Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Janeiro de 2004 - Vol.9 - Nº 1

Artigo do mês

A navalha de Ockham e o leito de procusto:
os problemas do diagnóstico em psiquiatria.*

“Totus mundus agit histrionem.”∗ ∗

“Uma psiquiatria verdadeiramente materialista define-se por uma dupla operação: introduzir o desejo no mecanismo e introduzir a produção no desejo.”

Gilles Deleuze e Félix Guattari

Filipe Doutel
Júlia Katunda

A medicina só consegue desenvolver um conjunto de hipóteses testáveis empiricamente quando passa a ter acesso ao corpo. Gregos e hindus praticavam a cremação, romanos, chineses, muçulmanos e cristãos tinham tabus religiosos que interditavam a realização de autópsias. No Renascimento, com a retomada do estudo e da representação do corpo, é que o racionalismo da era moderna iniciará o lento catabolismo da teoria dos quatro humores _ inconteste por mais de vinte séculos! Apoiado nos estudos de Harvey e Vesalius, cabe a Giovanni Battista Morgagni demonstrar pela primeira vez a necessidade de basear o diagnóstico, prognóstico e tratamento no conhecimento das condições anatômicas. Em seu livro de 1761 De Sedibus et Causis Morborum per Anatomen Indagatis, já encontramos compendiado o método da medicina moderna: clínico-anátomo-patológico. A psiquiatria como especialidade médica autônoma se constitui ainda neste mesmo Século das Luzes, em que a medicina implementa socialmente através da higiene pública e da tecnologia hospitalar a sua feição já decididamente científica e coletivista. Momento em que os discursos do saber e do poder se articulam, a prática médica em geral e diagnóstica em particular, passa a se dar num contexto de iniciativas regulares aplicadas de forma contínua ao corpo social, suas categorias tornam-se progressivamente autônomas e passam a ser avalizadas pelas evidências produzidas no curso destes procedimentos. A psiquiatria é contemporânea tanto do nascimento da medicina científica, como do surgimento dos discursos sobre “o homem”.

Esta origem anfíbia responde por uma tensão fundamental na psiquiatria: se por um lado não pode prescindir de uma filiação científica ancorada na medicina, de outro, não consegue evitar a instância crítica das ciências humanas, saberes de problemática situação epistemológica. A própria definição do objeto de estudo de uma medicina da alma é equívoca; do que se ocupa a psiquiatria: do cérebro, da mente, do comportamento, do aparelho psíquico? Compreendida dentro do dualismo corpo-mente, a res cogitans e a res extensa cartesianas, a psiquiatria problematiza agudamente a distinção clássica, estabelecida por Wilhelm Dilthey no século XIX, entre explicação e interpretação que opõe ciências naturais e humanas. Nas primeiras, nos localizamos no compasso do reducionismo e do legalismo propriamente científicos, associados à verificação, predição e controle; já nas segundas, a autotematização antropocêntrica confere ao conhecimento um caráter hermenêutico, marcado pela polissemia da linguagem. Desta forma, compreendemos o diagnóstico em psiquiatria como a resultante dos vetores representados pela nosologia e a psicopatologia, seja, entre conclusões gerais, extrapoláveis potencialmente para todos e o recorte singular, histórico e irredutível do pathos individual. Como salienta Gentil Filho (1991), a psiquiatria “não é apenas ciência, ela é uma disciplina ao mesmo tempo ideográfica e nomotética, que contempla o que há de único no indivíduo e o que há de universal no conhecimento científico.”

Depois de colher merecidos sucessos ao longo das últimas décadas, os principais sistemas diagnósticos em psiquiatria encontram-se numa espécie de moratória quanto à publicação de suas novas versões até 2010 (Banzato, 2002). A Classificação Internacional de Doenças, publicada pela Organização Mundial de Saúde, atualmente em sua 10a. edição (CID-10) e a quarta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico da Associação Psiquiátrica (Norte) Americana, o DSM-IV, terão de ser discutidos em profundidade neste período. O momento é oportuno, portanto, para algumas reflexões acerca do papel destas classificações na medida em que isto nos permite articular os conhecimentos produzidos pelas neurociências, a psiquiatria e a psicanálise. Entendemos que a psiquiatria é o campo de mediação ideal para confrontar os resultados a que chegaram as ciências cognitivas e a psicanálise, opinião partilhada por um número cada vez maior de pesquisadores destas áreas. Assim se expressou recentemente o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia de 2000, o neurocientista Eric Kandel (1998):

