Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Abril de 2003 - Vol.8 - Nº 4

Psiquiatria, outros olhares

Droga como ilusão de felicidade

Dr. Antonio Mourão Cavalcante
Professor Titular de Psiquiatria da Faculdade de Medicina/UFCe, autor de O Ciúme Patológico e Drogas, Esse Barato Sai Caro (Ed. Record)

Tenho algumas idéias que gostaria de partilhar com os senhores nessa manhã.

Não trago afirmativas conclusivas, mas, na perspectiva a que se propõe esse colóquio, traço um pensamento reflexivo e especulativo.

Primeira reflexão, é muito sintomático que, nesses tempos de guerras, os três produtos que realizam as maiores cifras de negócios no mundo, sejam: petróleo, armamentos de guerra e drogas. Se fizermos um coquetel desses três ingredientes, nós teremos o clima bem nítido da situação atual.

Por outro lado, gostaria de começar citando o título de um livro que foi um grande sucesso na época de seu lançamento, sendo alvo de repetidas edições. Trata-se de uma obra do psiquiatra francês, Prof. Claude Olievenstein: "Não existem drogados felizes". Se o objetivo de minha vinda a esse colóquio era dar resposta a esse tema, apoioando-me em Olievenstein posso dizer: não existem drogados felizes!

Então, por que tanto sucesso nas drogas, em todas as sociedades, desde aquelas ditas mais evoluídas, desenvolvidas, até aquelas que permeiam o 3o ou o 4o mundo?

Neste momento torna-se imperativo conceituar o termo droga. Uma expressão que precisa ser contextualizada. Pois, como droga podemos dizer desde a topada que levamos, até uma pessoa que é chata ou uma situação que é vexatória. Aqui nos referimos a todas as substâncias que tem afinidade com o aparelho psíquico. São as substâncias psicotrópicas, que tem ação sobre a psique, a mente.

Mas, precisamos nos perguntar se determinadas drogas, pela proposta terapêutica que insinuam, não estariam igualmente inseridas nesse contexto. Quero referir-me a título de argumentação a três destes fármacos que fizeram tanto sucesso nessa década. Uma delas foi até rotulada de a droga da felicidade. Prozac, quimicamente designado como fluoxetina. Foi com essa proposta que o laboratório fabricante conseguiu um grande êxito na bolsa de valores. Depois, o Viagra, que também busca um outro tipo de felicidade, baseada na promessa de um bom desempenho sexual.

Uma outra substância que igualmente buscou um grande sucesso, propunha emagrecer os obesos de todos os gIeneros. O Xenical, porque permite controlar o peso em uma sociedade que abusa do consumo.

Limitando-nos apenas aos psicotrópicos, temos as drogas que acalmam e porque acalmam seriam proposta de felicidade para quem precisa de paz. Existem outras que propõem momentos de excitação e isso seria o caminho da felicidade para os que desejam ter ânimo. E, outras que desorganizam ou desestruturam a mente, pois fugir da realidade seria uma forma de encontrar a felicidade. Sair da real.

Ser feliz, então, é acalmar-se, excitar-se ou desorganizar-se? A droga não responde porque ela é um produto inerte e anódino. E, quem dá a dimensão e o conteúdo existencial a essa experiência é o ser humano. Por isso nada melhor do que fazer apelo ao que os gregos chamam de fármaco. Tanto o veneno - aquilo que mata, como aquilo que cura - remédio. Um dos elementos mais extraordinário, quando se lida com esta questão das drogas, é justamente que este é um assunto prenhe de contradições e ambigüidades. Sem que se possa estabelecer noções mais claras e mais exatas ao lidarmos com essa situação.

Por que com a droga procura-se a felicidade? Ousaria corrigir essa assertiva dizendo - busca-se o prazer. Mas, ao mesmo tempo, o grande risco da droga é que ela leva à morte. Eros e Thanatos.

A outra ambiguidade da sociedade é saber porque existem drogas legais e outras que são ilegais? Por exemplo, a maconha no Brasil é tida como ilegal, uma atividade ligada à contravenção. Em muitos países muçulmanos ela é permitida - haxixe - como uma atividade prazerosa. No Brasil, as bebidas alcóolicas são largamente difundidas e estimuladas. Nos países árabes são formalmente interditadas.

Outro elemento que gostaria de destacar, esse mais em sua dimensão histórica é que a droga já esteve ligada aos próprios processos civilizatórios, quando era admitida como algo identificatório dessa cultura. Basta ficarmos com a nossa civilização, judeo-cristã, que sempre foi genuflexa, em versos e prosa, ao valor do vinho. In vino veritas.

