Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Janeiro de 2004 - Vol.9 - Nº 1

Psicanálise em debate

Resenha do livro FAMILIA Y PSICOANÁLISIS EN LA ARGENTINA - Apuntes para una historia conceptual - Juan Carlos Nocetti - Editorial Biblos - Buenos Aires - 2002 - 1ª edicción

Sérgio Telles

Muitos, entre os quais me incluo, pensam que a família precisa ser incluída no campo da psicanálise. Essa afirmação pode parecer redundante para alguns. Afinal, na medida em que o complexo de Édipo é o objeto de central interesse para os analistas, não está nele implicada automaticamente a família? O complexo de Édipo não coloca em jogo as relações do analisando com seu pai e sua mãe, dando a essas relações um peso especial, ao atribuir-lhe uma função instituinte e estruturante do próprio psiquismo?

É verdade o acima postulado. Entretanto, a família entrevista pelo complexo de édipo é aquela internalizada pelo analisando, vista sob o prisma de seu desejo condicionado pelas pressões de suas pulsões.

Isso significa que a família entrevista pelo analista no encontro analítico é uma família fantasmática: representada, simbolizada, denegrida, idealizada, distorcida ao sabor dos afetos de seu analisando.

A importância da família, de certa forma, é uma velha questão para a psicanálise. Como sabemos, as primeiras pacientes histéricas de Freud acusavam seus pais, ou parentes próximos, de abuso sexual. Freud pensou que essa experiência constituía o `trauma' gerador de seus conflitos e sintomas. Depois de um certo tempo, ele constatou que essas queixas não correspondiam necessariamente a fatos ocorridos na realidade. Eles eram produto da fantasia, do desejo inconsciente daquelas pessoas. Eles se constituiam numa `realidade psíquica' a ser diferenciada de uma `realidade factual'.

Ao fazer essa distinção, Freud deu origem ao campo da psicanálise. Descobria o inconsciente e todas suas surpreendentes características, assim como sua íntima vinculação com a sexualidade.

Muitos de seus modernos detratores o acusam de ter - neste exato momento constitutivo e inaugural da psicanálise - negado a realidade explosiva do abuso sexual infantil pelos pais, criando uma teoria na qual essa realidade era transformada numa mera fantasia. Ainda para aqueles detratores, dessa maneira Freud teria barganhado oportunisticamente com o `establishment' mantendo hipocritamente um véu sobre uma realidade que não poderia ser desvendada1.

Que esses detratores estavam equivocados foi demonstrado por fatos recentes. Nos anos 80 e início dos anos 90 os Estados Unidos foram varridos por uma onda de `recuperação de memórias reprimidas', quando milhares de pacientes passaram a acusar seus pais de abuso sexual. Os desavisados terapeutas endossaram as acusações fantasiosas de seus pacientes e, levando ainda mais longe seus equívocos, denunciaram tais supostos abusos às autoridades legais, criando situações gravíssimas.

Mas é preciso dizer que essa distinção entre `realidade psíquica' e `realidade fatual' é um problema delicado e permaneceu sempre como uma questão presente e complexa para Freud e para a psicanálise.

Hoje o analista sabe que se posiciona no meio de um espectro de possibilidades onde, numa ponta, pode estar um paciente que se nega a ver a loucura de sua própria família, mantendo rigidamente uma idealização da mesma; na outra está o paciente que agride e denigre uma família que o analista percebe não ser tão má quanto o paciente a vê.

Muitas vezes o analista não pode deixar de reconhecer, através do que ouve, o quão doentio e sofredor é o meio de onde seu paciente provém.

Isso nos faz pensar sobre a pertinência e a necessidade de ampliar o campo terapeutico da psicanálise para incluir o grupo familiar.

Essa abertura do campo implica em sérias alterações na teoria e na técnica psicanalíticas. Por esse motivo, poucos se atrevem a propô-la e a se desencubir das tarefas pesadas que tal empreendimento implica.

Felizmente a resistência maior frente a essa ampliação parece ceder e vários trabalhos tem aparecido nas últimas duas décadas.

