Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Abril de 2003 - Vol.8 - Nº 4

História da Psiquiatria

Franco da Rocha: vida e obra

Dr. Walmor J. Piccinini

Franco da Rocha

Francisco Franco da Rocha

Franco da Rocha

1864 - 1933

Francisco Franco da Rocha, paulista de Amparo, formou-se em Medicina no Rio de Janeiro, discípulo de Teixeira Brandão.Sua vida foi dedicada ao Hospício de Juqueri. Participou da escolha do local, planejou sua estrutura e dedicou sua vida no atendimento dos pacientes e construindo uma equipe que foi fundamental no desenvolvimento da psiquiatria paulista. Se nome é destino, Francisco Franco da Rocha correspondeu ao seu. Francisco está ligada à idéia de amor ao próximo, da caridade e do desprendimento aos bens materiais. É dando que se recebe são as famosas palavras de S.Francisco de Assis. Franco descreve sua maneira direta e honesta de lidar com os pacientes e seus colegas. Rocha lembra sua firmeza de caráter e obstinação na consecução dos seus objetivos. Continuando nosso resgate da verdadeira história da psiquiatria brasileira, vou tentar apresentar alguns aspectos da vida desse grande médico, homem de grandes realizações pessoais, com uma vida simples, desfrutada dentro de um grande hospício.

Como avaliar a vida de um médico nascido na segunda parte do século XIX e que morreu na primeira metade do século XX ? O caminho será o de buscar o que escreveram sobre ele e, certamente, seremos parciais, pois teremos informações coloridas pela admiração dos seus pares, pela dedicação dos seus alunos, pela devoção dos seus pacientes, por sua obra como um todo?

Nessa breve biografia de Franco da Rocha vou utilizar tudo isso e mais algumas facetas pouco conhecidas do grande mestre. Aluno de psicopatologia de Teixeira Brandão, interno da Casa de Saúde Doutor Eiras no Rio de Janeiro. Planejador e construtor do Hospício de Juqueri, músico, escritor, ornitólogo (especialista em Tico-Tico). Primeiro professor de Neuriatria e Psiquiatria da Faculdade de Medicina de São Paulo( 1918 -23). Se não bastasse tudo isso, foi um bom pai e bom marido. Criou seis filhos dentro do espaço físico do Juqueri. Foi, talvez, o primeiro médico residente na acepção radical do termo.

Eu estaria sendo justo dizendo que esse meu trabalho só foi possível por ter descoberto alguns textos interessantes sobre nosso biografado num livro do professor Antonio Carlos Pacheco e Silva,(Palavras de Psiquiatra, 1950 - discurso em Homenagem a Franco da Rocha proferido em 1933) seu sucessor na administração de Juqueri e de um trabalho do Professor J.Carvalhal Ribas publicado na Rev. Psiquiat. Clin. De São Paulo em 1974. (O Prof. JCRibas foi eleito para o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e sua conferência de posse foi sobre a vida de Franco da Rocha). Muitas informações foram extraídas por inteiro da conferência de JC Ribas, (e por justiça devo considerá-lo co-autor desse trabalho).

A assistência aos psicopatas em São Paulo é das mais antigas do Brasil. Segundo o Professor Pacheco e Silva, (Pacheco e Silva,1945) o artigo 6 da lei No 12 de 18 de setembro de 1848 autorizava o Governo a dar providências para a elaboração de plantas e orçamento de um Hospício onde pudessem ser abrigados todos os doentes do Estado. “O primeiro estabelecimento destinado exclusivamente ao tratamento dos psicopatas no Estado de São Paulo, localizado na Rua São João, nas proximidades da atual Rua Ipiranga, foi instalado em 1852, na presidência do Padre Vicente Pires da Motta. Esse estabelecimento, que funcionou naquele mesmo local até 1864, foi inaugurado apenas com 9 doentes, na sua maioria criminosos, e alguns agitados, tidos como perigosos à comunidade”.

