Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Março de 2003 - Vol.8 - Nº 3

Psicanálise em debate

Lacan com Derrida - Análise Desistencial
René Major - Civilização Brasileira - Rio de Janeiro - 2002 - 256 pp

Dr. Sérgio Telles
Psicanalista do Departamento de Psicanálise de Instituto Sedes Sapientiae
e escritor, autor de
“Peixe de Bicicleta” (Editora da Universidade Federal de São Carlos - 2002)

Jacques Derrida, tido por muitos como o maior filósofo vivo, tem a psicanálise como articulador central em sua obra. Afirma que a descoberta freudiana do inconsciente revolucionou de tal forma os temas filosóficos tradicionais que, num determinado momento, pensou-se que a filosofia estava acabada, morta. Lamenta a atual “restauração” do pensamento filosófico, que recalca essas inquietantes questões.

Como um exemplo disso, cita o conceito freudiano de “posteridade” (“Nachträglichkeit” ou “aprés-coup”). Entende que ele propõe um problema filosófico de magnitude nunca dantes vista, ao negar qualquer idéia metafísica de presença e tempo: “Que o presente em geral não seja originário, mas reconstituído, que ele não seja a forma absoluta, plenamente viva e constitutiva da experiência, que não haja pureza do presente vivo, este é o tema, formidável para a história da metafísica, sobre o qual Freud convida a refletir por meio do conceitualismo desigual em relação à coisa em si. Este pensamento é sem dúvida o único, na metafísica ou na ciência, que nunca se esgota”.

Derrida reconhece - como não poderia deixar de ser - a extraordinária importância de Lacan no panorama psicanalítico. Diz ele: “Quer se trate de filosofia, de psicanálise ou de teoria em geral, o que a banal restauração em curso tenta esconder é que nada pôde transformar o espaço de pensamento ao longo das últimas décadas teria sido possível sem algum ajuste de contas com Lacan, sem a provocação lacaniana, seja qual for o modo como a recebemos ou como a discutimos”.

Esse reconhecimento não o impediu se manter afastado do grande fascínio que emanava de Lacan e de discordar de importantes pontos de sua teoria.

A crítica de Derrida é muito especial, pois, com precisão, aponta dificuldades na lógica interna do pensamento lacaniano.

A primeira delas, de 1965, aparece em “Sobre a Gramatologia”, quando Derrida insiste na importância da dimensão escrita da linguagem, denunciando o que chama `rabaixamento da escrita' presente em todo o pensamento filosófico, que exalta desmesuradamente a dimensão falada da linguagem, a palavra “plena” ou a escrita fonética. Essa critica atinge diretamente a forma como o estruturalismo lidava com a linguística, contestação que inclui Lacan, na medida em que este centra sua contribuição à psicanálise numa leitura “estrutural” de Saussure, que também privilegia a linguagem falada, o “fonocentrismo”. Como se não bastasse, Derrida critica o primado do significante, dizendo “seria uma posição insustentável e absurda, a se formular ilogicamente na própria lógica que ela pretende destruir, sem dúvida legitimamente. O significante jamais precederá de direito o significado, sem o qual já não seria significante, e o `significante' significante não mais teria nenhum significado possível. O pensamento que se anuncia nessa fórmula impossível, sem lograr instalar-se nela, deve, portanto, ser enunciado de outra maneira: sem dúvida só poderá fazê-lo suspeitando da própria idéia de signo, de `signo de', que permanecerá sempre ligada justamente àquilo que se acha em questão” .

Abandonando o referencial do significante para a compreensão do inconsciente, Derrida retoma a noção freudiana de facilitação (“Bahnung”), que dá origem a seu conceito de “diferança” (différance). Apoiando-se nos escritos freudianos do “Projeto” e em “O Bloco Mágico”, Derrida propõe um aparelho psíquico estruturado como uma máquina de escritura, produzindo sem parar uma escrita hieroglífica não verbal e não linguística, como o pictograma e o rébus, como se vê na escrita pictórica do sonho.

Se a crítica anterior não era dirigida diretamente a Lacan, em 1971 Derrida muda de tática. Numa conferência feita nos EUA (publicada em 1975 na França, com o título “Le facteur de la verité”), explicitamente se opõe ao Seminário da Carta Roubada, importante texto de Lacan, que ali usa um conto de Poe (“A Carta Roubada”) para expor conceitos centrais de sua teoria, como a primazia do significante, a importância do falo e do traço unário.