Um deles é esse interessante livro de Juan Carlos Nocetti, o “Familia y Psicanalisis en la Argentina - Apuntes para una história conceptual”, recentemente publicado.

Como o título já o indica, trata-se do registro histórico do percurso traçado pela idéia de uma psicanálise de família dentro das instituições psicanalíticas argentinas. Esse enfoque poderia parecer estreito demais, diminuindo o interêsse dos leitores distantes da realidade daquele país vizinho. Mas tal perigo é afastado na medida em que o autor se propõe a fazer uma história “conceitual”, mostrando a evoluções das idéias derivados da psicanálise e de ciências afins (antropologia, sociologia, cibernética, etc) que possibilitam e armam um arcabouço teórico capaz de sustentar a postulação de uma psicanálise de família.

Nocetti considera que a questão da terapia de família teve dois momentos decisivos na Argentina. O primeiro aconteceu em 1970, quando se deu o Primeiro Congresso de Patologia e Terapeutica do Grupo Familiar, e o segundo, em 1987, quando se realizou o Primeiro Congresso de Psicanálise de Família e de Casal. A nomenclatura assumida nos dois eventos dá conta da mudança de idéias ocorrida entre eles dois.

Traçando um panorama mais amplo, Nocetti retrocede até Pinel, que ao quebrar os grilhões que prendiam os loucos e ao se propor escutar e entender o discurso por eles produzido, iniciou uma nova forma de abordar essa dimensão do sofrimento humano. A loucura passa a ser tratada inicialmente de forma individual. Aos poucos se instalou uma mudança nessa perspectiva - abandonou-se o indivíduo como unidade diagnóstica e terapêutica e viu-se a possibilidade de centrar a atenção no casal e, posteriormente, na família.

Nocetti julga que essa mudança deve-se a três importantes causas - a experiência acumulada durante a Primeira Guerra Mundial (quando ficou clara a importância decisiva dos fatores sociais na produção dos transtornos mentais); os desenvolvimentos das novas ciências durante a segunda metade do Século XIX (a criação dos conceitos de “campo”, “Gestalt”, o questionamento da neutralidade do observador, etc) e a crise da psiquiatria do final do Século XIX (a disputa entre `organicistas' e `psicologistas' cede com a preponderância dos primeiros, cujos excessos levam à formação, em 1930, da Liga Internacional de Higiene Mental, visando a recuperação e a reintegração dos doentes mentais à sociedade, e fica possível o retorno dos `psicologistas', Freud entre eles).

Ainda como antecedentes dos atuais estudos psicanalíticos da família, Nocetti lembra que, a partir dos ano 40, foram produzidos vários trabalhos que mostravam a relação da familia com a esquizofrenia e a psicose infantil, como os de Frieda Fromm-Reichmann (que criou o conceito de `mãe esquizofrenogênica'), John Rosen (conceito de `mãe perversa'), Leo Kanner e Margareth Maller (conceito de `relação simbiótica' entre mãe e filho). Esses primeiros trabalhos paradoxalmente voltavam a enfocar a patologia de forma individual, só que, agora, centrada na mãe. Os estudos atuais mostram como a patologia envolve toda a família e não só a mãe e um dos filhos. Quanto à abordagem psicanalítica dos grupos, é necessário lembrar que, a partir de 1932 a Tavistock Clinic passa a estudá-los com finalidades terapêuticas. A terapia de grupo teve um grande desenvolvimento na Argentina a partir dos anos 50, devido ao trabalho pioneiro de Pichon Rivière e dos analistas que estudaram na Tavistock Clinic, como Emilio Rodrigué. Uma outra referência teórica importante citada por Nocetti é o estruturalismo francês, especialmente a obra de Claude Levi-Strauss, com seus estudos antropológicos sobre as estruturas elementares de parentesco.

São essas as matrizes que possibilitaram, na Argentina, o aprofundamento dos estudos referentes ao `grupo familiar' e posteriormente, a postulação de uma psicanálise de família. Formam o pano de fundo dos dois momentos especiais referidos por Nocetti.