“Psiquiatria, psicologia cognitiva e psicanálise podem determinar para a biologia que funções mentais precisam ser estudadas para se chegar a um entendimento sofisticado e significativo da biologia da mente humana. Nesta interação, a psiquiatria pode ter um duplo papel. Primeiro, poderá buscar respostas no plano que lhe é próprio, questões relacionadas ao diagnóstico e tratamento dos transtornos mentais. Em segundo lugar, poderá levantar as questões concernentes ao comportamento que a biologia precisa responder se quisermos ter uma compreensão realística e avançada dos processos mentais superiores.”

Uma outra série de fatores credenciam a psiquiatria, enquanto especialidade médica, como interlocutora privilegiada deste debate. A medicina é hoje um conjunto heterogêneo de práticas ligadas à saúde intensamente investidas de tecnologia e, por este motivo, um serviço caro e fortemente mediado. A maior parte dos gastos e investimentos do setor estão relacionados à hotelaria hospitalar, convênios privados, medicações, equipamentos, próteses, exames complementares, etc., transformando a medicina moderna numa atividade essencialmente tecnocrática, em detrimento dos seus aspectos de profissão liberal. A relação médico-paciente, conseqüentemente, encontra-se em franca desvalorização frente ao chamado biopoder, que buscará ativamente, sempre que possível, limitar-lhe o alcance. Era esta a percepção fundamental de Foucault sobre o impacto do capitalismo na passagem de uma medicina privada para uma medicina coletiva no século XVIII, ao afirmar que o corpo é uma realidade biopolítica e a medicina, uma estratégia biopolítica (Foucault, 1979). O triunfo deste biopoder cada vez mais sem rosto, derivado em grande medida da eficácia de seus recursos, alterou radicalmente as estruturas do ensino, da assistência e da pesquisa médica. A competição oligopolística e a interação estratégica entre as empresas (de países ricos, bem entendido) e os governos dos países ricos, mais do que a mão invisível do mercado, condicionam hoje a divisão internacional do trabalho no setor da biotecnologia. Efeito conspícuo destas novíssimas relações de força, alguns congressos médicos tornaram-se autênticas feiras de negócios e certos médicos já não se distinguem de garotos-propaganda das novidades da indústria.

O caso recente do stavudine, medicação que integra o coquetel anti-AIDS, é emblemático desta lógica que Noam Chomsky chama de “sistema subsídio-público/lucro-privado” (Chomsky, 2000). O fármaco, inicialmente desenvolvido em pesquisas financiadas com dinheiro público, foi apropriado pela indústria privada, patenteado e posteriormente negada sua venda com desconto aos países africanos, a despeito da situação epidêmica. Evidentemente, lobbies desta natureza não se contentam com o marketing corporativo ou o parasitismo da pesquisa básica, passando a submeter a própria concepção do adoecer às regras de mercado. A criação do transtorno de pânico foi, novamente, exemplar desta démarche: cooptou-se um esforço cientificamente legítimo da psiquiatria anglo-americana de se estabelecer parâmetros operacionais para o diagnóstico e tratamento da ansiedade, extrapolando os resultados assim obtidos para uma visão hegemônica do sofrimento psíquico.1

Quando a psiquiatria se rende incondicionalmente ao modus capitalista, suas próprias categorias se confundem com a moldura ideológica deste discurso dando origem à clínica dessubjetivada do paciente/cliente. - O cliente, que sempre tem razão, pode “escolher” entre as diversas síndromes à disposição no mercado (a diversidade aparente não impede que para todas estejam indicados os antidepressivos de nova geração). Não admira que o modelo dominante da psicopatologia contemporânea seja o da compulsão: comer, se drogar, roubar, comprar, jogar, fazer sexo, se operar, conectar-se à rede e virtualmente qualquer atividade humana pode ser subsumida no imperativo consumista. O dispositivo de mídia atrelado a esta psiquiatria baseada em evidências incompletas - sim, porque, ao excluir o inconsciente, esta psicologia objetivante provoca uma grotesca distorção - é de uma eficiência diabólica: o paciente já chega à consulta “sabendo” o que o aflige. Já leu nas revistas e jornais, já viu na TV depoimentos de celebridades, achou sites na web com relatos em primeira pessoa (contribuição involuntária que desperta um alto grau de empatia), enfim, já exorcizou com a ajuda de “especialistas” o enigma contido em seu sintoma e pode trilhar sem medo o caminho de uma auto-ajuda sem mistérios turbinada por monoaminas.

