jumento não, ele não reconhece de longe se o animal que vê é macho ou fêmea e aí ataca. Foi o que aconteceu neste dia. Estávamos cavalgando e nos dirigimos para o riacho. Para tanto tínhamos que atravessar o piquete do jumento. Pois na hora que nós três estávamos no meio do caminho, o jumento veio feito louco para atacar nossos cavalos. Eles eram castrados e ficaram assustados com o jumento, que não saía de perto. Foi uma situação estranha. Norma ficou apavorada e começou a chorar, dizendo-se mãe de três filhos e que não queria morrer. A outra amiga, mais corajosa, ficou tentando conter o jumento enquanto Norma e eu saíamos dali.

Cecília faz uma pausa e continuou.

- Houve outra história engraçada, pois ao cruzar, o jumento só ejacula se morder a égua inteira. Então ela se defende com chutes e mordidas. Norma estava de novo na fazenda e presenciou os preparativos para o cruzamento, quando amarraram as pernas da égua, colocaram um pano na boca dela e soltaram o jumento. Ele mordeu ela inteirinha e a égua fazia sons desesperados, sem poder se defender.

Cecília imita o som, que a égua fazia - hum, hum,hum) e prossegue.

- Norma ficou revoltada e teve uma crise de choro. Disse que era um absurdo aquela situação e que era incrível como ninguém impedia aquela violência. Dizia que é porque éramos todos machistas e achávamos aquilo natural.

Como Cecília parecia ter acabo seu relato, perguntei-lhe se sabia de onde sou, minha procedência.

- Claro que sei, você é nordestino, do Ceará, você já disse alguma vez.

- Pois é, que será que esse jumento nordestino quer dizer? - disse eu.

- Não tem nada a ver com você essa história, não estou inventando nada, tudo isso aconteceu mesmo.

Mostro então para Cecília como essa história condensa de forma interessante vários aspectos de sua conflitiva atual que estávamos trabalhando naquele período:

1 - A presença de um jumento nordestino caracterizado como “muito burro, com orelhas e cabeça enormes” mas também como o resistente reprodutor de bestas de carga poderia expressar a ambivalência com a qual Cecília me vê como seu analista. Ao mesmo tempo que expressa seus ataques invejosos e agressivos contra essa minha capacidade analítica (sou um jumento nordestino muito burro), simultaneamente reconhece minha capacidade de compreendê-la, pois tenho “enormes orelhas” analíticas ligadas a uma enorme “cabeça” que produz interpretações e sou resistente com as “cargas” que me faz levar ao projetá-las sobre mim.

2 - O jumento é uma incansável animal sexual que ataca sádica e indiscriminadamente a todos - machos e fêmeas - que atravessam seu piquete. Isso parece mostrar suas fantasias sobre o que ocorre em meu consultório, onde eu estaria em permenente coito com meus pacientes, fato que a excita, a deixa excluida e desejosa de participar desse grande festim orgíaco. Mas, tal como sua amiga Norma, fica aterrorizada por concebê-lo dentro de um contexto de extrema violência.

Cecília me responde que eu coloco um pano na boca dela, tal como é feito com as éguas, pois digo o que quero durante a sessão e depois a mando embora sem que ela possa retrucar ou se defender.

- Você se dá conta de que me diz que vive a sessão como um cruzamento sádico com o jumento nordestino?

- S., você não tem papas na língua, diz o que bem quer e me manda embora sem direito a resposta. Agora mesmo, sei que a sessão está acabando e vou ter de ir embora sem poder dizer nada.

Digo-lhe que, de fato, nosso tempo se esgota, mas que poderemos retomar o assunto em outra ocasião.

ALGUNS COMENTÁRIOS

O material dessa sessão ilustra aspectos do funcionamento psíquico primitivo descrito pela teoria freudiana como “fase oral” e que Karl Abraham especificou como “fase oral-sádica”. Avançando um pouco mais, Melanie Klein a colocou como elemento fundamental da “fase ou posição esquizo-paranóide”.

Como esses aspectos já foram exaustivamente descritos, podemos dizer que não há novidade no que foi exposto acima.

Entretanto, as matérias tratadas pela psicanálise têm a propriedade de serem particularmente sensíveis à repressão.

Isso quer dizer que o inconsciente, tanto em sua emergência no discurso e nos atos dos sujeitos humanos, bem como nos construtos teóricos que tentam formalizá-los num saber - está permanentemente na mira dos mecanismos de defesa, cujo modelo maior é a repressão. A mente consciente está sempre querendo eliminar as evidências dessa produção espúria, que vem contradizê-la e deflagrar o conflito. Isso quer ainda dizer que todos - psicanalistas ou não - estamos sujeitos à repressão.

Além do mais, não podemos esquecer que vivemos um momento no qual a cultura em geral e mesmo o pensamento psiquiátrico tentam esquecer a psicanálise, considerá-la como algo superado, um velho remédio que se usa quando não se tem outra coisa “mais moderna'” para tomar.

Assim, a meu ver, são sempre bem-vindos os relatos clínicos que relembrem e reafirmem as descobertas teóricas, que as problematizem, que as questionem, que as enriqueçam.

Se do saber psicanalítico se exige um depuramento epistemológico, uma das formas que temos de ajudar a construí-lo é aumentar o acervo daquilo que consideramos, dentro de nossos parâmetros tão distantes das `hard sciences', como `provas clínicas'.

