Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Setembro de 2003 - Vol.8 - Nº 9

História da Psiquiatria

Psiquiatria Brasileira:1960

Dr. Walmor J. Piccinini

A História pode ser escrita de várias formas, registros, depoimentos, biografias, tradição oral. Nesse artigo, o primeiro de uma série, iniciamos a apresentação da a história da psiquiatria brasileira através de suas publicações e muitas vivências pessoais. Vamos utilizar como contraponto às publicações do “American J. of Psychiatry (AJP) e dos Archives of General Psychiatry” (AGP). Ao lado das minhas experiências pessoais da época, associei material que fui colecionando ao longo dos anos. As publicações psiquiátricas brasileiras no ano de 1960 eram: A Revista Neurobiologia (fundada em 1938), a Rev. Arq. De Neuropsiquiatria (1941), o Jornal Brasileiro de Psiquiatria (fundado em 1952). A essas revistas somamos o Índice Bibliográfico Brasileiro de Psiquiatria de nossa autoria.

Tudo começou no início de 1960, quando era aluno do primeiro ano de medicina na Faculdade de Medicina da UFRGS, e em busca de algum trabalho que ajudasse na manutenção pessoal e da família.No saguão da Faculdade eram colocados anúncios de emprego e entre eles estava um que solicitava atendente psiquiátrico para a Clínica Pinel. O que me atraiu no anúncio era a carga horária compatível com o curso. Não tinha a mínima idéia do que fosse a Psiquiatria.Os candidatos eram muitos, mas as exigências também, e foi após uma espera ansiosa que recebi a notícia da seleção. Em 1 de julho de 1960 comecei a trabalhar como atendente psiquiátrico e essa foi a porta de entrada para o mundo da psiquiatria. A Clínica Pinel de Porto Alegre tinha sido fundada em 28 de março de 1960 pelo Professor Marcelo Blaya que retornara dos Estados Unidos depois de quatro anos de formação na Clínica Menninger em Topeka, Kansas. Mais tarde aprendi que a Clínica Menninger era padrão em atendimento psiquiátrico psicodinâmico e modelo para muitos serviços americanos. (Minhas atividades como atendente foram relatadas num artigo que apresentei no Segundo Congresso Latino-americano de Psicologia Médica e que foi publicado nos Arquivos da Clínica Pinel sob o título “Experiência de um estudante de Medicina, num Hospital Psiquiátrico, 1962; 2(3) 116-121.)”.

Porto Alegre, no início dos anos sessenta já contava com um Curso de Formação de Psiquiatras, o Curso dos Professores David Zimmermann e Paulo Luiz Vianna Guedes que funcionava desde 1957 no Hospital Psiquiátrico São Pedro e estava ligado ao Departamento de Psiquiatria e Medicina Legal da UFRGS. Esse foi o primeiro curso de formação de psiquiatras de orientação dinâmica do país e continua funcionando até os dias atuais.

O Professor Marcelo Blaya (no ano seguinte tornou-se Livre-Docente da Faculdade de Medicina da UFRGS, criou um curso de formação de psiquiatras que ao longo dos anos tornou-se referência nacional. Foi ele que pôs em prática no Brasil, os conceitos de Comunidade Terapêutica, Ambientoterapia, diálogo terapêutico, Hospital-Dia e Hospital-Noite.. Fui buscar no Índice Bibliográfico Brasileiro de Psiquiatria algumas das suas publicações

  1. Tratamento Hospitalar de Orientação Psicanalítica. Tese de Livre-Docência. Fac. de Méd. da UFRGS em 1960.
  2. Conceito e indicações do Hospital-Dia psiquiátrico. Revista Amrigs, 1960; 4(2)64-68.
  3. Fronteiras da Investigação na Esquizofrenia. Arq. Neuropsiquiatria, 1960; 18(3)249-258.
  4. Problemas psiquiátricos em Geriatria. Arq. Neuropsiquiatria, 1960; 18(1) 176-184.

No Índice Bibliográfico Brasileiro de Psiquiatria encontramos no ano de 1960 um total de 46 artigos, dissertações e teses publicadas. No Jornal Brasileiro de Psiquiatria foram 19 e nos Arquivos de Neuropsiquiatria três. Os demais forma em Revistas não especializadas ou edições próprias do autor. Os assuntos predominantes foram sobre alcoolismo (4) e sobre novas drogas (11).

Porto Alegre, sob a influência psicanalítica introduzida por Mário Martins em 1947, desenvolveu-se como um pólo de orientação psicodinâmica. Dentro dessa linha O Professor David Zimmermann desenvolveu importante trabalho em grupoterapia de orientação psicanalítica. Nesse ano de 1960 publicou o artigo: “A aplicação da grupoterapia no ensino da Psiquiatria Dinâmica e a compreensão da resistência dos estudantes. Int. J. Of Grup Psychot. 1960;10(1)90-97.

