Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Abril de 2003 - Vol.8 - Nº 4

Psicanálise em debate

APRESENTAÇÃO do livro FRAGMENTOS CLÍNICOS DE PSICANÁLISE de Sérgio Telles
(Editora Casa do Psicólogo e EdUFSCar - 2003)

C. Guillermo Bigliani

Conheci Sérgio Telles logo que cheguei ao Brasil , no ano de 1977. Era o fim da ditadura Geisel no Brasil e o começo da ditadura de Videla na Argentina. Sérgio fazia parte de um grupo de jovens psicanalistas que se propunham a transformar o mundo e a prática da psicanálise. Eu também tinha participado de um movimento com características semelhantes, em Buenos Aires.

Reconheci rapidamente nele as qualidades de um bom clínico, o  que se confirmaria plenamente nos mais de vinte e cinco anos de nosso intercâmbio profissional. Também confirmaram minha opinião grandes clínicos, como Herbert Rosenfeld, Marie Langer  e Eric Breman, que em algumas ocasiões supervisionaram seus materiais clínicos.

Sérgio tem ainda uma qualidade rara entre os médicos: sabe escrever. Aliás,  quase se dedicou ao jornalismo, quando se qualificou no concurso realizado  para formar o grupo de redatores da VEJA, no começo da revista, mas desistiu porque achou que sua vocação era a psicanálise. E era mesmo. Este livro  não só prova isto como o coloca entre os melhores.

Acredito que Fragmentos Clínicos de Psicanálise transporá fronteiras.

Por que ?

Porque seu conhecimento de Freud, especialmente do primeiro Freud, no qual o resto da obra está alicerçada, permite ao autor navegar sem dificuldades pelas teorias que povoam a psicanálise, especialmente pelas raízes da verdade teórica em que fundamenta sua clínica. Sérgio nos mostra isto na produção de sua "cozinha de analista", como Rodrigué chamava aquele lugar no qual são criadas as interpretações do analista. Alí a especiaria é sutil, variada e das mais diversas origens, tal como se vê nas vinhetas clínicas que constituem a obra.

Na apresentação de seus casos, Sérgio nos oferece um belo entretecido de material clínico, teoria e técnica, com inestimáveis orientações para os jovens analistas e valiosas lembranças para os velhos.

Os conceitos fundamentais da psicanálise, surgem de forma simples, mostrando-nos uma decantação apurada da teoria e uma grande capacidade de síntese, o que lhe  permite realizar uma discussão precisa e elucidativa de conceitos das diferentes escolas em voga, sempre apoiado em citações consistentes nas que se evidencia sua dívida não sectária aos grandes pensadores da psicanálise: Freud, Klein, Lacan.Vemos assim aparecer clara e didaticamente a emergência do funcionamento do processo primário; a verdade revelando-se pela negação; como, já que o tempo não existe tal como nós o representamos na consciência, não há necessidade de temer usar sessões passadas na sessão presente na produção de sentido.

É também elogiável sua atitude de  respeito pela ciência psicanalítica assim como por seus maiores beneficiários (e colaboradores): os pacientes. Fiel a seu duplo compromisso com eles e com a transmissão do conhecimento, Sérgio dedica a este tema um importante capítulo, rico em citações bibliográficas e em  aberturas.

O manejo da transferência tal como se depreende de seu material, nos lembra um comentário que Joseph Brodsky, escritor russo e prêmio Nobel de literatura, faz a propósito do poeta inglês W.H.Auden: "êle nunca se colocava no centro da tragédia; quando muito reconhecia a sua presença em cena...".

O neurologista Oliver Sacks lembra que, ao se formar em medicina, conciliou sua vocação pelas ciências com a vocação pelas artes e cita Luria em seu desejo de "fundar ou voltar a fundar uma ciência romântica".Esta obra, FRAGMENTOS CLÍNICOS DE PSICANÁLISE, que  segue a tradição freudiana de beleza expositiva e que poderia ser incluída tanto na produção científica como na literária do autor, realiza este objetivo.

   C. Guillermo Bigliani.

C. Guillermo Bigliani é psiquiatra e psicanalista, foi professor de teoria psicanalítica na Universidade de Buenos Aires, no Instituto Sedes Sapientiae e na PUC-SP. Nesta última foi docente na área de Terapia Familiar. Atualmente é coordenador da Sociedade Paulista de Psicanálise da Família e da Instituição.