Por exemplo, considero meu relato como uma `prova clínica'. Ele articula a teoria com a clínica, evidenciando aspectos da teoria pulsional e da técnica centrada na transferência.

Gostaria de abordar alguns aspectos técnicos. Espero ter deixado claro o desdobramento do material da sessão no relato acima, mas para fins expositivos, o retomo de forma esquemática.

Podemos dividir o discurso da analisanda em três temas. No primeiro, a analisanda chega falando de um encontro com uma amiga com a qual se identifica na dificuldade de aceitar a corte de um pretendente e conseqüentemente deixar o lar paterno.

O segundo gira em torno das excelências das opiniões de uma cartomante e o terceiro, quando a analisanda conta de um jantar com outras amigas, onde relembraram fatos antigos e discutiram os projetos de uma viagem futura.

O primeiro tema é recorrente na análise. De fato, a analisanda, jovem bem apessoada e com muitas qualidades, já tivera muitas propostas de casamento, sempre recusadas por motivos objetivamente irrelevantes, o que apontava para impedimentos inconscientes. Com a morte da mãe, a situação se agravou, pois sentia-se obrigada a cuidar do pai e do irmãozinho menor. O fato de se identificar com a amiga fazia muito sentido e poderia ser vista como decorrente do trabalho de análise.

O segundo tema, que aborda os ciúmes e as competições da analisanda, também é freqüente em nosso trabalho. O terceiro diz respeito a um jantar com outras amigas, onde relembra o passado e faz projetos para o futuro. Fica claro como a analisanda está distante do humor depressivo que a invadiu desde a morte da mãe e que a fizera se afastar dos contatos sociais.

Até aqui a escuta do discurso da analisanda possibilitou algumas constatações (sua identificação com a primeira amiga, seus ciúmes e invejas do analista expressos na comparação como a sábia cartomante) e recolher algumas informações (seu humor não depressivo que possibilita uma vida social satisfatória).

Mas o ouvido analitico registra, no terceiro tema, que a analisanda e as amigas “deram boas risadas com a história do jumento” e nota que ela não se detém sobre esse fragmento. O ouvido analítico despreza, se podemos falar assim, o que a analisanda oferece copiosamente - extensa descrição dos projetos da viagem - por julgar ser este um material resistencial e vai pesquisar aquilo que julga ter sido sintomaticamente omitido. Algo que a analisanda anuncia e esquece, reprime, não fala.

Nesse sentido, o material exposto serve de “prova clínica” do descentramento da escuta analítica, que parte do pressuposto de que o inconsciente nunca se explicita diretamente. Ele só se evidencia nas falhas, nos equívocos, nos pensamentos truncados, nos erros, nos esquecimentos, nas `bobagens', no `sem sentido', no que `nem vale a pena dizer', nos chistes, nas piadas, no risível.

E a pesquisa encontra o veio de ouro no meio da ganga bruta. Vamos ver a clara manifestação, na transferência, de fantasias eróticas incestuosas fortemente tingidas pelas pulsão oral-sádica. A analisanda revela que vive a sessão como um coito sádico. Como ela mesmo diz, coloca-se no papel da égua com um pano na boca e impedida de falar e de se defender, e me vê como o jumento nordestino que a ataca sexualmente sem cessar.

Recolhida essa fantasia, o analista pode elaborar a partir daí uma construção que a coloque em perspectiva dentro dos sintomas e sofrimentos da analisanda. Afinal de contas, o analista lembra que uma das queixas principais que a trouxeram à análise é sua dificuldade de aceitar os pretendentes, fato que ela mesma retoma nesta sessão, no primeiro tema (conversa com a amiga com a qual se identifica).

O analista pode propor que um dos impedimentos da analisanda em aceitar os pretendentes deve-se à introjeção de uma assustadora cena primária regida pelo sadismo oral que lhe serve como modelo de uma relação sexual. Não pode conceber um ato sexual amoroso e prazeiroso entre os pais e o transforma numa violência selvagem, por projetar neles seus próprios ataques orais invejosos e ciumentos. Como consequência, teme que o mesmo venha a lhe ocorrer, o ser vítima de um coito sádico oral onde sofreria mordidas agressivas, onde prazer e dor estão indissoluvelmente ligados.

O elemento sádico oral permite levantar ainda outra questão ligada a esse sintoma da analisanda. Tal como conversara com a amiga no primeiro tema, ela não se autorizava a casar por não poder abandonar o pai viúvo e o irmãozinho. À luz do que vimos acima, talvez a analisanda se sinta obrigada a cuidar deles por sentir-se culpada pela morte da mãe, vítima de ataques orais ao seio, uma situação ainda mais precoce e primitiva do que a referente aos ataques fantasiados à cena primária.

A construção torna-se mais firme quando o analista lembra que, no início da análise, a analisanda relatava uma especial inibição de comer na frente de estranhos, especialmente dos pretendentes. Sentia-se profundamente envergonhada, temia perder o controle dos movimentos masticatórios, fazer algum vexame à mesa. Ou seja, já aí aparecia a ligação entre a oralidade e a genitalidade.

É claro que toda a problemática da analisanda não se resume ao que foi detectado nessa sessão, mas ela trouxe subsídios importantes para a continuidade do trabalho analítico.


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