Nesse mesmo ano de 1864, no dia 23 de agosto, nascia na cidade de Amparo,SP. Francisco Franco da Rocha filho do Doutor José Joaquim Franco da Rocha e Dona Maria Isabel Galvão Bueno Franco da Rocha. Franco da Rocha viveu 69 anos e construiu uma carreira pessoal rica em todos os sentidos. Casou com Dona Leopoldina Lorena Ferreira Franco da Rocha. Passou boa parte da sua vida residindo em Juquery onde criou seis filhos e desenvolveu seu interesse pela ornitologia.

Paulo Fraletti, (citado por Ribas, JC -1974) escreveu que São Paulo teve a primazia na inauguração de um Serviço de Assistência Psiquiátrica no Brasil: esse “Asilo Provisório de Alienados da Capital de São Paulo” foi instalado em 14 de Dezembro de 1852, enquanto o “Hospício D. Pedro II“ em 05 de Dezembro do mesmo ano. Em 1864, mudou-se o Hospício para um chácara junto á Ladeira da Tabatinguera, onde existia um velho sobrado de propriedade do Padre Monte Carmelo, recebendo a designação popular de “Velho Hospício da Várzea do Carmo”. Desde então , até 1868, Thomé de Alvarenga foi administrador do Hospício . Sucedeu-o o seu filho Frederico de Alvarenga, com excepcional devotamento a causa dos alienados . Este último , sem recursos fornecidos pelo Governo, empregou dinheiro ganho na loteria nos reparos do estabelecimento . Os primeiros médicos do Hospício foram os Drs. Xavier de Mesquita , João César Rudge e Claro Homem de Mello.

Com o apoio dos Governos de Cerqueira César e Bernardinho de Campos, Francisco Franco da Rocha fundou, em 1896, o Hospício de Juqueri, em terreno de 170 hectares, próximo à Estação de Juqueri (decreto lei 6.693 de 21/09/1934 criou o Município de Franco da Rocha), á margem do rio do mesmo nome (denominação oriunda da língua tupi, “yu-querê-y”, “rio do espinho que dorme”, em alusão a uma mimosácea espinhosa abundante nas margens do rio). O local tinha todas as condições de abrigar o Hospício; baixo preço do terreno, espaço abundante para abrigar colônias agrícolas, pouco gasto no preparo do terreno, fonte de água inesgotável, existência de um rio para os dejetos, estrada de ferro em comunicação com a Capital à cerca de uma hora da capital. O projeto arquitetônico foi desenvolvido por Ramos de Azevedo.

Na época, já constatado o fracasso do asilo, a proposta era a de serem criadas colônias agrícolas em que os pacientes viveriam em contato com a natureza e desenvolveram trabalhos mais e acordo com suas origens. Assim, por proposta de Franco da Rocha, em 18 de maio de 1898, foi inaugurada a Colônia agrícola, em regime de “open-door”, possibilitando aos pacientes o trabalho ar livre, em relativa liberdade, com objetivo terapêutico com resultados bastante favoráveis (sic). No Juqueri, foi o pioneiro do regime de liberdade para os doentes mentais na América do Sul. Em 16 de maio de 1904, com a conclusão do Hospital Central do Juqueri, destinado a assistência dos psicopatas em regime fechado, foi extinto o Hospício da Capital.

Na rotina hospitalar, metodizou as observações clínicas, os diagnósticos dos casos, o arquivo médico, as terapêuticas fisioquímicas, medicamentosas e pelo trabalho. Introduziu a terapêutica ocupacional laborativa nas diversas modalidades, mormente no setor agrícola. Implantou pela primeira vez na América do Sul , em 1908, o sistema de assistência familiar, com a instalação de pacientes em ambiente doméstico, aos cuidados de sitiantes da região, denominados nutrícios , no perímetro do hospital (tipo uchtspringe) ou fora do hospital (tipo Gheel).

Em 1912 já havia instalado , no Hospício de Juqueri :

1) um asilo fechado de tratamento ;

2) colônias agrícolas, anexas ao asilo, com "open-door" parcial;

3) fazenda agrícola, com “open-door” completa;

4) assistência familiar dentro da área do hospício;

5) assistência familiar fora do hospício.

Depois acrescentou ao Hospício de Juqueri cinco colônias autônomas , um pavilhão para menores anormais e um laboratório de Anatomia Patológica. Desde 1895, insistiu para que fosse construído um Manicômio Judiciário, reservado aos alienados criminosos. Isso só foi concretizado mais tarde, em 1927, graças á iniciativa de Antônio Carlos Pacheco e Silva.