Depreende-se da argumentação precedente o quanto está ligado a uma visada política, no sentido forte do termo, o recorte que atravessa os campos que interrogamos. Tradicionalmente, cientistas que se ocupam da pesquisa básica têm uma compreensível ojeriza à interferência da política na ciência, acusando a primeira de distorcer a segunda. Cita-se freqüentemente o desastroso destino das idéias do inglês Francis Galton, primo de Darwin e introdutor das estatísticas na psicologia no início do século XX, que deram um aval cientificista à eugenia2. Ou o caso do biólogo ucraniano Trofim Lysenko, que entre 1948 e 1964 baniu e executou geneticistas com o argumento de que a hereditariedade era contrária ao marxismo, levando ao colapso da agricultura soviética (Raw, Mennucci & Krasilchic, 2001). Se a ciência é uma atividade caracterizada pela independência e neutralidade de seus procedimentos, o mesmo não ocorre com os seus produtos, açambarcados por uma tecnologia sobredeterminada ideologicamente pela sociedade de consumo. Para além da revisão constante dos conceitos e a “falsificação” experimental das teorias, a função e o lugar de uma crítica consistente deve incidir também sobre as condições desta apropriação tecnofascista, sob o risco de vermos a sociabilidade contemporânea tornar-se um pesadelo de ficção científica. Recordamos a este respeito as palavras do saudoso professor Milton Santos (2000):

“O período atual tem como uma das bases esse casamento entre ciência e técnica, essa tecnociência, cujo uso é condicionado pelo mercado. Por conseguinte, trata-se de uma técnica e de uma ciência seletivas. Como, freqüentemente, a ciência passa a produzir aquilo que interessa ao mercado, e não à humanidade em geral, o progresso técnico e científico não é sempre um progresso moral. Pior, talvez, do que isso: a ausência desse progresso moral e tudo que é feito a partir dessa ausência, vai pesar fortemente sobre o modelo de construção histórica dominante no último quartel do século XX.”

O século XX foi um período fértil em hipóteses acerca do funcionamento mental e questionamentos das estruturas da psiquiatria hospitalar, redundando em modificações do quadro conceitual e social em que se situavam as doenças mentais. Pioneiros como Tuke e Pinel, trabalhavam ainda na definição das grandes fronteiras entre a psiquiatria e o direito, loucura e criminalidade, desrazão e pecado _ tarefa parodiada por Machado de Assis em seu conto “O Alienista” de 1882. No século XIX, em que pontificaram Morel, Kahlbaum, Magnan, Maudsley e Kraepelin, procurou-se acomodar a psiquiatria dentro dos domínios da medicina com a delimitação taxonômica das entidades nosológicas. A mais subversiva das metamorfoses no meio “psi” começa em 1900 com a publicação da “Interpretação dos Sonhos”, obra em que o neurologista Sigmund Freud sistematiza a descoberta do inconsciente _ a maior realização das ciências humanas no século XX. Nove anos mais tarde, convidado para uma série de conferências na Clark University nos EUA, Freud comenta com Jung que se preparava para levar a “peste” para a América.

Palavras que se revelaram proféticas. A história subseqüente da psiquiatria norte-americana é a história da ascensão e queda da influência psicanalítica naquele país. Com a imigração de psicanalistas europeus, fugidos das perseguições políticas nos anos 30 e 40, formou-se nos EUA a escola conhecida como psiquiatria dinâmica, caracterizada por um acento nas questões sociais e uma vertente psicodinâmica de base psicanalítica. Entre outras contribuições, veio desta psiquiatria dinâmica o impulso para o estabelecimento da hospital community psychiatr nos anos 50, psiquiatria de cunho social que viria a influenciar a anti-psiquiatria européia. No entanto, é forçoso reconhecer que o predomínio de psicanalistas nos postos de comando de uma especialidade médica atrofiou enormemente o desenvolvimento da investigação científica. A partir do final dos anos 60, quando estas lideranças vão sendo substituídas, pode-se notar claramente o caráter anti-psicanalítico que a psiquiatria norte-americana adquire desde então. Esta mudança, alavancada pelos progressos da psicofarmacologia, da epidemiologia e da psicologia comportamental, irá inscrever finalmente a psiquiatria no âmbito da medicina baseada em evidências.

