Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Agosto de 2003 - Vol.8 - Nº 8

Psicanálise em debate

Pensando com Blum e Fonagy

Dr. Sérgio Telles
Psicanalista do Departamento de Psicanálise de Instituto Sedes Sapientiae
e escritor, autor de MERGULHADOR DE ACAPULCO (1992 – Imago – Rio)

Na sessão “Psychoanalytical Controversies” do International Journal of Psychoanalysis na Internet deste mês (no. 84, 2003) encontra-se um interessante debate. A revista convidou Haroldo Bloom a expor suas opiniões contrárias às de Peter Fonagy, um psicanalista preocupado em estabelecer vinculações entre a psicanálise e as neurociências. Num trabalho anterior, Fonagy questionara a importância para a clínica psicanalítica da recuperação da memória reprimida, apoiando-se ora em seu enfoque técnico, ora no conceito de `memória procedural' advindo das neurociências.

Dr. Harold Blum refuta ponto a ponto essa argumentação em seu trabalho “Repression, transference and reconstruction” , ao qual Fonagy - por sua vez - faz comentários. O debate é aberto ao público e pode ser acessado no site do IJP - www.ijpa.org

Em minha opinião, nesta discussão estão misturadas duas questões distintas. A primeira diz respeito ao problema das diferentes concepções teóricas de psicanálise, com suas decorrências na clínica, na eloboração de técnicas diversas. A segunda diz respeito a relação da psicanálise com as neurociencias.

Vejamos a primeira questão. Neste debate, seguimos o enfrentamento entre a concepção freudiana, defendida por Blum e a concepção de Fonagy, dita “self and other”, que parece ser uma variante dos modelos kleiniano e pós-kleiniano (Bion, Winnicott, Rosenfelt), nos quais a transferência é entendida como a exploração exclusiva da relação do self do paciente com o analista, durante a sessão. Neste enfoque, pouca ou nenhuma importância é dada à memória, à história do paciente.

Sabemos que muitos criticam essa postura técnica por preconizar uma ênfase quase que exclusiva no aqui-e-agora da relação dual paciente-analista, o que facilmente pode dar margem à formação de uma imaginária fusão narcísica entre os dois, que atualizaria e concretizaria o desejo mais regressivo do paciente de fundir-se com a mãe. Nestas circunstâncias, fica desconsiderada a função paterna como necessária representação simbólica da castração, do terceiro, da exclusão.

Blum diz o mesmo com outras palavras: “Uma transferencia analítica estritamente focada é consistente com uma posição narcísica do analista; ele (ou ela) não é apenas uma pessoa importante, mas a mais importante na vida do paciente. O paciente se identifica com o analista idealizado e o narcisismo da díada analítica é então gratificada e promovida. Numa longa análise, isso é especialmente problemático caso as relações [que o paciente mantem] na vida real estejam desvalorizadas e não se comparem com o status excepcional e a satisfação oferecida pela situação analítica. Uma duradoura dependência do analista e da análise pode ser inadvertidamente encorajada e sustentada. Em tais situações, a análise poderia facilmente ficar isolada do conjunto da vida do paciente, [constituindo-se] numa folie-a-deux analítica”. (grifo meu).

Blum defende uma visão freudiana que considera “a memória, seja ela precisa ou pouco confiável, dolorosa ou prazeirosa” como “essencial para o trabalho analítico e é por ele estimulada”. Considera que para compreender a transferência é necessário conhecer a história (as memórias) do paciente: “A transferência é uma transposição da fantasia inconsciente infantil para o presente analítico e não pode ser entendida sem seu caráter e sua origem infantis”. Acha que a transferência e a construção analítica são indissociáveis no trabalho clinico, para que a relação terapeutica não se transforme numa `folie a deux' : “A importância da transferência e das relações objetais não está em questão, mas o processo psicanalítico pode descarrilhar quando qualquer um de seus componentes, tal como a transferência, tem exclusividade. A transferência, entretanto, é o maior guia para a reconstrução da infância do paciente, assim como a reconstrução é essencial para a compreenção da transferência e da influência que a infância exerce na vida posterior do paciente”.

Esses pontos marcam uma radical diferença na abordagem teorica e técnica com Fonagy, que, baseado em sua experiência com pacientes borderlines, acredita que a interpretação da transferencia restrita ao aqui-e-agora da relação analitica é o único que importa. Como já foi especificado acima, Blum acha errada tal posição, pois “a transferência manifesta do paciente não é mais confiável para sua compreensão do que o conteúdo manifesto de seus sonhos, comportamentos ou sintomas”.

Ainda a respeito da (re)construção, diz Blum: “A neurose do adulto inclui desenvolvimentos posteriores mas é construída sobre a psicopatologia e as vulnerabilidades da infância. A anamnese consciente de um paciente não é simplesmente descartada como imprecisa e irrelevante. O relato consciente que o paciente faz de sua vida, com suas inevitáveis falhas, inconsistências, distorções e mitos pessoais fornecem o contexto no qual o analista começa a compreender o paciente. A reconstrução se faz no contexto analítico e histórico da superfície para a profundidade, do presente para o passado e daí de novo para o presente. A reconstrução integra realidade e fantasia, passado e presente, causa e efeito. Paradoxalmente, o passado é recreado numa forma integrada que nunca existiu como tal”.