" Do uso do haxixe nas seitas mulçumanas do Oriente Médio a partir do séc. XII, ao consumo do cipó alucinógeno - ayusca - nas nações indígenas do Amazonas, isso a centenas de anos; o utilização do cactus do peyote, em rituais de índios do México."

Se as drogas se inscreviam como fenônemos que permeavam as civilizações, ligadas aos ritos, aos sacramentos, às iniciações, nos tempos atuais as drogas tornaram-se uma generalidade, ato comum, banal, perdendo o sentido místico e mítico que invade o cotidiano da esperança. O uso tornou-se abuso. Foge da norma e do rito. Anárquico, esse comportamento desafia a própria organização da sociedade.

O que tem a droga de tão sedutora? Para os jovens, seus usuários mais frequentes, provavelmente isso, ela "vende" a promessa mais imediata de felicidade. Mas, o que seria essa tal felicidade? Difícil resposta.

Mas, para um estudioso da Antropologia, o que seria interessante destacar é que, na perspectiva histórica, a felicidade sempre esteve relacionada e imaginada como algo coletivo, fruto de uma ampla mobilização social. Hoje, com a droga, ela pode ser obtida como a singular construção de uma individualidade. Eu posso ser feliz sozinho. Posso ser feliz isolado. Posso ser feliz alienado. Esse parece ser o grande "x" da questão da droga.

Nessa perspectiva, a droga passa a ser do extremamente caduco, ancestral e mesmo arquetipal, para algo de extremamente revolucionário.

De um lado ela romperia toda a perspectiva do que foi a construção histórica da humanidade: a necessidade do grupo, a necessidade do social, a absoluta necessidade de pensar no grupo, no social. Isso é rompido com a lógica da droga. "Eu me defino por mim mesmo, pelo meu mundo, que eu construo". Ao mesmo tempo que ela é, digamos, pós-moderna, no sentido que ela desperta no ser humano a possibilidade de resgatar a sua autencidade identificatória.

Nesse balanço se assentaria o grande desespero. Tendo tudo, ele não tem nada. Essa é uma experiência tão profundamente radical que a pessoa deixa de ser ela, para ser outra, que não é ninguém.

Ora, quando a sociedade só consegue pensar a droga em termos de negócio econômico, porque existiria evasão de divisas, porque tem gente que fica rica, ou porque a juventude nega-se a participar do modelo de sociedade que queremos para eles, obviamente, estamos apenas na inútil periferia da questão. Ou em palavras mais claras, apenas no superficial da coisa. A perspectiva é bem mais profunda. Ela coloca em evidência a grave pergunta do que é, afinal, a própria existência humana? Ao que ela se destina? Uma pertinente indagação que endereçamos aos filósofos.

Mas, uma dúvida continua martelando: posso ser feliz sozinho? Ora, numa sociedade cuja perspectiva é o consumo, o descartável, o pragmatismo, o hedonismo, uma negação constante do sofrimento como condição inerente ao ser humano, claro que a droga tem um grande espaço. Ela é fruto. Não seria esse o modo de viver e enfrentar mais coerente dessa civilização do aqui e agora?

Por isso, mais uma vez recorrendo a Olievenstein, lembro que ele sempre alertou para a idéia de que nada podemos compreender da droga se nos limitarmos ao produto. Devemos acrescentar a essa dimensão os aspectos psicodinâmicos, pessoal, fazendo apelo, dentre outros, à própria psicanálise, e ao contexto sócio-cultural.

Não dá para combater as drogas apenas colocando policiais à procura de usuários e traficantes. A sociedade como um todo deve questionar-se: que fenômeno é esse?

E, ainda mais questionador: o que é curar um toxicômano? Ou, mais grave ainda: curar para que?

Não tenho respostas e acho que estas dúvidas nos bastam.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. BERGERET, J.. et alli - (1991) Toxicomanias: uma visão multidisciplinar, Porto
  2. Alegre. Artes Médicas;
  3. BUCHER, Richard (1992) - Drogas e drogadicção no Brasil, Porto Alegre, Artes
  4. Médicas;
  5. DERRIDA, Jacques - (1989) - Rhétorique de la drogue. Entrevista em L'ésprit
  6. des drogues, No 106, Abril, 1989, pp. 197-214;
  7. JACQUES, Jean-Pierre - (2001) Para acabar com as toxicomanias - Lisboa, Climepsi Editores;
  8. OLIEVENSTEIN, Claude
  9. (1977) - Il n'y a pas de drogués heureux, Paris, Laffont; (1990) - A clínica do toxicômano, a falta da falta - Porto Alegre, Artes
  10. Médicas.

(*) Trabalho apresentado no II Colóquio Internacional Sobre a Idéia de Felicidade, realizado em Fortaleza, 10,11/março/2003.


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