Um acontecimento marcante de 1960 foi à realização no Rio de Janeiro, no Hotel Glória, do Simpósio sobre os Estados Depressivos, sob a liderança do Professor José Leme Lopes, do Instituto de Psiquiatria da Universidade do Brasil. Esse Simpósio foi patrocinado pelo Lab.Geigy e seu objetivo era o lançamento do Tofranil no Brasil. O subtítulo do simpósio era a Ação Terapêutica da Imipramina. O Programa desenvolvido foi o seguinte:

  1. O Professor Leme Lopes saúda os participantes.
  2. O PROF.J.J. Lopez Ybor apresenta a Conferência: Diagnóstico das Depressões.
    Comentários de Augustin Caso (México) e René Ribeiro (PE).
  1. Conferência: Walderedo Ismael de Oliveira e Eustachio Portella Nunes Filho sobre A Depressão do Ponto de Vista Psicanalítico.
    Comentários: Ramon de La Fuente e Darcy de Mendonça Uchoa.

À Tarde.

  1. Conferência: Ewin Cameron. O Estado Atual da Terapêutica da Depressão.
  2. Mesa-Redonda sobre: O Emprego do Tofranil nos Estados Depressivos.
    1. Ciulla, Luiz.(RS) Contribuição ao tratamento dos Estados Depressivos.
    2. Loyello, Washington.(RJ) Exposição sobre o emprego do Tofranil.
    3. Pacheco e Silva, A.C., Marques, Enrique e Cardo, Walter N.(SP). O emprego da Imipramina no tratamento das depressões. Estudo a respeito de 48 casos. (Exposição feita por Jayme Gonçalves).
    4. Leme Lopes, José. Contribuição ao Tratamento dos Estados Depressivos com a Imipramina. (Exposição feita pelo Dr. Magalhães Freitas).

  1. Ewin Cameron, R. Oberholzer, Menezes telles e R. De La Fuente. Responderam as perguntas formuladas pela assistência.
  2. Honório Delgado, eminente Professor Peruano, encerrou os trabalhos.

Desse Simpósio podemos realçar alguns tópicos. O primeiro, seria o de observar a rapidez com que a Imipramina saiu da pesquisa clínica feita por Kuhn em 1957. A realização de um encontro de lançamento no Canadá, a experimentação por pesquisadores brasileiros e sua oferta ao mercado consumidor. Um outro dado que merece registro foi à participação do Dr. René Ribeiro propondo um estudo dos efeitos da religião e da cultura nos quadros depressivos. Poderíamos considerar que estava sendo pioneiro na etnopsiquiatria. O Dr. Hans Grunspun apresentou interessantes observações sobre a depressão em crianças, assunto que só veio a ser encarado anos mais tarde.

Os demais números do Jornal Brasileiro de Psiquiatria (JBT) trouxeram o interesse pelo tratamento em grupo e alguns trabalhos clínicos. Cabe destacar uma homenagem feita no Rio de Janeiro ao Professor Antonio Carlos Pacheco e Silva por sua eleição, na cidade de Barcelona, Espanha, para vice-presidente da Federação Mundial de Saúde Mental e seu futuro presidente. Na conferência feita por ocasião da cerimônia o Prof. Leme Lopes lança a idéia de congregar todos os psiquiatras brasileiros numa associação de âmbito nacional, capaz de coordenar os interesses profissionais e científicos dos especialistas de todo o Brasil.

Podemos ainda destacar o lançamento do Clordiazepóxido pelo Professor J. Caruso Madalena em trabalho publicado no JBT vol.9 (4) 263-284. E surge o primeiro trabalho tratando da impregnação pela Clorpromazina em dez pacientes do IPUB. Sua autora foi a Dra. Vera Dell´Amico de Almeida.

Numa observação baseada nas publicações poderia concluir que começavam a se delinear dois pólos de desenvolvimentos da psiquiatria brasileira. No Rio de Janeiro, no IPUB, eram estabelecidos os parâmetros da nascente psicofarmacologia brasileira e em Porto Alegre, com a Clínica Pinel e o Curso de formação de psiquiatras da Fac. De Medicina da UFRGS, as bases de uma psiquiatria psicodinâmica e a transformação da atenção psiquiátrica hospitalar.

As duas revistas americanas utilizadas como comparação apresentam algumas características que mais tarde se modificaram. Em 1960 o AJP apresentava inúmeros trabalhos sobre experiências com novos fenotiazínicos. Já o AGP apresentava trabalhos clínicos de orientação psicodinâmica. Vamos a alguns dados: de Leo Kanner podemos citar o artigo “Child Psychiatry: Retrospect and Prospect” 1960 (117) 1 (15-22). Um nome que aparece nas duas revistas é o de Eric Berne, mais tarde conhecido pelo desenvolvimento da Análise Transaciona. No AJP apresenta um trabalho sobre “A Psychiatric Census of the South Pacific. No AGP, apresentou ”Leadership, Hunger in a Therapy Group”. (O tipo de assunto reafirma minha observação da linha editorial das revistas em 1960).