(Capítulo do livro FRAGMENTOS CLÍNICOS DE PSICANÁLISE de Sérgio Telles - Editora Casa do Psicólogo e EdUFSCar, 2003)

VINHETA CLÍNICA -

CAPÍTULO 18 - TERESA

Teresa chega desesperada ao consultório. Se diz cheia de ódio, com raiva de tudo e de todos, não agüenta mais, vai a um psiquiatra pedir anti-depressivos. Queixa-se de estar muito mal, me acusa de não ajudá-la. A análise de nada serve. Sente-se agora como há dois anos atrás, na época em que o pai viajou e a deixou trabalhando num projeto do escritório. Diz ter brigado com as empregadas de sua casa, que não fazem nada direito.

Depois disso, que me parece um grande vomitório, um expelir violento de muitas queixas, Teresa conta que ao sair da sessão vai com duas primas levar as cinzas de um tio para o túmulo da família. Acha que tem obrigação de acompanhá-las. Deverá perder muito tempo ali, pois crê que não será rápido o procedimento. No túmulo há um pequeno jardim a ser desfeito e cavado, não é uma simples porta, ou uma gaveta na parede.

A partir desta comunicação, Teresa passa a falar longamente de sua empresa, como ela vai mal, novamente deficitária. Isto a aborrece tremendamente, lhe dá vontade de desistir de tudo, de entregar as obrigações para o marido, passar a receber uma simples mesada. Diz que descobriram agora erros grosseiros de um alto funcionário que faz com que a confiança nele depositada fique muito abalada. Fica constrangida com a preocupação que tudo isto traz para o pai.

Depois de todo este desabafo, Teresa fala que gostaria de me dar boas notícias de vez em quando. “Uma notícia ofiçal , quero dizer, oficial, de que tudo vai bem”, ao invés de só me queixar” - diz ela.

Repito o nome ofiçal e pergunto-lhe o que tal nome a faz pensar.

Teresa entende minha pergunta como uma crítica e passa imediatamente a se acusar de articular mal as palavras, de pronunciá-las mal e de falar “para dentro”. Seu analista anterior também chamava muito a sua atenção quanto a isso. Acha que deve ser por influência familiar, tem um tio que fala “para dentro”. Lembra que o pai usava em casa, quando era pequena e ainda hoje, um truque para ser ouvido: se está todo mundo falando alto e ao mesmo tempo, o pai, ao invés de fazer o mesmo ou falar mais alto ainda para ser ouvido, ele começa a falar bem baixo. Aí todos param de gritar e o ouvem. Teresa pergunta-se se não estaria usando um truque também aqui para ser ouvida por mim.

Volto a perguntar-lhe o que a palavra ofiçal lhe lembra.

Após refletir, Teresa lembra do Rei Faiçal de quem muito falavam quando era criança. Lembra de que tinha ficado muito impressionada com ele pois tinha ouvido uma história que dizia ter ele matado o irmão para ficar no trono, ou algo assim.

COMENTÁRIO

Quando lembro que um dos grandes problemas de Teresa decorre da morte de seu irmão único quando ambos eram criancinhas, seu lapsus linguae fica transparente, na medida em que remete diretamente para sua permanente fantasias de ter matado o irmão e se apoderado de sua parte na herança dos pais. Esta conflitiva vem à tona facilitada pelo fato de ter que acompanhar as primas levando as cinzas do tio para o túmulo da família. Isso faz com que retornem mais intensamente as acusações de ter eliminado o irmão. Por este motivo precisa abdicar de tudo, dar tudo para o marido, que inúmeras vezes é confundido com o irmão.

Teresa não se permite ter nada. A empresa precisa sempre ir muito mal, “no vermelho”. O mesmo se dá com a "empresa analítica", sempre mal, estando ela sempre péssima, sem poder usufruir as boas perspectivas que se lhe aparecem.

Enquanto tentava dizer-lhe isso, Teresa faz - como de hábito - inúmeras interrupções. Tal atitude sempre lhe é interpretado, como novamente foi feito, como algo decorrente de sua culpa, que não lhe permite receber nada aqui na análise.

Um aspecto interessante em casos semelhantes de lapsus linguae é que, ao lhe ser apontado, o analisando tende a não considerá-lo digno de análise, atribuindo-o a erros banais de articulação. Não fosse minha insistência em investigá-lo, Teresa o teria ignorado e perder-se-ia um importante elemento de seu luto patológico.


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