Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Outubro de 2004 - Vol.9 - Nº 10

Psiquiatria, outros olhares

CASAL EM CRISE (*)

Dr. Antonio Mourão Cavalcante

Um ditado muito freqüente quando se trata de falar nesse assunto é : “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”. A evidência mais direta sugere que não devemos nos intrometer em um conflito conjugal. Seria perigoso. O ditado suporta, porém, uma outra interpretação, possivelmente mais exata. Significa que não se deve tomar partido por um dos dois. Que é arriscado tentar arbitrar. O casamento não suporta uma instância de julgamento, em separado. A proposta mais adequada para o terapeuta é buscar compreensão para o que acontece.

Alinhei alguns aspectos que gostaria de desenvolver sobre o tema:

1. A percepção que se deseja enfocar é a de natureza sistêmica. Deve-se entender o funcionamento de um casal em crise como uma única dinâmica. Isto é, uma unidade formada de um homem e uma mulher - o casal. A unidade de observação e intervenção não é individual. Isso muda completamente a abordagem e a percepção de funcionamento. Deixa de ser uma dinâmica linear - marido / mulher - para ser entendida como algo de circular. Pode-se resumir, mais ou menos, na seguinte expressão: “ele é como é, porque ela é como é. E, ela é como é, porque ele é como é.”Algo, como sugere a linguagem popular, eles se merecem. Ou, eles se completam. Eles constituem uma unidade. O casal.

2. Essa relação homem / mulher tem sofrido, nessas últimas décadas, grandes transformações. Citaria apenas 3 (três) como as mais recentes e relevantes:

    1. A mulher vê o mundo - Ela saiu de casa. Isso significou uma impressionante alteração no quotidiano da família. Foi estudar, trabalhar, participar intensamente das dinâmicas sociais. Um dado muito expressivo que demonstra essa transformação: na universidade brasileira, hoje, existem mais mulheres do que homens. Nos anos 60 era exatamente o inverso. Isso provoca uma grande mudança na visão do mundo e das coisas. Encontramos mulheres em todas as profissões. Não estão mais presas aos afazeres domésticos. A competição, por posto de trabalho, é também indicativo da presença feminina. Abre-se um espaço para a vida social. E, permeando isso tudo, a autonomia financeira que se processa de um modo gradual;
    2. O advento dos anticoncepcionais - Essa foi uma grande revolução porque permitiu, pela primeira vez, no campo feminino, que a sexualidade fosse separada da reprodução. A rigor esse era o grande fantasma do passado. Dos pais e das famílias. “minha filha, não se entregue!”. “minha filha, cuidado!” Para a mulher havia esse grande fantasma: transou, engravidou! Referimo-nos aos métodos anticoncepcionais como um todo e que tomou uma dimensão mais clara e definitiva com as pílulas. E, como conseqüência dessa transformação, a mudança em relação ao tabu da virgindade;
    3. Reivindica direito ao orgasmo - aspecto mais recente e que tem a ver com as duas precedentes. A mulher iguala-se ao homem na dimensão da sexualidade ou, com mais precisão, no mundo da afetividade. Essa busca tem colocado a relação homem / mulher diante de uma grande novidade. Estaria mais identificada com o lado afetivo, com o emocional. Resolvida a parte econômica, destaca-se agora a profundidade psíquica. Daí a perplexidade da mãe do passado, com a filha do presente: “Mas, minha filha, você conhece esse rapaz? Você sabe de que família ele é? Ele estuda o quê?” Ao que a filha responde com convicção: “Mamãe, eu amo o Ricardo e acabou-se!” A filha está determinando a égide da relação como sendo o afetivo.

As crises do casal hoje não passam mais pelo crivo da dependência econômica, nem muito menos pela presença dos filhos ou de classe social. O importante é estar de bem. Busca-se algo de prazeroso do ponto de vista afetivo, emocional. Esse deve ser o grande eixo a trabalhar quando esse sistema - casal - entra em crise. A realidade, na perspectiva sistêmica, é de receber o casal como uma unidade. Levar à construção de uma outra epistemologia. A rigor, trata-se de uma pedagogia mais do que de uma terapia.

A noção do trabalhar com casais é, sobretudo, permitir que eles se desentendam e que isso ocorra num lugar protegido. O casal deve aprender a lidar com as diferenças. Inexoravelmente, essa é uma triste e trágica constatação: não há possibilidade de um casamento eternamente feliz. Os casamentos que aparentam estar extraordinariamente bem, que não mostram jamais qualquer rusga. São os que correm mais riscos de explodir. Quando casais dizem que tem não sei quantos anos e tantos meses de “feliz união”, num acendrado discurso de conteúdo religioso, quase místico, na verdade, eles estão à perigo. Sobretudo quando surgir uma crise. É impossível, no quotidiano, que estas diferenças não aconteçam. Aliás, é uma grande descoberta os casais saber que podem desentender-se e continuar se amando. Que eles podem ter pontos de vista diametralmente opostos e continuar se querendo. Talvez, até, por causa dessa diferença.