A publicação do DSM-III (Manual Diagnóstico e Estatístico, 3a. edição) em 1980, completava o esforço de dez anos de uma força-tarefa interdisciplinar liderada por Robert Spitzer, Eli Robin e John Endicott, que já desenvolvera em 1978 os RDC (critérios diagnósticos de pesquisa). É difícil exagerar os benefícios que a popularização desta classificação trouxe para a psiquiatria. Pela primeira vez, dispunha-se de uma tábua classificatória com categorias delimitadas por critérios precisos de exclusão e inclusão, que qualificava a morbidade mental como transtorno (mais que uma síndrome, menos que uma doença), combinava o diagnóstico categorial e dimensional ao criar cinco eixos de avaliação, municiando, enfim, a comunidade internacional de clínicos e cientistas de um esperanto para se comunicar. Como todas as revoluções fazem vítimas, esta não foi diferente e assassinou a histeria, figura clínica milenar que acabou excluída também da edição seguinte da Classificação Internacional de Doenças (CID-10), publicada em 1993. Eliminava-se, assim, a noção de que um conflito inconsciente pudesse causar distúrbios mentais; fato que não escapou a Leme Lopes (1980), aliás, o primeiro a propor o diagnóstico multidimensional na psiquiatria.

A psicopatologia, descentrada de sua posição na formação dos psiquiatras, tem seu papel drasticamente limitado. O princípio de economia, que evita a multiplicação desnecessária de entes teóricos formulado pelo filósofo William de Ockham no século XIV, foi aplicado às principais escolas psicopatológicas e o sofrimento psíquico passou a ser encaixado no Leito de Procusto das entrevistas padronizadas e das escalas psicométricas. O diagnóstico em psiquiatria ficava assim com o pior dos dois mundos, visto que aplicação simultânea de ambos procedimentos acarretava: a) perda das extremidades (i.e. a singularidade, a anomalia estatística) excedentes à média no procedimento procusteano e b) o desativamento dos seres feitos só de palavras, os flatus vocis da exclusão ockhamista (lembremos que o sujeito é um puro efeito de enunciação). Nem tudo foi perdas, no entanto; se a riqueza fenomenológica da semiologia e as sutilezas conceituais dos psicopatologistas perderam o sentido, compensou o ganho: um paradigma, um acordo básico a partir do qual se tornou possível aprofundar o trabalho clínico e científico. Este acordo mínimo, não é, em nossa opinião, despeciendo. A história recente e remota da psiquiatria é testemunha da diferença brutal entre o reino da doxa (opinião), em que se move uma disciplina pré-científica e a epistéme (conhecimento), que permite organizar as condições do debate de idéias no interior de um dado conjunto de práticas.

Em qualquer sistema discursivo, a crítica do pensamento único não deve se confundir com a recusa do necessário _ e sempre provisório _ consenso que sustenta o campo de interlocução em igualdade de condições. Assim, seguimos a opinião de Sonnenreich e Bassit (1979) quando afirmam que: “A doença é por definição um conceito médico. Os sofrimentos do indivíduo, as alterações do comportamento, a ′loucura′, podem ser vistos de vários pontos de vista. Quem faz um raciocínio médico a respeito de tais problemas, pode falar em doenças”. Mas não podemos concordar quando, a propósito dos distúrbios afetivos, afirma-se que as mudanças de critérios advindas com o DSM-III refletem apenas uma variação de perspectiva: “Para avaliar e tratar as mesmas situações, os autores usaram rótulos como melancolia, depressão, mania e agora, sem eliminar os precedentes, preferem ′psicoses′ ou transtornos afetivos. A mudança se deve a certo modo de ver as coisas, a certos pontos de vista. Nem se pode afirmar que os conhecimentos progrediram, que novas descobertas nos levaram para uma conceituação mais convergente.” (Sonnenreich; Kerr-Corrêa; Estevão, 1991). O relativismo desta postura leva à incomensurabilidade: se as opções da nosografia resultam apenas de um “certo modo de ver as coisas”, todas as posições se equivalem e não há como avaliar objetivamente as decisões clínicas que daí decorrem. Se nenhum consenso existe, então tudo é permitido...