Franco da Rocha como os alienistas brasileiros em geral, aplicaram o que havia de mais moderno na psiquiatria asilar da época. Pena que isso foi feito quando toda estrutura do asilo estava falindo. Desde a metade do século XIX já não havia condições de aplicar o “tratamento moral”, os asilos se tornaram depósitos de pacientes cronificados ou em cronificação. A idéia das colônias de pacientes surgiu no Congresso Internacional de Paris e foi saudada como a grande solução para transforma o asilo em hospital esvaziando-o de seus crônicos. Os recursos terapêuticos eram insuficientes, não havia medicação que melhorasse os pacientes. Predominava o niilismo terapêutico, a idéia da degeneração, as idéias de impedir a loucura e os vícios sociais via Higiene Mental e surgiam idéias eugênicas do grupo de Cold Springs (1911) dos EUA e que mais tarde, em 1934 foram adotadas pelo partido nazista na Alemanha.

Nesse momento confuso da nascente Psiquiatria, os psiquiatras paulistas apresentavam algumas idéias interessantes. Pacheco e Silva, por exemplo, trouxe do seu estágio com Pierre Marie a idéia dos Laboratórios de anatomia patológica e com a vontade de fazer trouxe um russo emigrado, o Dr. Constantino Trétiakoff que desenvolveu os laboratórios de Juqueri. Osório César desenvolvia experiências artísticas entre os pacientes. Durval Marcondes, o próprio Franco da Rocha estudavam as idéias de Freud e fundaram a primeira sociedade Psicanalítica da América Latina.

 

Nos depoimentos de Rubião Meire, Pacheco e Silva, Marcondes Vieira , Ulisses Paranhos e outros, Francisco Franco da Rocha era aparentemente tímido, reservado e frio. Entretanto, na intimidade, mostrava-se subitamente sentimental e suscetível, revelando horror ao luxo, conceitos de grande originalidade e lances de “Humour”. Como um “Franco da Rocha” mostrava-se franco às vezes até a rudeza e dotado de “uma vontade com a solidez de uma rocha”. No comentário de Almeida Prado, era “persuasivo e sempre pitoresco na expressão; filosófico e conceituoso no fundo”.

Na observação de Ulisses Paranhos , “tinha pelos insanos uma profunda meiguice, uma limitada paciência, uma enorme dose de simpatia e piedade”. “Desdobrar a minha atividade em proveito dos infelizes que carecem de conforto, confessava Franco da Rocha, foi para mim um grande prazer durante a parte mais forte da minha existência”. Ao que acrescenta Ulisses Paranhos “, “a sua voz aveludava-se, os seus modos ganhavam atitudes paternais, os seus gestos eram brandos, as suas perguntas chegavam , como setas, em bebidas no suco das papoulas, ao coração do deserdado da razão. E o milagre se operava . O doente cedia ao prestigio da cordura, ao império da bondade e ás ordens brandas do coração , começava a tranqüilizar-se , a ceder, a humanizar-se “. No relato de Marcondes Vieira , uma paciente delirante , no saguão do Hospício, relutava em ser internada. Declarava que” daquele salão de baile na Corte, onde se encontrava , ela, uma princesa , só poderia retirar -se dançando ao som daquela música que a orquestra executava”. Franco da Rocha, com uma reverência, pediu: “Dá-me a honra, alteza, desse minueto?. A paciente satisfeita e feliz, de braço com Franco da Rocha, com movimentos de dança , penetrou no Hospício. A propósito do episódio , Franco da Rocha comentou: “Nuca se deve contrariar o delírio dos doentes . Devemos sempre nos adaptar ao seu meio, a fim de lhes inspirar confiança. Às vezes é até de boa técnica delirar com eles. Em 1907, Franco da Rocha já reunia aos seus estudos no trabalho acerca das” Moléstias Mentais em São Paulo.”“.