Derrida meticulosamente desconstrói o texto lacaniano, mostrando inicialmente que Lacan serve-se da literatura para expor sua teoria, ou seja, impõe um elemento exterior ao texto literário. Com isso, pratica a famigerada “análise aplicada”, ao mesmo tempo que a critica. Derrida mostra ainda como o texto é um veículo de Lacan em sua luta política contra Marie Bonaparte, que ocupava importante lugar na instituição francesa e escrevera também um texto sobre Poe. Afirma que Lacan tenta desacreditá-la e desmoralizá-la, mas, na verdade, lera o trabalho dela e ali recolheu a idéia da carta como símbolo do falo materno. Mostra que Lacan se coloca no papel de Dupin, o arguto detetive que desvenda o mistério, e coloca Marie Bonaparte como o comissário, aquele que se apossa indevidamente da carta real, sendo esta o representante do legado freudiano na França, o poder nas instituições psicanalíticas. Mais ainda, Derrida mostra como Lacan faz um lapso ao citar errado a frase “um destino/desígnio tão funesto, se não é digno de Atreu, e digno de Tiestes””

René Major em seu livro “Lacan com Derrida” retoma, amplia, comenta, glosa todos esses temas, apontando para as divergências e convergências do pensamento desses dois grandes mestres. Se em outros momentos a relação entre os dois era de oposição, Major procura salientar a mútua influência que entre eles se instala, pois as reflexões psicanalíticas de Derrida se apoiam decididamente no aporte lacaniano, e Lacan incorpora em sua teoria as críticas de Derrida, o que o faz mudar silenciosamente de rota. Apesar disso, cada um mantem suas especificidades, o que permite Major falar numa análise “desistencial”, “derridaina”. Diz ele: “ A psicanálise - sua teoria, sua prática, sua instituição- é completamente uma ciência do arquivo e do nome próprio, de uma lógica da hipomnésia que explica as lacunas da memória, daquilo que arquiva a lembrança, transformando-a, ou, ao contrário, que a desarquiva, apaga, destrói; uma ciência também de sua própria história, da de seu fundador, da relação de documentos particulares (ou secretos) com a elaboração de sua teoria e com tudo aquilo que, de maneira subterrânea, pode explicar sua manifestação no mundo”.

No que diz respeito ao conhecido procedimento da “desconstrução” criado por Derrida, diz René Major que, longe de recalcar a herança freudiana, “a prolonga em uma necessidade hiper-analítica, colocando em jogo o desejo ou a fantasia de reunir-se ao originário, ao irredutível, ao indivisível”.

René Major se notabilizou pela fundação do espaço “Confrontation”, que por 10 anos (1973-1983) exerceu importante papel no ambiente “psi” francês, por permitir a convivência dos quatro grupos psicanalíticos que - em função de divergências teóricas e institucionais - ignoravam-se ou hostilizavam-se mutuamente.

Retomando a idéias de “Confrontation” e contando com o apoio de Elizabeth Roudinesco e de Jacques Derrida, Major convocou, sob o nome “Estados Gerais da Psicanálise”, uma grande assembléia em Paris, 2000, com o intuito de fazer uma avaliação do momento psicanalítico, das questões teórico-clínicas e instituicionais, além de uma reflexão sobre o papel da psicanálise na sociedade. Esse encontro reuniu cerca de 1300 psicanalistas provenientes de vários países, dispostos a falarem “em seus próprios nomes”, independentes de suas instituições de origem. Naquela ocasião, Jacques Derrida fez importante pronunciamento (“Estados d'Alma da Psicanálise” - Ed. Escuta).

Organizado como uma rede e beneficiando-se dos recursos da internet, por onde circulam informações e se organizaram “sites” (www.etatsgeneraux-psychanalyse.net e www.estadosgerais.org) , o movimento “Estados Gerais” realizou em 1999, em São Paulo, uma evento preparatório para o encontro de Paris, assim como aconteceu um outro, em novembro de 2002, em Buenos Aires, tendo em vista o segundo encontro mundial, que se dará no Rio de Janeiro, em novembro do corrente ano.

Assim, não poderia ser mais oportuna o lançamento deste instigante “Lacan com Derrida”, desde que o movimento dos “Estados Gerais” está visceralmente ligado ao trabalho conjunto de Major e Derrida.


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