O estado de coisas na psiquiatria pré-DSM-III, gostemos ou não dessa verdade, ilustra bem as conseqüências disto: falta de critérios nas indicações de eletroconvulsoterapia (ECT), ausência de parâmetros objetivos de indicação de psicofármacos, dificuldades para avaliar a má prática, etc. A ausência destes balizamentos, mais do que o despotismo do discurso médico, justificou as críticas de Basaglia, Laing, Cooper, Szasz e Foucault, entre outros. Karl Popper (1987) alertava para a diferença fundamental entre o relativismo e o pluralismo crítico; enquanto o primeiro conduz à ausência de direito e favorece a opinião do mais forte, o segundo pressupõe o livre concurso entre as teorias, sua discussão racional e eventual eliminação crítica. A psiquiatria só é verdadeiramente humana quando é científica; a subjetividade, começamos a nos dar conta, é o verdadeiro objeto de uma ciência da mente. A medicina de alta tecnologia só representará um avanço na medida em que tiver acesso a um grupo de representações que ainda lhe estão vedadas: o orquestramento pulsional do corpo erógeno.

Uma das principais influências da psiquiatria moderna vem de um empreendimento que combina tecnologia e cooperação multidisciplinar: as neurociências cognitivas, que congregam cientistas da computação, psicólogos cognitivos, neurobiólogos, lingüistas, filósofos e antropólogos. Começando por estudar as funções cognitivas elementares, este campo de pesquisa se expandiu rapidamente nas duas últimas décadas com o aperfeiçoamento das técnicas de neuroimagem e da biologia molecular. Superados os constrangimentos do behaviorismo radical, as neurociências passaram a estudar sistemas de complexidade crescente: visão, memória, modelos de comportamento animal, redes neurais, consciência, etc. E o que revelam as pesquisas sobre a cognição? Reisberg (1997) expõe sucintamente: “Os dados revisados até aqui, tornam claro que o comportamento do sujeito e várias influências neste comportamento, são escondidos da sua vista. (...) Podemos lembrar, ver, entender a linguagem, raciocinar, tudo isto sem estar a par dos processos envolvidos e sem supervisão consciente destes processos.” 3

A maior parte da atividade cerebral é inconsciente, o inconsciente é a grande novidade que o estudo do cérebro apresenta (Kihlstrom, 1987). O que não deve surpreender aqueles que entendem o inconsciente como algo que produz efeitos; caso contrário, teríamos de pressupor que uma substância impalpável (a alma), alteraria, via discurso, um substrato material (o corpo) sem gasto de energia, contrariando as leis da física. Pior ainda seria admitir, como última flor da metafísica, a existência de dois tipos de inconsciente: um que se desvelaria nos consultórios e outro de uso exclusivo dos laboratórios. As neurociências vêm subvertendo as centenárias fronteiras entre as ciências do singular e do universal, uma vez que a emergência da mente constitui-se diretamente numa experiência em primeira pessoa; a fortriori, este sujeito cognoscente assim constituído, pauta-se por uma racionalidade afetiva e afetada cuja raiz inconsciente lhe escapa. O dualismo mente-corpo tornou-se insustentável tanto à luz da psicanálise, quanto dos dados experimentais disponíveis _ neurociências e psicanálise usam metodologias diversas e têm ainda poucos termos de mediação em seu diálogo, mas certamente não se ocupam de “objetos” distintos.

Ciência e psicanálise não se confundem em seus escopos, mas possuem convergências importantes. É à ciência que a psicanálise deve recorrer para se dotar de uma visão de mundo (Weltanschauung), recomenda Freud (1933) na Conferência XXXV. A psicanálise não é exata, mas é rigorosa; uma análise pessoal não é reproduzível, nem classificável, trata-se de uma experiência sem álibi. Para Lacan, o que se descobre numa psicanálise é da ordem do saber − saber de um sujeito sobre o desejo que o atravessa − e não do conhecimento ou da representação, territórios preferenciais da ciência e da estética. Psicanálise e ciência operam no limite entre acaso e necessidade, com construções provisórias que procuram dar conta de um objeto que se nega a um conhecimento definitivo, a um pensamento de sistema; o movimento que as anima é pouco confortador: uma auto-crítica sistemática e constantes rupturas de campo. A importante releitura do método psicanalítico proposta por Fábio Herrmann (1979) atenta para estes fatos:

“Do objeto de saber psicanalítico diz-se inconsciente. Logo, inconsciente significa, primeiramente, a possibilidade de ruptura do campo significativo (dos sistemas de referência rotineiros) e, em segundo lugar apenas, um conjunto mais ou menos estável de significados coerentes que tais rupturas deixam à vista. Ao afirmar que um certo discurso comporta sentidos inconscientes, não estamos postulando que uma entidade misteriosa − ′o inconsciente′ −, participa da sua constituição; mas, pela ordem: que outros sistemas referenciais que os rotineiramente aceitos podem ser aplicados à compreensão do discurso; que efetivamente eles foram aplicados; e que o resultado obtido é coerente consigo mesmo.”