Para exercer as funções de diretor e se integrar à vida do nosocômio, Franco da Rocha residiu junto ao Hospício de Juqueri. Não tinha clinica particular. Desde que se mudou para Juqueri em 1899 raramente de lá se afastava. Residiu com a esposa D. Leopoldina de Lorena Ferreira Franco da Rocha, e seis filhos. Advertia aos filhos para que jamais designassem os internados com a expressão deprimente de loucos, mas, sim, com a denominação de doentes. Aposentou-se o cargo de Diretor do Hospício de Juqueri em março de 1923, aos 58 anos de idade.

Em 03 de abril de 1928, por iniciativa de discípulos e amigos, foi erguida uma herma de bronze de Francisco Franco da Rocha no saguão do hospital. Franco da Rocha, presente á cerimônia , depois de saudado por vários oradores, recebeu um ramo de rosas oferecido por um velho doente crônico, com as palavras: “Doutor Franco”. Emocionado até ás lágrimas apenas murmurou: “Obrigado, meu amigo”. No relato de Pacheco e Silva , um velho preto, dos mais antigos doentes do Hospital, sempre se ajoelhava e orava diante do busto de Franco da Rocha. Quando o advertiram de que a estátua não era de um santo, mas do fundador do Hospital, respondeu: “Bem sei disso. Mas é isso mesmo, ele é santo e é o nosso santo. Por isso, não deixo de rezar cada vez que posso junto dele”.

Com a Fundação da Faculdade de Medicina e Cirugia de São Paulo, graças á iniciativa de Arnaldo Vieira de Carvalho, Francisco Franco da Rocha ocupou a Cadeira De Clínica Neuriátrica e Psiquiátrica , mediante contrato como Governo, de 1918 a 1923. Em lições preparadas e lidas, afirmou-se autêntico Professor, com opiniões amadurecidas e pessoais em todos os capítulos da matéria. Desconfiava do dogmatismo da teoria de degeneração, denunciando que a presença dos estigmas físicos nem sempre corresponderia á existência da índole criminosa. De acordo com a nosologia estabelecida por Emilio Kraepelin, desenvolveu pesquisas acerca de psicose maníaca - depressiva e da paranóia, também estudada por Juliano Moreira e Afrânio Peixoto. Passou em revista o quadro da epilepsia psíquica, na ausência de crises motoras, acarretando tantas vezes reações violentas e anti-sociais, e as manifestações polimorfas da histeria, em conexão como fenômeno hipnótico . de acordo com as lições de Charcot na Salpêtriere de Paris. Nas aulas da Faculdade , em 1919, anunciou , pela primeira vez em São Paulo, o que era a Psicanálise. Dessa preleção resultaram o volume

“O Pansexualismo da Doutrina de Freud”, em 1920, e a Segunda edição da mesma obra, com o título de “A Doutrina de Freud”, em 1930.

Apesar da orientação predominantemente biológica da Psiquiatria da época, interessou-se pela concepção da psicanálise de Freud. Em 1927, foi um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Psicanálise, junto com Durval Marcondes , Raul Briquet, Lourenço Filho, A, Almeida Junior, Osório Cesar, Thomé Alvarenga, James Ferraz Alvim, Paulo de Almeida Toledo e outros. Em consagração da sua excelência de Professor foi eleito paraninfo da Segunda Turma De Doutorandos da Faculdade , em 1919. Com o afastamento de Franco da Rocha, foi contratado em 1925, Enjorlas Vampré, para lecionar a Cadeira de Clínica Neuriátrica e Psiquiátrica. Logo foi desdobrada e surgiram as cadeiras de Clínica Neurológica , que continuou com Enjorlas Vampré , mediante concurso, e a cadeira de Clínica Psiquiátrica, que, também através de concurso, foi conquistada por Antônio Carlos Pacheco e Silva.