Pessoalmente, coincido com as posições de Blum, que são muito semelhantes às que expressei em meu livro “Fragmentos Clínicos de Psicanálise” (Casa do Psicólogo/EdUFSCar - 2003).

A escola kleiniana, na medida em que pressupõe relações objetais muito primitivas do bebê com objetos parciais, num período pré-verbal, necessariamente privilegia a relação primitiva com a mãe, situação na qual qualquer memória ou história trazida será sempre encobridora, defensiva, posterior àquelas situações originárias, recriadas apenas através da transferencia com o analista.

É por este motivo que pode levar às distorções já mencionadas e que foram perfeitamente ilustradas pelo relato que Godley fez de sua análise com Masud Khan, posteriormente comentado por Boynton, como expusemos recentemente aqui (“Lendo Godley e Boynton'” - Psychiatry on Line - Brazil, julho 2003).

É verdade que Glen Gabbard, participante do debate e autor de um importante trabalho onde entrevistou 150 terapeutas que se envolveram em abusos e violações na relação analista-analisando, diz não ver os diferentes referenciais teóricos como facilitadores ou inibidores desses abusos. Excluindo os predadores psicopatas, eles decorrriam de uma “convergência de vulnerabilidades caracterológicas, estresses extraordinários e um particular “gancho” entre o mundo interno do paciente e o do analista”.

Ao se abordar a importância da memória em psicanálise, não podemos restringir a questão apenas ao aspecto teórico-técnico da prática clínica e sim alargá-la, como bem indica Derrida em seu “Mal de Arquivos”, integrando a história da própria psicanálise e de suas instituições, algo que tem sido objeto de repressão quase que sistemática. Nesse sentido, os textos de Godley e Boynton, citados a pouco, são também exemplares.

Ao ler, no debate, a contribuição dos diversos participantes, salta aos olhos a dificuldade de entendimento entre os vários analistas, na medida em que falam dialetos próprios de cada escola. Isso faz com que muitos pontos de convergência e concordância se percam em função de terminologias ou ênfases parciais em determinados aspectos específicos..

Quanta à segunda questão, ela é colocada por Fonagy ao querer fazer coincidir o “inconsciente” freudiano - que é o conceito mais radical da psicanálise - com o conceito de memória “procedural” ou “memória implícita” - tipo de memória descrita por Milner, diferente da “memória declarativa” por ser, ao contrário desta, completamente inconsciente e se evidenciar somente no seu desempenho e não nas recordações conscientes (Kandel).

Penso ser um grande equívoco essa postulação, que é muito próxima das propostas de Kandel, explicitadas em seu artigo “A Biologia e o Futuro da Psicanálise: um novo referencial intelectual para a psiquiatria revisitado”.

Nele fica clara a consideração que Kandel tem pela psicanálise, reconhecendo o quanto ela marcou de forma profunda a psiquiatria norte-amaericana até os anos 70. Lamenta seu atual declínio nos meios psiquiátricos e o explica pela dificuldade que a psicanálise tem de se posicionar como uma “ciência".

Bondosamente, Kandel estabelece um programa para "cientifizar” a psicanálise, apontando oito áreas onde a biologia poderia contribuir para isso. O problema é que, seguindo tal programa, a psicanálise deixa de ser psicanálise e se transforma em "psicologia cognitiva" - supostamente, a única "científica".

É preciso sempre lembrar que o que está em jogo é uma questão epistemológica. Isso quer dizer o seguinte: frente a uma afirmação como essa de Kandel, de que "a psicanálise não é uma ciência", o que importa não é o aceitar ou o rejeitar essa afirmação, mas tentar contextualizá-la ou, como diria Derrida, "desconstruí-la".

De que forma?

Procurando entender o quanto tal afirmativa é problemática, pois para aceitá-la ou rejeitá-la teríamos de esclarecer previamente várias questões, tais como: "quem afirma, e com que autoridade, o que é ou não é ciência?", "o que é mesmo ciência?", "quais os discursos (de poder?) envolvidos nessa questão? ", "quais os pressupostos filosóficos que sustentam tal afirmativa ? " e por ai a coisa começa a ficar bem complexa.

A ciência, ao contrário de uma visão ingênua, que acredita num empirismo bruto, onde a experiência imediata possibilitaria a observação e investigação, está sempre a reboque de uma posição filosófica, que permite uma delimitação conceitual no campo do real. Somente a partir dessa delimitação, a ciência pode se organizar.

O enfoque neo-positivista, ou seja, o substrato filosófico positivista ou neo-positivista tem uma forma de delimitar o que é ou não ciência.