Em sua opinião, no congresso de 1970, três trabalhos sintetizam as principais propostas ali desenvolvidas. O primeiro, “Família y estructura familiar” de Isidoro Berenstein rompe com o modelo “tradicional” proposto por Pichon Rivière e se apóia fortemente em Levi-Strauss, criando um modelo “psicanalítico-estrutural”, no qual joga papel importante a relação avuncular. O segundo, “Terapia Familiar, un cambio radical”, de Jay Haley, abandona totalmente as referências psicanalíticas e usa os aportes fornecidos pelas teorias dos sistemas, dos jogos, dos tipos lógicos e críticas ao condutivismo social de Watson. Um conceito operacional chave desse enfoque é o “duplo vínculo”, produzido nos anos 60 pela Escola de Palo Alto. Para esse enfoque não interessa o passado e a história da família e sim a forma como ela interage no momento. É , pois, uma abordagem “sistêmica” e “interacional”. O terceiro, “Una teoria del abordaje de la prevención en el grupo familiar” de Pichón Rivière é o mais “tradicional” dentro da perspectiva argentina, na medida em que expressa o pensamento de Pichon Rivière, um veterano praticante das terapias de grupo, que propõe um modelo de abordagem da familia decorrente de uma síntese pessoal de contribuições vindas de diversas áreas científicas com a teoria psicanalítica clássica e as novidades kleinianas de então.

Desse momento inaugural em 1970, desabrochou o evento de 1987, onde a abordagem psicanalítica da família é assumida de forma mais clara, tendo sido o evento patrocinado pelas diversas associações psicanalíticas da Argentina.

Neste encontro, configuram-se os três modelos básicos já esboçados no congresso anterior. São eles o sistêmico, o analítico e o estrutural. Evidencia-se ainda tentativas de articulações entre estes três modelos de modo que Nocetti termina por agrupar os trabalhos desse congresso em cinco modelos ou posturas.

São:

  1. o modelo sistêmico-interacional, que ignora qualquer aspecto histórico, centrando-se na interação atual da família nuclear; ali procura discriminar suas funções (matrimonial, filial e fraterna), considerando que, sob o influxo de fatores histórico-sociais, tais funções se organizam em sistemas e sub-sistemas que interagem entre si;
  2. o modelo sistêmico-relacional, acrescenta ao modelo anterior a dimensão histórica; desta forma, articula os aspectos sistêmicos com as premissas básicas de cunho dinâmico e relacionais próprias da psicanálise, tal como descritas no complexo de édipo;
  3. o modelo vincular, é o modelo mais exclusivamente psicanalítico; parte ele também da família nuclear, que se inicia com a escolha de objeto decorrente dos desdobramentos identificatórios e estruturantes do complexo de édipo e entende as relações familiares como uma trama complexa inconsciente. O complexo de édipo aparece não só como constituinte do aparelho psíquico como também constituinte do casal. Há uma modificação no modelo clássico do complexo de édipo, na medida em que se propõe uma reciprocidade e interação nas relações triangulares. Não só se leva em conta a ambivalência do filho em relação aos pais como também a ambivalência deles entre si e o efeito disso sobre o filho, ou ainda a ambivalência de uma dupla sobre um terceiro excluído, que pode ser ou não o filho.
  4. o modelo estrutural-vincular - articula o complexo de édipo com a estrutura elementar de parentesco, conceito de Levi-Strauss. Para tanto, faz duas alterações nas teorias originais, a psicanalítica e a estrutural - na primeira, incluindo o vínculo com a família materna (tio avuncular), criando assim um quarto termo e configurando um complexo de édipo ampliado; na segunda, ao estender a estrutura elementar de parentesco para abarcar o vínculo com o representante da família paterna, cunhando o termo `pai maternalizado'.
  5. o modelo estrutural - visto a partir da estrutura elementar de parentesco - considerada como a formalização da proibição do incesto - o complexo de édipo passa a ser um efeito dessa proibição sobre o modo de constituição de um sujeito; a estrutura elementar das relações familiares - que faz da família nuclear um modelo imaginário - dispõe os elementos que conduzirão o sujeito de seu lugar na natureza à ordem da cultura.