No AJP de agosto de 1960; 97-105, encontramos um trabalho que avaliava as drogas tranqüilizantes até então estudadas: Casey, Jesse et al. “Treatment of Schizophrenics with phenotiazines derivatives”. A Clorpromazina é considerada a melhor opção quando comparada com: Mepazine (Pacatal); Perphenazine (Trilafon); Prochlorperazine (Compazine); Trifluoperazine (Vesprin, Stelazine).

Um trabalho De Gerald Klerman et al. Sobre Sociopsychologial characteristics of Resident Psychiatrists and their use of Drug Therapy. Klerman, ( mais tarde desenvolveu a Interpersonal Psychotherapy), procura responder a seguinte questão. Porque alguns psiquiatras medicam mais que os outros? Ele e seus colaboradores pesquisaram a partir de 12 residentes do Boston Psychiatric Institute onde constataram que 35% dos pacientes recebiam psicofármacos. Os pacientes mais pobres recebiam mais medicação e aos mais abonados psicoterapia. A pesquisa reflete a resistência dos terapeutas psicanaliticamente orientados em utilizar a quimioterapia.

No meio de lançamento de drogas e do entusiasmo geral, encontrei uma pequena nota clínica do Dr.Walter Kruse: “Persistent muscular restlessness after Phenotiazine Trteatment”. Ele descreve três casos em que após a interrupção do tratamento com phenotiazina os pacientes persistiram com sintomas extrapiramidais e que os mesmos se tornaram irreversíveis. Parece que este foi o primeiro relato da Discinesia Tardia.

Registrei ainda os lançamentos dos IMAOs, Fenelzina. Da flufenazina e da Amytriptilina injetável. Num dos trabalhos encontrei a seguinte citação: “Thalidomide is a safe, no toxic, no hypnotic sedative” extraída do artigo de Somers, G.F. Brit.J.of Pharmachology, vol.15(111);1960. Uma substância que tem causado controvérsias nos dias atuais, já era estudada em 1960. Trata-se do Hypericum Perforatum “.

Numa pequena nota histórica é relatado o primeiro eletrochoque efetuado nos EUA, no dia 20 de fevereiro de 1940 pelo Dr. Victor A Gonda, em Chicago. Conta seu filho que o Dr. Victor importou um aparelho da Itália e testou em animais. Antes de utilizá-lo em pacientes aplicou em si mesmo, a diferença é que aplicou numa coxa e as conseqüências foram desastrosas.

Os Archives (AGP) publicavam mais trabalhos na linha dinâmica e menos sobre drogas. Desta forma encontramos trabalhos como o de Westman, Jack, “Na Overview of Group Psychotherapy” publicado em março de 1960. Em abril temo um artigo de Gregory Bateson: “Minimal Requirements for a Theory of Schizophrenia”. Em julho achamos um trabalho polêmico e só poderia sê-lo já que o autor foi Thomas Szasz: “Three Problems in Contemporary Psychoanalytic Training”. Logo no início há uma nota do Editor dos Archives, Roy Grinker, explicando que o artigo tinha sido recusado pelos Archives por se afastar da sua linha editorial e recomendado que publicasse em revistas psicanalíticas. Como as duas mais importantes se recusaram em publicar o artigo, os Archives em nome da liberdade de expressão o publicava. O artigo aborda três tópicos; 1) A relação da Psicanálise com a Medicina e a psicoterapia não médica. 2) O compromisso psicanalítico e 3) O treinamento analítico. Os pontos de vista de Szasz que na época provocaram furor, hoje estão assimilados. Ele dizia que a psicanálise não é um ramo da Medicina, entre outras coisas alegava que a proibição de examinar o paciente e de medicá-lo, afastavam a psicanálise da essência da medicina. A abertura da psicanálise para não médicos e sua inclinação para a investigação e o ensino mudaram essa problemática. A questão do compromisso é debatida até hoje. Poderia um analista em formação se apresentar como analista? Aí ele discute a questão da habilitação legal e o controle que os Institutos psicanalíticos exerciam. A questão mais grave por ele levantada é a da confidencialidade da análise do candidato a psicanalista. Ele considera uma falta ética discutir o caso do candidato entre os demais didatas e sugere mudanças nesse sentido

Vários artigos exploravam o uso de LSD na prática psicoterápica. Foi surpreendente para mim encontrar tantos artigos sobre psicoterapia nos Archives. Um deles, de um autor muito conhecido, Hans Strupp, tratava da “Nature os Psychotherapist´s Contribution to Treatment Process.” Um assunto recorrente até os dias de hoje era relatado no artigo de Judd Marmor. “The Reintegration of Psychoanalysis into Psychiatric Practice.” (1960,3(6); 569-574.

Um fato marcante no final de 1960, em dezembro, foi a entrega do Relatório Final da Joint Comission for Mental Health, coordenada por Jack Ewaldt da Harvard, mais tarde aprovado sob o nome de Action For Mental Health.

Resumindo podemos afirmar que o ano de 1960 mostra uma psiquiatria em transição, tantos nos EUA como no Brasil. Preocupação com a falência do macro-hospital, a introdução maciça de novos medicamentos. Novas técnicas de tratamento como as grupais e a mudança no conceito de atendimento psiquiátrico hospitalar.


TOP