Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Dezembro de 2003 - Vol.8 - Nº 12

Psicanálise em debate

Canibalismo

Sérgio Telles

Minha mulher e eu estávamos na casa de meus cunhados. Conversávamos tranqüilamente sem nos importar com a presença de nosso sobrinho de dois anos e meio que perambulava por ali. De repente fomos interrompidos por sua fala, que num tom raivoso e de muita censura, dirigia-se a minha mulher, apontando para sua barriga grávida de sete meses. Dizia ele: `Você pensa que não sei que você comeu o filho que está em sua barriga?!?'

Todos rimos com sua tirada, uma `coisa de criança' e ele saiu da sala aparentando uma indignação ainda maior.

Estava ele evidenciando uma das descobertas de Freud ligadas às chamadas “fases de evolução da libido”. Produzia uma fantasia típica da fase oral canibalística, também chamada oral-sádica. Nessa fase predominam na criança as fantasias de comer a mãe ou a de ser por ela comida. Essas fantasias de canibalismo se dão pelo desejo da criança de não se separar da mãe, pelo desejo de se fundir com ela. Ao mesmo tempo, representam a vontade de destruir a mãe por ter-lhe abandonado ou frutrado seus desejos, desejo esse que a enche de medo de retaliação por parte da mãe ou de necessidade de castigo por sentir-se culpada frente a seus desejos agressivos. Em ambos os casos, o resultado poderia levar ao temor de ser devorada pela mãe.

As fantasias orais sádicas ou orais canibalística estão ligadas ao aparecimento dos dentes e a possibilidade de usá-los para morder, roer, rasgar, mastigar, o que era até então impossível, dado que a criança se atinha a sugar a alimentação.

A fase oral se instala nos primórdios da vida e mostra como é intima a relação entre pulsões sexuais e as pulsões de autoconservação. As primeiras se apoiam nas segundas, adquirindo com isso um objeto, uma direção e um fonte orgânica. Essa mesma ligação oferece os modelos para as representações psíquicas inaugurais referentes ao interno e ao externo, ao dentro e ao fora, à discriminação entre o eu e o outro. O ingerir alimentos e o expulsá-los através de vômitos são os protótipos corporais ou somáticos dos mecanismos psíquicos de incorporação (e introjeção) e da projeção.

A transformação que vai de incorporação (“vou comer um pedaço de minha mãe, assim a retenho dentro de mim e não a perco, ganho suas qualidades”) à introjeção ( “vou guardar essa imagem de minha mãe em minha cabeça pois não quero e não posso me separar dela”) e chega à ïdentificacão (“vou manter comigo alguns traços e elementos que representam e significam minha mãe e eles vão organisar meu psiquismo, vão me permitir ser como ela em alguns aspectos importantes) pode ilustrar muito bem o processo de evolução psíquica que parte de modelos baseados no funcionamento corporal até o franco estabelecimento do funcionamento psíquico.

O sujeito humano se constitui dentro de processos, que podem ter como referência as fases da evolução da libido, a transição do narcisismo para a fase objetal, o transitar do proceso primário para o processo secundário ou ainda o abandonar a relação fusional dual com a mãe e aceitar a castração simbólica trazida pela presença do pai.

Muitos percalços cercam a constituição do sujeito humano, afastando-o quase completamente dos referenciais biológicos e naturais. São esses desvios os responsáveis pelos distúrbios psíquicos que vão desde as perturbações neuróticas - nas quais o sujeito sofre com suas fantasias e se impõe impecilhos quanto à realização de seus desejos, mas sem romper a ligação com a realidade - até as psicóticas, onde está rompido o contato com a realidade.

Essas idéias me vieram ao ler as recentes notícias sobre Armin Meiwes, dito o `canibal de Rotenburg'. Analiticamente falando, ele realiza concretamente aquilo que é uma fantasia que todos nós tivemos e que processamos de várias formas, transformando-a - como vimos acima - em seus sucedâneos psíquicos de incorporação, introjeção e identificação e, em parte, reprimindo-a. Dela teremos notícias eventuais e muito disfarçadas em sonhos, fantasias, sintomas orais. O fato de que Meiwes a tenha mantido - como ele mesmo relatou aos jornais - como uma fantasia consciente ligada a um desejo sempre presente e que tenha terminado por concretizá-la na realidade, mostra uma falha gravíssima no seu processo de simbolização, característica da psicose.

Aqui abro um parêntese para comentar a importância da internet no caso de Meiwes. Nele, a rede mostra seu incrível poder de agregar pessoas que de outra forma jamais, ou muito dificilmente, se encontrariam. As salas de bate-papo, com seu sigilo aparente (desde que é possível rastreá-las, se necessário for), permitem a exposição de fantasias e desejos os mais bizarros e a possibilidade de encontrar alguém com interesses semelhantes. No caso em pauta, podemos pensar que a incidência do canibalismo é ínfima, são casos muito raros. A possibilidade de que as pessoas com esse tipo de fantasias pudessem expressá-la socialmente sem sanções imediatas era inexistente antes da internet. E o poder expressá-las torna possível encontrar outros com fantasias complementares, como a do parceiro de Meiwes, Bernd Jurgen, um suicida no qual, possivelmente, jogavam papel importante fantasias de ser devorado por uma mãe sádica.

Recentemente li em “Vanity Fair” uma extensa reportagsem sobre pessoas que se autodenominam “furries” (“peludos”) por gostarem de praticar sexo vestidas com fantasias de bichinhos de pelúcia. Uma nova modalidade de `perversão', se quisermos chamar assim, e, também aí, a internet foi de importância capital. Possibilitou que esses indivíduos falassem publicamente - mas em sigilo - da peculiar forma pela qual seu erotismo se expressa, fato que lhes permitiu a descoberta de que outros comungavam dessa modalidade específica de fantasia ou prática sexual, e, passo seguinte, provocou encontros públicos que têm merecido uma certa atenção da midia.

Voltando ao canibalismo e ao caso Meiwes. Essas considerações são corriqueiras dentro do saber psicanalítico e mostram o fato paradoxal de que quanto mais violento é o ato homicida, quanto mais em sua realização o homicida rompe com a integridade do corpo da vítima, esquartejando-a, eviscerando-a, etc, mais ele está concretizando na realidade fantasias arcaicas inconscientes universais. Dou-me ao trabalho de expô-las aqui para, mais uma vez, dar testemunho desse saber tão fundamental e valioso e que a psiquiatria dá-se ao luxo de `esquecer', de ignorar, de desmerecer.

Acredito que a gravidade da patologia do sr. Meiwes o impeça do convívio social e que se impõem medidas coercitivas a serem deliberadas pelo aparelho jurídico do estado. Mas num caso como esse, dever-se-ia ficar restrito a pesquisas de imagens PET evidenciadoras das áreas cerebrais onde determinados neurotransmissores agem com maior ou menor eficácia? Ou deveríamos fazer estudos extensivos sobre a organização familiar de tal pessoa? Não deveríamos reconhecer as imensas falhas simbólicas em seui psiquismo, falhas típicas da psicose? Como deveríamos lidar com as forclusões, as dissociações, as denegações implicitas no caso, se não através da fala, da linguagem, da construção de seu passado simbólico, do entender suas fantasias mais primitivas ligadas ao desejo mortal de fusão com a mãe?


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