Como um dos pioneiros da Psiquiatria Social no Brasil, estudou as desordens mentais das multidões, os transtornos psíquicos em conexão com a raça negra e as epidemias de loucura religiosa, descrevendo particularmente uma epidemia desencadeada na cidade de Taubaté, ao influxo da sugestão espírita, em 1895. Arvorou-se num dos construtores da nossa Psiquiatria Forense, pontificando acerca das múltiplas questões médico - legais relacionadas com os distúrbios da mente, consoantes demonstram os seus numerosos laudos e pareceres até hoje preciosamente arquivados no Foro de São Paulo. Em adesão á Escola Penal Positiva, todo criminoso encerraria uma personalidade, mais ou menos, mórbida, merecendo punição conforme o seu grau de periculosidade e, em muitos casos, exigindo a aplicação de medidas de segurança social. Certo Juiz discordou do diagnóstico de insanidade mental estabelecido na pessoa de um delinqüente: Franco da Rocha teria sido parcial e mesmo venal, buscando descabidamente escamotear o criminoso á reclusão na penitenciária. Em veemente artigo intitulado “A Jurisprudência Fóssil”, Franco da Rocha protestou contra a calúnia e o criminoso, reconhecido como doente mental, foi despronunciado e recolhido ao Hospício Forense, publicado em 1904, lanço o primeiro tratado sobre a matéria no meio brasileiro, com duas edições esgotadas e traduzidas para o alemão. Salientou-se também como um dos primeiros propugnadores do movimento da Higiene Mental no Brasil, através das suas preleções e escritos dedicados, á luta contra o alcoolismo e outros flagelos sociais, a psicologia das superstições, a prevenção da delinqüência e a outros problemas inerentes a área psico - higiênica

Em Fragmentos da Psiquiatria, focalizou as relações entre a arte e a chamada degeneração: Cervantes, Shakespeare, Molliére e outros artistas descreviam com exatidão os tipos mórbidos, enquanto outros menos equilibrados já imprimiam uma nota psicopática as obras, como Poe, Baudelaire e outros. Escreveu sobre a paralisia geral, o delírio agudo, a epilepsia, a redução da imputabilidade criminal na alienação e os tratamentos psiquiátricos, polemizando com o positivismo de Comte. Em colaboração com Pacheco e Silva, estudou a demência paralítica. Nas suas Estatísticas e apontamentos sobre o Hospício de São Paulo, de 1895 a 1902, registrou com precisão e elegância as mais diversas ocorrências da Vida hospitalar, afirmando-se algo precursor da atual orientação epidemiológica da Psiquiatria. Colaborou, com um capitulo no “Tratado Internacional de Psicopatologia, organizado sob a direção de P. Marie e publicado pouco antes da Primeira Guerra Mundial. Colaborou em muitas revistas nacionais e estrangeiras:” “Revista de Medicina Legal da Bahia”, sob a direção de Nina Rodrigues, “Revista Médica de São Paulo”, Arquivos de Psiquiatria y Criminologia”, de Buenos Aires, organizados por José Ingenieros, “Annales Médico-Psychologiques”, de Paris, “Journal de Psychologie Normal et Pathologique” sob a orientação de Ritti e Dumas, “Allgemeine Zeitschrift Für Psychiatrie”, de Berlim, etc. Como jornalista realmente vocacionado, divulgou noções de Psiquiatria e das áreas correlatas, através de numerosos artigos na imprensa leiga, colaborando em “O Estado de São Paulo” e no “Correio Paulistano”, durante cerca de quarenta anos. Em função do crescente renome científico, tornou-se membro de muitas sociedades estrangeiras e nacionais. Société Médico-Psychologique de Paris, Sociedade de”. Medicina Legal e Criminologia de São Paulo, Sociedade Brasileira de Psicanálise, Liga Paulista de Higiene Mental, etc.

Nos momentos em que folgava na direção do hospício, percorria os campos próximos, contemplando a paisagem, examinado flores e frutos, ouvindo os gorjeios dos pássaros, pescando pachorrentamente às margens do rio.

Dedicou-se à criação e estudo das abelhas indígenas, favorecendo a multiplicação de colméias na área do Hospício de Juqueri. Os pássaros eram sua paixão e por ela, dedicou-se à ornitologia, escrevendo trabalhos sobre o assunto, inclusive uma monografia sobre o tico-tico. Deixou a sua biblioteca especializada em ornitologia para ao Museu Paulista, sob a direção do seu amigo Afonso de E. Taunay.