Lendo a Bíblia, no Gênesis, descobre-se que Deus fez o homem e depois foi descansar. Algum tempo passado, foi olhar a sua mais extraordinária criação e percebeu que o homem estava triste. Então, Deus disse: não é bom que o homem esteja só! Mergulhou num sono profundo, tirou-lhe uma costela e fez a mulher. Para que ele foi criar a mulher? Ora, para mexer com o homem.... e vice-versa! A essência da relação está nisso. É o outro que me define. Para o crescimento comum é triste para um casal não ter esses momentos de divergência.

Um paciente relatou que quando viaja sozinho, fico chateado porque não tem com quem teimar! Chega diante de uma vitrine querendo comentar que parece feia e não tem quem o conteste. Ora, nessa usual convivência procede-se algo de fundamental: existe um universo que pode ser diametralmente oposto ao meu e que eu posso amar e entender. “Por que você acha bonito, se não vejo nada de excepcional?” Sabe, não é raro, mas acontece. Termino por considerar que é bonito e ela, que antes concordava, vai dizer: “mas não é tão belo assim...” A essência da relação não é a busca da concórdia obediente ou uma compreensão consentida. Mas, a construção de uma convivência. Não pacífica, mas possível. Daí falar-se tanto em pedagogia.

Por exemplo, tem casais que quando vão discutir, escondem-se e dizem: “lá em casa quando queremos divergir, vamos para o quarto... para que os nossos filhos não percebam que brigamos.” Isso é um contrasenso, pois eles sabem: “quando nossos pais vão para o quarto, de duas uma, ou é para brigar ou para trepar...”

Não há qualquer problema em que os filhos percebam as divergências entre os pais. O que eles aprendem? Que, apesar das contradições, dos pontos de vista diferentes, que eles se respeitam e se amam. Isso é uma grande descoberta para a humanidade, que começa a ser construída dentro do casal. Apesar de pensar diferente, eles podem conversar. Podem falar, podem ser autônomos, podem discutir e ninguém vai se matar... Nessa perspectiva pedagógica da crise, os casais se sentem bem mais liberados - à vontade - quando começam as expressar seus sentimentos, suas emoções. Descobrem que a relação humana - do casal - constrói-se a partir da troca de emoções, de sentimentos.

Esse procedimento está muito longe da postura do julgar. O dilema apresentado: “doutor, quem tem razão? Quem é que está errado?” Passa a ser superado. Não se trata dessa expressão. As abordagens individuais, de crises conjugais, são muito limitadas se o olhar não for sistêmico. Mesmo quando o terapeuta só atende um dos cônjuges, pode ter uma visão sistêmica. Não se trata da presença física, mas do conceito trabalhado. Muitas terapias se orientam no enfoque individual. A tendência desses tipos de abordagens é centrar o desejo na percepção própria, excludente. Sendo assim, será difícil aceitar viver com um parceiro. Basta-se a si próprio e o inferno será sempre o outro. A conseqüência mais freqüente é a descoberta que não dá mais certo viver com o parceiro. Eles passam a repetir uma escalada de relacionamentos incompletos ou insatisfatórios. Casar não é para quem quer, mas quem pode.

Precisa uma boa e consolidada maturidade para viver uma experiência a dois. Na percepção sistêmica não é um indivíduo em interação. Mas um sistema em dinâmica. E isso muda completamente o enfoque da situação. Onde não existe lugar para considerar, por exemplo, “a mulher como coitadinha. Nem o marido como esse ser cruel...” Na percepção sistêmica será mais pertinente dizer: “você tem o marido que você merece. Ou, ele tem a mulher que ele procura.”

Portanto a perspectiva não é a de julgar, mas compreender. A crise do casal não significa necessariamente a morte do casal. A crise é a tentativa de adaptação. A rigor está morrendo quando ocorre indiferença. Nessa perspectiva um casal está fenecendo quando se instala na rotina. A rotina é o câncer do amor.

Outro elemento conservador, e que tem um tom provocativo: não existem separados felizes. Existem separados aliviados...Aqueles que conseguem levar uma relação mesmo, aos trancos e barrancos, são os experimentadores do amor. São os iniciáticos do amor. A descoberta de que, apesar de, serem tão diferentes, pensarem de forma tão distinta sobre o mundo, podem viver a grande aventura de perceber o outro, não como o próximo, mas como o construtor do amor. Essa é uma grande descoberta.

INDICAÇÕES BIBLIOGRÁFICAS

Andolfi, Maurizio (org.) - A crise do casal, uma perspectiva sistêmico-relacional - Porto Alegre, ArtMed, 2002;

Cavalcante, A. Mourão - Casal, como viver um bom desentendimento - Rio de Janeiro, Ed. Record,

Peggy Papp (org.) - Casais em perigo: novas diretrizes para terapeutas - Porto Alegre, ArtMed, 2002;

Wallerstein, J.; Kelly, Joan - Sobrevivendo à separação: como os pais e filhos lidam com o divórcio - Porto Alegre, ArtMed, 1998;

(*) Trabalho apresentado na XXVII Jornada Cearense de Psiquiatria - setembro, 2004


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