A confirmação experimental das hipóteses centrais da metapsicologia, a comprovação da eficácia terapêutica das talking cures, habilitam a psicanálise e a ciência ao debate sério. A psiquiatria, que entendemos como uma especialidade híbrida (Katunda; Doutel, 2001), pode servir como termo médio a esta necessária reaproximação. A criação de uma bioética, pedra de toque de todo desenvolvimento científico doravante, pode ser pautada por uma lógica de mercado ou por uma ética leiga, não-normativa e não-sacrificial: a ética do desejo. “Eis a ética da diferença que a psicanálise contrapõe à prática da psiquiatria serva do capital. Não devendo assujeitar-se nem ao discurso universitário nem ao discurso capitalista, a ciência − eis a tarefa que cabe aos cientistas − deve corresponder à estrutura do discurso que mais dela se aproxima: o discurso da histérica, pelo qual fala, por meio de seus sintomas, o sujeito da paixão, paciente sem deixar de ser agente.” (Quinet, 2001) As últimas fronteiras da biociência contemporânea confinam com a moral: os estudos sobre o Mal de Alzheimer nos deixaram a alguns passos de compreender o envelhecimento cerebral, a neurobiologia da memória é a própria caixa preta do aparelho psíquico e a genética nos colocou às portas da clonagem humana. Não há como recuar, estamos obrigados ao diálogo transdisciplinar.

BIBLIOGRAFIA

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Texto elaborado a partir de trabalho apresentado no 2o. Encontro da Teoria dos Campos, São Paulo, 6 de outubro de 2001.

∗∗ “Todo mundo representa”, divisa do Globe Theater de Londres, 1599.

Mário Eduardo Costa Pereira recapitula este processo, concluindo: “Dessa maneira, o problema dos acessos de angústia, delimitado por meio da categoria de transtorno de pânico, coloca de modo premente a questão do estabelecimento do estatuto psicopatológico desse fenômeno ansioso tão corriqueiro na experiência clínica, tanto mais que certos discursos psiquiátricos estritamente objetivantes, cada vez mais difundidos nos meios de comunicação de massa, apresentam-se como os únicos com legitimidade para dele dar conta.” COSTA PEREIRA, Mário E. - A criação do transtorno de pânico: os discursos psiquiátricos contemporâneos. In: Pânico e desamparo: um estudo psicanalítico. São Paulo, Escuta, 1999, pg. 52.

É de justiça aqui lembrar a decisiva contribuição das idéias de Herbert Spencer, que extrapolou a teoria da evolução para o campo da sociologia produzindo com a sua tristemente célebre máxima, survival of the fitest, uma poderosa justificativa para a opressão dos países colonialistas. No Brasil dos fins do século XIX e início do XX, a eugenia tornou-se o princípio de cientificidade do qual a incipiente psiquiatria brasileira faria seu baluarte. Cf. FREIRE COSTA, Jurandir - História da Psiquiatria no Brasil: um corte ideológico. Rio de Janeiro, Campus, 3ª. ed., 1980.

Assim justificava Freud a necessidade do conceito de inconsciente: “ ... os dados da consciência apresentam um número muito grande de lacunas; tanto nas pessoas sadias como nas doentes ocorrem com frequência atos psíquicos que só podem ser explicados pela pressuposição de outros atos, para os quais, não obstante, a consciência não oferece qualquer prova. Estes não só incluem parapraxias e sonhos em pessoas sadias, mas também tudo aquilo que é descrito como sintoma psíquico ou uma obsessão nas doentes; nossa experiência diária mais pessoal nos tem familiarizado com idéias que assomam à nossa mente vindas não sabemos de onde e com conclusões intelectuais que alcançamos não sabemos como.” (FREUD, Sigmund, O inconsciente. [1915] In: Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro, Imago, pg. 172, 1996).


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