Como Nocetti - psicanalista autor de vários trabalhos sobre o tema e personagem importante na história que relata - deixa claro desde o início, esse é o histórico percorrido na Argentina pelo conceito de psicanálise de família.

Outros trajetos podem ser traçados. Por exemplo, Ferenczi insistiu em privilegiar o trauma como decorrente de uma realidade factual, a contrapelo da corrente maior do pensamento psicanalítico. Essa postura permite observar a família não apenas como receptores projetivos da fantasia do paciente mas como um grupo com dificuldades variadas em interação e com algo potencial patógeno para todos os seus membros. Essa linha de pensamento se desdobra em Balint na Inglaterra, em Abraham e Torok na França e é retomada por Kaës2, em seus trabalhos sobre o transgeracional.

Podemos observar como o traço que une esses enfoques familiares é a ampliação do complexo de édipo. Tal abertura questiona a possibilidade de conceber a família apenas em sua modalidade nuclear, que é considerada pelo modelo estrutural - como acabamos de ver - como uma formação meramente imaginária.

Penso que a ampliação do complexo de édipo e a reciprocidade - idéias defendidas pelo modelo vincular e que são alterações teórico-técnicas necessárias para o exercício da psicanálise de família - podem ter decisivo uso nas psicanálises individuais. Penso ainda que as contribuições de Lacan, ao mostrarem a constituição do sujeito como uma alienação no desejo do Outro, permitiram focalizar melhor a importância do inconsciente paterno-materno na constituição do aparelho psíquico da criança abrindo espaço para a compreensão analítica da família, muito embora ele mesmo não avance até esse ponto. Da mesma forma, os trabalhos de Laplanche, com os conceitos de metábole, significantes enigmáticos caminham nesta direção e também não avançam para uma clara defesa da psicanálise de família3.

A psicanálise de família se impõe como uma necessidade premente. Se ainda fôsse preciso convencer alguém de que o mundo interno dos pais tem decisiva influência na constituição do psiquismo de seus filhos, que a saúde mental ou a loucura das quais podem ser portadores tem decisiva consequência na vida de seus filhos, a notícia publicada no jornal Folha de São Paulo, no dia 10 de janeiro de 2004 viria bem a calhar : “Estudo da USP aponta crescimento de registro de casos de violência doméstica; São Paulo lidera ranking de notificações. Desde 2000, pais já mataram 456 filhos”. Estão ali registrados, desde 1996, as seguintes ocorrências: notificações de casos de negligência: 37.091; casos de violência física: 30.412; violência psicológica: 14.074; violência sexual: 8.665; violência fatal: 456.

Os dados foram recolhidos pelo Laboratório de Estudos da Criança e do Adolescente (Lacri) da USP e referem-se a apenas 124 municípios e, como seria de esperar, são considerados pela técnica que deu as informações como sendo apenas “a ponta do iceberg”, levando-se em conta como essa pesquisa abrange uma mostra recente e restrita a um universo pequeno. Mesmo nesse universo, é possível que muitos casos não sejam notificados.

1 Masson, Jeffrey M. - Atentado à Verdade - Livraria José Olympio Editora - Rio - 1984

2 Ferreira, Fernanda P. e Pons, Suzana - Transferência como experiência do vivido e transmissão psíquica: a herança de Sandor Ferenczi - Pulsional revista de psicanálise - n, 164/165 - setembro de 2002 - São Paulto - p.17-26

3 Telles, Sérgio - Laio, Édipo e Antígona - uma trágica família: aspectos “copernicanos” da teoria freudiana no estudo de grupos - Percurso - n. 27 - 2º semestre de 2001 - São Paulo - p.101-112 (disponível nos arquivos da Psychiatry on line - Brazil -


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