É apenas um enfoque e é patético que se arvore a ser o único e que tantos acreditem religiosamente nisso. Isso cria, como Roudinesco mostra, um estranho paradoxo - no seio do que seria o mais "científico", se organiza uma visão, uma crença absolutamente religiosa do mundo, onde a "ciência" passa a ser onipotente e onisciente, ocupando o antigo lugar ocupado por Deus...

Assim, é preciso não esquecer que outros substratos filosóficos podem fazer recortes diferentes, romper paradigmas anteriores e propor novos.

Os pós-modernos - sim, eu sei o quanto eles são atacados e denegridos, especialmente pelos norte-americanos, a partir do Sokal Hoax (que, na minha opinião, foi uma tirada de sarro genial, o problema é eles mesmo perderam a mira do que fizeram, mas isso é outro papo) - pois é , os pós-modernos têm proposto questões muito pertinentes, como Lyotard, quando mostra a incongruência filosófica de toda postura "cognitivista". Mas, acredito que para os neurocientistas, isso não passa de uma "frescura francesa", mais um "obscurantismo" desses "impostores".

José Perres, psicanalista mexicano, explicita de forma muito clara a questão epistemológica da psicanálise em seu artigo “La epistemologia del psicanalisis: Introducción a sus núcleos problemáticos y encrucijadas”, que citei anateriormente aqui (“Psicanálise - o inferno astral” - abril de 1999).

Recorto daquele meu artigo anterior: “O próprio método proposto pelos neopositivistas baseia-se na crença que na relação entre o "objeto de conhecimento" e o "sujeito cognocente" existe uma total objetividade do último, ou seja, a observação científica seria totalmente "objetiva", estariam excluídas quaisquer subjetividades por parte do observador, o "sujeito cognocente". Hoje tal pretensão caiu em descrédito, é considerada um mito, o mito da objetividade totalmente desinteressada do cientista e da ciência, negando toda a realidade de sua inserção sócio-política e subjetiva.(...) Perrés afirma que Freud na verdade introduz uma verdadeira revolução epistemológica, ao propor o contrário da posição positivista. Freud postula não só que na relação "objeto de conhecimento"/"sujeito cognocente" não existe o mito da objetividade como incorpora na observação científica a subjetividade do observador, criando um novo campo de cientificidade. Mais ainda, mostra como o próprio observador, o "sujeito cognocente" está cindido pelo Inconsciente, e somente tendo conhecimento desta sua dimensão terá acesso aos processos de conhecimento de si-mesmo e do outro” (grifo meu).

Penso que a psicanálise está mais viva do que nunca. Não é verdade que tenha se esgotado e que não tem futuro num mundo regido pela “ciência”. Pelo contrário, a psicanálise mal começa e tem muito campo pela frente, muito embora tenha de lutar sempre contra as forças da repressão que a querem destruir e fazer calar suas duras verdades.

A psicanálise tem muitos problemas - como tornar congruentes as várias e discordantes escolas psicanalíticas, que divergem em tantos aspectos; como lidar com nossas complicadas instituições; com a formação de novos analistas; como organizar a transmissão de conhecimento; como ampliar o campo englobando os novos estudos sobre a família, e - evidentemente - os avanços da neurociência.

A existência de tais problemas - que nao podem nem devem ser negados - nem de longe abala a riqueza do pensamento freudiano e o tanto que ele nos proporciona de conhecimento sobre o psiquismo.

Enquanto não nos organizamos epistemologicamente, damos margem a danosas e perniciosas associações escusas. Aqui no Brasil, há uma "escola de psicanálise" evangélica (!!!) o que - para mim - é um bom exemplo disso.

É claro que a psicanálise nao deve se furtar ao embate com qualquer produção científica ou cultural, mas deve fazê-lo em seus próprios termos, nao pode abrir mão de seus pressupostos básicos (inconsciente, complexo de édipo, complexo de castração, narcisismo, relação objetal, transferencia - para citar algumas de nossa pedras fundamentais, "cornerstones".

Que os próprios analistas aceitem que a psicanálise está no ostracismo por não ser uma “ciência”, que aceitem esse veredicto externo com tão graves e negativas repercussõs sobre a própria existência e permanência da psicanálise no futuro, parece-me um sintoma, uma fuga frente aos problemas que sabem existir dentro do nosso próprio campo. Penso que era essa atitude que Derrida tinha em mente quando falava da psicanálise “que resiste a si mesmo”.

Referências

Psychoanalytical Controversies - IJPA, 84-2003 - www.ijpa.org

Derrida, J. - “Mal de Arquivo - Uma impressão freudiana” - Relume Dumará - Rio - 2001

A biologia e o futuro da psicanálise: um novo referencial intelectual para a psiquiatria revisitado - Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul - 25(1)139-165, jan/abr.2003

Roudinesco, Elizabeth - Porque a Psicanálise? - Jorge Zahar Editor - Rio - 2000

Perrés, José - La Epistemologia de la Psicoanalisis - Introducción a sus nucleos problematicos y encrucijadas - www.acheronta.org


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