Francisco Franco da Rocha, profundo humanista, dominava o Alemão e outras línguas vivas, no objetivo de se manter atualizado acerca de tudo quanto fosse publicado nos maiores centros psiquiátricos, assim como conhecia o Grego e o Latim, comprazendo-se com a leitura dos textos originais dos grandes pensadores da antiguidade. Com o seu estilo simples e claro, a salvo de enfeites e prolixidades, jamais enfadonho, logrou ingressar na Academia Paulista de Letras: ocupou a Cadeira número 3, que tem como Patrono Matias Aires, tendo sido fundada por Luiz Pereira Barreto e, em seguida, conquistada por Alfredo Pujol antes de Franco da Rocha. Sucederam a Franco da Rocha, na Cadeira número 3, Mário de Andrade, Washington Luiz Pereira de Souza e, Lucas Nogueira Garcez. A propósito de Franco da Rocha literato, Lucas Nogueira Garcez, no discurso de ingresso na Academia, em 1958, comentou: “Nas suas obras descobre-se à vocação do escritor: o estilo é elegante, a frase escorreita, a exposição clara. Lê-se o” “Pansexualismo de Freud” com o prazer de quem saboreia uma verdadeira obra literária. Quando Franco da Rocha faleceu em São Paulo, em conseqüência de enfisema pulmonar, aos 69 anos de idade, em 8 de novembro de 1933, era preciso concordar com a oração fúnebre de Ulysses Paranhos que, em síntese crítica, proclamou-o Pai da Psiquiatria Paulista.

Bibliografia de Francisco Franco da Rocha encontrada no Índice Bibliográfico Brasileiro de Psiquiatria

  1. Franco da Rocha, Francisco. Alcoolismo e loucura. Soc.Med.Cirurgia Do Rio De Janeiro-Conferência. 1918; agosto.
  2. Franco da Rocha, Francisco. Asilo-colônia de alienados de Juqueri. Arq.Criminologia,Med.Legal e Psiquiatria,Buenos Aires. 1902.
  3. Franco da Rocha, Francisco. Assistência familiar aos alienados em S.Paulo. Arq.Bras.De Psiquiatria,Neurologia e Ciências Afins. 1906; 2(1):18-24.
    Keywords: alienados de São Paulo; assistência familiar
  4. Franco da Rocha, Francisco. Assistência familiar aos insanos em S.Paulo. Arq.Bras.De Psiquiatria,Neurologia e Ciências Afins. 1910; 6(4):397-402.
  5. Franco da Rocha, Francisco Combate ao alcoolismo. Gazeta Médica Da Bahia. 1928; 59(..):149-153.
  6. Franco da Rocha, Francisco. Delinqüente epiléptico. Rev.Médico-Legal,Salvador,Bahia. 1897; 129.
  7. Franco da Rocha, Francisco. Esboço de psiquiatria forense. São Paulo,1904-1905. 1904.
    Keywords: psicopatologia forense. Primeiro livro de psiquiatria no Brasil.
    Abstract: Foi o primeiro livro publicado no Brasil abrangendo o conjunto da psiquiatria.Foi escrito após quinze anos de prática nos serviços de alienados do Estado de São Paulo.
  8. Franco da Rocha, Francisco. Estatística do Asilo-colônia de Juqueri. Arq.Bras.De Psiquiatria,Neurologia e Medicina Legal. 1911; 168-172.
    Keywords: Juqueri; estatísticas
  9. Franco da Rocha, Francisco. Estatística e apontamentos sobre o Hospício de São Paulo. São Paulo. 1895.
    Keywords: Hospício de São Paulo; estatísticas
  10. Franco da Rocha, Francisco. Moléstias mentais em São Paulo. Arq.Bras.De Psiquiatria,Neurologia e Ciências Afins. 1907; 3:274-284.
  11. Franco da Rocha, Francisco. O beribéri no Hospício de São Paulo. Rev.Médica De São Paulo. 1902.
  12. Franco da Rocha, Francisco. Responsabilidade atenuada dos alienados criminosos. Rev.Médico-Legal,Salvador,Bahia. 1897; 179.
  13. Franco da Rocha, Francisco. Sobre um caso de paralisia geral. Brasil Médico. 1895; 225.
  14. Franco da Rocha, Francisco and Pacheco e Silva, A. C. A demência paralítica em São Paulo. Arq.Bras.De Neuriatria e Psiquiatria. 1924; 20(1):1-22.

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